quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Conselhos preciosos para o grande frio
Saibas, amado filho, que, se te encantes de alguém, não deves ceder indiscriminadamente ao prazer, estejas tu bêbedo ou sóbrio, porque é sabido que o sêmen que de ti irrompe é sempre germe de almas e pessoas. Não te entregues ao prazer inebriado de vinho, é coisa danosa e deletéria; melhor esperar, ao menos, que os efeitos do álcool passem. E não deixes que o prazer comande sempre que fiques excitado, pois esse é um comportamento verdadeiramente animalesco, e os animais não conhecem nem tempo nem lugar. Os homens, ao contrário, devem sempre saber o momento justo, diferenciando-se assim das feras.
Em relação à escolha entre garotos e mulheres, não limites tua preferência a um único gênero, garotos ou mulheres, para que tu possas obter prazer de ambos os sexos, evitando assim a inimizade de um ou de outro.
Os excessos, como te disse, são danosos, mas, saibas que a abstinência também tem seus perigos. Qualquer coisa que faças deve ser feita de acordo com teu desejo e não por obrigação, de modo que o dano seja menor.
Havendo desejo ou não, é todavia aconselhável que te controles durante o grande calor e o grande frio. É nas duas estações extremas que as paixões produzem os efeitos mais deletérios, principalmente para os mais velhos. De todos os momentos do ano, ao invés, é a primavera, com seu clima temperado e suas fontes túrgidas, a estação mais propícia, onde a face do mundo se mostra feliz e faceira. E assim como o macrocosmo, graças à primavera rejuvenesce nosso corpo, que é o microcosmo. Os humores do corpo tornam-se temperados e o sangue de nossas veias se dilatam, assim como o sêmen nos lombos. Mesmo sem uma vontade precisa, irresistível se torna a busca por prazeres e incontrolável a necessidade de regozijos e encontros, mas se autêntico é o ardor, menor é o dano.
E assim a vida segue. Se possível não dês vazão a teus líquidos vitais no calor tórrido e no inverno rígido, e caso percebas um aumento do ardor procura reestabelecer o equilíbrio com uma dieta harmoniosa. Durante o verão dá predileção aos garotos, e reserva o inverno às mulheres, respeitando sempre um sano equilíbrio sazonal. E, se neste discurso fui breve, é porque mais não serve.
Kay Ka’us ibn Iskandar (Qābūs-nāme, séc.XI)
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Der Dopplegänger
«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pode — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo notcurno. O seu amigo nocturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exactamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspectos…»
É do mestre e vale cada pagina. Embora aparente ser um Dostoievski menor, lê-se de uma assentada, com aflição, furor e abjecção. Foi publicado quando Dostoievski tinha apenas 24 anos: já tinha começado a grande escavação psicológica donde extrairia Raskolnikóv e os irmãos Karamázov . молодец!
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
os mistérios do Oriente
(…) e foi
assim que os nossos antepassados, obrigados a viver quer quisessem quer não em
divisões escuras, descobriram um dia o belo no meio da sombra, e depressa a
utilizaram para obter efeitos estéticos.
(…)
A
maquilhagem incluí, entre outras coisas, o escurecimento dos dentes [técnica
conhecida como ohaguro e que
consistia em pintar os dentes com tinta negra]; podemos perguntar-nos se o
objectivo desta operação não seria o de, depois de preenchido de obscuridade
todo o espaço à excepção do rosto, colocar um toque de sombra até mesmo na
boca.
(…)
Mas qual
a razão para esta tendência de procurar o belo no obscuro com tanta força se
manifestar apenas nos Orientais? Ainda não há muito, também o Ocidente ignorava
a electricidade, o gás, o petróleo, mas, tanto quanto sei, nunca sentiu a
tentação de se deliciar com a sombra. Desde sempre os espectros japoneses são
desprovidos de pés; os espectros do Ocidente têm pés, mas, em contrapartida, todo
o seu corpo é, ao que parece, translúcido. Fosse ou não fosse por pormenores
destes, o que constatamos é que a nossa própria imaginação se move em trevas
negras como laca, enquanto os Ocidentais atribuem até aos seus espectros a
limpidez do vidro.
