domingo, 22 de julho de 2018

O Idiota



Quanto mais leio Dostoievski, mais me convenço de que a sua obra se concentra no dissecar dos “bons sentimentos” e das suas implicações sobre o sistema nervoso. Os protagonistas das suas histórias costumam estar reféns das ideias delirantes da monomania e, rodeados de gente oportunista e cínica, tendem a deixar-se arrastar com volúpia até às mais profundas camadas do abismo, exactamente por não saberem moderar as afecções dos seus sentimentos e códigos éticos. É o caso de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov e O Idiota – Raskólnikov, Dimitri e Ivan Karamázov, Nastássia Filíppovna estão todos sob o signo da honra maculada e do orgulho ferido e, partindo desses sentimentos, deleitam-se rebolando na lama, destruindo-se a si próprios num derradeiro acto de vingança contra essa ordem das coisas que tanto os magoa. 

Não deixa de ser curioso que todos estes dramas sejam atravessados sempre pela questão do ateísmo, o que também me faz crer que os romances existencialistas de Dostoievski são explorações profundamente políticas, nascidas num século XIX que testemunha privilegiadamente a colisão dos valores humanistas com uma ética capitalista nihilista. Fui reler os meus apontamentos à leitura de Os Irmãos Karamázov e encontrei a seguinte reflexão: “Aqui todos acabam destroçados, acossados por febres nervosas e raiva. A vida moderna exige a falência de todos os valores para que nenhum totalitarismo se possa opor a um mercado livre. O sistema capitalista requer a premissa de que tudo é permitido, tendo como efeito colateral uma certa institucionalização do crime que torna todos criminosos, tanto os que alinham como os que desalinham. Num mundo que perdeu o valor da promessa, «a palavra de honra», ninguém se salva e quem se continua a guiar por tais valores, é tomado por louco ou por idiota, vociferando palavras que já ninguém entende.”

O príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin é esse idiota, epitomizado pelo título da obra e a sua ética da compaixão não é entendida por ninguém, nem mesmo pela melhor e mais decadente aristocracia, apenas pelas crianças. Este idiota distingue-se das outras personagens ultrajadas apenas no ponto de partida, isto é, pelo afecto dominante – nele tudo é compaixão e empatia; encontrará no entanto um destino ainda mais cruel. Excesso de empatia, meu nobre príncipe: todo o mundo tem as suas razões mas é preciso cuidado quando procuramos compreender e perdoar a todos – não é humanamente possível abrigar todas as dores do mundo num único corpo.

O príncipe saltou da cadeira, novamente assustado. Quando Rogójin se calou
(e ele calou-se de repente) , inclinou-se devagar para ele, sentou-se ao seu lado e, com o coração a bater fortemente, respirando com dificuldade, ficou a olhá-lo. Rogójin não voltou a cabeça, até parecia ter-se esquecido dele. O príncipe olhava e esperava; o tempo ia passando, começava a clarear. Rogójin, de vez em quando, começava de repente num balbucio brusco e desconexo, em voz alta e rouca; começava a gritar e a rir-se; o príncipe estendia para ele a mão trémula e tocava-lhe suavemente na cabeça, nos cabelos, afagava-lhos e acariciava-lhe as faces… não podia fazer mais nada! Ele próprio tinha começado outra vez a tremer, e de novo as suas pernas pareciam paralisadas. Uma sensação completamente nova invadia-lhe o coração com uma infinita mágoa. Entretanto amanheceu completamente: por fim, deitou-se na almofada, já completamente exausto e desesperado, e encostou o rosto ao rosto pálido e imóvel de Rogójin; as lágrimas corriam-lhe dos olhos para as faces de Rogójin, mas talvez ele já não sentisse as suas próprias lágrimas e não soubesse nada delas…

