segunda-feira, 13 de maio de 2019
il pleure dans mon coeur
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?
Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !
Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.
C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !
verde
Notoriamente tóxico e quimicamente instável, o verde demorou a conquistar o mundo. Ausente das pinturas no Neolítico e remetido a um papel discreto na Antiguidade, o verde foi durante os séculos seguintes associado a tudo o que é volúvel, desde a juventude e o amor até à sorte e ao destino. Só na época romântica se tornou definitivamente a cor da natureza, o que lhe permitiu conquistar um lugar privilegiado na paleta de cores do Ocidente.
As edições Orfeu Negro prosseguem a publicação da obra do historiador francês Michel Pastoureau, um dos maiores especialistas na simbólica das cores e em heráldica. Depois de PRETO e AZUL, é a vez da cor verde nos contar a sua (e a nossa) multifacetada história, num tom simultaneamente erudito e pleno de curiosidades.
Por gracia de morir todas las noches
Por su pinta poeta de gorrión con gomina,
por su voz que es un gato sobre ocultos platillos,
los enigmas del vino le acarician los ojos
y un dolor le perfuma la solapa y los astros.
por su voz que es un gato sobre ocultos platillos,
los enigmas del vino le acarician los ojos
y un dolor le perfuma la solapa y los astros.
Grita el águila taura que se posa en sus dedos
convocando a los hijos en la cresta del sueño:
¡a llorar como el viento, con las lágrimas altas!,
¡a cantar como el pueblo, por milonga y por llanto!
convocando a los hijos en la cresta del sueño:
¡a llorar como el viento, con las lágrimas altas!,
¡a cantar como el pueblo, por milonga y por llanto!
Del brazo de un arcángel y un malandra
se van con sus anteojos de dos charcos,
a ver por quién se afligen las glicinas,
Pichuco de los puentes en silencio.
se van con sus anteojos de dos charcos,
a ver por quién se afligen las glicinas,
Pichuco de los puentes en silencio.
Por gracia de morir todas las noches
jamás le viene justa muerte alguna,
jamás le quedan flojas las estrellas,
Pichuco de la misa en los mercados.
jamás le viene justa muerte alguna,
jamás le quedan flojas las estrellas,
Pichuco de la misa en los mercados.
¿De qué Shakespeare lunfardo se ha escapado este hombre
que un fósforo ha visto la tormenta crecida,
que camina derecho por atriles torcidos,
que organiza glorietas para perros sin luna?
que un fósforo ha visto la tormenta crecida,
que camina derecho por atriles torcidos,
que organiza glorietas para perros sin luna?
No habrá nunca un porteño tan baqueano del alba,
con sus árboles tristes que se caen de parado.
¿Quién repite esta raza, esta raza de uno,
pero, quién la repite con trabajos y todo?
con sus árboles tristes que se caen de parado.
¿Quién repite esta raza, esta raza de uno,
pero, quién la repite con trabajos y todo?
Por una aristocracia arrabalera,
tan sólo ha sido flaco con él mismo.
También el tiempo es gordo, y no parece,
Pichuco de las manos como patios.
tan sólo ha sido flaco con él mismo.
También el tiempo es gordo, y no parece,
Pichuco de las manos como patios.
Y ahora que las aguas van más calmas
y adentro de su fueye cantan pibes,
recuerde y sueñe y viva, gordo lindo,
amado por nosotros. Por nosotros.
y adentro de su fueye cantan pibes,
recuerde y sueñe y viva, gordo lindo,
amado por nosotros. Por nosotros.
