sábado, 1 de setembro de 2018

O eremita viajante




Numa sexta-feira à noite, percorro a pilha de livros por ler e decido que no dia seguinte ignorarei o calor e as praias lotadas, para ficar no sofá a viajar pelo Japão, com a obra completa de Matsuo Bashô.

Na poesia como em tudo o resto, tendo a preferir os estilos mais viscerais, pouco dados às contenções da forma ou imposições de rimas, que convocam de imediato a carne e a colocam em cheque. Mais do que admirar a elegância estilística de um verso ou a frase burilada, quero sentir o poema   na garganta, no peito, por vezes no estômago, raras vezes no pipi (ocorre-me agora, com alguma graça, que nunca senti um poema nos pés).

Quer isto significar que, em princípio, não atinaria com a estética dos haikus. Mas como também eu sou uma metamorfose ambulante, dou por mim a curtir os pequeninos poemas de 3 estrofes, carregados de uma forte potência visual que fica a ressoar na cabeça do leitor, como pequenas aguarelas onde, com algumas pinceladas desleixadas, se consegue sugerir toda uma atmosfera, aparentemente simples, porque se atém aos factos mais materiais da existência – as estações do ano, o quotidiano das árvores e dos animais –, que é onde o mistério do mundo se revela mais intensamente e de forma universal.

Nos mais de 1000 haikus de Bashô, o enredo principal cabe à natureza, contada por um sujeito poético que se oblitera nesse tempo da observação, um tempo que é sempre lento e implica uma vida mais humilde e despojada quer das solicitações do ego, quer das solicitações da comunidade. Nesse tempo, o grande acontecimento poético cabe ao cuco que canta, à cerejeira que floresce ou à fase que a lua apresenta no céu.

116
enquanto a cerejeira
estiver em flor
o mal-estar não existe

118
flores por todo o lado 
animam-se o sacerdote
e a prostituta

136
salta a rã
para dentro do velho tanque 
plof!

302
ah as brisas do outono! 
dorme ao ar livre
e compreenderás o meu poema

316
não há frio que resista
quando se dorme acompanhado 
e que bom que é!

340
quando floresce a ameixeira
nada sei
como o coração dos poetas

520
sobre a montanha da Pluma Negra
a lua crescente 
paz dentro de mim

542
o homem pára
para olhar o trevo à chuva 
e molha-se

664
o coração viajante não se enraíza
antes quer ser
braseira ambulante

699
o cuco da montanha
junta solidão
à minha tristeza

753
pudesse eu viver
como a cerejeira da montanha 
por sobre o mundo

868
fragrância da flor da ameixeira
onde está a pessoa
que nunca conhecerei?

886
o gato com o cio
trepa para o cão
– a coisa é séria!

888
Nara tem sete edifícios
mas oito pétalas
tem cada flor de cerejeira

939
os nossos corações estão em paz
na pequena sala de chá 
o outono ronda lá fora

943
em minha casa
junto à janela 
quadrada é a lua

951
quem olhará a lua de Yoshino
esta noite
a vinte quilómetros daqui

963
junto com o outono que parte
o vento dos pinheiros
dá uma volta pelos beirais

974
a doença atacou o viajante
sonhos vagueiam
por campos secos
[este haiku foi escrito por Bashô três dias antes de morrer e é considerado o seu último poema. A imagem que me imediatamente me evoca é o Campo de Trigo com Corvos do Van Gogh, se não me engano também o último quadro que ele pintou, semanas antes de morrer.]

Voltei de férias há pouco e nunca Lisboa me pareceu tão artificial e despojada de alma. Maçam-me o betão, o ruído contínuo, ressaco árvores e vento. Talvez por isso  a leitura de Bashô me tenha agradado tanto. Quisera encontrar outro tempo, outra vida – um pouco mais de azul… Um pouco como nas estrofes iniciais do poema do Verlaine que me ocorrem transformar num haiku (aldrabado pois claro, pois estou-me a borrifar para a contagem de sílabas):

chove no meu coração
como chove na cidade
 – que langor tão escuro!

domingo, 26 de agosto de 2018

Levantai-vos e ide lá ver!