Quando, já passadas muitas horas, abriram a porta e as pessoas entraram, encontraram o assassino completamente desmaiado e febril. O príncipe estava sentado na esteira ao lado dele, imóvel, e aos acessos de gritos e delírios do doente, passava-lhe suavemente a mão trémula pelos cabelos e pelas faces, como que a acariciá-lo e a acalmá-lo. Mas já não compreendia nada do que lhe perguntavam, nem reconhecia as pessoas que entravam e o rodeavam. E se o próprio Schneider aparecesse agora, vindo da Suiça, para ver o seu antigo aluno e paciente, também ele, recordando o estado em que por vezes o príncipe ficava no primeiro ano de tratamento na Suiça, agitaria a mão e diria, como nesse tempo: «Idiota!»

domingo, 15 de julho de 2018

LÍBANO: Beirut, Bourj Hammoud, Byblos, Tripoli, Souks e Oscar Niemeyer, Batroun, Baalbek, Hezbollah e cedros, sempre na companhia de Rumi.

All day I think about it, then at night I say it.
Where did I come from, and what am I supposed to be doing?
I have no idea.
My soul is from elsewhere, I'm sure of that
and I intend to end up there.

This drunkness began in some other tavern
When I get back around to that place,
I'll be completely sober. Meanwhile,
I'm like a bird from another continent, sitting in this aviary.
The day is coming when I fly off,
but who is it now in my ear who hears my voice?
Who says words with my mouth?

Who looks out with my eyes? What is the soul?
I cannot stop asking.
If I could taste one sip of an answer,
I could break out of this prison for drunks.
I didn't come here of my own accord, and I can't leave that way.
Whoever brought me here will have to take me home.


















sábado, 14 de julho de 2018

I saw a man pursuing the horizon


I saw a man pursuing the horizon;
Round and round hey sped.
I was disturbed at this;
I accosted the man.
"It is futile," I said,
"You can never--"

"You lie," he cried,
And ran on.


Stephen Crane

floresta vermelha fora


El lenguaje de Hänsel

Perdida en la espesura
del lenguaje,
dejaste caer guijarros mínimos,
signos de salvación,
para que los recogiese el advertido.
Pero, incomibles,
se los traga la tierra.

Y sigues penetrando
en la floresta silenciosa
aunque la veas cerrarse
tras tuas pasos.

Ida Vitale

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O que é do mar se os rios se recusam?





Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.

(…) Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana – força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz – mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve livros?

(…) mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?
Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

under your spell




“Digo isto aqui e agora para poupar o leitor a uma desilusão. Não sou um homem moral (embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como uma vez disse o meu querido Akutagawa Ryunosuke, eu não tenho princípios; só tenho nervos. Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver  com o olhar do que com as convicções, incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa (…). Porque esta é a cidade do olhar; as nossas outras faculdades limitam-se a tocar um débil segundo violino. (…)

No Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, num céu cinzento-pérola. Abrimos as janelas num gesto largo, e o quarto fica instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em parte de oxigénio húmido, em parte de cafés e preces. Por muitos e por mais variados comprimidos que tenhamos para tomar esta manhã, sentimos que ainda não está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança, ou pelo menos um futuro. (Disse Francis Bacon que a esperança é um bom pequeno-almoço mas uma fraca ceia.)
(…)
Para os casos mais benignos de qualquer dos males, uma estadia aqui constitui a melhor das terapias, e o turismo em Veneza é isso mesmo. Dorme-se bem nesta cidade, porque os nossos pés se esfalfam a esmagar a agitação da psique ou, o que vem a dar no mesmo, uma consciência pesada.

(…)
E prometi a mim próprio que se alguma vez viesse a deixar o meu império, se alguma vez esta enguia fugisse do Báltico, a primeira coisa que faria seria vir a Veneza, alugar um quarto no rés do chão de um palazzo, para que as ondas levantadas pela passagem dos barcos me salpicassem a janela, escrever duas ou três elegias apagando cigarros nas lajes húmidas do chão, tossir e beber e, quando o dinheiro escasseasse, em vez de apanhar um comboio, comprar uma pequena Browning e estoirar ali mesmo os miolos, incapaz de morrer em Veneza de causas naturais.

(…)
Eu diria, porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tao absurda como a ânsia de a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior obra-prima que a nossa espécie criou.

(…)
Julgo, porém, que se poderá falar de fidelidade quando alguém volta ao lugar do seu amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido. Como qualquer virtude, de facto, a fidelidade só tem valor se for instintiva ou idiossincrática, e não racional (…). O amor é um sentimento desinteressado, uma rua de sentido único.


