terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Magda Lemonnier
"Magda Lemonnier recorta palavras dos jornais, palavras de todos os tamanhos, e guarda-as em caixinhas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa caixa verde, as palavras amantes. Numa caixa azul, as neutras. Numa caixa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia.
Às vezes, ela abre as caixas e vira-as para baixo sobre a mesa, para que as palavras se misturem como quiserem. Então, as palavras contam-lhe o que aconteceu e anunciam-lhe o que está para acontecer."
call me by your name
"When you least expect it, Nature has cunning ways of finding our weakest spot. Just remember: I am here. Right now you may not want to feel anything. Perhaps you never wished to feel anything. And perhaps it’s not to me that you’ll want to speak about these things. But feel something you obviously did.You had a beautiful friendship. Maybe more than a friendship. And I envy you. In my place, most parents would hope the whole thing goes away, to pray that their sons land on their feet. But I am not such a parent. In your place, if there is pain, nurse it. And if there is a flame, don’t snuff it out. Don’t be brutal with it. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster, that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to make yourself feel nothing so as not to feel anything ― what a waste!Then let me say one more thing. It will clear the air. I may have come close, but I never had what you had. Something always held me back or stood in the way. How you live your life is your business. But remember, our hearts and our bodies are given to us only once. Most of us can’t help but live as though we’ve got two lives to live, one is the mockup, the other the finished version, and then there are all those versions in between. But there’s only one, and before you know it, your heart is worn out, and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now there’s sorrow. I don’t envy the pain. But I envy you the pain."
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Pursuit
Dans le fond des forêts votre image me suit.
RACINE
RACINE
There is a panther stalks me down:
One day I'll have my death of him;
His greed has set the woods aflame,
He prowls more lordly than the sun.
Most soft, most suavely glides that step,
Advancing always at my back;
From gaunt hemlock, rooks croak havoc:
The hunt is on, and sprung the trap.
Flayed by thorns I trek the rocks,
Haggard through the hot white noon.
Along red network of his veins
What fires run, what craving wakes?
Insatiate, he ransacks the land
Condemned by our ancestral fault,
Crying: blood, let blood be spilt;
Meat must glut his mouth's raw wound.
Keen the rending teeth and sweet
The singeing fury of his fur;
His kisses parch, each paw's a briar,
Doom consummates that appetite.
In the wake of this fierce cat,
Kindled like torches for his joy,
Charred and ravened women lie,
Become his starving body's bait.
Now hills hatch menace, spawning shade;
Midnight cloaks the sultry grove;
The black marauder, hauled by love
On fluent haunches, keeps my speed.
Behind snarled thickets of my eyes
Lurks the lithe one; in dreams' ambush
Bright those claws that mar the flesh
And hungry, hungry, those taut thighs.
His ardor snares me, lights the trees,
And I run flaring in my skin;
What lull, what cool can lap me in
When burns and brands that yellow gaze?
I hurl my heart to halt his pace,
To quench his thirst I squander blook;
He eats, and still his need seeks food,
Compels a total sacrifice.
His voice waylays me, spells a trance,
The gutted forest falls to ash;
Appalled by secret want, I rush
From such assault of radiance.
Entering the tower of my fears,
I shut my doors on that dark guilt,
I bolt the door, each door I bolt.
Blood quickens, gonging in my ears:
The panther's tread is on the stairs,
Coming up and up the stairs.
Sylvia Plath
"Sinto que toda a arte, toda a literatura, todas as sinfonias compostas, são os restos de uma batalha cósmica perdida. A tarefa não é escrever verso, nem pintar quadro, nem fazer poema concreto. A tarefa é fazer da vida algo decente. Nós, os chamados artistas, não somos mais do que aves necrófagas que vão traduzindo os escombros de uma batalha perdida." Raúl Zurita
domingo, 14 de janeiro de 2018
O mundo de ontem
Aqui está um dos livros que mais gostei de ler em 2017. A pretexto de uma herança de uma colecção de 264 netsuke, Edmund de Wall conta-nos a história da sua família, os Ephrussi, judeus originários de Odessa que se instalam em Paris e Viena no século XIX. Charles Ephrussi serve de inspiração a Marcel Proust como modelo do esteta Swann em Em Busca do Tempo Perdido. Apaixonado pelo coleccionismo, Charles compra os netsuke quando os objectos japoneses fazem furor nos salões parisienses, e envia-os posteriormente como presente de casamento ao primo banqueiro em Viena. Mais tarde, três crianças brincam com a colecção, até que a História lhes cai em cima e a Segunda Guerra Mundial vota o grande império da família ao esquecimento, restando apenas essa colecção de netsuke, subtraídos do gigantesco palácio vienense, na altura ocupado pelos nazis, um a um, no bolso de uma fiel criada, e escondidos depois no seu colchão de palha.
