sábado, 16 de março de 2013

Leituras Tristes em Tempos Tranquilos



“Rufa o tambor: tan-tarantan-tan; despejam-se no pátio presos acorrentados e não acorrentados, e Serguiêi, e Fiona, e Sónietka, e Catierina Lvovna, e um raskólnik acorrentado a um jid, e um polonês na mesma corrente que um tártaro.
Todos se amontoaram, depois se emparelharam de qualquer jeito e partiram.
O mais desolador dos quadros: um punhado de pessoas, arrancadas do mundo e privadas de qualquer sombra de esperança em um futuro melhor, afunda na lama negra e fria de uma estrada de terra batida. Tudo ao redor é de uma feiura que chega ao horror: uma lama sem fim, um céu cinzento, salgueiros desfolhados e molhados, e em seus galhos abertos uma gralha cinzenta eriçando as penas. O vento ora geme, ora se enfurece, ora uiva e brame.
Nesses sons infernais, que dilaceram a alma e completam o horror do quadro, ecoam os conselhos da mulher do Jó bíblico: “Amaldiçoa o dia do teu nascimento e morre”.
Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau.”

domingo, 10 de março de 2013

Ser-a-três



“Deito-me junto a ela, a seu corpo impenetrável. Reconheço seu cheiro. Acaricio-a sem olhá-la.
- Ai, você está me machucando!
Continuo. No tocar reconheço as ondulações de um corpo de mulher. Desenho flores em cima. Ela não se queixa mais. Não se mexe mais, lembra-se provavelmente de que está com o amante de Tatiana Karl.
Mas de repente ela duvida enfim dessa identidade, a única que ela reconhece, a única que sempre alegou pelo menos durante o tempo em que a conheci. Ela diz:
- Quem é?
Geme, pede-me que o diga. Digo:
- Tatiana Karl, por exemplo.

Extenuado, quase sem forças, peço-lhe que me ajude:
Ela me ajuda. Ela sabia. Quem fora antes de mim? Nunca saberei. Pouco se me dá.
Depois, aos gritos, ela insultou, suplicou, implorou que a pegasse e a largasse ao mesmo tempo, acossada, procurando fugir do quarto, da cama, voltando para fazer-se capturar, sabida, e não houve mais diferença entre ela e Tatiana Karl, excepto em seus olhos isentos de remorso e na designação que fazia de si mesma – Tatiana, quanto a ela, não se designa pelo nome -, e nos dois nomes que ela se dava: Tatiana Karl e Lol V. Stein.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Amar um livro


No início, havia o campo, os invernos rigorosos e uma estranha guerra ocupava os dias. O corpo era muito magro e frágil mas vingou ao abrigo da comunhão com os livros, os cães e os irmãos. Assim se constituiu a sua ideia pessoal de felicidade: uma cama, um livro, um cão e um amante que fosse também um camarada. Terá sido então que os livros se entrelaçaram com o erotismo numa enigmática mas bela coincidência.
[O pai estava ausente: sentado no sofá, fumava cigarro atrás de cigarro e lia um livro grosso. Complexo de Electra. Livros e cigarros: uma compulsão fálica de inspiração-expiração.]
Dos livros recebeu, portanto, a sua educação sentimental e o gosto pelas palavras certeiras. A sua segunda pele. Anos mais tarde, ao deixá-los empacotados num sótão amigo para viajar durante um ano sentir-se-á estranhamente livre e nua. A doença do livro colou-se aos ossos. As noites serão perdidas para a insónia, na angústia da vida não durar nem para metade dos livros que deseja. Sentirá sempre que não se pode ler um livro sem ter lido todos. Por consolo, conceberá a ideia de paraíso-biblioteca. No entanto, terá sempre as suas poupanças empenhadas, penará sempre que muda de casa e irá cometer muitas imprudências na vida, tentando igualar a beleza da arte.
Irá sofrer mas nos ombros sentirá sempre asas prestes a despontar. Aprende-se mulher, cativa-se na ideia de um amor louco. Enternece-se com os desvarios de uma tal Madame Bovary, parece que escolheram ambas viver mal mas poeticamente. Às vezes vacila, as pernas já não prestam para andar, mas sempre acha novo vigor em poemas (ou serão elegias?) como o de Alexandre 0’Neill:
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

