segunda-feira, 7 de maio de 2018

Josefina ou O Povo dos Ratos



«A nossa cantora chama-se Josefina. Quem não a ouviu não sabe o que é o poder da canção. A todos, sem excepção, arrebata o seu canto, o que será de louvar mais ainda se tivermos em conta que no geral a nossa espécie não gosta de música. […]
               Já pensei muitas vezes sobre o que de facto significa esta música. Nós não somos nada musicais; como é possível então que compreendamos o canto da Josefina ou, visto que a Josefina acha que não a compreendemos. A resposta mais fácil seria que a beleza deste canto é tão grande que até o mais embotado dos sentidos é incapaz de lhe resistir, mas esta resposta não satisfaz. Se assim fosse, então o seu canto teria de, instintivamente e sempre, dar a impressão de ser qualquer coisa fora do normal, a impressão de que há qualquer coisa a sair daquela garganta que nunca antes ouvimos e que não temos sequer capacidade para ouvir, qualquer coisa cuja audição só a Josefina e mais ninguém nos pode dar a ouvir. Mas é precisamente isso que na minha opinião não acontece, não o sinto e também não observei nada de parecido nos outros. Entre nós, no nosso círculo de confiança, confessamos uns aos outros abertamente que o canto da Josefina enquanto canto não representa nada fora do normal.
               Será aliás sequer um canto? […] Não será se calhar apenas um assobio? E é claro que todos reconhecemos um assobio, é a grande habilidade artística do nosso povo, ou talvez até já nem seja uma habilidade antes uma forma de expressão característica da nossa vida. Todos nós assobiamos, mas, naturalmente, ninguém pretende fazer passar isto por arte, assobiamos sem prestar atenção, sim, sem repararmos e existem até muitos de nós que nem sequer sabem que o assobio é uma das nossas particularidades. Se fosse então verdade que a Josefina não canta mas apenas assobia e se calhar até, como pelo menos julgo, que não ultrapassa as fronteiras do comum assobio – talvez a sua força não seja sequer suficiente para chegar ao nível deste assobio comum, ao contrário de um cavador que é capaz de assobiar sem esforço durante um dia inteiro de trabalho – se tudo isto fosse verdade, então refutava-se o pretenso título de artista da Josefina, mas ficaria ainda por decifrar o enigma da enorme impressão que provoca.
                Mas acontece que ela não produz apenas um assobio. Se nos colocarmos a uma grande distância dela e nos pusermos à escuta, ou ainda melhor, se nos sujeitarmos à seguinte experiência que seria, estando a Josefina a cantar em conjunto com outras vozes, tentar identificar a sua voz, então ouviríamos invariavelmente um mero assobio, que poderá no máximo destacar-se pela sua delicadeza e fragilidade. Mas se estivermos à sua frente, então já não se trata de um simples assobio; para se compreender melhor a sua arte é preciso não só ouvi-la mas também vê-la. Mesmo que fosse apenas o nosso assobio de todos os dias, existe antes de mais a pecularidade de se tratar de alguém que se colocou com solenidade de pé para fazer precisamente aquilo que normalmente faz. Abrir uma noz, toda a gente o sabe fazer, não é nenhuma arte, por isso ninguém arriscaria convidar público e diante dele, para o entreter, pôr-se a abrir nozes. Se mesmo assim essa pessoa o fizer e conseguir atingir o seu objectivo, então não poderá falar-se apenas de abrir nozes. Ou fala-se de abrir nozes mas verifica-se que esta foi uma arte que nos passou despercebida porque a dominávamos completamente e que este novo abridor de nozes nos mostrou pela primeira vez a verdadeira essência do acto, chegando mesmo a ser mais útil para o efeito pretendido que ele fosse menos eficiente a abrir nozes do que a maioria de nós.»