Para além de um apaixonante livro de memórias no qual acedemos à vida de pessoas extraordinárias, é-nos também contada a tumultuosa história dessa Europa novecentista que soçobra no século XX.
LADY LAZARUS
I have done it again.
One year in every ten
I manage it -
A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot
A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.
Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? -
The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour beath
Will vanish in a day.
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.
What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see
Them unwrap me hand and foot -
The big streap tease,
Gentlemen, ladies
These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,
Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.
The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut.
As a seashell.
The had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.
Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.
It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical
Come back in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
"A miracle!"
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart -
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash-
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there-
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
Sylvia Plath
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Paris 2017: esfinges, bacantes e pâtisserie. Bonnes aventures!
Le Sommeil, Auguste Rodin (Musée Rodin)
Les Causeuses ou Les Bavardes, Camille Claudel (Musée Rodin)
L'Âge Mûr ou Le Chemin de la Vie, Camille Claudel (Musée Rodin)
Porte de l'Enfer, Auguste Rodin (Musée d'Orsay)
Orphée, Gustave Moreau (Musée d'Orsay)
L'Énigme, Gustave Doré (Musée d'Orsay)
Erzulie et ses soeurs, Pierrot Barra (Musée du Quai Branly)
Musée Louvre
Máscara demónio teatro nô (Musée de l'Orangerie)
Bonecas Dada (Musée de l'Orangerie)
Autoportrait en Neptune, Kees van Dongen
Souvenirs de la galerie des glaces à Bruxelles, Otto Dix (Centre Pompidou)
Bildnis der Journalistin Sylvia von Harden, Otto Dix (Centre Pompidou)
Musikanten, August Sander (Centre Pompidou)
La mariée, Niki de Saint Phalle (Centre Pompidou)
The Rebellion of the dead, Nalini Malani (Centre Pompidou)
E duas caixinhas do amado Joseph Cornell!
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Fire walk with me
Termino o ano com uma constatação curiosa: comprei vários
livros na Feira do Livro de Lisboa deste ano e o que mais me agradou foi um que me custou a módica quantia de 3 euros – PREPARA-TE PARA A
MORTE, de May Sarton (lembrete para 2018: inspeccionar ainda mais cuidadosamente as caixas
com os saldos da Cotovia na feira). Sem leviandade alguma, posso dizer que foi
dos melhores livros que li este ano. É uma narrativa pequenina, lê-se bem numa
noite, mas a sua escrita concentrada é carburada por uma poderosa inflamação.
Em primeiro lugar, o livro tem o
mérito de nos colocar literalmente na pele e na cabeça de uma senhora solteira,Caro, professora reformada, que por um revés de saúde se vê depositada num lar para a
terceira idade, à mercê dos cuidados negligentes de terceiros. Eu, que gosto de
me imaginar em várias vidas e situações, já tinha dedicado algum tempo a pensar
na velhice, e sempre suspeitei de que esta se assemelha a uma segunda infância,
na qual nos encontramos completamente desamparados, com a grande diferença face
à primeira infância que, desta vez, nos despimos até da esperança de que amanhã
poderá ser um dia melhor, ou de que a vida poderá novamente começar a mexer,
pois que o futuro certo é a morte, esse desenlace que sempre conhecemos mas do
qual sempre desviámos o olhar, forçando-nos à distracção.
May Sartron confirma-me que não
me enganei: a velhice é essa vulnerabilidade extrema, sem qualquer descanso ou possibilidade de distracção, em que um acerta as contas finais consigo mesmo. Mas PREPARA-TE PARA A MORTE E SEGUE-ME também me insinua que, nessas
excursões da minha imaginação, vi apenas uma árvore e não a floresta toda. Para
além do desamparo, da solidão, pode também acontecer a descredibilização, a
retirada progressiva dos direitos outorgados aos adultos, uma infantilização
forçada que priva progressivamente o «idoso» de razoabilidade, de dignidade e
até de humanidade, no sentido mais político do termo.
Para além de todo este mundo, o
livro agarrou-me num momento singular da minha vida em que me sentia
particularmente invadida por uma raiva pouco lúcida, duvidando constantemente
das minhas considerações e escolhas. E nessa fase, este livro foi como um braço
súbito que me alcançasse a meio de um desvario e, desviando-me para uma berma,
me sussurrasse : «essa raiva não é nada pouco lúcida, é preciso que escaves um
pouco mais, que te interesses um pouco mais por esse mistério que és, para que
possas entender como às vezes é preciso lutar pela sanidade contra tudo e
contra todos».