Da zoofilia



Tenho a consciência que tenho alguns preconceitos estúpidos. O maior deles será ter sempre recusado ler banda desenhada. Tal recusa não se justifica pelo demérito da BD - tenho a certeza que existirão obras excelentes - mas por uma incapacidade minha em ler simultaneamente textos e imagens. Creio que prefiro apenas texto, para manter uma certa liberdade anárquica das minhas imagens mentais.

Outro preconceito será considerar o Luís Sepúlveda um autor para adolescentes. Mas, ao ouvir duas pessoas falar n' O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR num curto espaço de tempo, trouxe um exemplar da biblioteca: eich, durou uma tarde e a cabeça manteve-se entre as orelhas.

A Porta



– Então, por vingança, juntei-me ao barbeiro. Não lhe contaram? Também me teria juntado ao diabo, se me persuadisse de que algum homem poderia amar-me, mas devo ter alguma doença, porque esse não só me deixou, como me roubou, e eu nem era feia. É-me indiferente. Eu não morri.
            Calou-se por uns instantes, cheirando uma folha de menta que esmigalhava entre os dedos.
            – A gente não morre facilmente, aprenda isso, e mais tarde, aquilo a que se resistiu torna-nos tão inteligentes que desejamos ainda assim, voltar a ser estúpidos, completamente estúpidos.

«e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro»



Um livro muito interessante, sobretudo para descobrir outros textos, como por exemplo O Sonho do Aposento Vermelho de Cao Xuequin, A Tragicomédia de Calixto e Melibea, O Livro da Flor de Ibn Dawud, O Colar da Pomba de Ibn Hazm, a heroína Cynthia de Propércio e por aí adiante.

«Nem que seja na cabeça, as coisas vão se descontrolar.»

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A alma humana é porca como um ânus

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!

Álvaro de Campos

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O coração



No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -, 
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

Stephen Crane

La locura que viene de las ninfas




«De pronto, se abre nuestros ojos el amplio abanico de la posesión griega. Los griegos llamaban a quien está poseído kátochos, palabra descriptiva que corresponde al uso moderno de “poseído”. Pero, exactamente como para el léxico óptico, donde reconocemos una multiplicidad de términos y una fineza de diferenciaciones que se han perdido en nuestras lenguas, así para la posesión nos encontramos frente a una ramificación de la terminología que se funda en un conocimiento del fenómeno mucho más articulado y lúcido que el nuestro. Si queremos entender algo del secreto de las ninfas, tendremos que analizar toda clase de testimonios para que se vuelva claro al menos en qué se distinguía el rapto por parte de las ninfas de las otras formas de la posesión.
[…]
La mente era un lugar abierto, sujeto a invasiones, incursiones, súbitas o provocadas. Incursio, recordemos, es término técnico de la posesión. Cada una de esas invasiones era señal de una metamorfosis. Y cada metamorfosis era una adquisición de conocimiento. Por supuesto no de un conocimiento que queda disponible como un algoritmo. Sino un conocimiento que es un páthos, como Aristóteles definió a la experiencia mistérica.
[…]
De hecho, cuando los seres divinos desaparecieron – al menos ante los ojos de quien ya no sabía advertir su presencia – junto con ellos se desvaneció el cortejo de los seres intermedios: ángeles, demonios, ninfas. Para muchos fue un alivio. La vida se mostraba menos peligrosa y más previsible. Y la palabra nymphólēptos cayó en desuso. En cuanto a las ninfas, volvieron a habitar en algún nicho solitario en la historia del arte. Planteo entonces una hipótesis: quizá el escándalo que Lolita suscitó en algunos cuando apareció – y al parecer continúa suscitando – se debía sobre todo al hecho de que Nabokov obligaba a la mente, con los medios traicioneros y matemáticos del arte, a despertarse a la evidencia, a la existencia de esos seres – las ninfas – que pueden también presentarse bajo la forma de una chiquilla estadounidense con calcetines blancos. Más que el sexo, el escándalo era la literatura misma.»