sábado, 21 de abril de 2018

Veneza, ainda





“Então, ao passar pelas ilhas da laguna que se vão perdendo na distância, é-se tomado por uma sensação curiosa – uma sensação de alívio, e também de tristeza, mas profundamente impregnada de perplexidade. Veneza, à semelhança de muitas amantes belas ou muitos vinhos densos e fortes, nunca se abre totalmente connosco. Tem um passado enigmático, um presente contraditório e um futuro toldado por incertezas. Deixamo-la saciados mas confusos, como um jovem que, afastando-se feliz de um abraço, se apercebe subitamente de que o pensamento da rapariga estava noutro lado e reflecte por momentos no que raio terá visto nela.
[…]
No entanto, o fascínio de Veneza não depende da arte nem da arquitectura. A cidade tem algo de curiosamente sensual, quando não é mesmo sexual. «Veneza envolve-nos», disse um francês do século xix,  «com um encanto tão terno como o de uma mulher. Outras cidades têm admiradores. Só Veneza tem amantes.» […]
Penso que isto se deve em parte à estrutura orgânica. Veneza é um todo maravilhosamente compacto e funcional: é perfeita, pequena, completa, firmada mesmo no centro de uma laguna em forma de foice como um velho monstro dourado dentro de um charco. […]
Em parte é também uma questão de luz. Os pintores venezianos primavam pelo domínio do chiaroscuro, e Veneza sempre foi uma cidade translúcida, um lugar de ocasos arrebatadores e manhãs iridiscentes, por muito monocromáticos que possam parecer os seus longos invernos. […]
Por outro lado, é uma questão de textura. Veneza é um lugar de materiais voluptuosos, e nos edifícios proliferam embutidos de mármore e pórfiro, mármore cippolino, verde antico, jaspe, mármore grego, granito e alabastros polidos. […] Até mesmo as águas de Veneza de vez em quando parecem seda furta-cores. […]
A atracção de Veneza é, ainda, uma questão de movimento. Veneza perdeu aquele encanto sedoso e onírico, mas continua a ter uma movimentação sedativa e sedutora. Ainda é uma cidade matizada, trémula e cintilante, onde a luz do sol brilha com suavidade por baixo das pontes e as sombras avançam lentamente ao longo dos passeios. O movimento de beleza nada tem de rude ou de brutal. A gôndola é um veículo de locomoção belíssima, os barquinhos dos canais deslocam-se com um staccato delicado […].
E, em última análise, a glória daquele lugar está no facto grandioso de Veneza em si mesma: o esplendor e a estranheza da sua história, a ampla e melancólica laguna que a rodeia, o intricado esplendor marinho que faz dela, ainda hoje, uma cidade única. Quando deixarmos finalmente aquelas águas e arrumarmos o nosso chapéu de palha, o antigo deslumbramento de Veneza perdurará na nossa cabeça; e o cheiro a lama, incenso, peixe, antiguidade, imundície e veludo ficar-se-á pelas narinas; e o suave marulhar dos canais secundários continuará a ecoar nos nossos ouvidos; e aonde quer que se vá na nossa vida, sentir-se-á sempre atrás de nós uma presença rosada, acastelada e cintilante, as cúpulas, os cordames dos barcos e as torres inclinadas da Sereníssima.
É isto o romantismo! É isto o vinho luxurioso e escuro de Veneza! Não admira que o marido de George Eliot tenha caído no Grande Canal.”

quinta-feira, 12 de abril de 2018

poça de água




Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens reflectidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.

não teremos pois a leviandade de contestar



“Está na ordem do universo que um espírito único, por todo o lado espalhado, um sentido em tudo presente, de todas as partes vindo para se apossar das coisas, sinta estes efeitos e paixões que em todas as coisas nos é dado observar.
[…]
É por esta razão que os deuses nos falam através de imagens ou de sonhos, que nós, por falta de hábito, por ignorância e pela obtusa debilidade das nossas faculdades, chamamos de enigmas, quando são estas as [verdadeiras] palavras por excelência e os próprios confins das coisas que se podem figurar.
[…]
Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros os corpos de outros animais, plantas, pedras, minerais; em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência – nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.
[…]
Eis como por vezes somos mais atingidos e mais cruelmente feridos por coisas cujos golpes não sentimos do que por aquelas que no-los fazem sentir […]. Não teremos pois a leviandade de contestar à partida as teses de certos platónicos e de todos os pitagóricos, que concebem o indivíduo como uma colecção de seres dotados de vida própria: morrera um deles, mesmo sendo de todos o principal, que os outros lhe sobreviveriam ainda por muito tempo.”

Veneza




Passados 15 anos, regressei a Veneza. Desta vez, causou-me uma impressão muito profunda que se prolongou oniricamente, e até ousei um passeio de gôndola. Talvez que aos 20 anos eu fosse demasiado insensível aos encantos de Veneza. Ou talvez seja uma daquelas cidades que, como o amor, se aprecia melhor na maturidade. Não faço a menor ideia. Enquanto não encontro esclarecimento, vou deambulando pela imensa literatura de viagens dedicada à Sereníssima, ou seja, ainda que de maneira estética, prolongo aí a minha estadia.

A cidade muda totalmente de noite. Uma das mais animadas que conheço durante o dia, quando o Sol se põe tudo desaparece ou se fecha, e à medida que as horas avançam Veneza vai ficando cada vez mais deserta e mais possuída pelos sons individuais. O ruído dos passos cruza-se com o bater da água e a aparência de cenário de qualquer recanto acentua-se, pois nenhum cenário o parece tanto como quando não tem acção e está vazio. Mas o que na verdade faz mudar Veneza é a própria escuridão (…). A água é o elemento fundamental da cidade, o que de dia devolve e potencia a luz e a cor (vermelho-sanguíneo, amarelo, branco) das casas e dos palácios. De noite, pelo contrário, quase nada devolve. Absorve.