Não sou digna, uma leprosa – uma velha sem
controle sobre si própria. Quando chorei tanto naquele escuro, era uma pequena
criança castigada que chorava, mas é contra isso que tenho de batalhar – o desejo
de ser perdoada, de ser de novo aceite.
(…)
Desde a minha crise sinto-me desmerecedora de
amor, além dos limites. E isto é a infância outra vez. Quantas vezes não me
mandaram para a cama sem jantar por causa de uma birra? E como é que em toda a
minha vida nunca resolvi esta raiva que há em mim? Contudo, Caro, lembra-te que
a raiva é o lado mau do fogo – tu tinhas fogo, e esse fogo fez de ti uma boa
professora, e às vezes uma lutadora destemida. O fogo pode ser purificador.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Da metereologia e das nuvens
Cada vez
se ouve falar mais de docuficção e de romances de não-ficção. Creio que a
tendência deriva de um facto essencial: não conseguimos suportar a vida apenas
com base no quotidiano mas também não nos identificamos com histórias sem
carnalidade. É preciso encantar novamente a vida e despertar do longo sono os
deuses adormecidos e silentes.
O
METEREOLOGISTA de Olivier Rolin poderá encaixar nessa categoria de romance de
não-ficção. Mas o único mérito reside no facto do Rolin ter encontrado uma
história impressionante – a história verídica de Alexei Feodossevitch
Vangengheim, o metereologista da URSS, acusado, em 1934, de sabotador do
socialismo e deportado para um campo de concentração e, que até à véspera da
sua morte atroz, enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários e adivinhas.
A reprodução a cores de parte dessa correspondência, belíssimamente ilustrada,
foi afinal a razão que me levou a comprar este livro.
A
leitura flui, de forma dolorosa, indignada, pois estamos sempre a recordar-nos
que aquela história aconteceu realmente – e a perguntar-nos, vezes e vezes sem
conta, como foi possível? Como é
possível? O livro vale sem dúvida pela história que nos revela e pela
russofonia do autor mas, ainda assim, senti em certas passagens que faltava a
Olivier Rolin unhas para alcançar a grande beleza do romance de não-ficção.
Parece mais um diário, com as recolecções possíveis dos factos e algumas
divagações, como se o autor tivesse medo de arriscar uma fusão mais empática
com as suas personagens. E, no entanto, pergunto-me, será possível empatizar-se
com um real tão pobre poeticamente, tão ridiculamente violento e triste? Dificilmente,
creio.
E
talvez que este livro não me tenha preenchido por completo, porque me recordava
repetidamente O CASO DO CAMARADA TULAEV, muito provavelmente o melhor romance
de não-ficção sobre o grande terror das purgas estalinistas. A história de
Vangengheim repete o que já tinha aprendido nessa obra-prima: o motivo rídiculo
pelo qual se é acusado de sabotagem do socialismo, os mecanismos dessa imparável
engrenagem da morte que faz com que os inocentes acabem por confessar os crimes
imaginários de que são acusados, os detractores e fuziladores que acabam também
eles por ser denunciados e fuzilados, os Matveiev dessa época assombrosa…
É altura de apresentar Mikhail
Matveiev, executor do NKVD (…). É pela sua mão, pois faz ponto de honra de não
delegar a tarefa de matar, nunca se cansa de sangue, é pela sua mão que vai
morrer Alexei Feodossievitch Vangengheim (…). Durante a guerra civil, participa
na tomada do Palácio de Inverno (que não foi de modo algum o evento heróico
fabricado por Einsenstein), mas é enquanto encarregado das execuções, um cargo
que tem futuro, que integra a polícia política em 1918. Como recompensa pelo
seu trabalho, que faz com paixão (ele não é de todo um «sabotador»), recebe
distinções que têm nome de revólveres: Browning, Walter. Relógios de ouro,
aparelhos de radio Radiola. Mimos para um carrasco. Toma portanto conta em Kem
da coluna dos mil cento e dezasseis condenados das Slovoki (…).
O lugar da execução é «na floresta»,
sem mais pormenor – não há outra coisa senão floresta em torno de Medvejegorsk.