A sua história da leitura confunde-se com os seus amores e desamores. O primeiro será amado com todo o arsenal literário da adolescência, um amor nietzscheano incapaz de durar porque consagrado ao fogo violento. Depois virão as noites das paixões nómadas e cada aurora a achará, deitada num desalinho etílico, com um amante-livro diferente. O coração será um caçador solitário e o amor uma faca que ela usará para se esventrar, procurando acertar em si mesma. Partilhará o sono com mil amores emprestados até que um dia acordará esvaindo-se em sangue. Vermelho imperfeito.
[Os encontros fortuitos na biblioteca. Traz o livro para casa, bem junto ao peito, como quem se orgulha de um crime. As mãos seguras da sua textura. Durante dias não faz mais do que olhá-lo, acariciá-lo e adormecer junto dele. Sonha com a fantasia de um sexo de ler: um texto-carne a penetrá-la, a doer-lhe fundo e um orgasmo acontecendo pelas palavras.]
As noites seguintes serão assombradas pelo chamamento de sereias impiedosas. Conseguirá sobreviver apenas graças às terríveis palavras do Herberto Hélder. Ele nunca saberá mas salvará a sua vida numa altura em que mão alguma a poderia alcançar. Uma noite de primavera adiada virá esse amor louco e bruto, tão arduamente sonhado. Os dias serão então fartos em fomes e enfartes e o corpo, inquieto, cirandará pela cidade, buscando as suas palavras. Será finalmente um livro de pernas abertas que alguém conseguirá ler. Mas de novo a desilusão. Desta vez quase fatal. Vermelho perfeito. Atravessará então a morte desértica, acompanhada apenas pela indignação de Raskólnikov. Sobrevirá depois a grande solidão e durante a travessia desse deserto inumano, nenhum homem ou livro será amado.
Os livros continuarão lá, à espera do seu regresso, amantes leais que ela saberá reencontrar quando regressar à casa que o coração construiu para se abrigar. Com um livro bem junto do peito, ela sentirá por fim a sua alma junta, adormecendo contente e satisfeita, como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Um acto de amor diferido, mediado pela solidez do papel, consumado na liquidez da tinta. As frases indizíveis acharão por fim aconchego nos corpos desencontrados no Tempo. E carne e letra fundir-se-ão num só Livro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Liberdade



Hoje acordei muito cedo e saí de casa alegre, sem saber como vai ser a minha vida (“facing the fear that the truth I discovered/No telling how, all this will work out”). 

Vi Lisboa a despertar pelo vidro acelerado, ao som desta música, e soube amar-me como tanto gosto. É que apesar de estar numa fase em que nada possuo, sinto-me deliciosamente calma e confiante no que virá. Sei com uma certeza intocável que fiz a escolha certa e que aquilo que mais quero é liberdade (“I am looking for freedom, looking for freedom/And to find it cost me everything I have/But I’ve come too far to go back now”). E se hoje enfrento as consequências dessa paixão num país fodido e escolho não desertar, é porque sinto com uma convicção íntima que já estive mais longe de coincidir com a minha liberdade.

Tudo o que perdi foram afinal merdas, orgulhos e arrogâncias acessórias, umas quantas euforias baratas. Em troca: uma simplicidade meiga e inusitada. 

Aos poucos as palavras vão regressando, com passos dançantes de mulher que conseguiu sobreviver até à vida. Os olhos conformam-se aos milagres, disponíveis para ver. E as mãos vão reunindo o que lhes chega para escrever. Sabendo que o que vier fará parte. Porque nunca ninguém se perdeu. (“In time the sun’s gonna shine on me nicely (on me yeah)/somethin’ tells me good things are coming/and I ain´t gonna not believe”).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

As Ilhas Malucas


Estar desempregada é fodido pelas mais óbvias razões. Mas também pode ser uma experiência psicadélica capaz de bater qualquer ficção do Pynchon. Para além dos gajos que se fingem dispostos a ajudar quando mal conseguem disfarçar os seus próprios interesses sexuais, acontecem coisas verdadeiramente hilariantes.
Ontem, por exemplo, tive uma reunião surpreendente. Tinha ido correr junto ao Tejo e preparava-me para tomar um duche longo e quente quando me ligaram para falar de uma proposta de trabalho. Desci as escadas do meu prédio, suada e em roupa desportiva, e entrei num carro híbrido (foi a minha primeira experiência num híbrido).