(…)

Do seu extremo ocidental ao seu extremo oriental (a maior distância possível), Veneza percorre-se em não mais que uma hora, a andar bem e sem se ofegar. Mas quase ninguém pode percorrê-la assim, não tanto porque seja difícil e até impossível encontrar uma linha mais ou menos recta sem vacilar cem vezes no trajecto, como por culpa do que – com pedantismo – poderíamos chamar a sua inacabável fragmentação ideal.
Veneza produz simultaneamente duas sensações na aparência contraditórias: por um lado, é a cidade mais homogénea – ou, se se prefere, harmoniosa – de todas as que conheci. Por homogénea ou por harmoniosa entendo principalmente o seguinte: que qualquer ponto da cidade, qualquer espaço luminoso e aberto ou recanto escondido e brumoso que, com água ou sem ela, entre a cada instante no campo visual do espectador é inequívoco, isto é, não pode pertencer a nenhuma outra cidade, não pode confundir-se com outra paisagem urbana, não suscita reminiscências (…).

Por outro lado (e aqui está o contraditório), poucas cidades parecem mais extensas e fragmentadas, com distâncias mais intrasponíveis ou lugares que provoquem uma maior sensação de isolamento.”

Do inconsciente óptico




“Diz-se que o melhor design é invisível, o neutro. Mas é ilusão, claro. Seria paradoxal uma disciplina tão dedicada à identidade não ter também a sua. Esta construção de identidade é o design que o design não vê: um processo contínuo, contraditório, obsessivo, instruído, mas inconsciente.”


Especialista por excelência no fabrico de identidades, o design é uma disciplina fundamental do nosso quotidiano. No entanto, a reflexão sobre a sua própria identidade não é abundante. Nos doze ensaios que compõem este livro, Mário Moura convoca a crítica do design para analisar os seus impensados e a cultura contemporânea, à semelhança da melhor tradição da crítica literária e da crítica de arte. Com várias incursões pela literatura, política, história, geografia e pelo cinema, o autor desmonta o património discursivo do design e demosnta como este é formado e reformado por conceitos de raça, classe, género, autoria e periferia, entre outros.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Антон Павлович Чехов




Acontecem-me coisas únicas a ler Tchékhov, mestre que nunca me deixa desamparada. Certos contos gravam-se na minha memória como se eu própria tivesse feito parte do enredo. E não deixa de ser curioso e inédito que, detestando eu qualquer tipo de moralismos, me deixe arrebatar de tal modo por estas histórias que acabo inevitavelmente por tomar partido, afunilando toda a complexidade daquele pedaço particular da realidade que o conto recorta. Neste segundo volume aconteceu-me sobretudo com três contos. Com a Anna ao pescoço, a minha compaixão pela rapariguinha boazinha que sacrifica a sua vida ao casamento transformou-se subitamente em triunfo agridoce: foda-se tudo, egoístas de merda! Já com o conto Anjinho, o caminho foi inverso: abespinha-me aquela mulherzinha, sempre a precisar de um amor para ter mundo e, subitamente, eis-me de olhos marejados, entendendo os mecanismos da sua alma e torcendo para que ela tenha aquilo que tanto deseja. No magistral Enfermaria n. 6, alinho com Ivan Dmítritch, assanham-me as visitas daquele médico insonso, a sua sensatez e o seu estoicismo de pacotilha:

            - Não, não sou filósofo, mas é isto que cada qual tem de defender, porque é sensato.
            - Não, o que eu quero saber é por que razão o senhor se considera competente no assunto da consciencialização, do desprezo pelo sofrimento e assim por diante! Será que alguma vez sofreu? Faz ideia do que é o sofrimento? Oiça: açoitavam-no quando era criança?
            - Não, os meus pais tinham repugnância pelos castigos corporais.
            - Pois a mim, o meu pai açoitava-me cruelmente. O meu pai era um funcionário bruto, hemorroidal, com nariz comprido e pescoço amarelo. Mas, falemos antes de si. Em toda a sua vida, ninguém lhe tocou com um dedo, ninguém o o aterrorizou nem brutalizou; é saudável como um touro. Cresceu sob a protecção do pai e estudou por conta dele, e depois, logo a seguir, arranjou uma sinecura. Vive há mais de vinte anos numa casa gratuita, com aquecimento, iluminação, criadagem, tem o direito de trabalhar como e quando lhe apetece, e mesmo de não fazer nada. Pela sua natureza, é um homem preguiçoso, mole, por isso tentou organizar a sua vida de modo a que nada o incomodasse e o fizesse mexer. Entregou tudo ao seu auxiliar-médico e a outros canalhas, e deixou-se ficar sentado no quentinho, sossegado, acumulando dinheiro e lendo livrinhos, deliciando-se com reflexões sobre todo o género de disparates sublimes e (Ivan Dmítritch olhou para o nariz vermelho do doutor) bebendo sempre o seu copinho. Numa palavra, não viveu a vida, não a conhece, absolutamente, e tem uma noção da realidade apenas teórica […] Um jovem pede-lhe um conselho: o que fazer, como viver;  antes de lhe responder, uma pessoa pensaria um bocado, mas o senhor já tem a resposta pronta: aspira à consciencialização e ao verdadeiro bem. Mas o que é esse fantástico «verdadeiro bem»? A resposta, obviamente, não existe. Mantêm-nos aqui atrás das grades, deixam-nos apodrecer, torturam-nos, mas isso é maravilhoso e sensato, porque entre esta enfermaria e um gabinete quentinho e acolhedor não há diferença nenhuma. É uma filosofia muito cómoda: não precisa fazer nada, a consciência está limpa e pode sentir-se filósofo… Não, meu senhor, isso não é filosofia nem pensamento, nem largueza de vistas, é antes preguiça, faquirismo, uma modorra idiota… Sim! – voltou a zangar-se Ivan Dmítritch. – Despreza o sofrimento, mas se, digamos, lhe entalassem o dedo na porta, berraria a plenos pulmões!