Cavam grandes valas, precipitam-se os condenados para dentro delas, viram-nos
de barriga para baixo e matam-nos com um tiro na nuca. Não «alguém» mas ele,
pessoalmente, Matveiev. Quando lhe perguntam se viu alguns dos seus homens dar
uma sova aos condenados, responde que de facto aconteceu mas não chegou a ver
porque estava em baixo, na cova, com o seu revólver Nagant. De vez em quando,
quando se sente cansado, quando tem vontade de descomprimir, de fumar um
cigarro, volta a subir e passa a tarefa ao seu adjunto, o tenente Alafer, mas,
regra geral, é ele que se encontra no fim da cadeia, as suas botas na lama
sanguinolenta, cheia de miolos. Todos os dias, ou antes todas as noites, porque
aquelas coisas têm lugar à noite, nas noites de vinte e sete de outubro de 1937
e de um a quatro de novembro (…), ele avia entre duzentos e duzentos e
cinquenta contrarrevolucionários. E, para além disso, tem de assinar as
declarações que atestam que cada sentença foi executada. Em suma, trabalha a
mata-cavalos, mereceu o seu relógio de ouro.
Como foi possível? Como é possível?
Como foi possível? Como é possível?
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Conselhos preciosos para o grande frio
Saibas, amado filho, que, se te encantes de alguém, não deves ceder indiscriminadamente ao prazer, estejas tu bêbedo ou sóbrio, porque é sabido que o sêmen que de ti irrompe é sempre germe de almas e pessoas. Não te entregues ao prazer inebriado de vinho, é coisa danosa e deletéria; melhor esperar, ao menos, que os efeitos do álcool passem. E não deixes que o prazer comande sempre que fiques excitado, pois esse é um comportamento verdadeiramente animalesco, e os animais não conhecem nem tempo nem lugar. Os homens, ao contrário, devem sempre saber o momento justo, diferenciando-se assim das feras.
Em relação à escolha entre garotos e mulheres, não limites tua preferência a um único gênero, garotos ou mulheres, para que tu possas obter prazer de ambos os sexos, evitando assim a inimizade de um ou de outro.
Os excessos, como te disse, são danosos, mas, saibas que a abstinência também tem seus perigos. Qualquer coisa que faças deve ser feita de acordo com teu desejo e não por obrigação, de modo que o dano seja menor.
Havendo desejo ou não, é todavia aconselhável que te controles durante o grande calor e o grande frio. É nas duas estações extremas que as paixões produzem os efeitos mais deletérios, principalmente para os mais velhos. De todos os momentos do ano, ao invés, é a primavera, com seu clima temperado e suas fontes túrgidas, a estação mais propícia, onde a face do mundo se mostra feliz e faceira. E assim como o macrocosmo, graças à primavera rejuvenesce nosso corpo, que é o microcosmo. Os humores do corpo tornam-se temperados e o sangue de nossas veias se dilatam, assim como o sêmen nos lombos. Mesmo sem uma vontade precisa, irresistível se torna a busca por prazeres e incontrolável a necessidade de regozijos e encontros, mas se autêntico é o ardor, menor é o dano.
E assim a vida segue. Se possível não dês vazão a teus líquidos vitais no calor tórrido e no inverno rígido, e caso percebas um aumento do ardor procura reestabelecer o equilíbrio com uma dieta harmoniosa. Durante o verão dá predileção aos garotos, e reserva o inverno às mulheres, respeitando sempre um sano equilíbrio sazonal. E, se neste discurso fui breve, é porque mais não serve.
Kay Ka’us ibn Iskandar (Qābūs-nāme, séc.XI)
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Der Dopplegänger
«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pode — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo notcurno. O seu amigo nocturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exactamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspectos…»
É do mestre e vale cada pagina. Embora aparente ser um Dostoievski menor, lê-se de uma assentada, com aflição, furor e abjecção. Foi publicado quando Dostoievski tinha apenas 24 anos: já tinha começado a grande escavação psicológica donde extrairia Raskolnikóv e os irmãos Karamázov . молодец!
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
os mistérios do Oriente
(…) e foi
assim que os nossos antepassados, obrigados a viver quer quisessem quer não em
divisões escuras, descobriram um dia o belo no meio da sombra, e depressa a
utilizaram para obter efeitos estéticos.
(…)
A
maquilhagem incluí, entre outras coisas, o escurecimento dos dentes [técnica
conhecida como ohaguro e que
consistia em pintar os dentes com tinta negra]; podemos perguntar-nos se o
objectivo desta operação não seria o de, depois de preenchido de obscuridade
todo o espaço à excepção do rosto, colocar um toque de sombra até mesmo na
boca.