Be my knife



DAME

Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra

No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice

Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!


Carlos Edmundo de Ory 

Josefina ou O Povo dos Ratos



«A nossa cantora chama-se Josefina. Quem não a ouviu não sabe o que é o poder da canção. A todos, sem excepção, arrebata o seu canto, o que será de louvar mais ainda se tivermos em conta que no geral a nossa espécie não gosta de música. […]
               Já pensei muitas vezes sobre o que de facto significa esta música. Nós não somos nada musicais; como é possível então que compreendamos o canto da Josefina ou, visto que a Josefina acha que não a compreendemos. A resposta mais fácil seria que a beleza deste canto é tão grande que até o mais embotado dos sentidos é incapaz de lhe resistir, mas esta resposta não satisfaz. Se assim fosse, então o seu canto teria de, instintivamente e sempre, dar a impressão de ser qualquer coisa fora do normal, a impressão de que há qualquer coisa a sair daquela garganta que nunca antes ouvimos e que não temos sequer capacidade para ouvir, qualquer coisa cuja audição só a Josefina e mais ninguém nos pode dar a ouvir. Mas é precisamente isso que na minha opinião não acontece, não o sinto e também não observei nada de parecido nos outros. Entre nós, no nosso círculo de confiança, confessamos uns aos outros abertamente que o canto da Josefina enquanto canto não representa nada fora do normal.
               Será aliás sequer um canto? […] Não será se calhar apenas um assobio? E é claro que todos reconhecemos um assobio, é a grande habilidade artística do nosso povo, ou talvez até já nem seja uma habilidade antes uma forma de expressão característica da nossa vida. Todos nós assobiamos, mas, naturalmente, ninguém pretende fazer passar isto por arte, assobiamos sem prestar atenção, sim, sem repararmos e existem até muitos de nós que nem sequer sabem que o assobio é uma das nossas particularidades. Se fosse então verdade que a Josefina não canta mas apenas assobia e se calhar até, como pelo menos julgo, que não ultrapassa as fronteiras do comum assobio – talvez a sua força não seja sequer suficiente para chegar ao nível deste assobio comum, ao contrário de um cavador que é capaz de assobiar sem esforço durante um dia inteiro de trabalho – se tudo isto fosse verdade, então refutava-se o pretenso título de artista da Josefina, mas ficaria ainda por decifrar o enigma da enorme impressão que provoca.
                Mas acontece que ela não produz apenas um assobio. Se nos colocarmos a uma grande distância dela e nos pusermos à escuta, ou ainda melhor, se nos sujeitarmos à seguinte experiência que seria, estando a Josefina a cantar em conjunto com outras vozes, tentar identificar a sua voz, então ouviríamos invariavelmente um mero assobio, que poderá no máximo destacar-se pela sua delicadeza e fragilidade. Mas se estivermos à sua frente, então já não se trata de um simples assobio; para se compreender melhor a sua arte é preciso não só ouvi-la mas também vê-la. Mesmo que fosse apenas o nosso assobio de todos os dias, existe antes de mais a pecularidade de se tratar de alguém que se colocou com solenidade de pé para fazer precisamente aquilo que normalmente faz. Abrir uma noz, toda a gente o sabe fazer, não é nenhuma arte, por isso ninguém arriscaria convidar público e diante dele, para o entreter, pôr-se a abrir nozes. Se mesmo assim essa pessoa o fizer e conseguir atingir o seu objectivo, então não poderá falar-se apenas de abrir nozes. Ou fala-se de abrir nozes mas verifica-se que esta foi uma arte que nos passou despercebida porque a dominávamos completamente e que este novo abridor de nozes nos mostrou pela primeira vez a verdadeira essência do acto, chegando mesmo a ser mais útil para o efeito pretendido que ele fosse menos eficiente a abrir nozes do que a maioria de nós.»