No entanto, quando o médico se entala por fim, lá se foi o meu desprezo, estou inteiramente do lado dele, a berrar. Talvez Tchekhóv me provoque tanta adesão e oscilação de humores porque também eu sou um idiota, porque sofro, estou insastisfeito e me espanto com a infâmia humana.

"A imensa maioria da sociedade vive em zonas esteticamente sinistradas, onde não se pode viver e amor porque se está esteticamente alienado."


he wrote: "I'm broke, please send for me"

quinta-feira, 1 de março de 2018

Thats right, sista!


Sábado 24 de Noviembre de 1960
Todo sustituible. Todo reemplazable. Todo puede morir y desaparecer: detrás están los sustitutos, como en los parques de diversiones esos muñecos que caen a cada tiro de escopeta y son súbitamente sustituidos por otros y otros. Es decir, que no hay nada que obligue a vivir, ni nada que desobligue. Todo o casi todo es mentira porque cae o puede caer. Lo único que es fiel es esta sed de algo por lo que vivir. Pero tampoco lo es absolutamente puesto que está entre otras sedes y hambres y se alterna con ellas, y puede desaparecer por varios años y reaparecer.
No creo en nada de lo que me enseñaron. No me importa nada. Sobre todo no me importan los convencionalismos y el demonio sabe hasta dónde y hasta qué extremo infecto somos convencionales.
Convencionalismos poéticos y literarios.
Hasta el ser joven en un convencionalismo. Y la rebelión y la anarquía pueriles. Y el mito del poeta. El mito de la cultura. Hasta el comunismo y el socialismo de mis amigos es un nauseabundo convencionalismo. Como si se pudieran cambiar las cosas hablando y negando. Yo estoy en contra. Ni religión ni política ni orden ni anarquía. Estoy contra lo que niega la verdadera vida. Y todo lo niega. Por eso quiero llorar y no me avergüenzo o sí me avergüenzo y quiero esconderme y hasta tengo vergüenza de suicidarme.
Las luchas o contiendas poéticas de Bs. As. me hacen reír, ahora que estoy lejos. Arte de vanguardia, sonetos dominicales. Todo esto es tan imbécil.
Minúsculas, puntuación y rima. Como si alguno se hubiera despertado, una mañana, con ganas de bañarse en alcohol y prenderse fuego porque las palabras no dicen, y el lenguaje está podrido, está impotente y seco. Mis jóvenes amigos vanguardistas son tan convencionales como los profesores de literatura. Y si aman a Rimbaud no es por lo que aulló Rimbaud: es por el deslumbramiento que les producen algunas palabras que jamás podrán comprender. Además, las contiendas literarias sólo las hacen los que están contentos y bien instalados en este mundo. Es una actividad suplementaria, un hobby nocturno, mientras se está en la cama reposando, tomando café o whisky.
Todo esto es tan idiota. Y yo, yo también hablé. Yo también abrí la boca y la llené de miasmas. Pero ahora sí. Ahora sé que no me importa nada. Ahora sé que todo me importa y quiero reventar y quemarme y estallar. Porque esto no es la vida. Y esto no es la poesía. Y quiero cantar y no hay qué cantar, a quién cantar. Sólo hay mierda y a la mierda se la insulta. Pero yo quisiera cantar.


Teatro Pós-Dramático


Uma referência obrigatória para todos os estudantes e amantes das artes performativas contemporâneas, finalmente disponível numa tradução integral do alemão em Portugal.
Atrás do coração
está um músico surdo
a fazer troar um tambor desfeito.