A proposta era a seguinte: existem umas ilhas, cujo nome não se pode mencionar, que estão a ser disputadas por dois países. Alguns documentos foram reunidos em Espanha para provar a pertença histórica e natural (pertença natural?) dessas ilhas a um dos países envolvidos no conflito diplomático e entregues à ONU. Contudo, as provas não são conclusivas e existe a informação de que Portugal poderá (note-se o carácter hipotético da coisa) possuir documentos que comprovam essa pertença. Por isso, um embaixador pagou a um investigador de história para andar a vasculhar em tudo quanto era sítio e arredores para encontrar esses documentos. Três mil euros por baixo da mesa: um primeiro adiantamento. No entanto, parece que o rapaz provocou de algum modo algum descontentamento no embaixador, pelo que existe a possibilidade (ainda não efectiva) de o mesmo embaixador vir a necessitar de contratar outra pessoa para encontrar essas provas. A tarefa é-me proposta, dada a minha experiência em investigação e a (suposta) facilidade que terei, enquanto investigadora de doutoramento, em aceder a documentos mais recatados. Mas, caso aceite, não poderei nunca dizer o que investigo e só num próximo encontro me será dito os nomes das ditas ilhas.

E uma pessoa sobe as escadas do prédio, enfia-se finalmente no duche merecido e delira com máfias diplomáticas e vinte asiáticos a invadirem a Torre do Tombo para destruírem um mapa do século XV. Olha foda-se, Culatra!

domingo, 20 de janeiro de 2013

a vida é sempre menos que a vida (?)



Niels Lyhne chegou indicado por Rilke, primeiro na versão francesa e depois na versão portuguesa pela Cosac & Naify. Parente de Emma Bovary, Fréderic Moreau e Oblómov, trata de um problema bicudo: será a vida plena e una, tão arduamente sonhada, apenas uma quimera literária púbere? A vida terá inevitavelmente que soçobrar perante a vidinha, salvando-se apenas os mais calculistas?

Como acontece com todas as perguntas genuínas, a resposta chega com atraso. Há uns tempos atrás, pus-me a matutar seriamente no problema da vida. Tão seriamente, que por vezes sentia que o cérebro se enovelava na mais crua certeza da morte violenta. Durante esse tempo, procurei com verdadeiro afinco encontrar uma pessoa, uma apenas que fosse ou estivesse, genuinamente feliz. Em cada alma, encontrei apenas uma falha, quando não uma farsa. Lembrei-me então desse velho Diógenes que procurava um homem pelas ruas, em pleno meio-dia, com uma lanterna acesa. O fracasso desta demanda tornava a situação mais aflitiva, pois se até estava na disposição de aceitar a minha derrota, a possibilidade de sairmos todos derrotados afligia-me como uma sede sem água à vista.

Niels Lyhne vem comprovar que aquilo que há muitos anos tomei como uma questão íntima é afinal um problema moderno e um problema essencialmente literário, que afecta a todos mesmo os que escapam às leituras. Niels Lyhne passa a vida a poetar a vida em vez de a viver. Petrificada pela letra, a vida é algo que nunca chega. O processo começa nos suspeitos do costume – Platão e Aristóteles – e atinge a sua hipérbole na contemporaneidade: privadas das suas forças vitais, a vida acaba congelada pela retórica, entregue à melancolia de uma temporalidade que não se consegue transcender sem se negar. Até aqui nada de novo. Aliás, o livro todo não traz qualquer novidade para quem já leu essa epopeia da bulimia temporal que é A Educação Sentimental do Flaubert.