sábado, 21 de abril de 2018

Veneza, ainda





“Então, ao passar pelas ilhas da laguna que se vão perdendo na distância, é-se tomado por uma sensação curiosa – uma sensação de alívio, e também de tristeza, mas profundamente impregnada de perplexidade. Veneza, à semelhança de muitas amantes belas ou muitos vinhos densos e fortes, nunca se abre totalmente connosco. Tem um passado enigmático, um presente contraditório e um futuro toldado por incertezas. Deixamo-la saciados mas confusos, como um jovem que, afastando-se feliz de um abraço, se apercebe subitamente de que o pensamento da rapariga estava noutro lado e reflecte por momentos no que raio terá visto nela.
[…]
No entanto, o fascínio de Veneza não depende da arte nem da arquitectura. A cidade tem algo de curiosamente sensual, quando não é mesmo sexual. «Veneza envolve-nos», disse um francês do século xix,  «com um encanto tão terno como o de uma mulher. Outras cidades têm admiradores. Só Veneza tem amantes.» […]
Penso que isto se deve em parte à estrutura orgânica. Veneza é um todo maravilhosamente compacto e funcional: é perfeita, pequena, completa, firmada mesmo no centro de uma laguna em forma de foice como um velho monstro dourado dentro de um charco. […]
Em parte é também uma questão de luz. Os pintores venezianos primavam pelo domínio do chiaroscuro, e Veneza sempre foi uma cidade translúcida, um lugar de ocasos arrebatadores e manhãs iridiscentes, por muito monocromáticos que possam parecer os seus longos invernos. […]
Por outro lado, é uma questão de textura. Veneza é um lugar de materiais voluptuosos, e nos edifícios proliferam embutidos de mármore e pórfiro, mármore cippolino, verde antico, jaspe, mármore grego, granito e alabastros polidos. […] Até mesmo as águas de Veneza de vez em quando parecem seda furta-cores. […]
A atracção de Veneza é, ainda, uma questão de movimento. Veneza perdeu aquele encanto sedoso e onírico, mas continua a ter uma movimentação sedativa e sedutora. Ainda é uma cidade matizada, trémula e cintilante, onde a luz do sol brilha com suavidade por baixo das pontes e as sombras avançam lentamente ao longo dos passeios. O movimento de beleza nada tem de rude ou de brutal. A gôndola é um veículo de locomoção belíssima, os barquinhos dos canais deslocam-se com um staccato delicado […].
E, em última análise, a glória daquele lugar está no facto grandioso de Veneza em si mesma: o esplendor e a estranheza da sua história, a ampla e melancólica laguna que a rodeia, o intricado esplendor marinho que faz dela, ainda hoje, uma cidade única. Quando deixarmos finalmente aquelas águas e arrumarmos o nosso chapéu de palha, o antigo deslumbramento de Veneza perdurará na nossa cabeça; e o cheiro a lama, incenso, peixe, antiguidade, imundície e veludo ficar-se-á pelas narinas; e o suave marulhar dos canais secundários continuará a ecoar nos nossos ouvidos; e aonde quer que se vá na nossa vida, sentir-se-á sempre atrás de nós uma presença rosada, acastelada e cintilante, as cúpulas, os cordames dos barcos e as torres inclinadas da Sereníssima.
É isto o romantismo! É isto o vinho luxurioso e escuro de Veneza! Não admira que o marido de George Eliot tenha caído no Grande Canal.”

quinta-feira, 12 de abril de 2018

poça de água




Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens reflectidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.

não teremos pois a leviandade de contestar



“Está na ordem do universo que um espírito único, por todo o lado espalhado, um sentido em tudo presente, de todas as partes vindo para se apossar das coisas, sinta estes efeitos e paixões que em todas as coisas nos é dado observar.
[…]
É por esta razão que os deuses nos falam através de imagens ou de sonhos, que nós, por falta de hábito, por ignorância e pela obtusa debilidade das nossas faculdades, chamamos de enigmas, quando são estas as [verdadeiras] palavras por excelência e os próprios confins das coisas que se podem figurar.
[…]
Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros os corpos de outros animais, plantas, pedras, minerais; em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência – nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.
[…]
Eis como por vezes somos mais atingidos e mais cruelmente feridos por coisas cujos golpes não sentimos do que por aquelas que no-los fazem sentir […]. Não teremos pois a leviandade de contestar à partida as teses de certos platónicos e de todos os pitagóricos, que concebem o indivíduo como uma colecção de seres dotados de vida própria: morrera um deles, mesmo sendo de todos o principal, que os outros lhe sobreviveriam ainda por muito tempo.”