(…)
Mas qual
a razão para esta tendência de procurar o belo no obscuro com tanta força se
manifestar apenas nos Orientais? Ainda não há muito, também o Ocidente ignorava
a electricidade, o gás, o petróleo, mas, tanto quanto sei, nunca sentiu a
tentação de se deliciar com a sombra. Desde sempre os espectros japoneses são
desprovidos de pés; os espectros do Ocidente têm pés, mas, em contrapartida, todo
o seu corpo é, ao que parece, translúcido. Fosse ou não fosse por pormenores
destes, o que constatamos é que a nossa própria imaginação se move em trevas
negras como laca, enquanto os Ocidentais atribuem até aos seus espectros a
limpidez do vidro.
(…)
Qual
poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é
porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são
impostos, que desde sempre nos satisfazemos com a nossa presente condição;
consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos
a ele como a algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos
com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.
Pelo contrário,
os Ocidentais, sempre à espreita do progresso, agitam-se incessantemente na
procura de uma condição melhor que a actual. Sempre em busca de uma claridade
mais viva, afadigaram-se, passando da vela ao candeeiro de petróleo, do
petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica, para cercar o menor
recanto, o último refúgio da sombra.
(…)
Pensem no
sorriso de uma jovem mulher à luz vacilante de uma lanterna, que, de tempos a
tempos, entre uns lábios de um azul irreal de fogo-fátuo, fazia cintilar dentes
de laca negra: poder-se-á imaginar rosto mais branco que esse? Eu, pelo menos,
vejo-o mais branco que a brancura de qualquer mulher branca, nesse universo de
ilusões que trago gravado no cérebro.
A brancura
do homem branco é uma brancura translúcida, evidente e banal, enquanto aquela é
uma brancura de certa forma desligada do ser humano. Pode ser que uma brancura
assim definida não tenha qualquer existência real.
educação sentimental para veteranos
Gostei
muito de A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS e não tenho a certeza de conseguir
explicar bem. Trata-se de uma daquelas obras-primas que consegue submergir-nos
completamente, envolvendo-nos numa atmosfera única, redonda, imaculada e vítrea.
Qual redoma de cristal, nocturna e azulada, onde jovens mulheres nuas dormem
profundamente sob o efeito de poderosos narcóticos, abandonadas na sua
inconsciência à contemplação por homens idosos.
A edição
portuguesa é apresentada por uma introdução de Yukio Mishima, que começa por afirmar
o seguinte: «Parece haver, entre as obras dos grandes escritores, aquelas que
poderiam ser chamadas do obverso ou exterior, de significação à superfície, e
aquelas do reverso ou interior, de significação oculta; ou poderíamos
compará-las ao Budismo exotérico e esotérico! No caso de Kawabata, Terra de Neve inclui-se na primeira
categoria, enquanto A Casa das Belas
Adormecidas é seguramente uma obra-prima esotérica.»
Na minha
biblioteca mental, A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS mora ao lado de GOLPE DE
MISERICÓRDIA: dois tratados preciosos e voláteis sobre as esquivas ligações entre o erotismo, a transgressão e morte. Pois nas terras áridas dos maiores mistérios, o esforço mais recompensado é aquele que arrisca apenas o voo rasante da insinuação.
A Criada do Albergue do Pé Quebrado
Ela é uma bela, uma linda rapariga
Por quem enlouquece toda a gente em Riga
Ela é a criada do Pé Quebrado
Por um óbolo lhe tirei o toucado
Por dois tostões e meio… Por dois tostões e meio
Pois então, que fizestes? Apalpei-lhe um seio
E por um escudo vosso, um escudo de lei
Que haveis feito depois? O seu cu espreitei
E por dois escudos, então, que pudeste fazer?
Ora essa, tomar-lhe a cona e foder.
Assim pelo óbulo, pelos escudos e pelos tostões
Tive mama, cu e cona, mais sífilis nos colhões
E tudo isto num ápice, é bom fazer notar
Porque o homem que a amparou
Dez vezes esta soma pagou
E seis meses suspirou para o mesmo alcançar.
Diderot (1773)
Por quem enlouquece toda a gente em Riga
Ela é a criada do Pé Quebrado
Por um óbolo lhe tirei o toucado
Por dois tostões e meio… Por dois tostões e meio
Pois então, que fizestes? Apalpei-lhe um seio
E por um escudo vosso, um escudo de lei
Que haveis feito depois? O seu cu espreitei
E por dois escudos, então, que pudeste fazer?
Ora essa, tomar-lhe a cona e foder.
Assim pelo óbulo, pelos escudos e pelos tostões
Tive mama, cu e cona, mais sífilis nos colhões
E tudo isto num ápice, é bom fazer notar
Porque o homem que a amparou
Dez vezes esta soma pagou
E seis meses suspirou para o mesmo alcançar.