http://www.capeladorato.org/2018/07/24/inauguracao-da-exposicao-junto-ao-chao-de-carlos-nogueira-e-manuel-de-freitas/

a minha primeira história de portugal


Para o meu pai

Sabes bem que sempre preferi os sonhadores
e os derrotados, tal como nunca deixei de
escolher as canções mais tristes.
Saltava as páginas em que se tomavam 
castelos e cobiçavam praças estranhas
para me poder sentar esquecida
à volta de uma fogueira,
vendo um irmão ser traído,
um exército desejar a morte
por uma visão. Do pinhal de Leiria
ficou-me apenas o sobressalto
do vento perdido entre as árvores,
o aroma ainda distante da canela
que, anos mais tarde, sentiria 
noutro poeta. E tanto ouro do Brasil
assombrou-me as noites com pesadelos
de mármore e talha que nem a nossa armada
de papel conseguia vencer.

Hoje em dia, Sebastião é o vagabundo
mais fiel do meu jardim. Todas as tardes
adormece sobre a relva, numa real
indiferença aos pássaros que o saúdam
ou à beleza das romãzeiras que insistem em ungi-lo
de flores à falta de nevoeiro.
Gosto de reis assim, cujo túmulo
possa procurar em todas as capelas
de uma catedral estrangeira, acendendo 
vela por vela até o encontrar para ti;
e sobretudo de D. Miguel, com quem 
me cruzei na Nazaré quando fugia 
de um milagre que não conseguia ver,
todo o mar do império cavado à minha frente.
Os meus passos não se marcaram
na rocha, nem a figura do rei-arcanjo
recuperou esses contornos apagados à força
na pedra do forte. Mas fizemos um pacto -
doravante o olhar de um sustém 
o outro sobre a terra. É só essa
a nossa história.

Inês Dias

Alter do Chão


Georg Trakl


Fui buscar à biblioteca um dos livros que mais me marcou durante a adolescência.

       Outono: passos negros na orla da floresta.

       Estranhos são os caminhos nocturnos do homem.

Continuo a achar o livro bom mas já não me bate como nessa outra época. O estilo, demasiado lunar e desesperançado, chega até a maçar-me. No entanto, pode dizer-se que sou hoje uma pessoa muito menos solar do que nesses anos em que delirava com a escrita do Trakl, pelo que só me ocorrem as palavras de Claudio Magris: Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo retorno. 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

uma mulher não pode morrer sem primeiro florir


A Antonia Pozzi


A minha raça foi privada do descanso nocturno.

Enquanto os outros se aconchegam nos ténues consolos da messe, cabe-nos vigiar os pensamentos da floresta.

       (porque todo o demónio é pensamento. ou serão anjos? anjos sorridentes, envoltos numa lassidão azul. quem poderá esclarecer, conhecer ainda as polaridades primordiais?)

Há muito que nos afastámos da aldeia e nessa migração perdemos o sul e as asas. Faz frio. Foi-se o medo, apagou-se a fogueira

       - não faz mal, pequena, vivemos na época da electricidade e do espanto contabilizável.

A minha raça traz petrificada nos ossos uma língua silenciada. Com palavras e poeira dos cometas. alumiamos as madrugadas frias que antecedem as batalhas. Porque estamos sós mas permanecemos corajosas.

       (porém ninguém me trouxe flores ou cantos e o meu coração vai murchando na ofensa vespertina de tal improbabilidade)

Quem dirá que o dia de amanhã despontará destas mãos emagrecidas pelo tempo?
E quem sabe o que é uma árvore? Haverá maior mistério do que uma árvore?
Estacionada na noite imemorial, uma árvore ensina-nos o significado oculto de um prece, pressentida apenas pelo vento e pelos pássaros.
Das raízes à copa, uma árvore sabe que uma mulher não pode morrer sem primeiro florir.

A minha raça não conhecerá descanso até essa Primavera.

Quem me vende hoje uma flor?



AS FLORES

Não há ninguém,
não há ninguém que venda
flores
nesta estrada maldita?

E este mar negro
e este céu lívido
e este vento adverso -
oh, as camélias de ontem
as camélias brancas vermelhas risonhas
no claustro de ouro -
oh, a ilusão primaveril!