Veneza




Passados 15 anos, regressei a Veneza. Desta vez, causou-me uma impressão muito profunda que se prolongou oniricamente, e até ousei um passeio de gôndola. Talvez que aos 20 anos eu fosse demasiado insensível aos encantos de Veneza. Ou talvez seja uma daquelas cidades que, como o amor, se aprecia melhor na maturidade. Não faço a menor ideia. Enquanto não encontro esclarecimento, vou deambulando pela imensa literatura de viagens dedicada à Sereníssima, ou seja, ainda que de maneira estética, prolongo aí a minha estadia.

A cidade muda totalmente de noite. Uma das mais animadas que conheço durante o dia, quando o Sol se põe tudo desaparece ou se fecha, e à medida que as horas avançam Veneza vai ficando cada vez mais deserta e mais possuída pelos sons individuais. O ruído dos passos cruza-se com o bater da água e a aparência de cenário de qualquer recanto acentua-se, pois nenhum cenário o parece tanto como quando não tem acção e está vazio. Mas o que na verdade faz mudar Veneza é a própria escuridão (…). A água é o elemento fundamental da cidade, o que de dia devolve e potencia a luz e a cor (vermelho-sanguíneo, amarelo, branco) das casas e dos palácios. De noite, pelo contrário, quase nada devolve. Absorve.

(…)

Do seu extremo ocidental ao seu extremo oriental (a maior distância possível), Veneza percorre-se em não mais que uma hora, a andar bem e sem se ofegar. Mas quase ninguém pode percorrê-la assim, não tanto porque seja difícil e até impossível encontrar uma linha mais ou menos recta sem vacilar cem vezes no trajecto, como por culpa do que – com pedantismo – poderíamos chamar a sua inacabável fragmentação ideal.
Veneza produz simultaneamente duas sensações na aparência contraditórias: por um lado, é a cidade mais homogénea – ou, se se prefere, harmoniosa – de todas as que conheci. Por homogénea ou por harmoniosa entendo principalmente o seguinte: que qualquer ponto da cidade, qualquer espaço luminoso e aberto ou recanto escondido e brumoso que, com água ou sem ela, entre a cada instante no campo visual do espectador é inequívoco, isto é, não pode pertencer a nenhuma outra cidade, não pode confundir-se com outra paisagem urbana, não suscita reminiscências (…).

Por outro lado (e aqui está o contraditório), poucas cidades parecem mais extensas e fragmentadas, com distâncias mais intrasponíveis ou lugares que provoquem uma maior sensação de isolamento.”

Do inconsciente óptico




“Diz-se que o melhor design é invisível, o neutro. Mas é ilusão, claro. Seria paradoxal uma disciplina tão dedicada à identidade não ter também a sua. Esta construção de identidade é o design que o design não vê: um processo contínuo, contraditório, obsessivo, instruído, mas inconsciente.”


Especialista por excelência no fabrico de identidades, o design é uma disciplina fundamental do nosso quotidiano. No entanto, a reflexão sobre a sua própria identidade não é abundante. Nos doze ensaios que compõem este livro, Mário Moura convoca a crítica do design para analisar os seus impensados e a cultura contemporânea, à semelhança da melhor tradição da crítica literária e da crítica de arte. Com várias incursões pela literatura, política, história, geografia e pelo cinema, o autor desmonta o património discursivo do design e demosnta como este é formado e reformado por conceitos de raça, classe, género, autoria e periferia, entre outros.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Антон Павлович Чехов