Diderot (1773)
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
I would rather not
“As minhas emoções iniciais tinham sido de
pura melancolia e sincera compaixão; mas, à medida que a noção do desamparo de
Bartleby se agigantou na minha imaginação, essa melancolia transformou-se em
medo, e a compaixão em repulsa. É muito verdade, e também terrível que, até
certo ponto, a evocação ou o espectáculo da infelicidade convoca os nossos
melhores sentimentos; mas em certos casos, e para lá de certo ponto, deixa de
ter esse efeito. Erra quem atribui invariavelmente este facto ao inerente
egoísmo do coração humano. Ele provém antes do desespero em remediar um mal
excessivo e de natureza orgânica. Para uma criatura sensível, a compaixão
representa amiúde o mesmo que sofrimento. E quando por fim compreendemos que
essa compaixão não pode gerar um auxílio efectivo, o senso comum manda que nos
livremos dela.”
A buen paso
Robert Walser ocupa um lugar privilegiado
no meu panteão de escritores, tanto pela sua escrita como pela sua biografia.
Há muito que queria ler Der Spaziergang;
assim, quando encontrei um exemplar em Barcelona no dia de Sant Jordi, tratei
de o oferecer a mim mesma.
Declaro que una hermosa mañana, ya no sé
exactamente a qué hora, como me vino en gana dar un paseo, me planté el
sombrero en la cabeza, abandoné el cuarto de los escritos o de los espíritus, y
bajé la escalera para salir a buen paso a la calle (…). El mundo matinal que se
extendía ante mis ojos me parecia tan bello como si lo viera por primera vez. Todo
lo que veía me daba la agradable impresión de cordialidade, bondad y juventud (…).
Pero basta por completo con que yo mismo sepa
lo que soy, y con que sea yo mismo el mejor informado esté sobre mi persona. A
menudo las apariencias engañan, señor mio, y lo mejor es dejar el juicio sobre
una persona a esa misma persona. Nadie puede conocer tan bien como él mismo a
un hombre que ha visto e vivido tanto. A veces ando errante en la niebla y en
mil vacilaciones y confusiones, y a menudo me siento miserablemente abandonado.
Pero pienso que es bello luchar. Un hombre no se siente orgulloso de las alegrías
y del plácer. En el fondo lo único que da orgullo y alegría al espíritu son los
esfuerzos superados con bravura y los sufrimientos soportados con paciencia. Pero
no gusta derrocar palabras a este respecto. Qué hombre honrado no ha estado
desvalido nunca en su vida, y qué ser humano ha mantenido por completo intactos
a lo largo de los años sus esperanzas, planes, sueños? Dónde está el alma cuyos
anhelos, osados deseos, dulces y elevadas concepciones de la felicidad se
cumplieron, sin tener que hacer descuentos en ellas?
(…) Yo me detenía y escuchaba, y de repente
se apoderó de mí un inefable sentimiento del mundo y una sensación de gratitud,
unida a él, que brotaba del alma com violencia (…) Los pasos descalzos en el
suelo agradable se volvieron plácer, y el silencio encedía oraciones en el alma
sentiente (…).
¿Pasear
¿respondí yo¿ me es imprescindible, para animarme y para mantener el contacto
con el mundo vivo, sin cuyas sensaciones no podría escribir media letra más ni
producir el más leve poema en verso o prosa. Sin pasear estaría muerto, y mi
profesión, a la que amo apasionadamente, estaría aniquilada. Sin pasear y
recibir informes no podría tampoco rendir informe alguno ni redactar el más
mínimo artículo, y no digamos toda una novela corta. Sin pasear no podría hacer
observaciones ni estudios. Un hombre tan inteligente y despierto como usted
podrá entender y entenderá esto al instante. En un bello y dilatado paseo se me
ocurren mil ideas aprovechables y útiles. Encerrado en casa, me arruinaría y
secaría miserablemente. Para mí pasear no sólo es sano y bello, sino también
conveniente y útil. Un paseo me estimula profesionalmente y a la vez me da
gusto y alegría en el terreno personal; me recrea y consuela y alegra, es para
mí un placer y al mismo tiempo tiene la cualidad de que me excita y acicatea a
seguir creando, en tanto que me ofrece como material numerosos objetos pequeños
y grandes que después, en casa, elaboro con celo y diligencia. Un paseo está
siempre lleno de importantes manifestaciones dignas de ver y de sentir. De
imágenes y vivas poesías, de hechizos y bellezas naturales bullen a menudo íos
lindos paseos, por cortos que sean. Naturaleza y costumbres se abren atractivas