Robert Bringhurst

sábado, 17 de fevereiro de 2018

ab imo pectore


"You will not wonder at his weird pilgrimage, - you who in the swift whirl of living, amid its cold paradox and marvellous vision, have fronted life and asked its riddle face to face. And if you find that riddle hard to read, remember that yonder black boy finds it just a little harder; if it is difficult for you to find and face your duty, it is a shade more difficult for him; if your heart sickens in the blood and dust of battle, remember that to him the dust is thicker and the battle fiercer. No wonder the wanderers fall! No wonder we point to thief and murderer, and haunting prostitute, and the never-ending throng of unhearsed dead! The Valley of the Shadow of Death gives few of its pilgrims back to the world."

o exercício experimental da liberdade


Nesta obra, Delfim Sardo, ensaísta e curador, reflecte sobre as vanguardas do século XX e a morte anunciada das disciplinas artísticas. Questionando a premissa utópica de uma emancipação da arte relativamente à representação, o autor aborda algumas das questões vitais colocadas pela arte contemporânea: quando os cânones artísticos já não fazem sentido porque a autoridade estética colapsou com o final do sistema das Belas-Artes, que base nos permite continuar a produzir juízos sobre as obras de arte? Como é que, num contexto em que as convenções artísticas estão em constante mutação, jogamos o enorme e fascinante jogo de confiança que é a arte?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

“Olha bem e deliberadamente para todos os caminhos. Tenta-o tantas vezes quantas forem necessárias. Depois faz a ti mesmo e somente a ti uma pergunta. Esta pergunta só um homem muito velho a faz. Quando eu era novo, o meu benfeitor falou-me dela uma vez, mas o meu sangue era demasiado vigoroso para eu a poder entender. Agora percebo. Vou dizer-te qual é: Será que este caminho tem coração? Todos os caminhos são o mesmo: nenhum leva a parte alguma. São caminhos através do mato, ou que vão dar ao mato. No decurso da minha vida posso dizer que atravessei longos, longos caminhos e não cheguei a lugar nenhum. A questão posta pelo meu benfeitor já faz sentido. Será que este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom; se não tem, não presta. Nenhum dos caminhos leva a parte alguma; mas um tem coração, o outro não tem. Um proporciona uma viagem com alegria; na medida em que o seguires, serás uno com ele. O outro levar-te-á a amaldiçoar a vida. Um faz de ti um homem forte; o outro, um homem fraco.”

Don Juan
in Os Ensinamentos de Don Juan
de Carlos Castañeda

Desenhos Efémeros

Magda Lemonnier



"Magda Lemonnier recorta palavras dos jornais, palavras de todos os tamanhos, e guarda-as em caixinhas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa caixa verde, as palavras amantes. Numa caixa azul, as neutras. Numa caixa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia.
Às vezes, ela abre as caixas e vira-as para baixo sobre a mesa, para que as palavras se misturem como quiserem. Então, as palavras contam-lhe o que aconteceu e anunciam-lhe o que está para acontecer."

call me by your name




"When you least expect it, Nature has cunning ways of finding our weakest spot. Just remember: I am here. Right now you may not want to feel anything. Perhaps you never wished to feel anything. And perhaps it’s not to me that you’ll want to speak about these things. But feel something you obviously did.
You had a beautiful friendship. Maybe more than a friendship. And I envy you. In my place, most parents would hope the whole thing goes away, to pray that their sons land on their feet. But I am not such a parent. In your place, if there is pain, nurse it. And if there is a flame, don’t snuff it out. Don’t be brutal with it. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster, that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to make yourself feel nothing so as not to feel anything ― what a waste!
Then let me say one more thing. It will clear the air. I may have come close, but I never had what you had. Something always held me back or stood in the way. How you live your life is your business. But remember, our hearts and our bodies are given to us only once. Most of us can’t help but live as though we’ve got two lives to live, one is the mockup, the other the finished version, and then there are all those versions in between. But there’s only one, and before you know it, your heart is worn out, and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now there’s sorrow. I don’t envy the pain. But I envy you the pain."

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Pursuit

Dans le fond des forêts votre image me suit.
RACINE

There is a panther stalks me down:
 One day I'll have my death of him;
 His greed has set the woods aflame,
He prowls more lordly than the sun.
Most soft, most suavely glides that step,
 Advancing always at my back;
 From gaunt hemlock, rooks croak havoc:
The hunt is on, and sprung the trap.
Flayed by thorns I trek the rocks,
 Haggard through the hot white noon.
 Along red network of his veins
What fires run, what craving wakes?

Insatiate, he ransacks the land
 Condemned by our ancestral fault,
 Crying:  blood, let blood be spilt;
Meat must glut his mouth's raw wound.
Keen the rending teeth and sweet
 The singeing fury of his fur;
 His kisses parch, each paw's a briar,
Doom consummates that appetite.
In the wake of this fierce cat,
 Kindled like torches for his joy,
 Charred and ravened women lie,
Become his starving body's bait.