(…)
Qual
poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é
porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são
impostos, que desde sempre nos satisfazemos com a nossa presente condição;
consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos
a ele como a algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos
com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.
Pelo contrário,
os Ocidentais, sempre à espreita do progresso, agitam-se incessantemente na
procura de uma condição melhor que a actual. Sempre em busca de uma claridade
mais viva, afadigaram-se, passando da vela ao candeeiro de petróleo, do
petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica, para cercar o menor
recanto, o último refúgio da sombra.
(…)
Pensem no
sorriso de uma jovem mulher à luz vacilante de uma lanterna, que, de tempos a
tempos, entre uns lábios de um azul irreal de fogo-fátuo, fazia cintilar dentes
de laca negra: poder-se-á imaginar rosto mais branco que esse? Eu, pelo menos,
vejo-o mais branco que a brancura de qualquer mulher branca, nesse universo de
ilusões que trago gravado no cérebro.
A brancura
do homem branco é uma brancura translúcida, evidente e banal, enquanto aquela é
uma brancura de certa forma desligada do ser humano. Pode ser que uma brancura
assim definida não tenha qualquer existência real.
educação sentimental para veteranos
Gostei
muito de A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS e não tenho a certeza de conseguir
explicar bem. Trata-se de uma daquelas obras-primas que consegue submergir-nos
completamente, envolvendo-nos numa atmosfera única, redonda, imaculada e vítrea.
Qual redoma de cristal, nocturna e azulada, onde jovens mulheres nuas dormem
profundamente sob o efeito de poderosos narcóticos, abandonadas na sua
inconsciência à contemplação por homens idosos.
A edição
portuguesa é apresentada por uma introdução de Yukio Mishima, que começa por afirmar
o seguinte: «Parece haver, entre as obras dos grandes escritores, aquelas que
poderiam ser chamadas do obverso ou exterior, de significação à superfície, e
aquelas do reverso ou interior, de significação oculta; ou poderíamos
compará-las ao Budismo exotérico e esotérico! No caso de Kawabata, Terra de Neve inclui-se na primeira
categoria, enquanto A Casa das Belas
Adormecidas é seguramente uma obra-prima esotérica.»
Na minha
biblioteca mental, A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS mora ao lado de GOLPE DE
MISERICÓRDIA: dois tratados preciosos e voláteis sobre as esquivas ligações entre o erotismo, a transgressão e morte. Pois nas terras áridas dos maiores mistérios, o esforço mais recompensado é aquele que arrisca apenas o voo rasante da insinuação.
A Criada do Albergue do Pé Quebrado
Ela é uma bela, uma linda rapariga
Por quem enlouquece toda a gente em Riga
Ela é a criada do Pé Quebrado
Por um óbolo lhe tirei o toucado
Por dois tostões e meio… Por dois tostões e meio
Pois então, que fizestes? Apalpei-lhe um seio
E por um escudo vosso, um escudo de lei
Que haveis feito depois? O seu cu espreitei
E por dois escudos, então, que pudeste fazer?
Ora essa, tomar-lhe a cona e foder.
Assim pelo óbulo, pelos escudos e pelos tostões
Tive mama, cu e cona, mais sífilis nos colhões
E tudo isto num ápice, é bom fazer notar
Porque o homem que a amparou
Dez vezes esta soma pagou
E seis meses suspirou para o mesmo alcançar.
Diderot (1773)
Por quem enlouquece toda a gente em Riga
Ela é a criada do Pé Quebrado
Por um óbolo lhe tirei o toucado
Por dois tostões e meio… Por dois tostões e meio
Pois então, que fizestes? Apalpei-lhe um seio
E por um escudo vosso, um escudo de lei
Que haveis feito depois? O seu cu espreitei
E por dois escudos, então, que pudeste fazer?