O-que-sabe
1. Palavras / de Qohélet filho de Davi //
rei / em Jerusalém
2. Névoa de nadas / disse O-que-sabe //
névoa de nadas / tudo névoa-nada
3. Que proveito / para o homem ///
De todo o seu afã //
fadiga de afazeres / sob o sol
4. Geração-que-vai / e geração-que-vem //
e a terra / durando para sempre
5. E o sol desponta / e o sol se põe ///
E ao mesmo ponto //
aspira / de onde ele reponta
6. Vai / rumo ao sul //
e volve / rumo ao norte ///
Volve revolve / o vento vai //
e às voltas revolto / o vento volta
7. Todos os rios / correm para o mar //
e o mar / não replena ///
Ao lugar / onde os rios / acorrem //
para lá / de novo / correm
8. Tudo tédio palavras //
como dizê-lo / em palavras ///
O olho não se sacia / de ver //
e o ouvido não se satura / de ouvir
9. Aquilo que já foi / é aquilo que será //
e aquilo que foi feito // aquilo / se fará ///
E não há nada novo / sob sol
10. Vê-se algo / se diz eis / o novo ///
Já foi / era outrora //
fora antes de nós / noutras eras
11. Nenhum memento / dos primeiros vivos ///
E também dos vindouros / daqueles por vir /
deles não ficará / memória //
junto aos pós-vindos / que depois virão
12. Eu Qohelet O-que-sabe / eu fui rei /
se Israel / em Jerusalém
13. E do meu coração eu me dei /
a indagar e inquirir / com saber //
sobre o todo / de tudo o que é feito / sob o céu ///
Torpe tarefa/ que deu Elohim /
aos filhos do homem / para atarefá-los
14. Eu vi / todos os feitos //
que se fazem / sob o sol ///
E eis tudo / névoa-nada / e fome-de-vento
15. O que é torto / não se pode endireitar ///
E o que é falho / não se pode enumerar
16. Palavras para o meu coração / eu as disse //
eis-me / aumentei e avultei / o saber //
muito além / de quantos me foram antes /
sobre Jerusalém ///
E por dentro de mim / vi no auge / o saber e a ciência
17. E do meu coração eu me dei / a saber o saber //
e a saber da loucura / e da sandice ///
Soube // também isto / é vento-que-some
18. Pois / em muito saber / muito sofrer ///
E onde a ciência cresce / acresce a pena
Transcriação do Eclesiastes, do hebraico, pelo poeta Haroldo de Campos.
confissões de um travesti
“Tenho quarenta e três anos, sou
casado e pai de família. (…) Nem sempre vivi fascinado pela roupa feminina. Durante
muitos anos, até ao meu casamento, eram só as cuecas delas que me atraíam. Embora
ainda não tivesse chegado, talvez, a altura de vestir toda a toillette de uma mulher, esse desejo
crescia já em mim e esperava a ocasião para se manifestar.”
CONFISSÕES DE UM TRAVESTI
apareceu pela primeira vez em 1956 na colecção «Les grandes études françaises
de psychiatrie», como primeiro volume da série. As memórias deste homem anónimo
contam-nos do seu fascínio por lingerie
feminina e da prática do travestismo no início do século xx. As ilustrações de João Maio Pinto
complementam a detalhada narrativa com um imaginário irreverente e destemido.
rakhil
Desde que
conheci um pouco da sua biografia, que integra a minha mais estimada
constelação. Isabelle Eberhardt, ou Mahmud Sadi, foi um astro extravagante e excepcional,
fadado a arder rapidamente porque demasiado consumido numa voracidade da vida.
O seu destino trágico contém muitos símbolos da minha gramática afectiva,
começando pelas origens russas, os trajes masculinos de marinheiro, até às
viagens exóticas e ao seu fanatismo místico. “Ir para o seio do grande oceano
de mistério que é o Saara e fixar-me aí. – Um direito que bem poucos
intelectuais fazem o esforço de reivindicar, é o direito à vida errante, à
vagabundagem. […] Estarmos sós, sermos parcos no que necessitamos, sermos
ignorados, estranhos na nossa casa e em todo o lado; e, solitários e grandes,
andarmos à conquista do mundo.” Oh, Isabelle, como não entender as tuas
palavras? Lembras-me Rimbaud, as tuas feições andróginas, essa pretensão ao
anonimato, a tua promiscuidade (ah, palavra deliciosa!)