Now hills hatch menace, spawning shade;
 Midnight cloaks the sultry grove;
 The black marauder, hauled by love
On fluent haunches, keeps my speed.
Behind snarled thickets of my eyes
 Lurks the lithe one; in dreams' ambush
 Bright those claws that mar the flesh
And hungry, hungry, those taut thighs.
His ardor snares me, lights the trees,
 And I run flaring in my skin;
 What lull, what cool can lap me in
When burns and brands that yellow gaze?

I hurl my heart to halt his pace,
 To quench his thirst I squander blook;
 He eats, and still his need seeks food,
Compels a total sacrifice.
His voice waylays me, spells a trance,
 The gutted forest falls to ash;
 Appalled by secret want, I rush
From such assault of radiance.
Entering the tower of my fears,
 I shut my doors on that dark guilt,
 I bolt the door, each door I bolt.
Blood quickens, gonging in my ears:

The panther's tread is on the stairs,
Coming up and up the stairs.

Sylvia Plath

"Sinto que toda a arte, toda a literatura, todas as sinfonias compostas, são os restos de uma batalha cósmica perdida. A tarefa não é escrever verso, nem pintar quadro, nem fazer poema concreto. A tarefa é fazer da vida algo decente. Nós, os chamados artistas, não somos mais do que aves necrófagas que vão traduzindo os escombros de uma batalha perdida." Raúl Zurita

domingo, 14 de janeiro de 2018

O mundo de ontem


Aqui está um dos livros que mais gostei de ler em 2017. A pretexto de uma herança de uma colecção de 264 netsuke, Edmund de Wall conta-nos a história da sua família, os Ephrussi, judeus originários de Odessa que se instalam em Paris e Viena no século XIX. Charles Ephrussi serve de inspiração a Marcel Proust como modelo do esteta Swann em Em Busca do Tempo Perdido. Apaixonado pelo coleccionismo, Charles compra os netsuke quando os objectos japoneses fazem furor nos salões parisienses,  e envia-os posteriormente como presente de casamento ao primo banqueiro em Viena. Mais tarde, três crianças brincam com a colecção, até que a História lhes cai em cima e a Segunda Guerra Mundial vota o grande império da família ao esquecimento, restando apenas essa colecção de netsuke, subtraídos do gigantesco palácio vienense, na altura ocupado pelos nazis, um a um, no bolso de uma fiel criada, e escondidos depois no seu colchão de palha.

Para além de um apaixonante livro de memórias no qual acedemos à vida de pessoas extraordinárias, é-nos também contada a tumultuosa história dessa Europa novecentista que soçobra no século XX.

LADY LAZARUS


I have done it again.
One year in every ten
I manage it -

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? -

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour beath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot - 
The big streap tease,
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut.

As a seashell.
The had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying 
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.

It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical

Come back in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

"A miracle!"
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart - 
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash-
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there-

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

Sylvia Plath

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Bertold Brecht

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Paris 2017: esfinges, bacantes e pâtisserie. Bonnes aventures!


Le Sommeil, Auguste Rodin (Musée Rodin)


Les Causeuses ou Les Bavardes, Camille Claudel  (Musée Rodin)


L'Âge Mûr ou Le Chemin de la Vie, Camille Claudel  (Musée Rodin)


Porte de l'Enfer, Auguste Rodin (Musée d'Orsay)


Orphée, Gustave Moreau (Musée d'Orsay)


L'Énigme, Gustave Doré (Musée d'Orsay)




Erzulie et ses soeurs, Pierrot Barra (Musée du Quai Branly)



Musée Louvre


Máscara demónio teatro nô (Musée de l'Orangerie)



Bonecas Dada (Musée de l'Orangerie)


Autoportrait en Neptune, Kees van Dongen


Souvenirs de la galerie des glaces à Bruxelles, Otto Dix (Centre Pompidou)


Bildnis der Journalistin Sylvia von Harden, Otto Dix (Centre Pompidou)


Musikanten, August Sander (Centre Pompidou)



La mariée, Niki de Saint Phalle (Centre Pompidou)


The Rebellion of the dead, Nalini Malani (Centre Pompidou)



E duas caixinhas do amado Joseph Cornell!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fire walk with me



Termino o ano com uma constatação curiosa: comprei vários livros na Feira do Livro de Lisboa deste ano e o que mais me agradou foi um que me custou a módica quantia de 3 euros – PREPARA-TE PARA A MORTE, de May Sarton (lembrete para 2018: inspeccionar ainda mais cuidadosamente as caixas com os saldos da Cotovia na feira). Sem leviandade alguma, posso dizer que foi dos melhores livros que li este ano. É uma narrativa pequenina, lê-se bem numa noite, mas a sua escrita concentrada é carburada por uma poderosa inflamação.