Ora essa, tomar-lhe a cona e foder.
Assim pelo óbulo, pelos escudos e pelos tostões
Tive mama, cu e cona, mais sífilis nos colhões
E tudo isto num ápice, é bom fazer notar
Porque o homem que a amparou
Dez vezes esta soma pagou
E seis meses suspirou para o mesmo alcançar.
Diderot (1773)
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
I would rather not
“As minhas emoções iniciais tinham sido de
pura melancolia e sincera compaixão; mas, à medida que a noção do desamparo de
Bartleby se agigantou na minha imaginação, essa melancolia transformou-se em
medo, e a compaixão em repulsa. É muito verdade, e também terrível que, até
certo ponto, a evocação ou o espectáculo da infelicidade convoca os nossos
melhores sentimentos; mas em certos casos, e para lá de certo ponto, deixa de
ter esse efeito. Erra quem atribui invariavelmente este facto ao inerente
egoísmo do coração humano. Ele provém antes do desespero em remediar um mal
excessivo e de natureza orgânica. Para uma criatura sensível, a compaixão
representa amiúde o mesmo que sofrimento. E quando por fim compreendemos que
essa compaixão não pode gerar um auxílio efectivo, o senso comum manda que nos
livremos dela.”
A buen paso
Robert Walser ocupa um lugar privilegiado
no meu panteão de escritores, tanto pela sua escrita como pela sua biografia.
Há muito que queria ler Der Spaziergang;
assim, quando encontrei um exemplar em Barcelona no dia de Sant Jordi, tratei
de o oferecer a mim mesma.
Declaro que una hermosa mañana, ya no sé
exactamente a qué hora, como me vino en gana dar un paseo, me planté el
sombrero en la cabeza, abandoné el cuarto de los escritos o de los espíritus, y
bajé la escalera para salir a buen paso a la calle (…). El mundo matinal que se
extendía ante mis ojos me parecia tan bello como si lo viera por primera vez. Todo
lo que veía me daba la agradable impresión de cordialidade, bondad y juventud (…).
Pero basta por completo con que yo mismo sepa
lo que soy, y con que sea yo mismo el mejor informado esté sobre mi persona. A
menudo las apariencias engañan, señor mio, y lo mejor es dejar el juicio sobre
una persona a esa misma persona. Nadie puede conocer tan bien como él mismo a
un hombre que ha visto e vivido tanto. A veces ando errante en la niebla y en
mil vacilaciones y confusiones, y a menudo me siento miserablemente abandonado.
Pero pienso que es bello luchar. Un hombre no se siente orgulloso de las alegrías
y del plácer. En el fondo lo único que da orgullo y alegría al espíritu son los
esfuerzos superados con bravura y los sufrimientos soportados con paciencia. Pero
no gusta derrocar palabras a este respecto. Qué hombre honrado no ha estado
desvalido nunca en su vida, y qué ser humano ha mantenido por completo intactos
a lo largo de los años sus esperanzas, planes, sueños? Dónde está el alma cuyos
anhelos, osados deseos, dulces y elevadas concepciones de la felicidad se
cumplieron, sin tener que hacer descuentos en ellas?
(…) Yo me detenía y escuchaba, y de repente
se apoderó de mí un inefable sentimiento del mundo y una sensación de gratitud,
unida a él, que brotaba del alma com violencia (…) Los pasos descalzos en el
suelo agradable se volvieron plácer, y el silencio encedía oraciones en el alma
sentiente (…).