Enquanto
escritora, não é tão boa. Leio a sua obra para a imaginar melhor. O prefácio de Aníbal Fernandes
a Rakhil traz testemunhos desses que
a conheceram e tornam-na mais próxima. «Bebia de mais. Era a única coisa que
contrastava com a sua profunda aceitação da fé muçulmana. Sim, tinha a
religiosidade intensa dos místicos e dos mártires. Vivia como um homem, como um
rapaz, porque bem mais parecia rapaz do que rapariga. Mas era, com o seu ar de
hermafrodita, apaixonada e sensual embora diferente de uma mulher. Ainda por
cima com o peito completamente plano. Tinha pequenas vaidades, embora bem mais
fosem as de um árabe elegante. Trazia as belas mãos sempre enfeitadas com
henna, a roupa sempre imaculada, e quando tinha dinheiro punha desses perfumes
intensos que os árabes adoram. […] Houve uma época em que passava dias inteiros
nos suks, e ao ver um homem que lhe acendia o desejo, engatava-o. Fazia-lhe um
sinal e saíam dali juntos. Nunca eram hipócrita nem escondia as suas aventuras.
Que razão teria para fazê-lo? Não passavam de uma das facetas da sua
personagem. Creio que tinha profundos êxtases religiosos; a estes ocultava-os,
porém. Era muito rigorosa na observação dos rituais: cinco orações diárias na
mesquita, na rua ou no deserto. Estivesse onde estivesse, rezava.”
Rakhil é uma das poucas novelas que Eberhardt
conclui; o caderno final viria a perder-se na mesma cheia do rio Aïn Sefra que matou
a sua autora. Estamos assim perante uma novela incompleta, cujo desfecho foi
reconstituído pelo amigo e editor de Isabelle, a título indicativo. Como diz
AF: “Nunca é levado a boa recompensa imaginarmos os braços e o gesto da Vénus
de Milo, ou a cabeça que olharia altivamente os mares sobre aqueles ombros da
Vitória de Samotrácia.» Vale, no entanto, a pena perdermos os olhos nesta
história de sexo e ciúme, pois aí se olfacteia uma sensualidade outra.
terça-feira, 26 de março de 2019
e ei-las de nova, as ninfas
"A Ninfa é a matéria
mental fremente, oscilante, brilhante de que são feitos os simulacros, os eídōla. E é a matéria da literatura. De cada
vez que se divisa a Ninfa, vibra a matéria divina que se plasma nas epifanias e
se introduz na mente, potência que antecede e sustém a palavra. A partir do
momento em que essa potência se manifesta, a forma segue-a e adapta-se,
articula-se segundo esse fluxo.
A última
grandiosa e flamejante celebração da Ninfa encontra-se em Lolita, história de um nymphólēptos,
o professor Humbert Humbert, «caçador encantado» que entra no reino das Ninfas
atrás de um par de meias brancas e de uns óculos em forma de coração. Nabokov,
que era mestre em disseminar pelos seus livros segredos tão evidentes, e
dispostos de tal modo perante os olhos de todos, que ninguém os via, expôs os
motivos da sua dilacerada, sumptuosa, homenagem às Ninfas logo nas primeiras
dez páginas do romance, onde, com o rigor do lexicógrafo, explicava que
«acontece por vezes que algumas jovens, de idades compreendidas entre as
fronteiras dos nove e dos catorzes anos, revelem a certos viajantes encantados –
que têm duas vezes, ou muitas vezes, a sua idade –, a sua verdadeira natureza,
que não é humana, mas de ninfa (ou seja demoníaca); e pretendo designar estas
criaturas eleitas pelo nome de «ninfetas». Ainda que a palavra «ninfeta»
estivesse destinada a um sucesso extraordinário, sobretudo no círculo ecuménico
da pornografia, não foram muitos os leitores que se aperceberam de que, nessas
linhas, Nabokov oferecia a chave do seu enigma. Lolita é uma Ninfa que vagueia
pelos móteis de Middle West, «um demónio imortal disfarçado de criança», num mundo
em que os nymphólēptoi podem apenas
escolher se querem ser considerados criminosos, como o professor Humbert
Humbert. Das «águas mentais» das Ninfas até aos deuses a passagem é fácil. Até porque
nas suas incursões pela terra, os deuses eram muitas vezes mais atraídos pelas
Ninfas do que pelos humanos. A Ninfa é o medium
onde os deuses e os homens aventureiros se encontram. Quanto aos deuses, como
se podem reconhecer? Neste caso, os escritores foram sempre, felizmente, muito
abertos. Agiram sempre como se subscrevessem uma iluminada observação de Ezra
Pound: «Não tendo nunca sido possível encontrar uma metáfora mais adaptada para
certas cores emotivas, afirmo que os deuses existem.» Um escritor é alguém que
vê essas «cores emotivas».