Quem me vende hoje uma flor?
Eu tenho tantas no coração:
mas presas
em ramos pesados -
mas espezinhadas -
mas murchas.
Tenho tantas que a alma
sufoca e quase morre
sob o enorme amontoado
por oferecer.
Mas no fundo do negro mar
está a chave do coração -
no fundo do negro coração
pesará
até ao anoitecer
a minha inútil colheita
prisioneira -

Oh, que me vende
uma flor - uma outra flor
nascida fora de mim
num jardim verdadeiro
que eu possa dar a quem me espera?

Não há ninguém,
não há ninguém que venda
flores
neste triste caminho?

Bucólicas cubanas




Creio que sempre tive uma grande voracidade sexual. Não só as éguas, as porcas, as galinhas ou as peruas, mas quase todos os animais foram objecto da minha paixão sexual, incluindo os cães. Havia um cão que me proporcionava um grande prazer; escondia-me com ele atrás do jardim tratado pelas minhas tias e aí o obrigava a mamar-me na piça; o cão acostumou-se e, com o tempo, fazia aquilo voluntariamente.
            Aquela fase entre os sete e os dez anos foi para mim de um grande erotismo, de uma voracidade sexual que, como já disse, abarcava quase tudo. Abarcava a natureza em geral, pois também abrangia as árvores. Por exemplo, nas árvores de tronco macio, como o mamoeiro, abria-lhes um buraco onde introduzia o pénis. Era um grande prazer ter gozo numa árvore; também os meus primos o faziam; faziam-no com os melões, com as cabaças, com as anonas. Um dos meus primos, o Javier, confessava-me que o maior prazer era o que sentia quando tinha gozo com um galo. Um dia o galo acordou morto; não acredito que tenha sido por causa do tamanho do sexo do meu primo, que era, evidentemente, bastante pequeno; creio que o pobre galo morreu de vergonha por ter sido ele o fornicado, quando era ele que costumava fornicar todas as galinhas do pátio.
            Seja como for, há que ter em conta que, quando se vive no campo, se está em contacto directo com o mundo da natureza e, portanto, com o mundo erótico. O mundo dos animais é um mundo incessantemente dominado pelo erotismo e pelos desejos sexuais. As galinhas passam o dia inteiro cobertas pelo galo, as éguas pelo cavalo, a porca pelo varrão; os pássaros têm o seu gozo no ar; as pombas, depois de um grande barulho e grandes facécias, acabam por se pegar com certa violência; as lagartixas contendem umas com as outras horas e horas; as moscas fornicam em cima da mesa em que comemos; os porquinhos-da-índia parem todos os meses; as cadelas, quando são penetradas, armam tal algazarra que são capazes de excitar as freiras mais pias; as gatas com cio uivam de noite com tal veemência que despertam os desejos eróticos mais recônditos… É falsa a teoria sustentada por alguns acerca da inocência sexual dos camponeses; nos meios do campo existe uma força erótica que geralmente supera todos os preconceitos, repressões e castigos. Essa força, a força da natureza, impõe-se. Acho que no campo poucos são os homens que não tiveram relações com outros homens; neles, os desejos do corpo estão acima de todos os sentimentos machistas que os nossos pais se encarregaram de inculcar em nós.

Wem wilst du klagen, herz?

LAMENTO

A quem queres levar o teu lamento, coração? Sempre mais esquivo
abres caminho por entre os homens
que não entendes. Talvez mais ainda em vão,
porque não há desvios nesse caminho,
porque o seu horizonte é o futuro,
lugar perdido.

E antes, lamentavas-te? Que aconteceu? Uma baga
de júbilo caída, ainda verde.
Mas agora cai por terra a minha árvore-do-júbilo,
cai com a tempestade a minha lenta
árvore-do-júbilo.
Tu, a mais bela na minha paisagem
invisível, tu, que me deste a conhecer melhor
os anjos, invisíveis.