¿Pasear
¿respondí yo¿ me es imprescindible, para animarme y para mantener el contacto
con el mundo vivo, sin cuyas sensaciones no podría escribir media letra más ni
producir el más leve poema en verso o prosa. Sin pasear estaría muerto, y mi
profesión, a la que amo apasionadamente, estaría aniquilada. Sin pasear y
recibir informes no podría tampoco rendir informe alguno ni redactar el más
mínimo artículo, y no digamos toda una novela corta. Sin pasear no podría hacer
observaciones ni estudios. Un hombre tan inteligente y despierto como usted
podrá entender y entenderá esto al instante. En un bello y dilatado paseo se me
ocurren mil ideas aprovechables y útiles. Encerrado en casa, me arruinaría y
secaría miserablemente. Para mí pasear no sólo es sano y bello, sino también
conveniente y útil. Un paseo me estimula profesionalmente y a la vez me da
gusto y alegría en el terreno personal; me recrea y consuela y alegra, es para
mí un placer y al mismo tiempo tiene la cualidad de que me excita y acicatea a
seguir creando, en tanto que me ofrece como material numerosos objetos pequeños
y grandes que después, en casa, elaboro con celo y diligencia. Un paseo está
siempre lleno de importantes manifestaciones dignas de ver y de sentir. De
imágenes y vivas poesías, de hechizos y bellezas naturales bullen a menudo íos
lindos paseos, por cortos que sean. Naturaleza y costumbres se abren atractivas
y encantadoras a los sentidos y ojos del paseante atento, que desde luego tiene
que pasear no con los ojos bajos, sino abiertos y despejados, si ha de brotar
en él el hermoso sentido y el sereno y noble pensamiento del paseo. Piense cómo
el poeta ha de empobrecerse y fracasar de forma lamentable si la hermosa
Naturaleza maternal y paternal e infantil no le refresca una y otra vez con la
fuente de lo bueno y de lo hermoso. Piense cómo para el poeta la instrucción y
la sagrada y dorada enseñanza que obtiene ahí fuera, al juguetón aire libre,
son una y otra vez de la mayor importancia. Sin el paseo y sin la
contemplación de la Naturaleza a él vinculada, sin esa indagación tan agradable
como llena de advertencias, me siento como perdido y lo estoy de hecho. Con
supremo cariño y atención ha de estudiar y contemplar el que pasea la más
pequeña de las cosas vivas, ya sea un niño, un perro, un mosquito, una
mariposa, un gorrión, un gusano, una flor, un hombre, una casa, un árbol, un
arbusto, un caracol, un ratón, una nube, una montaña, una hoja o tan sólo un
pobre y desechado trozo de papel de escribir, en el que quizá un buen escolar
ha escrito sus primeras e inconexas letras. Las cosas más elevadas y las más
bajas, las más serias y las más graciosas, le son por igual queridas y bellas y
valiosas. No puede llevar consigo ninguna clase de sensible amor propio y
sensibilidad. Su cuidadosa mirada tiene que vagar y deslizarse por doquier,
desinteresada y carente de egoísmo; tiene que ser siempre capaz de disolverse
en la observación y percepción de las cosas, y ha de postergarse,
menospreciarse y olvidarse de sí mismo, sus quejas, necesidades, carencias,
privaciones, como el bravo, servicial y dispuesto al sacrificio soldado en
campaña. De otro modo, pasea tan sólo con media atención y medio espíritu, y
eso no vale nada. Tiene que ser capaz en todo momento de compasión, de
identificación y de entusiasmo, y ojalá que lo sea. Tiene que alzarse a elevado
arrebato y hundirse y saber descender a la más profunda y mínima cotidianeidad,
y probablemente sabe. Pero ese fiel y entregado disolverse y perderse en los
objetos y ese celoso amor por todas las manifestaciones y cosas lo hacen feliz,
como todo cumplimiento de obligación hace feliz y rico en lo más íntimo a quien
tiene una obligación que cumplir. Espíritu, entrega y fidelidad lo satisfacen y
elevan sobre su propia e insignificante persona de paseante, que con demasiada
frecuencia tiene reputación y mala fama de vagabundeo e inútil pérdida de
tiempo. Sus múltiples estudios lo enriquecen y entretienen, lo calman y
refinan y rozan a veces, por improbable que pueda sonar, con la ciencia exacta,