Quanto à
verdade esotérica de Lolita, Nabokov concentrou-a
numa minúscula frase escondida como um estilhaço de diamante no enredo do
romance: «A ninfolepsia é uma ciência exacta.» Só não disse que essa «ciência
exacta» era a ciência que tinha desde sempre exercido, mais até do que a
entomologia: a literatura."
domingo, 17 de fevereiro de 2019
metamorfoses
Estou em
crer que nós, leitores, temos uma relação privilegiada com a solidão. A nossa
cultura, assustada com as aventuras e desventuras da caça, optou há muito pelo
caminho da segurança e da anestesia, em detrimento da liberdade e do prazer;
esta ortopedia do humano, ou antropotécnica, parece culminar numa tendência
unívoca de planificação e uniformização de toda a diversidade, fazendo-nos
temer que toda a beleza do universo regresse por fim à sua origem, à explosão
do Uno. Neste processo, a solidão tem perdido o seu carácter de capital
criativo e é cada vez menos cultivada: basta entrar numa qualquer carruagem de
metro e olhar os vários zombies frente a um ecrã, para nos apercebermos que de
que já somos cyborgs e que até as nossas relações connosco próprio foram já
mediatizadas. Em suma, e tendo a noção de que adopto um tom algo apocalíptico:
parecem andar todos apavorados com a solidão e nunca o caminho para o Ser foi
tão árido, pedregoso e de difícil acesso.
Gosto da
palavra solidão. Lembra-me um nome de planeta de outra galáxia. Gosto também da
sua tradução em espanhol – soledad –
e da sua invocação com um trago a saudade. E gosto do sentimento, sobretudo das
vezes em que o consigo habitar em plena concordância; a solidão é o barómetro
que uso para saber onde e como estou, o centro e o coração da minha existência.
Quando circulo por ela, como uma fera enjaulada, de movimentos impertinentes e
atrofiados, sei que não estou bem; nesses momentos, consigo ouvir a distância
que vai de mim a mim e garanto-vos que é das sensações mais angustiantes que me
acontecem. É como se toda eu estivesse derramada num solo estranho, alienígena,
sentido amplificadamente esse estado líquido, incapaz de me reunir ou reerguer.
Então, até o acto da leitura se me torna difícil, nenhum livro me consegue
agarrar e tudo se liquefaz nas minhas mãos e na minha cabeça.
Por isso,
não posso deixar de celebrar com redobrada alegria, cada vez que me acontece
concordar com a minha solidão. Aconteceu recentemente e a leitura deste tempo
de encontro e comunhão foi a de um livro que eu há muito desejava, sem saber
que já tinha sido escrito e que, para maior surpresa ainda, foi recentemente
traduzido e publicado por cá: O
homem-veado e a mulher-aranha, de Françoise Frontisi-Ducroux, um livro
precioso.
Combinando
múltiplas disciplinas, Frontisi-Ducroux, uma helenista francesa conhecida
sobretudo pelas suas investigações no âmbito da antropologia grega, oferece-nos
uma reflexão brilhante sobre a importância das noções de metamorfose e hibridez
nos mitos gregos e a sua respectiva representação visual na antiguidade.