Rainer Maria Rilke
Paris, Julho de 1914

Tradução de João Barrento

Morte em Veneza




«Porque a beleza, Fedro, repara bem, só a beleza é divina e simultaneamente visível, e por isso ela é também caminho do artista para o espírito. Mas diz-me agora, meu querido amigo, acreditas que se pode atingir alguma vez a sabedoria e verdadeiro valor viril quando se caminha para o espiritual por via dos sentidos? Ou acreditas antes (és livre de o decidir) que esse caminho é cheio de atraentes perigos, na realidade um caminho de desacerto e pecado, que conduz necessariamente ao erro? Pois tens de saber que nós, poetas, não podemos embarcar no caminho da beleza sem que Eros nos acompanhe e se arvore em líder; podemos bem ser heróis à nossa maneira e guerreiros disciplinados, mas não deixamos de ser como as mulheres, pois a paixão é para nós sublimação e o nosso desejo deve permanecer amor – é esse o nosso prazer, é essa a nossa vergonha. Vês agora que nós, os poetas, não podemos ser sábios nem dignos? Que embarcamos necessariamente no erro, permanecemos necessariamente devassos e aventureiros do sentimento? A mestria do nosso estilo é mentira e logro, a nossa fama e respeitabilidade, uma farsa, a confiança da multidão em nós, altamente risível, a educação do povo e da juventude pela arte, um empreendimento ousado, a interdizer. Pois como podia prestar para educador aquele que possui uma tendência inata, incorrigível e natural para o abismo? Nós bem gostaríamos de o renegar para ganharmos em dignidade, mas, sempre que queremos desviar-nos, ele aí está a atrair-nos. É por isso que renegamos o conhecimento desintegrador, porque o conhecimento, Fedro, não tem qualquer dignidade ou severidade; é sabedor, compreensivo, indulgente, não tem posição nem forma; tem simpatia pelo abismo, ele é o abismo. Por isso o rejeitamos energicamente, e desde então a nossa ambição é só a beleza, o que quer dizer a simplicidade, a grandeza, uma nova severidade, um incondicionalismo renovado, a forma. Mas a forma e o incondicionalismo, Fedro, levam à embriaguez e ao desejo, podem levar a criatura mais nobre a terríveis sacrilégios do sentimento, que a sua própria severidade pelo belo repudia por infames, levam ao abismo, também elas levam ao abismo. A nós, poetas, digo-te eu, é aí que elas nos levam, pois não somos capazes de elevação, mas de excesso. E agora, Fedro, vou-te deixar, fica tu aqui e parte só quando já não me vires.»

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

mixed feelings


Ora aqui está um livro que me suscita sentimentos contraditórios. Numa primeira abordagem, diria que obviamente me agrada pois ajudou-me a compreender melhor algumas fases da atribulada história da Rússia, sobretudo após a falência da URSS. Depois, recordou-me um pouco O METEREOLOGISTA, de Olivier Rolin, também publicado pela Sextante: mais um francês que encontra uma história russa interessante, embora se possa acrescentar que faltam a ambos unhas para as escrever com mestria - o resultado é uma narrativa de fácil leitura que vai seduzindo pela fatia do real que coloca no papel.

Embora a leitura me tenha entretido bastante, finda a leitura, precisei de algum tempo para a digerir. E a conclusão a que chego é que este Limonov não me convence: o Carrère devia estar a atravessar um qualquer bloqueio criativo, reencontrou Limonov e persuadiu-se de que se tratava de um romance de aventuras excepcional (por ingenuidade? terá o próprio Carrère uma vida assim desinteressante? ou tal logro dever-se-à afinal a um golpe marketeiro?). Na minha opinião, o Limonov não é uma daquelas personagens russas exemplares, trata-se apenas de um oportunista que foi aproveitando as circunstâncias o melhor que pode. É assim que consegue sair da casa dos pais, que escolhe desertar de uma Rússia soviética para mais tarde regressar reclamando o passado glorioso dessa URSS que ele não foi capaz de tolerar. Mas até aqui tudo bem. O que eu não consigo mesmo engolir é que este gajo tenha ido combater ao lado dos nacionalistas sérvios, sem minimamente se inteirar do verdadeiro rosto dessa causa alheia. Nem isso nem a merda de partido extremista que ele funda com ares de vanguarda intelectual, mero pastiche de referências pop. (O seu pensamento político era confuso, sumário. Sob a influência de Duguin, ele torna-se ainda mais confuso, mas um pouco menos sumário. Enche-se de referências. Longe de opor fascismo a comunismo, Duguin venera-os igualmente. Acolhe simultaneamente no seu panteão Lenine, Mussolini, Hitler, Leni Riefenstahl, Maiakovski, Julius Evola, Jung, Mishima, Groddeck, Jünger, Mestre Eckart, Andreas Baader, Wagner, Lao-Tsé, Che Guevara, Sri Aurobindo, Rosa Luxemburgo, Georges Dumézil e Guy Debord. Se, só para se ver até onde pode ir, Eduard quiser incluir Charles Manson, nenhum problema, apertam-se um pouco para lhe dar lugar.)