lo que nadie creería del en apariencia frívolo caminante. ¿Sabe usted que mi
cabeza trabaja dura y tercamente, y a menudo estoy activo en el mejor de los
sentidos, cuando parezco un archigandul y persona frívola sin responsabilidad,
sin pensamiento ni trabajo, perdido en el azul o en el verde, lento, soñador y
perezoso, que ofrece la peor de las impresiones? Secreta y misteriosamente,
siguen al paseante toda clase de hermosos y sutiles pensamientos de paseo, de
tal modo que en medio de su celoso y atento caminar tiene que parar, detenerse
y escuchar, que está cada vez más arrebatado y confundido por extrañas
impresiones y por la hechicera fuerza del espíritu, y tiene la sensación de ir
a hundirse de pronto en la tierra o de que ante sus ojos deslumbrados y
confusos de pensador y poeta se abre un abismo. La cabeza se le quiere caer, y
los por lo demás tan vivos brazos y piernas están como petrificados. Paisaje y
gente, sonidos y colores, rostros y figuras, nubes y sol giran como sombras a
su alrededor, y ha de preguntarse: «¿Dónde estoy?». Tierra y cielo fluyen y se
precipitan de golpe en una niebla relampagueante, brillante, apelotonada,
imprecisa; el caos empieza, y los órdenes desaparecen. Trabajosamente, el
conmocionado intenta mantener su sano conocimiento; lo consigue, y sigue
paseando confiado. ¿Considera usted del todo imposible que en un suave y
paciente paseo encuentre gigantes, tenga el honor de ver a profesores, trate al
pasar con libreros y empleados de banca, hable con futuras jóvenes cantantes y
antiguas actrices, coma con ingeniosas damas, pasee por los bosques, envíe
peligrosas cartas y me bata violentamente con insidiosos e irónicos sastres?
Todo esto puede suceder, y creo que de hecho ha sucedido. Al paseante le
acompaña siempre algo curioso, reflexivo y fantástico, y sería tonto si no lo
tuviera en cuenta o incluso lo apartara de sí; pero no lo hace; más bien da la
bienvenida a toda clase de extrañas y peculiares manifestaciones, hace amistad
y confraterniza con ellas, porque le encantan, las convierte en cuerpos con
esencia y configuración, les da formación y ánima,mientras ellas por su parte
lo animan y forman. En una palabra, me gano el pan de cada día pensando,
cavilando, hurgando, excavando, meditando, inventando, analizando, investigando
y paseando tan a disgusto como el que más. ¡Y aunque quizá ponga la cara más
complacida del mundo soy serio y concienzudo en grado sumo, y aunque no parezca
más que delicado y soñador soy un sólido experto! Espero que todas estas
detalladas explicaciones le convenzan de mis sinceras aspiraciones y le
satisfagan plenamente.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
zero killed
Parece que sou das poucas pessoas que continuam a requisitar
livros na biblioteca. Como não consigo comprar todos os livros que me interessam,
uso a biblioteca para poder passar alguns dias com livros esgotados ou com
livros que despertam a minha curiosidade mas não tenho a certeza de querer
adquirir. Na última leva, trouxe dois livros do Geoff Dyer – YOGA PARA PESSOAS
QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e MAS É BONITO – e AS COISAS QUE OS HOMENS ME EXPLICAM,
de Rebecca Solnit.
Comecei pelo YOGA PARA PESSOAS QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e
li-o até ao fim, com perseverança. O autor é culto, descontraído e a atmosfera
masculina e cheia de experiências com drogas manteve-me na expectativa. Mas não
passou daí. É um livro indolor, que não me acrescentou muita coisa. Devia ter
desconfiado logo quando vi as doze (!) citações marketeiras dispersas pelo
plano da capa. Uma delas reza assim: “Se Hunter S. Thompson, Roland Barthes,
Paul Theroux e Sylvia Plath fossem de férias no mesmo corpo, talvez inventassem
algo deste género. Há muito que não lia um livro tão divertido. É o meu livro
do ano.” E para apimentar ainda mais a coisa, a autoria deste excerto é
atribuída ao Independent on Sunday (who the fuck!) Bem-vindos à época em que o
que ajuda a vender livros são pregões e não a alta literatura!