Em primeiro lugar, o livro tem o mérito de nos colocar literalmente na pele e na cabeça de uma senhora solteira,Caro, professora reformada, que por um revés de saúde se vê depositada num lar para a terceira idade, à mercê dos cuidados negligentes de terceiros. Eu, que gosto de me imaginar em várias vidas e situações, já tinha dedicado algum tempo a pensar na velhice, e sempre suspeitei de que esta se assemelha a uma segunda infância, na qual nos encontramos completamente desamparados, com a grande diferença face à primeira infância que, desta vez, nos despimos até da esperança de que amanhã poderá ser um dia melhor, ou de que a vida poderá novamente começar a mexer, pois que o futuro certo é a morte, esse desenlace que sempre conhecemos mas do qual sempre desviámos o olhar, forçando-nos à distracção.

May Sartron confirma-me que não me enganei: a velhice é essa vulnerabilidade extrema, sem qualquer descanso ou possibilidade de distracção, em que um acerta as contas finais consigo mesmo. Mas PREPARA-TE PARA A MORTE E SEGUE-ME também me insinua que, nessas excursões da minha imaginação, vi apenas uma árvore e não a floresta toda. Para além do desamparo, da solidão, pode também acontecer a descredibilização, a retirada progressiva dos direitos outorgados aos adultos, uma infantilização forçada que priva progressivamente o «idoso» de razoabilidade, de dignidade e até de humanidade, no sentido mais político do termo.

Para além de todo este mundo, o livro agarrou-me num momento singular da minha vida em que me sentia particularmente invadida por uma raiva pouco lúcida, duvidando constantemente das minhas considerações e escolhas. E nessa fase, este livro foi como um braço súbito que me alcançasse a meio de um desvario e, desviando-me para uma berma, me sussurrasse : «essa raiva não é nada pouco lúcida, é preciso que escaves um pouco mais, que te interesses um pouco mais por esse mistério que és, para que possas entender como às vezes é preciso lutar pela sanidade contra tudo e contra todos».

Não sou digna, uma leprosa – uma velha sem controle sobre si própria. Quando chorei tanto naquele escuro, era uma pequena criança castigada que chorava, mas é contra isso que tenho de batalhar – o desejo de ser perdoada, de ser de novo aceite.
(…)

Desde a minha crise sinto-me desmerecedora de amor, além dos limites. E isto é a infância outra vez. Quantas vezes não me mandaram para a cama sem jantar por causa de uma birra? E como é que em toda a minha vida nunca resolvi esta raiva que há em mim? Contudo, Caro, lembra-te que a raiva é o lado mau do fogo – tu tinhas fogo, e esse fogo fez de ti uma boa professora, e às vezes uma lutadora destemida. O fogo pode ser purificador.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Da metereologia e das nuvens



Cada vez se ouve falar mais de docuficção e de romances de não-ficção. Creio que a tendência deriva de um facto essencial: não conseguimos suportar a vida apenas com base no quotidiano mas também não nos identificamos com histórias sem carnalidade. É preciso encantar novamente a vida e despertar do longo sono os deuses adormecidos e silentes.


           
O METEREOLOGISTA de Olivier Rolin poderá encaixar nessa categoria de romance de não-ficção. Mas o único mérito reside no facto do Rolin ter encontrado uma história impressionante – a história verídica de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o metereologista da URSS, acusado, em 1934, de sabotador do socialismo e deportado para um campo de concentração e, que até à véspera da sua morte atroz, enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários e adivinhas. A reprodução a cores de parte dessa correspondência, belíssimamente ilustrada, foi afinal a razão que me levou a comprar este livro.


            
A leitura flui, de forma dolorosa, indignada, pois estamos sempre a recordar-nos que aquela história aconteceu realmente – e a perguntar-nos, vezes e vezes sem conta, como foi possível? Como é possível? O livro vale sem dúvida pela história que nos revela e pela russofonia do autor mas, ainda assim, senti em certas passagens que faltava a Olivier Rolin unhas para alcançar a grande beleza do romance de não-ficção. Parece mais um diário, com as recolecções possíveis dos factos e algumas divagações, como se o autor tivesse medo de arriscar uma fusão mais empática com as suas personagens. E, no entanto, pergunto-me, será possível empatizar-se com um real tão pobre poeticamente, tão ridiculamente violento e triste? Dificilmente, creio.
            