y encantadoras a los sentidos y ojos del paseante atento, que desde luego tiene
que pasear no con los ojos bajos, sino abiertos y despejados, si ha de brotar
en él el hermoso sentido y el sereno y noble pensamiento del paseo. Piense cómo
el poeta ha de empobrecerse y fracasar de forma lamentable si la hermosa
Naturaleza maternal y paternal e infantil no le refresca una y otra vez con la
fuente de lo bueno y de lo hermoso. Piense cómo para el poeta la instrucción y
la sagrada y dorada enseñanza que obtiene ahí fuera, al juguetón aire libre,
son una y otra vez de la mayor importancia. Sin el paseo y sin la
contemplación de la Naturaleza a él vinculada, sin esa indagación tan agradable
como llena de advertencias, me siento como perdido y lo estoy de hecho. Con
supremo cariño y atención ha de estudiar y contemplar el que pasea la más
pequeña de las cosas vivas, ya sea un niño, un perro, un mosquito, una
mariposa, un gorrión, un gusano, una flor, un hombre, una casa, un árbol, un
arbusto, un caracol, un ratón, una nube, una montaña, una hoja o tan sólo un
pobre y desechado trozo de papel de escribir, en el que quizá un buen escolar
ha escrito sus primeras e inconexas letras. Las cosas más elevadas y las más
bajas, las más serias y las más graciosas, le son por igual queridas y bellas y
valiosas. No puede llevar consigo ninguna clase de sensible amor propio y
sensibilidad. Su cuidadosa mirada tiene que vagar y deslizarse por doquier,
desinteresada y carente de egoísmo; tiene que ser siempre capaz de disolverse
en la observación y percepción de las cosas, y ha de postergarse,
menospreciarse y olvidarse de sí mismo, sus quejas, necesidades, carencias,
privaciones, como el bravo, servicial y dispuesto al sacrificio soldado en
campaña. De otro modo, pasea tan sólo con media atención y medio espíritu, y
eso no vale nada. Tiene que ser capaz en todo momento de compasión, de
identificación y de entusiasmo, y ojalá que lo sea. Tiene que alzarse a elevado
arrebato y hundirse y saber descender a la más profunda y mínima cotidianeidad,
y probablemente sabe. Pero ese fiel y entregado disolverse y perderse en los
objetos y ese celoso amor por todas las manifestaciones y cosas lo hacen feliz,
como todo cumplimiento de obligación hace feliz y rico en lo más íntimo a quien
tiene una obligación que cumplir. Espíritu, entrega y fidelidad lo satisfacen y
elevan sobre su propia e insignificante persona de paseante, que con demasiada
frecuencia tiene reputación y mala fama de vagabundeo e inútil pérdida de
tiempo. Sus múltiples estudios lo enriquecen y entretienen, lo calman y
refinan y rozan a veces, por improbable que pueda sonar, con la ciencia exacta,
lo que nadie creería del en apariencia frívolo caminante. ¿Sabe usted que mi
cabeza trabaja dura y tercamente, y a menudo estoy activo en el mejor de los
sentidos, cuando parezco un archigandul y persona frívola sin responsabilidad,
sin pensamiento ni trabajo, perdido en el azul o en el verde, lento, soñador y
perezoso, que ofrece la peor de las impresiones? Secreta y misteriosamente,
siguen al paseante toda clase de hermosos y sutiles pensamientos de paseo, de
tal modo que en medio de su celoso y atento caminar tiene que parar, detenerse
y escuchar, que está cada vez más arrebatado y confundido por extrañas
impresiones y por la hechicera fuerza del espíritu, y tiene la sensación de ir
a hundirse de pronto en la tierra o de que ante sus ojos deslumbrados y
confusos de pensador y poeta se abre un abismo. La cabeza se le quiere caer, y
los por lo demás tan vivos brazos y piernas están como petrificados. Paisaje y
gente, sonidos y colores, rostros y figuras, nubes y sol giran como sombras a
su alrededor, y ha de preguntarse: «¿Dónde estoy?». Tierra y cielo fluyen y se
precipitan de golpe en una niebla relampagueante, brillante, apelotonada,
imprecisa; el caos empieza, y los órdenes desaparecen. Trabajosamente, el
conmocionado intenta mantener su sano conocimiento; lo consigue, y sigue
paseando confiado. ¿Considera usted del todo imposible que en un suave y
paciente paseo encuentre gigantes, tenga el honor de ver a profesores, trate al
pasar con libreros y empleados de banca, hable con futuras jóvenes cantantes y
antiguas actrices, coma con ingeniosas damas, pasee por los bosques, envíe
peligrosas cartas y me bata violentamente con insidiosos e irónicos sastres?