Quem o topou bem foi Lawrence Ferlinghetti: «Hoje que, em troca de um trabalho pouco exigente, mora numa mansão sumptuosa e, de certo modo, beneficia das vantagens da sociedade burguesa, o herói do livro não seria mais indulgente para com essa sociedade? Não a encararia com um olhar mais severo?» E o amigo do Carrère: A tournée dos nacionais-bolcheviques no Cazaquistão, no Turquemenistão, no Tajiquistão e no Uzbequistão durou dois meses. Eram oito a acompanhar o chefe, oito tipos género paraquedistas que uma série de fotografias, publicadas em Anatomia do herói, mostra diante dos tanques russos estacionados na região. Essas fotografias fizeram rir bastante um dos meus amigos a quem as mostrei, num dia de bebedeira. «Ouve  lá, eles não passam de um grupo de panascas. Foram até lá para serem enrabados à vontade.» Eu também ri, não tinha pensado nisso. No fundo, não acredito, mas quem sabe?

Eis o Prémio Renaudot 2011. Não encontraram uma obra mais merecedora? Quiçá uma biografia do Putin?

um outro Buzzati


Fui buscar esta edição antiga à biblioteca e li-a bastante rapidamente. De Buzzati, só tinha ainda lido O DESERTO DOS TÁRTAROS, que me agradou bastante, e não reconheci o estilo do autor neste livro. O enredo é relativamente simples: António, um burguês de meia-idade, seguro e entediado na fortaleza da sua solidão, apaixona-se por Laide, uma jovem prostituta, e ingressa numa espiral de obsessão, ciúme e humilhação. Como convém, a narrativa segue um ritmo frenético, reclamando ao leitor a mesma voracidade com que Laide vai consumindo António. Ou vice-versa - pois o final remata com uma perspectiva reversa (e aqui reencontrei um pouco esse Buzzati que já conhecia).

O Amor e a Morte

Metafísica

De cada vez que nos teus braços 

Por uns momentos morro,
Nos abismos de mim o meu amor pede socorro
Como se à força alguém lhe desatasse os laços.

De cada vez apreendo
Que fica em muito pouco, ou nada, aquele tanto
Que o querer ter promete, enquanto
Se não tendo.

Desejar é que é ter! mas não nos basta.
Sonhar é que é possuir sem tédio nem cansaços.
Sei-o, mas só já morto nos teus braços.
Sofre a carne de ter, ou de ser casta.

Sobre o desejo farto, a alma se debruça,
Contempla o nada a que o fartá-lo aponta.
E atrás do mesmo nada eis que ela mesma, tonta,
Vai, se a carne reacende a escaramuça.

Entrar num corpo até onde se oculte
O para Lá do corpo - eis o supremo sonho.
De que desejos o componho,
Se ei-lo se descompõe quando o desejo avulte?

Sôfrega, a carne pede carne. Saciada,
Pede, ela própria, o que jamais sacia.
Para de novo se inflamar, é um dia.
Para de novo desgostar, um nada.

Ai, como não te amar e não te aborrecer,
Carne de leite e rosas, - terra inglória
Do longo prélio-entendimento sem vitória
Que é carne e alma, ter-não ter?

José Régio

domingo, 22 de julho de 2018

Conheci Jericó,




             *

Uma harmonia ressoa-me nas veias,
então como Dafne
transmudo-me numa árvore alta,
Apolo, porque tu não me deténs.
Mas sou uma Dafne
cega pela fumo da loucura,
não tenho folhas nem flores;
porém quando me transmigro
nasce profunda a luz
e na solidão arbórea
converto uma tríade de Deuses.