E talvez que este livro não me tenha preenchido por completo, porque me recordava repetidamente O CASO DO CAMARADA TULAEV, muito provavelmente o melhor romance de não-ficção sobre o grande terror das purgas estalinistas. A história de Vangengheim repete o que já tinha aprendido nessa obra-prima: o motivo rídiculo pelo qual se é acusado de sabotagem do socialismo, os mecanismos dessa imparável engrenagem da morte que faz com que os inocentes acabem por confessar os crimes imaginários de que são acusados, os detractores e fuziladores que acabam também eles por ser denunciados e fuzilados, os Matveiev dessa época assombrosa…
            
É altura de apresentar Mikhail Matveiev, executor do NKVD (…). É pela sua mão, pois faz ponto de honra de não delegar a tarefa de matar, nunca se cansa de sangue, é pela sua mão que vai morrer Alexei Feodossievitch Vangengheim (…). Durante a guerra civil, participa na tomada do Palácio de Inverno (que não foi de modo algum o evento heróico fabricado por Einsenstein), mas é enquanto encarregado das execuções, um cargo que tem futuro, que integra a polícia política em 1918. Como recompensa pelo seu trabalho, que faz com paixão (ele não é de todo um «sabotador»), recebe distinções que têm nome de revólveres: Browning, Walter. Relógios de ouro, aparelhos de radio Radiola. Mimos para um carrasco. Toma portanto conta em Kem da coluna dos mil cento e dezasseis condenados das Slovoki (…).

            O lugar da execução é «na floresta», sem mais pormenor – não há outra coisa senão floresta em torno de Medvejegorsk. Cavam grandes valas, precipitam-se os condenados para dentro delas, viram-nos de barriga para baixo e matam-nos com um tiro na nuca. Não «alguém» mas ele, pessoalmente, Matveiev. Quando lhe perguntam se viu alguns dos seus homens dar uma sova aos condenados, responde que de facto aconteceu mas não chegou a ver porque estava em baixo, na cova, com o seu revólver Nagant. De vez em quando, quando se sente cansado, quando tem vontade de descomprimir, de fumar um cigarro, volta a subir e passa a tarefa ao seu adjunto, o tenente Alafer, mas, regra geral, é ele que se encontra no fim da cadeia, as suas botas na lama sanguinolenta, cheia de miolos. Todos os dias, ou antes todas as noites, porque aquelas coisas têm lugar à noite, nas noites de vinte e sete de outubro de 1937 e de um a quatro de novembro (…), ele avia entre duzentos e duzentos e cinquenta contrarrevolucionários. E, para além disso, tem de assinar as declarações que atestam que cada sentença foi executada. Em suma, trabalha a mata-cavalos, mereceu o seu relógio de ouro.

Como foi possível? Como é possível?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Conselhos preciosos para o grande frio

Saibas, amado filho, que, se te encantes de alguém, não deves ceder indiscriminadamente ao prazer, estejas tu bêbedo ou sóbrio, porque é sabido que o sêmen que de ti irrompe é sempre germe de almas e pessoas. Não te entregues ao prazer inebriado de vinho, é coisa danosa e deletéria; melhor esperar, ao menos, que os efeitos do álcool passem. E não deixes que o prazer comande sempre que fiques excitado, pois esse é um comportamento verdadeiramente animalesco, e os animais não conhecem nem tempo nem lugar. Os homens, ao contrário, devem sempre saber o momento justo, diferenciando-se assim das feras.
 Em relação à escolha entre garotos e mulheres, não limites tua preferência a um único gênero, garotos ou mulheres, para que tu possas obter prazer de ambos os sexos, evitando assim a inimizade de um ou de outro.
 Os excessos, como te disse, são danosos, mas, saibas que a abstinência também tem seus perigos. Qualquer coisa que faças deve ser feita de acordo com teu desejo e não por obrigação, de modo que o dano seja menor.
 Havendo desejo ou não, é todavia aconselhável que te controles durante o grande calor e o grande frio. É nas duas estações extremas que as paixões produzem os efeitos mais deletérios, principalmente para os mais velhos. De todos os momentos do ano, ao invés, é a primavera, com seu clima temperado e suas fontes túrgidas, a estação mais propícia, onde a face do mundo se mostra feliz e faceira. E assim como o macrocosmo, graças à primavera rejuvenesce nosso corpo, que é o microcosmo. Os humores do corpo tornam-se temperados e o sangue de nossas veias se dilatam, assim como o sêmen nos lombos. Mesmo sem uma vontade precisa, irresistível se torna a busca por prazeres e incontrolável a necessidade de regozijos e encontros, mas se autêntico é o ardor, menor é o dano.
E assim a vida segue. Se possível não dês vazão a teus líquidos vitais no calor tórrido e no inverno rígido, e caso percebas um aumento do ardor procura reestabelecer o equilíbrio com uma dieta harmoniosa. Durante o verão dá predileção aos garotos, e reserva o inverno às mulheres, respeitando sempre um sano equilíbrio sazonal. E, se neste discurso fui breve, é porque mais não serve.
Kay Ka’us ibn Iskandar (Qābūs-nāme, séc.XI)