domingo, 17 de janeiro de 2016

Oblomovite


Parece que a minha alma continua a receber apenas os grandes abalos russos. OBLOMOV foi a primeira odisseia literária deste inverno e a sua leitura foi plena de delícias e recompensas.

Como qualquer grande livro, apresenta várias camadas e as personagens são dotadas de uma densidade psicológica que só os grandes mestres conseguem traduzir em palavras. Tentando afunilar a coisa, podemos dizer que OBLOMOV caminha pelas mesmas paisagens que NIELS LYHNE e A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, dois livros que me são muito caros. Oblomov cativa-me desde os primeiros capítulos, com a sua figura obesa horizontalmente disposta, tudo rejeitando, da mundaneidade ao trabalho, passando pela literatura. Como ele não deixa de ter razão nos seus argumentos (tudo é maçada!), sigo a leitura, curiosa sobre o destino dessa vida que se deseja apenas poética, imune às agressões e preocupações miúdas. A questão é que sem a vidinha também não há vida e tudo sai hipotecado. Il faut avoir du courage!

“Ela receava cair numa apatia como a de Oblomov. Mas por mais que tentasse afastar da sua alma esses instantes de periódicos entorpecimentos, de sono da alma, de vez em quando assediava-a primeiro um sonho de felicidade, rodeava-a uma noite azul e envolvia-a um devaneio, depois seguia-se outra vez a paragem meditabunda, como que um repouso da vida, e em seguida… o receio, o temor, a aflição, como que uma tristeza surda, e soavam na sua cabeça inquieta questões vagas, brumosas.
Olga escutava-as com atenção, atormentava-se, mas sem conseguir nada; não podia compreender o que a sua alma pedia e procurava de tempos a tempos, mas compreendia apenas que pedia e procurava qualquer coisa, como se – horrível é dizê-lo – tivesse saudades, como se não lhe bastasse uma vida feliz, como se estivesse cansada dela e exigisse novas experiências inauditas, espreitando para mais longe no futuro…
«O que vem a ser isto? – pensava com horror. – Que mais é necessário e possível desejar? Para onde ir? Para lado nenhum! Não há mais caminho… Será possível que não, será possível que tenhas completado o círculo da vida? Será possível que aqui esteja tudo… tudo…» - dizia a sua alma e deixava qualquer coisa por dizer… e Olga olhava à sua volta com inquietação, não teria alguém descoberto, não tivesse alguém escutado esre murmúrio da alma… Interrogava com os olhos o céu, o mar, a floresta… não havia resposta em parte nenhuma: havia apenas a lonjura, a profundeza e a escuridão.
(…)
Ele riu-se.
– Não tenhas medo – disse (…). Não, a tua tristeza, a tua aflição, se é apenas aquilo que eu penso, é antes um sinal de força… As buscas de uma mente activa e agitada, irrompem por vezes para lá dos limites da vida, não encontram naturalmente resposta, e surge a tristeza… o descontentamento temporário com a vida… Isso é uma tristeza da alma que interroga a vida sobre o seu mistério… Pode ser isso que se passa contigo… Se assim for, não é nenhuma tolice.
(…)
– Estou a transbordar de felicidade, desejo tanto viver… e de repente surge uma espécie de amargura…
– Ah! Isso é o que temos de pagar pelo fogo de Prometeu! Não basta suportar, é preciso também amar essa tristeza e respeitar as dúvidas e as questões: elas estão a transbordar de excessos, da exuberância da vida, e surgem mais no auge da felicidade, quando não há desejos vulgares; não surgem no meio da vida corriqueira: onde imperam a dor e a necessidade, as pessoas não têm tempo para isso; as multidões caminham pela vida e conhecem esse nevoeiro da dúvida, a angústia das questões… Mas para quem se encontrou com elas na devida altura, não constituem um tormento, antes são visitantes bem-vindas.
– Mas não há maneira de as vencer: elas causam a melancolia e a indiferença… por quase tudo…  – acrescentou ela com hesitação.
– Não por muito tempo. Depois refrescam a vida  – disse ele. – Conduzem ao abismo do qual não se consegue nenhuma resposta, e fazem-nos olhar de novo a vida com mais amor… Desafiam forças já experientes para a luta, como que para as não deixar adormecer…
(…)
– E se elas nunca nos deixarem: se a tristeza nos inquietar cada vez mais?... – perguntou ela.
– Ora bem, que se há-de fazer? Aceitamo-lo como um novo elemento da vida… Mas não, isso não acontece, não pode acontecer connosco! Isso não é a tua melancolia, isso é o mal geral da humanidade.”

just a good book




Este aniversário, uns amigos ofereceram-me um bilhete para o concerto da Patti Smith no Coliseu. Delirei com o presente e com o concerto. Frente àquela figura andrógina, senti-me perante um xamã, que ora conduzia a multidão ao êxtase, ora a tranquilizava.

O concerto causou-me uma impressão tão poética que decidi que era hora de terminar a leitura de Just Kids, tantas vezes começada e logo abandonada. Desta vez persisti e, terminada a leitura, o que tenho a dizer contraria a opinião da maioria das pessoas que leram o livro e com quem falei.

O início da narrativa é muito bom : “Quando era muito nova, a minha mãe levava-me a passear ao longo da margem do rio Prairie, no parque Humboldt (…). O rio estreitava antes de desaguar numa ampla lagoa e foi na superfície desta que vi um milagre singular. Um longo pescoço encurvado alçou-se de um traje de plumas brancas. Chapinhou na água luzidia, agitando as suas grandes asas, e levantou voo rumo ao céu.
Cisne, disse-me a minha mãe, ao dar-se conta da minha excitação.
Mas essa palavra, só por si, dificilmente atestava aquela magnificência ou transmitia a emoção que ele me produzira. A visão dele gerara um ímpeto para o qual eu não dispunha de palavras, um desejo de falar do cisne, de dizer algo acerca da brancura dele, da natureza explosiva do seu movimento, e do lento batimento das suas asas.”

O nível mantém-se ao longo da parte que conta a infância da autora. Várias vezes, Patti afirma-se como uma bookish person: “O meu amor pela oração encontrou aos poucos um rival no meu amor pelo livro (…). Fiquei completamente enamorada pelo livro. O que queria era lê-los a todos, e as coisas sobre as quais lia causavam-me novas ânsias”. Comigo também se passou de forma semelhante, embora o início do meu amor pelos livros tenha coincidido com um profundo e feroz ateísmo, que só há poucos anos começou a soçobrar.

No que diz respeito ao eixo principal do livro, a juventude partilhada com Robert Mappelthorpe, a qualidade torna-se mais oscilatória. Embora a história cative pela enorme lealdade dos dois artistas em gestação e haja também o inegável interesse do testemunho de alguém que viveu tão por dentro a cena artística de Nova Iorque em finais dos anos 60 e início dos 70, senti muitas vezes que algumas partes enumeravam apenas o que Robert e Patti iam fazendo e como iam sobrevivendo à fome e à descrença. Ou seja, senti que lhe faltava angústia e que isso acontecia de modo propositado. Pode-se argumentar que a beleza do livro reside precisamente nessa visão cândida que Patti parece nunca perder e que, de facto, pressenti nela no concerto do Coliseu. Também eu prezo muito a inocência (embora esta tenha mil artimanhas, como diria o Herberto Hélder) mas literariamente falando, isso não me basta.


O que não impede que eu continue a gostar da Patti. Lerei com certeza o M Train. Talvez aí se desnudem as angústias que aqui senti subtraídas.