*

As virilhas são a força da alma,
tácita, obscura,
um rebento de folhas
de onde sai a semente do viver.
As virilhas são tormento,
são poesia e paranóia,
delírio de homens.
Perder-se na selva dos sentidos,
alcatroar a alma com veneno,
mas das virilhas pode brotar Deus
e Santo Agostinho e Abelardo,
então a mistura das vozes
descerá até às nossas carnes
para nos arrancar o gemido obscuro
dos nascimentos ultraterrestres.

*

Eu era um pássaro
com o branco ventre gentil
alguém me cortou a garganta
            para se rir,
            não sei.
Eu era um grande albatroz
e pairava sobre os mares.
Alguém deteve a minha viagem,
sem qualquer caridade de som.
Mas mesmo estendida no chão
eu canto agora para ti
as minhas canções de amor.

*

Todas as manhãs o meu caule desejaria elevar-se no vento
soprado embriaguez de vida,
mas algo o mantém preso à terra,
uma longa e pesada corrente de angústia
que não se dissolve.
Levanto-me então da cama
e procuro um painel de vento
e encontro um quadrado de sol
onde apoio os pés descalços.
Desta secreta graça
não terei depois memória
porque a doença também tem um sentido
uma desmesura, um passo,
a doença também é matriz de vida.
Cá estou eu de joelhos
esperando que um anjo me toque
ao de leve, com graça,
e entretanto acaricio os meus pés pálidos
com dedos desejosos de amor.

*

As dunas do canto fecharam-se,
            ó maldita magia do universo,
que tudo pode sobre uma débil esfera.
            Não venhas então para o meu passado,
não abrirás estuários impetuosos,
            chagas latentes, acessos
às escadas que rolando se dão
            para a balaustrada do declínio;
            fica, poderias até ser Orfeu
que me vem resgatar ao nada,
            fica, meu ousado e sumo cavaleiro,
            a luz faz-me sofrer, na sombra
sou rainha mas lá fora no mundo
            poderia estar morta e tu sabes
que desordem se apodera de mim
quando vejo uma árvore segura.

"Se vou a um talho acho sempre surpreendente não estar ali eu em vez do animal."





Francis Bacon – Lógica da Sensação apresenta-nos o trabalho filosófico de Gilles Deleuze em confronto com a obra de um dos pintores mais marcantes do século XX: Francis Bacon. Tendo como base a lógica não-racional da sensação, Deleuze inaugura uma nova concepção da estética, que encontra a sua origem e paralelo em determinados aspectos das pinturas de Bacon.

O texto, publicado pela primeira vez em 1981, está organizado numa cadência quase musical, dividindo-se em 17 sequências, através das quais vamos não só descobrindo uma composição de conceitos, mas ainda as ligações entre as artes visuais e as áreas da filosofia, da literatura e da música.

O Idiota



Quanto mais leio Dostoievski, mais me convenço de que a sua obra se concentra no dissecar dos “bons sentimentos” e das suas implicações sobre o sistema nervoso. Os protagonistas das suas histórias costumam estar reféns das ideias delirantes da monomania e, rodeados de gente oportunista e cínica, tendem a deixar-se arrastar com volúpia até às mais profundas camadas do abismo, exactamente por não saberem moderar as afecções dos seus sentimentos e códigos éticos. É o caso de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov e O Idiota – Raskólnikov, Dimitri e Ivan Karamázov, Nastássia Filíppovna estão todos sob o signo da honra maculada e do orgulho ferido e, partindo desses sentimentos, deleitam-se rebolando na lama, destruindo-se a si próprios num derradeiro acto de vingança contra essa ordem das coisas que tanto os magoa. 