Acontecem-me coisas únicas a ler Tchékhov, mestre que nunca me deixa desamparada. Certos contos gravam-se na minha memória como se eu própria tivesse feito parte do enredo. E não deixa de ser curioso e inédito que, detestando eu qualquer tipo de moralismos, me deixe arrebatar de tal modo por estas histórias que acabo inevitavelmente por tomar partido, afunilando toda a complexidade daquele pedaço particular da realidade que o conto recorta. Neste segundo volume aconteceu-me sobretudo com três contos. Com a Anna ao pescoço, a minha compaixão pela rapariguinha boazinha que sacrifica a sua vida ao casamento transformou-se subitamente em triunfo agridoce: foda-se tudo, egoístas de merda! Já com o conto Anjinho, o caminho foi inverso: abespinha-me aquela mulherzinha, sempre a precisar de um amor para ter mundo e, subitamente, eis-me de olhos marejados, entendendo os mecanismos da sua alma e torcendo para que ela tenha aquilo que tanto deseja. No magistral Enfermaria n. 6, alinho com Ivan Dmítritch, assanham-me as visitas daquele médico insonso, a sua sensatez e o seu estoicismo de pacotilha:

            - Não, não sou filósofo, mas é isto que cada qual tem de defender, porque é sensato.
            - Não, o que eu quero saber é por que razão o senhor se considera competente no assunto da consciencialização, do desprezo pelo sofrimento e assim por diante! Será que alguma vez sofreu? Faz ideia do que é o sofrimento? Oiça: açoitavam-no quando era criança?
            - Não, os meus pais tinham repugnância pelos castigos corporais.
            - Pois a mim, o meu pai açoitava-me cruelmente. O meu pai era um funcionário bruto, hemorroidal, com nariz comprido e pescoço amarelo. Mas, falemos antes de si. Em toda a sua vida, ninguém lhe tocou com um dedo, ninguém o o aterrorizou nem brutalizou; é saudável como um touro. Cresceu sob a protecção do pai e estudou por conta dele, e depois, logo a seguir, arranjou uma sinecura. Vive há mais de vinte anos numa casa gratuita, com aquecimento, iluminação, criadagem, tem o direito de trabalhar como e quando lhe apetece, e mesmo de não fazer nada. Pela sua natureza, é um homem preguiçoso, mole, por isso tentou organizar a sua vida de modo a que nada o incomodasse e o fizesse mexer. Entregou tudo ao seu auxiliar-médico e a outros canalhas, e deixou-se ficar sentado no quentinho, sossegado, acumulando dinheiro e lendo livrinhos, deliciando-se com reflexões sobre todo o género de disparates sublimes e (Ivan Dmítritch olhou para o nariz vermelho do doutor) bebendo sempre o seu copinho. Numa palavra, não viveu a vida, não a conhece, absolutamente, e tem uma noção da realidade apenas teórica […] Um jovem pede-lhe um conselho: o que fazer, como viver;  antes de lhe responder, uma pessoa pensaria um bocado, mas o senhor já tem a resposta pronta: aspira à consciencialização e ao verdadeiro bem. Mas o que é esse fantástico «verdadeiro bem»? A resposta, obviamente, não existe. Mantêm-nos aqui atrás das grades, deixam-nos apodrecer, torturam-nos, mas isso é maravilhoso e sensato, porque entre esta enfermaria e um gabinete quentinho e acolhedor não há diferença nenhuma. É uma filosofia muito cómoda: não precisa fazer nada, a consciência está limpa e pode sentir-se filósofo… Não, meu senhor, isso não é filosofia nem pensamento, nem largueza de vistas, é antes preguiça, faquirismo, uma modorra idiota… Sim! – voltou a zangar-se Ivan Dmítritch. – Despreza o sofrimento, mas se, digamos, lhe entalassem o dedo na porta, berraria a plenos pulmões!

No entanto, quando o médico se entala por fim, lá se foi o meu desprezo, estou inteiramente do lado dele, a berrar. Talvez Tchekhóv me provoque tanta adesão e oscilação de humores porque também eu sou um idiota, porque sofro, estou insastisfeito e me espanto com a infâmia humana.

"A imensa maioria da sociedade vive em zonas esteticamente sinistradas, onde não se pode viver e amor porque se está esteticamente alienado."


he wrote: "I'm broke, please send for me"

quinta-feira, 1 de março de 2018

Thats right, sista!