Embora ache que o Geoff Dyer não seja um autor mau, mas apenas
OK (meaning: zero killed), decidi prescindir da leitura de MAS É BONITO (uma frase que eu digo muitas vezes) e
segui para a leitura do aclamado livro da Rebecca Solnit. Embora desta vez não
tenha sido uma menina tão bem-comportada. Três ensaios bastaram para me
aperceber que embora a autora maneje autores e referências algo eruditas, o seu
estilo não atinge a profundidade com que desejo desafiar-me. Interessava-me
sobretudo ler o que tinha escrito sobre o mansplaining
(porque a mim também me acontece muitas vezes os homens me explicarem coisas
que eu sei melhor que eles) mas fiquei com a ideia de que o grande mérito do
seu artigo foi mesmo o de cunhar esse termo que depois se tornou mais
interessante com a sua própria disseminação.
Resumindo, desculpem se me assemelho ao velho do Restelo, mas
desinteresso-me cada vez mais dos contemporâneos.
flop!
Soube da existência deste livro numa manhã e logo o desejei.
Nesse mesmo dia, regressava a casa ao fim de tarde de metro quando julguei ver
um rapaz sentado a meu lado com esse mesmo livro. Pensei que era imaginação
minha – o desejo tem muitas artimanhas – mas poucos segundos depois, percebi
que era mesmo o TRÊS HORAS ESQUERDAS! O rapaz era livreiro, tinha ido a uma
livraria qualquer entregar aquele livro e mais alguns exemplares e dera com a
cara na porta. Sorte a minha que, conquistada pelo design e materiais do livro,
pude comprar um exemplar a caminho de casa!
Li-o numa hora (uma hora, não três) na manhã seguinte e fiquei algo desapontada. Já
disse que o desejo tem muitas artimanhas: às vezes, o objecto desejado
anuncia-se com pompa, até vem vestido com as roupagens mais charmosas mas… por
alguma razão, vá-se lá entender, não ganha corpo, não se cola à pele!
domingo, 29 de outubro de 2017
o magma da alma
Desde que fui aos Açores que ando
apaixonada por vulcões. Ao mesmo tempo, nasceu em mim uma ideia de mente
vulcânica que ainda não consigo elaborar muito bem, pois ainda não chegou o
tempo da sua errupção. Pus-me, no entanto, a caminho e ando a ler com muita
curiosidade e atenção Carl Gustav Jung. E entretanto, encontrei esta
aproximação nas cartas da Etty Hillesum, outro amor meu:
–
As depressões, quando não são da natureza da pessoa, são pausas criadas pelo
inconsciente na consciência sobrecarregada, e devem por isso, voltar a
desaparecer a partir do inconsciente; assim, é necessário deixar extinguir
essas mesmas pausas de um modo passivo –
Nesse
tempo, a palavra «enfraquecer» foi para mim uma fórmula libertadora.
Os filhos do meio dia
Tornei a ler O ESTRANGEIRO pela
terceira vez. A primeira vez que o li teria uns 16 anos, voltei a lê-lo nos
meus vinte e, eis que agora, na década dos trinta, me surpreendo a mim mesma
empatizando com Mersault a um nível inédito. Vejo-o como um homem ingénuo mas
perspicaz ao ponto de entender que «todo o mundo tem as suas razões», um homem
de uma sensibilidade extrema que se anestesia e procura afastar-se do mundo,
permanecendo numa espécie de sensualidade bestial (“Dormi quase todo o tempo”, “Lavei
também as mãos”, “Pensei que passara
mais um domingo, que a mãe fora a enterrar, que ia regressar ao meu trabalho, e
que, no fim de contas, continuava tudo na mesma”, «lavei as mãos”).