Não deixa de ser curioso que todos estes dramas sejam atravessados sempre pela questão do ateísmo, o que também me faz crer que os romances existencialistas de Dostoievski são explorações profundamente políticas, nascidas num século XIX que testemunha privilegiadamente a colisão dos valores humanistas com uma ética capitalista nihilista. Fui reler os meus apontamentos à leitura de Os Irmãos Karamázov e encontrei a seguinte reflexão: “Aqui todos acabam destroçados, acossados por febres nervosas e raiva. A vida moderna exige a falência de todos os valores para que nenhum totalitarismo se possa opor a um mercado livre. O sistema capitalista requer a premissa de que tudo é permitido, tendo como efeito colateral uma certa institucionalização do crime que torna todos criminosos, tanto os que alinham como os que desalinham. Num mundo que perdeu o valor da promessa, «a palavra de honra», ninguém se salva e quem se continua a guiar por tais valores, é tomado por louco ou por idiota, vociferando palavras que já ninguém entende.”

O príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin é esse idiota, epitomizado pelo título da obra e a sua ética da compaixão não é entendida por ninguém, nem mesmo pela melhor e mais decadente aristocracia, apenas pelas crianças. Este idiota distingue-se das outras personagens ultrajadas apenas no ponto de partida, isto é, pelo afecto dominante – nele tudo é compaixão e empatia; encontrará no entanto um destino ainda mais cruel. Excesso de empatia, meu nobre príncipe: todo o mundo tem as suas razões mas é preciso cuidado quando procuramos compreender e perdoar a todos – não é humanamente possível abrigar todas as dores do mundo num único corpo.

O príncipe saltou da cadeira, novamente assustado. Quando Rogójin se calou
(e ele calou-se de repente) , inclinou-se devagar para ele, sentou-se ao seu lado e, com o coração a bater fortemente, respirando com dificuldade, ficou a olhá-lo. Rogójin não voltou a cabeça, até parecia ter-se esquecido dele. O príncipe olhava e esperava; o tempo ia passando, começava a clarear. Rogójin, de vez em quando, começava de repente num balbucio brusco e desconexo, em voz alta e rouca; começava a gritar e a rir-se; o príncipe estendia para ele a mão trémula e tocava-lhe suavemente na cabeça, nos cabelos, afagava-lhos e acariciava-lhe as faces… não podia fazer mais nada! Ele próprio tinha começado outra vez a tremer, e de novo as suas pernas pareciam paralisadas. Uma sensação completamente nova invadia-lhe o coração com uma infinita mágoa. Entretanto amanheceu completamente: por fim, deitou-se na almofada, já completamente exausto e desesperado, e encostou o rosto ao rosto pálido e imóvel de Rogójin; as lágrimas corriam-lhe dos olhos para as faces de Rogójin, mas talvez ele já não sentisse as suas próprias lágrimas e não soubesse nada delas…

Quando, já passadas muitas horas, abriram a porta e as pessoas entraram, encontraram o assassino completamente desmaiado e febril. O príncipe estava sentado na esteira ao lado dele, imóvel, e aos acessos de gritos e delírios do doente, passava-lhe suavemente a mão trémula pelos cabelos e pelas faces, como que a acariciá-lo e a acalmá-lo. Mas já não compreendia nada do que lhe perguntavam, nem reconhecia as pessoas que entravam e o rodeavam. E se o próprio Schneider aparecesse agora, vindo da Suiça, para ver o seu antigo aluno e paciente, também ele, recordando o estado em que por vezes o príncipe ficava no primeiro ano de tratamento na Suiça, agitaria a mão e diria, como nesse tempo: «Idiota!»

domingo, 15 de julho de 2018

LÍBANO: Beirut, Bourj Hammoud, Byblos, Tripoli, Souks e Oscar Niemeyer, Batroun, Baalbek, Hezbollah e cedros, sempre na companhia de Rumi.

All day I think about it, then at night I say it.
Where did I come from, and what am I supposed to be doing?
I have no idea.
My soul is from elsewhere, I'm sure of that
and I intend to end up there.

This drunkness began in some other tavern
When I get back around to that place,
I'll be completely sober. Meanwhile,
I'm like a bird from another continent, sitting in this aviary.
The day is coming when I fly off,
but who is it now in my ear who hears my voice?
Who says words with my mouth?

Who looks out with my eyes? What is the soul?
I cannot stop asking.
If I could taste one sip of an answer,
I could break out of this prison for drunks.
I didn't come here of my own accord, and I can't leave that way.
Whoever brought me here will have to take me home.


















sábado, 14 de julho de 2018