“O
que é que acontece quando inopinadamente os homens se cruzam com os deuses, à
margem dos santuários erguidos para a comunicação regular, longe dos templos e
das estátuas, dos altares onde fumega o sangue dos sacrifícios, longe da
harmonia das preces e das procissões? […]
Os mitos gregos são ricos em tais acidentes e nas suas consequências trágicas. Pais que cozinham a sua prole para celebrar e pôr à prova um hóspede desconhecido. Mães em delírio, que abandonam a casa, que despedaçam os filhos com as suas próprias mãos. Raparigas em pânico, desgrenhadas, errando pelos campos fora. Uma ingénua deslumbrada, atingida pelo esplendor do seu amante divino. Nunca é bom que um mortal se atravesse no caminho de um deus. Frequentemente, o desfecho de tais encontros é a metamorfose. No choque com o divino, o ser humano pode soçobrar, ser bruscamente desviado da sua espécie, para se perder no animal, no vegetal, ou imobilizar-se na pedra.[…]
Para os Gregos, tais aventuras pertencem ao tempo
dos mitos. Um tempo em parte findo, mas não inteiramente extinto. […] Evidentemente que os deuses se mostram com menos frequência do que nos tempos heróicos da Guerra de Tróia, ainda que em certos momentos críticos se verifique a sua intercedência, sobretudo quando a civilização se vê ameaçada pela barbárie. E, no dia-a-dia, quem se atreveria a jurar que o viadante estrangeiro, por breves instantes avistado no caminho, não era Hermes? Que Pan não despontará de um arbusto, ou que a muito querida criança que em vão se procurou por todo o lado não tenha sido raptada pelas ninfas? Quanto às metamorfoses... para as recusar em absoluto, não seria necessário crer firmemente na barreira das espécies."
A exploração do tema das metamorfoses gregas não é exaustiva;
Frontisi-Ducroux selecciona apenas as histórias que foram objecto de tratamento
figurativo, confrontando este tratamento com as diversas fontes escritas. A viagem
começa com o combate entre Peleu e Tétis, essa deusa humilhada, mãe de Aquiles,
oferecida a um homem por receio dos deuses da profecia de que o filho gerado
por ela seria mais poderoso de que o pai, mito que serve de modelo ao casamento.
Colateralmente, sabemos também das metamorfoses cíclicas das divindades
marinhas e de Métis, a deusa da astúcia, engolida pelo esposo, o grande Zeus
(os mitos cumprem a função de dar corpo aos fantasmas colectivos e estes dois
em particular falam-nos da ameaça feminina e de como os homens se devem
salvaguardar de gerar filhos mais poderosos e sobretudo de mulheres astutas).
Continuamos pelo conhecido episódio da feiticeira Circe,
domada pelo astuto Ulisses, pelo mito de Actéon, o caçador que se torna presa,
culpado por surpreender Artémis no banho, o transexual Tirésias e a sua
intervenção na disputa entre Zeus e Hera sobre quem tem mais prazer sexual
(Tirésias, tendo sido homem e mulher, esclarece que o prazer da mulher é nove
vezes superior ao do homem, o que vale um valente castigo por parte de Hera).
Os amores de Zeus com Calisto, Io, Europa, Leda, Ganímedes (a mais célebre
aventura das aventuras homossexuais do deus), Antíope, Dánae e Alcmena conhecem
obviamente um capítulo, que mais uma vez não se pretende exaustivo, pois o
grande deus era um grande sedutor como bem sabemos.
Um capítulo à parte trata da petrificação, recorrendo os mitos
de Medusa, Níobe e o último aborda a metamorfose numa perspectiva mais feminina,
através da fabulosa história de Procne, Filomela e Tereu, um mito de sororidade
e cumplicidade feminina de que nunca tinha ouvido falar e que, de um modo
marginal, me recordou Antígona. O feminino denota sempre um significante
ameaçador: a mulher está demasiado próxima da natureza e, como tal, sempre
pronta a resvalar para um estado selvagem, como exemplificam as Bacantes. É imperativo
que seja domesticada antes de se casar, que abandone para sempre este estado
selvagem para se dedicar à produção de filhos, que pertencem ao seu marido e
senhor e que devem portanto assemelhar-se a este. No entanto, nada garante que
a mulher não traia a sua família, preterindo-a à sua família de origem. Esta narrativa
é parente de outra, o mito de Aédon, Quélidon e Politecno, cuja hybris do casal a autora desmonta de
forma surpreendente.