Nesta leitura, Mersault
pareceu-me um homem que tenta sobreviver e ser funcional, sufocando sonhos e
ligações. (“E, pelo estranho barulho que
me chegava através da parede, compreendi que estava a chorar. Não sei porquê,
pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava de me levantar cedo. Não tinha
fome e deitei-me sem jantar”; “O céu
estava verde e eu sentia-me contente.
Mas, apesar disso, fui directamente para casa, pois queria cozer umas batatas”;
“Pensando bem não era infeliz. Quando era
estudante, alimentara ambições desse género. Mas quando abandonei os estudos,
compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância”).
Uma existência ancorada no básico, na rotina, sem grandes euforias nem
arrebatamentos – talvez para evitar o abismo e as suas depressões. A sensibilidade
extrema da personagem denuncia-se muito raramente, em breves passagens poéticas
como esta: “No coração desta casa cheia
de sonos, o queixume subiu lentamente, como uma flor nascida do silêncio.”
Mas não é na poesia que o
conflito de Mersault se resolve. Optando pelo conformismo e pela via racional, todo
o substrato emocional da personagem não encontra outra opção para além da inscrição
na carne como sintoma. E daí advém tanta necessidade de lavar as mãos
repetidamente – como quem procura afastar-se de qualquer contaminação mais
passional –, de dormir tanto, de apreciar o sol no corpo, tal como um bovino
ruminando apenas sensações, a salvo de pensamentos mais pantanosos. Não admira,
portanto, que toda a descrição do assassínio do árabe se faça também ao nível
do corpo e das suas sensações Eis o homem que queria fugir da noite e das suas
profundidades encandeado pelo sol do meio dia. “Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como
então, doía-me a testa, sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam ao
mesmo tempo debaixo da pele.”
A segunda parte da narrativa
mostra o outro lado da moeda, o lado verdadeiramente absurdo. A mesma sociedade
que obriga ao cultivo da insensibilidade, condena violentamente os «criminosos»
que cria. “Gostaria de lhe poder explicar
cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependera verdadeiramente de
nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã.”
Graças à sua ingenuidade, Mersault quebra a regra do jogo, aferrando-se à verdade
e não vergando à simulação dos ditos bons sentimentos. “Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta a
tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu
me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do
mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de
estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o
sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o
era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os
espectadores me recebessem com gritos de ódio.”
Subway Hot Books
Todos os dias ando de metro. São poucas as pessoas que vejo a ler mas sempre que encontro uma, tento descobrir, qual alcoviteira, que livro a entretém. A maioria fica-se exactamente por essa leitura de entretenimento que pouco me interessa. Mas esta segunda-feira, um rapaz envolto num capuz lia, com um ar muito concentrado e interessado, ZEN AND THE BIRDS OF APPETITE. Levei a ocorrência como uma recomendação insinuada à minha pessoa.
Pan-teísmo
“Ambos os panoramas me
pertenciam, achava eu, e esta impressão de dupla posse dava-me uma sensação
embriagante de universalidade, como se, para onde quer que olhasse, me fosse
dado ver uma faceta de mim mesmo – uma ilusão malsã, vim depois a descobrir, já
que mais tarde me fez crer que só valia a pena visitar um país ou uma cidade se
lá adquirisse uma casa ou se escrevesse um livro acerca desse lugar. Como todas
as fantasias napoleónicas, era também um sentimento de solidão. Se tudo me
pertencia, então eu próprio não pertencia a nenhum recanto especial do mundo. As
pessoas que avistava do cume do meu monte, a lavrarem os seus campos, a
cuidarem das suas lojas e oficinas, a namoriscarem enquanto gozavam as suas
férias à beira-mar, habitavam um mundo diferente do meu. Elas estavam todas
juntas, eu estava completamente só. Elas faziam parte de uma irmandade, eu era
um estranho. Elas falavam umas com as outras num idioma que todas entendiam,
acerca de temas que a todas interessavam. Eu falava numa língua que era só
minha e alimentava pensamentos que as encheriam de tédio (…).