Todo esto puede suceder, y creo que de hecho ha sucedido. Al paseante le
acompaña siempre algo curioso, reflexivo y fantástico, y sería tonto si no lo
tuviera en cuenta o incluso lo apartara de sí; pero no lo hace; más bien da la
bienvenida a toda clase de extrañas y peculiares manifestaciones, hace amistad
y confraterniza con ellas, porque le encantan, las convierte en cuerpos con
esencia y configuración, les da formación y ánima,mientras ellas por su parte
lo animan y forman. En una palabra, me gano el pan de cada día pensando,
cavilando, hurgando, excavando, meditando, inventando, analizando, investigando
y paseando tan a disgusto como el que más. ¡Y aunque quizá ponga la cara más
complacida del mundo soy serio y concienzudo en grado sumo, y aunque no parezca
más que delicado y soñador soy un sólido experto! Espero que todas estas
detalladas explicaciones le convenzan de mis sinceras aspiraciones y le
satisfagan plenamente.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
zero killed
Parece que sou das poucas pessoas que continuam a requisitar
livros na biblioteca. Como não consigo comprar todos os livros que me interessam,
uso a biblioteca para poder passar alguns dias com livros esgotados ou com
livros que despertam a minha curiosidade mas não tenho a certeza de querer
adquirir. Na última leva, trouxe dois livros do Geoff Dyer – YOGA PARA PESSOAS
QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e MAS É BONITO – e AS COISAS QUE OS HOMENS ME EXPLICAM,
de Rebecca Solnit.
Comecei pelo YOGA PARA PESSOAS QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e
li-o até ao fim, com perseverança. O autor é culto, descontraído e a atmosfera
masculina e cheia de experiências com drogas manteve-me na expectativa. Mas não
passou daí. É um livro indolor, que não me acrescentou muita coisa. Devia ter
desconfiado logo quando vi as doze (!) citações marketeiras dispersas pelo
plano da capa. Uma delas reza assim: “Se Hunter S. Thompson, Roland Barthes,
Paul Theroux e Sylvia Plath fossem de férias no mesmo corpo, talvez inventassem
algo deste género. Há muito que não lia um livro tão divertido. É o meu livro
do ano.” E para apimentar ainda mais a coisa, a autoria deste excerto é
atribuída ao Independent on Sunday (who the fuck!) Bem-vindos à época em que o
que ajuda a vender livros são pregões e não a alta literatura!
Embora ache que o Geoff Dyer não seja um autor mau, mas apenas
OK (meaning: zero killed), decidi prescindir da leitura de MAS É BONITO (uma frase que eu digo muitas vezes) e
segui para a leitura do aclamado livro da Rebecca Solnit. Embora desta vez não
tenha sido uma menina tão bem-comportada. Três ensaios bastaram para me
aperceber que embora a autora maneje autores e referências algo eruditas, o seu
estilo não atinge a profundidade com que desejo desafiar-me. Interessava-me
sobretudo ler o que tinha escrito sobre o mansplaining
(porque a mim também me acontece muitas vezes os homens me explicarem coisas
que eu sei melhor que eles) mas fiquei com a ideia de que o grande mérito do
seu artigo foi mesmo o de cunhar esse termo que depois se tornou mais
interessante com a sua própria disseminação.
Resumindo, desculpem se me assemelho ao velho do Restelo, mas
desinteresso-me cada vez mais dos contemporâneos.
flop!
Soube da existência deste livro numa manhã e logo o desejei.
Nesse mesmo dia, regressava a casa ao fim de tarde de metro quando julguei ver
um rapaz sentado a meu lado com esse mesmo livro. Pensei que era imaginação
minha – o desejo tem muitas artimanhas – mas poucos segundos depois, percebi
que era mesmo o TRÊS HORAS ESQUERDAS! O rapaz era livreiro, tinha ido a uma
livraria qualquer entregar aquele livro e mais alguns exemplares e dera com a
cara na porta. Sorte a minha que, conquistada pelo design e materiais do livro,
pude comprar um exemplar a caminho de casa!
Li-o numa hora (uma hora, não três) na manhã seguinte e fiquei algo desapontada. Já
disse que o desejo tem muitas artimanhas: às vezes, o objecto desejado
anuncia-se com pompa, até vem vestido com as roupagens mais charmosas mas… por
alguma razão, vá-se lá entender, não ganha corpo, não se cola à pele!
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