Sábado 24 de Noviembre de 1960
Todo sustituible. Todo reemplazable. Todo puede morir y desaparecer: detrás están los sustitutos, como en los parques de diversiones esos muñecos que caen a cada tiro de escopeta y son súbitamente sustituidos por otros y otros. Es decir, que no hay nada que obligue a vivir, ni nada que desobligue. Todo o casi todo es mentira porque cae o puede caer. Lo único que es fiel es esta sed de algo por lo que vivir. Pero tampoco lo es absolutamente puesto que está entre otras sedes y hambres y se alterna con ellas, y puede desaparecer por varios años y reaparecer.
No creo en nada de lo que me enseñaron. No me importa nada. Sobre todo no me importan los convencionalismos y el demonio sabe hasta dónde y hasta qué extremo infecto somos convencionales.
Convencionalismos poéticos y literarios.
Hasta el ser joven en un convencionalismo. Y la rebelión y la anarquía pueriles. Y el mito del poeta. El mito de la cultura. Hasta el comunismo y el socialismo de mis amigos es un nauseabundo convencionalismo. Como si se pudieran cambiar las cosas hablando y negando. Yo estoy en contra. Ni religión ni política ni orden ni anarquía. Estoy contra lo que niega la verdadera vida. Y todo lo niega. Por eso quiero llorar y no me avergüenzo o sí me avergüenzo y quiero esconderme y hasta tengo vergüenza de suicidarme.
Las luchas o contiendas poéticas de Bs. As. me hacen reír, ahora que estoy lejos. Arte de vanguardia, sonetos dominicales. Todo esto es tan imbécil.
Minúsculas, puntuación y rima. Como si alguno se hubiera despertado, una mañana, con ganas de bañarse en alcohol y prenderse fuego porque las palabras no dicen, y el lenguaje está podrido, está impotente y seco. Mis jóvenes amigos vanguardistas son tan convencionales como los profesores de literatura. Y si aman a Rimbaud no es por lo que aulló Rimbaud: es por el deslumbramiento que les producen algunas palabras que jamás podrán comprender. Además, las contiendas literarias sólo las hacen los que están contentos y bien instalados en este mundo. Es una actividad suplementaria, un hobby nocturno, mientras se está en la cama reposando, tomando café o whisky.
Todo esto es tan idiota. Y yo, yo también hablé. Yo también abrí la boca y la llené de miasmas. Pero ahora sí. Ahora sé que no me importa nada. Ahora sé que todo me importa y quiero reventar y quemarme y estallar. Porque esto no es la vida. Y esto no es la poesía. Y quiero cantar y no hay qué cantar, a quién cantar. Sólo hay mierda y a la mierda se la insulta. Pero yo quisiera cantar.


Teatro Pós-Dramático


Uma referência obrigatória para todos os estudantes e amantes das artes performativas contemporâneas, finalmente disponível numa tradução integral do alemão em Portugal.
Atrás do coração
está um músico surdo
a fazer troar um tambor desfeito.

Robert Bringhurst

sábado, 17 de fevereiro de 2018

ab imo pectore


"You will not wonder at his weird pilgrimage, - you who in the swift whirl of living, amid its cold paradox and marvellous vision, have fronted life and asked its riddle face to face. And if you find that riddle hard to read, remember that yonder black boy finds it just a little harder; if it is difficult for you to find and face your duty, it is a shade more difficult for him; if your heart sickens in the blood and dust of battle, remember that to him the dust is thicker and the battle fiercer. No wonder the wanderers fall! No wonder we point to thief and murderer, and haunting prostitute, and the never-ending throng of unhearsed dead! The Valley of the Shadow of Death gives few of its pilgrims back to the world."

o exercício experimental da liberdade


Nesta obra, Delfim Sardo, ensaísta e curador, reflecte sobre as vanguardas do século XX e a morte anunciada das disciplinas artísticas. Questionando a premissa utópica de uma emancipação da arte relativamente à representação, o autor aborda algumas das questões vitais colocadas pela arte contemporânea: quando os cânones artísticos já não fazem sentido porque a autoridade estética colapsou com o final do sistema das Belas-Artes, que base nos permite continuar a produzir juízos sobre as obras de arte? Como é que, num contexto em que as convenções artísticas estão em constante mutação, jogamos o enorme e fascinante jogo de confiança que é a arte?