E somos chegadas ao último mito, o de Aracne, essa magistral
tecelã que não se verga à submissão e modéstia feminina e desafia a deusa Palas
e que, embora se veja metamorfoseada em aranha, nos relembra de que, por vezes,
o talento humano é capaz de alcançar os píncaros da perfeição e do
arrebatamento divino.
Sem dúvida, um dos melhores livros publicados recentemente por
cá. Terminada a leitura, regresso à minha solidão. Não vale a pena ter tanto
pavor desta deusa – sem a sua influência, jamais gozaríamos de tão longos
banhos de imersão e deliciosas leituras.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
dia da criação da noite
Estavam os homens as águas os animais e as terras
Cansados de luz e de não haver noite
Levantei as mãos
Fiz rodar a terra para que se retirasse o sol
Enrolei os dedos nas últimas fulgurações
Teci com os cintilantes fios
A misteriosa linguagem dos astros
Depois
Fui pela escura abóbada
Estendi a fantástica tapeçaria
Para que lá em baixo ninguém perdesse o seu caminho
E nela pudesse adivinhar o doloroso humano destino
A noite ficou assim tão habitada quanto a terra
Os homens podem hoje sonhar com aquilo que mal entendem
E quando o medo atribuiu nomes àquele luzeiro
Dei por terminada a obra
Cortei os fios como se cortasse um pedaço de mim
Fui para outro hemisfério adormecer o dia
Construir a pirâmide o quadrado o círculo a linha recta
As cores do mundo
E dar vida a outras incandescentes criaturas
Al Berto
Cansados de luz e de não haver noite
Levantei as mãos
Fiz rodar a terra para que se retirasse o sol
Enrolei os dedos nas últimas fulgurações
Teci com os cintilantes fios
A misteriosa linguagem dos astros
Depois
Fui pela escura abóbada
Estendi a fantástica tapeçaria
Para que lá em baixo ninguém perdesse o seu caminho
E nela pudesse adivinhar o doloroso humano destino
A noite ficou assim tão habitada quanto a terra
Os homens podem hoje sonhar com aquilo que mal entendem
E quando o medo atribuiu nomes àquele luzeiro
Dei por terminada a obra
Cortei os fios como se cortasse um pedaço de mim
Fui para outro hemisfério adormecer o dia
Construir a pirâmide o quadrado o círculo a linha recta
As cores do mundo
E dar vida a outras incandescentes criaturas
Al Berto
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Desiderio di cose leggere
Juncal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste
e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a partir –
Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco –
Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sen vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá – com as casas
da ilha distante
para uma alta falésia
de estrelas –
Guerra e Cinema
A utilização sistemática das técnicas cinematográficas nos conflitos decorridos ao longo do século XX comprova como o cinema, desde o seu surgimento, abasteceu conceitual e tecnologicamente a guerra e os nacionalismos bélicos. Originalmente escrito em 1983, Guerra e Cinema recorre a filmes e imagens de combate para compor um inventário histórico dos vários intercâmbios técnicos e ideológicos entre a indústria do armamento, a fotografia e o cinema.
Uma reflexão crítica e indispensável sobre a capacidade persuasiva das imagens de guerra que demonstra, de forma erudita e original, como o domínio da representação mediática se tornou mais decisivo do que os acontecimentos no campo de batallha.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Walking around
WALKING AROUND
Sucede que me canso de ser hombre.
Sucede que entro en las sastrerías y en los cines
marchito, impenetrable, como un cisne de fieltro
navegando en un agua de origen y ceniza.
El olor de las peluquerías me hace llorar a gritos.