Três grandes castanheiros
cresciam num recanto, e eu costumava deitar-me ali, oculto na erva alta e
húmida entre eles, no silêncio denso e de aroma adocicado das tardes estivais
de Oxford. Rãs saltavam em volta de mim, distraindo-me; gafanhotos moviam-se
nas ervas, a um palmo dos meus olhos; os sinos de Oxford dobravam, lânguidos,
marcando a hora certa; quando ouvia alguém a chamar-me –«Morris! Morris! És tu
a lançar! – sabia que, fosse lá quem fosse, não se ia dar ao trabalho de
procurar muito. Marvell achava que o Jardim do Éden era certamente melhor
quando Adão ali deambulou sozinho, e toda a minha vida senti em certos lugares,
tanto em zonas rurais como em cidades, uma aura que me parece verdadeiramente
sexual, mais pura mas não menos excitante do que a sexualidade do corpo. A origem
desta emoção perversa mas oportuna parece-me residir naquelas tardes perfumadas
de críquete, já tão distantes.
Numes
sedentos da mortal beleza
Verde arvoredo tomam como presa,
E Pã quis Siringe com amor fatal,
Não como ninfa, como caniçal.”
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Livros alegres para pessoas tristes
Pontualmente, atravesso desertos de leitura. São momentos
altamente angustiantes, esses em que me falta um livro. Pois que tenho sempre
de estar a ler e quando nenhum livro me conquista, quando nada adere, sinto-me
desnorteada, perdida, esvaziada de qualquer paixão pela vida – circulo então pelas
estantes, como uma fera magra de savana e caça, passando os dedos pelas
lombadas, inventando sortilégios e sorteios que me possam revelar a minha
próxima leitura. E quando tudo falha, não me resta senão aninhar-me na minha
solidão e regressar aos contos de Tchékhov.
Nabokov afirmou que “Tchékhov escrevia livros tristes para
pessoas alegres; quero dizer com isto que só um leitor com sentido de humor
será capaz de sentir a fundo a tristeza deles.” Tenha Nabokov razão ou não, o
facto é que sempre encontro conforto na leitura dos seus contos e vários meses,
ou até mesmo anos, vejo volverem-me ao pensamento algumas das suas personagens
ou enredos. São todos magníficos, nenhum desilude, sobretudo porque cobrem o
amplo espectro de sentimentos que compõem uma vida plenamente vivida e pensada;
porém, existem alguns que me são mais queridos por que me reflectiram naquela
fase exacta da vida em que os li. São eles SAUDADE, lido numa fase de luto
intenso pela perda de um amigo, e INIMIGOS, lido numa altura em que pensava
persistentemente no egocentrismo de algumas pessoas. Neste último, embora o
narrador não tome partido por nenhuma das desgraças que se abatem quer sobre o
doutor Kirílov, quer sobre o nobre Abóguin, sinto que também o meu coração se
tomou dessa mesma «injusta convicção, indigna do coração humano» que acomete o doutor
até ao túmulo.
Augusto, o palhaço melancólico
“E então, certo dia, como que numa revelação luminosa
apercebeu-se de que já há muito, muito tempo, não conhecia a felicidade. A descoberta
deixou-o tão agitado que ardia de impaciência por chegar ao quarto onde morava.
Contudo, em vez de correr para o hotel, chamou um táxi e ordenou ao motorista
que o levasse aos subúrbios da cidade. Mas onde, exactamente?, quis saber o
motorista. «Em qualquer lado onde haja árvores», respondeu, nervoso. «Mas despache-se,
vamos – é urgente.»
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