Sólo quiero un descanso de piedras o de lana,
sólo quiero no ver establecimientos ni jardines,
ni mercaderías, ni anteojos, ni ascensores.
Sucede que me canso de mis pies y mis uñas
y mi pelo y mi sombra.
Sucede que me canso de ser hombre.
Sin embargo sería delicioso
asustar a un notario con un lirio cortado
o dar muerte a una monja con un golpe de oreja.
Sería bello
ir por las calles con un cuchillo verde
y dando gritos hasta morir de frío.
No quiero seguir siendo raíz en las tinieblas,
vacilante, extendido, tiritando de sueño,
hacia abajo, en las tripas mojadas de la tierra,
absorbiendo y pensando, comiendo cada día.
No quiero para mí tantas desgracias.
No quiero continuar de raíz y de tumba,
de subterráneo solo, de bodega con muertos,
aterido, muriéndome de pena.
Por eso el día lunes arde como el petróleo
cuando me ve llegar con mi cara de cárcel,
y aúlla en su transcurso como una rueda herida,
y da pasos de sangre caliente hacia la noche.
Y me empuja a ciertos rincones, a ciertas casas húmedas,
a hospitales donde los huesos salen por la ventana,
a ciertas zapaterías con olor a vinagre,
a calles espantosas como grietas.
Hay pájaros de color de azufre y horribles intestinos
colgando de las puertas de las casas que odio,
hay dentaduras olvidadas en una cafetera,
hay espejos
que debieran haber llorado de vergüenza y espanto,
hay paraguas en todas partes, y venenos, y ombligos.
Yo paseo con calma, con ojos, con zapatos,
con furia, con olvido,
paso, cruzo oficinas y tiendas de ortopedia,
y patios donde hay ropas colgadas de un alambre:
calzoncillos, toallas y camisas que lloran
lentas lágrimas sucias.
PABLO NERUDA
Residencia en la Tierra
(1925-32)
Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias, nos cinemas,
flácido, impenetrável, como um cisne de feltro
que navega numa água de origem e de cinza.
O odor das barbearias faz-me chorar aos gritos.
Quero só um descanso de pedras ou de lã,
quero não ver estabelecimentos nem jardins,
nem mercadorias, lunetas, ascensores.
Acontece que me canso de meus pés e minhas unhas,
de meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, a tiritar de sono,
descendo, nas cercas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, a comer dia após dia.
Não quero para mim tantas desgraças.
Não quero fazer mais de raiz e de túmulo,
de subterrâneo só, de adega com defuntos,
inteiriçados, a morrer de angústia.
Por isso a segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de prisão,
e uiva no seu decurso qual uma roda ferida,
e dá passos de sangue ardente rumo à noite.
E empurra-me para certos recantos, para certas casas húmidas,
para hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias com odor a vinagre,
para ruas medonhas como fendas.
Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
pendurados nas portas das casas que odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e pavor,
há guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.
(Trad. José Bento)
Frida Kahlo to Marty McConnell
by Marty McConnell
leaving is not enough; you must
stay gone. train your heart
like a dog. change the locks
even on the house he’s never
visited. you lucky, lucky girl.
you have an apartment
just your size. a bathtub
full of tea. a heart the size
of Arizona, but not nearly
so arid. don’t wish away
your cracked past, your
crooked toes, your problems
are papier mache puppets
you made or bought because the vendor
at the market was so compelling you just
had to have them. you had to have him.
and you did. and now you pull down
the bridge between your houses.
you make him call before
he visits. you take a lover
for granted, you take
a lover who looks at you
like maybe you are magic. make
the first bottle you consume
in this place a relic. place it
on whatever altar you fashion
with a knife and five cranberries.
don’t lose too much weight.
stupid girls are always trying
to disappear as revenge. and you
are not stupid. you loved a man
with more hands than a parade
of beggars, and here you stand. heart
like a four-poster bed. heart like a canvas.
heart leaking something so strong
they can smell it in the street.
stay gone. train your heart
like a dog. change the locks
even on the house he’s never
visited. you lucky, lucky girl.
you have an apartment
just your size. a bathtub
full of tea. a heart the size
of Arizona, but not nearly
so arid. don’t wish away
your cracked past, your
crooked toes, your problems
are papier mache puppets
you made or bought because the vendor
at the market was so compelling you just
had to have them. you had to have him.
and you did. and now you pull down
the bridge between your houses.
you make him call before
he visits. you take a lover
for granted, you take
a lover who looks at you
like maybe you are magic. make
the first bottle you consume
in this place a relic. place it
on whatever altar you fashion
with a knife and five cranberries.
don’t lose too much weight.
stupid girls are always trying
to disappear as revenge. and you
are not stupid. you loved a man
with more hands than a parade
of beggars, and here you stand. heart
like a four-poster bed. heart like a canvas.
heart leaking something so strong
they can smell it in the street.
a maior bruxaria de 2018: Marosa Di Giorgio
Poema en voz: Deja tu comarca entre las fieras y los lirios... de Marosa Di Giorgio por Marosa Di Giorgio
Deja tu comarca entre las fieras y los lirios...
Deja tu comarca entre las fieras y los lirios. Y ven a mí esta noche oh, mi amado, monstruo de almíbar, novio de tulipán, asesino de hojas dulces. Así, aquella noche lo clamaba yo, de portal en portal, junto a la pared pálida como un hueso, todo llena de un miedo irisado y de un oscuro amor. Ya era la edad en que las abuelas habían retrocedido a moradas de subtierra y sólo sus almas perduraban encadenadas a las lámparas estremeciendo mariposas verdes y amarillas a la hora de los fuegos y los rezos. ¡Oh, mi amor!— lo clamaba yo, de puerta en puerta, de muro en muro- perdí mis trenzas, estoy desnuda, se cayó el sándalo de los medallones, la luna paró sobre las chimeneas su trineo de coral. Y no vienes, hombre, rosa, crimen, corazón. Voy a quebrar las almendras, a comer alabastro amargo. Voy a matar los panales. Me has hecho imaginar inútilmente tus médulas de sándalo, tu corazón de fuego. Ahora, reirán de mí las muertas que se acuerdan de tu amor. Así mentía yo, abrazada a su melena de oro, a su terrible miel. Él hablaba una lengua casi inteligible; pero, un rocío voraz, una lepra de flores, le terminaba el rostro. Y dentro estaban el azúcar y las cruces y los espejos con olor a jacintos. Nos acercamos a la mesa. Las abuelas renacieron en las lámparas. Le dije que iba a guardarlo, que iba a besarlo, que iba a guardar su corazón entre las piñas y los licores y las medallas. Otra vez jardín y sombras y columnas rotas y los cisnes serios como hombres. Empecé a matarlo. Porque no digas mi amor a nadie—a entreabrirle los pétalos del pecho, a sacarle el corazón. Él se apoyó en mi brazo, le latía con locura el almíbar de los dedos. Empezó a morir. Cerca del bosque empezó a morir. Rompí a llorar. Voy a matar los panales; voy a quebrar las almendras, a comer alabastro amargo. Su muerte siguió a lo largo del bosque. Quise recogerla en mi saya, reunirla en mis brazos, abrazarla. Voy a tener hijos de almíbar y de pétalos y no podrán besarte, oh, mi novio de miel, mi tulipán. Lloraba desesperadamente. Quería juntar los pétalos, reconstruir la miel, sacarlo de la muerte, ganarlo para siempre, que no tuviera fin este poema.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Um homem não nasce homem, torna-se homem
O que significa hoje ser-se viril? E o que significava há cem ou mil anos? Estará a virilidade em crise nas sociedades contemporâneas? HISTÓRIA DA VIRILIDADE, organizada em 3 volumes, traça a genealogia da identidade masculina e a sua transformação ao longo dos séculos nas sociedades ocidentais. O primeiro volume descreve a formação do ideal viril na Grécia e na Roma Antiga e acompanha as posteriores variações durante a época medieval e a Renascença.
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