Mas a edição brasileira traz um belíssimo ensaio de Claudio Magris como introdução, intitulado «As Moedas da Vida». Nada melhor que um escritor para explicar uma questão literária: “Entre o eu e a vida abriu-se um hiato, que faz daquela não mais a sua vida, mas um território onde ele não consegue penetrar e se inserir, um lugar estranho que não lhe pertence e ao qual não sente pertencer, uma contínua fuga de algo que nunca possui e que portanto não é seu, mas do qual sente nostalgia como se o tivesse perdido”. Entre essência e existência abriu-se uma cesura intransponível que vota a primeira à abstração inacessível e a segunda a uma opaca insignificância. O conflito entre vida e representação converte o tempo da existência nas moedas da vida, “trocados miúdos que não podem ser usados para mais nada”. “A vida alienada é a que foi privada de fins que realmente a justifiquem e a tornem auto-suficiente na dedicação a uma meta superior; no lugar de um fim último, instalou-se uma miríade de objectivos momentâneos e parciais, que se sucedem uns aos outros sem repouso, como na cadeia de montagens de uma imensa produção, sacrificando e queimando cada momento ao seguinte, para alcançar um objectivo meramente prático e despido de valores, que portanto não ilumina – nem retrospectivamente, na memória, nem prospectivamente, na expectativa – o caminho que é preciso percorrer para alcançá-lo.”

Que cada um medite nisto, com a urgência com que o problema o encontrar. A maioria optará por não pensar, mas nem por isso deixará de o sentir na própria pele. Outra parte, optará pelo esteticismo e pelo deleite no impasse – deus vos livre do esteta e da sua melancolia artificiosa, antes uma trave no olho! Poucos irão pelo caminho marginal de Stirner, cantando a vida e tomando-a, se necessário, à força. Eu já tenho a minha resposta mas não a partilho. Trata-se de uma questão humanista, pelo que cada qual terá de se por a caminho, sozinho e desorientado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um útero é do tamanho de um punho


eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que eu não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Das saudades contentes


“Pouco a pouco o passado foi-se esbatendo, a saudade diminuindo; ela ainda vinha em certas tardes silenciosas, ao crepúsculo, quando o adeus do sol iluminava a parede do quarto solitário, e o chamado distante e monótono do cuco, cessando de repente, ampliava o silêncio; - então chegava de repente uma saudade que invadia tudo, que penetrava o coração; mas ela não o afligia mais, ela vinha tão suave, tão de leve, que era até meio doce de sentir, como uma dor amortecida.”

Jens Peter Jacobsen, Niels Lyhne

domingo, 13 de janeiro de 2013

Afinidades Electivas




Mudar de casa é sempre penoso para um bibliófilo. Primeiro, há que catar os caixotes de papelão necessários para empacotar os mais de 1550 livros, depois arranjar os braços necessários para os levar até à nova morada e, por fim, tornar a arrumá-los nas estantes.

Apesar de cansativa, esta última parte é a mais deliciosa de todas. Porque em cada nova casa, os livros decidem novas contiguidades nas prateleiras, que me fazem sonhar com uma história alternativa da literatura, muito próxima da história da arte que Aby Warburg propôs no seu inacabado Atlas Mnemosyne: uma história da literatura não aglutinada por cronologias, movimentos ou temas mas por ligações estranhas. Como, por exemplo: a História de Portugal seguida de uma colectânea francesa de textos sobre o tratamento histórico da melancolia, o banquete de Kierkegaard e a moeda viva de Klossowski, as confissões de Santo Agostinho e o Assim falou Zaratustra de Nietzsche, Teorias Sociológicas e o Guia de Vinhos de Portugal de 2010, o Arco-Íris da Gravidade e o Em Busca do Tempo Perdido, o Kama Sutra e a Biblía, o 2666 e o Orlando Furioso, o Mujeres que leen son peligrosas e o Capuchinho Vermelho… No meu quarto, o Liaisons Dangereuses deita-se sobre o meu diário, intervalando a proximidade horizontal do Oblomov com Niels Lyhne.

Só depois de guiar cada livro até ao seu lugar, posso tratar de arrumar e apossar-me das outras partes da casa. E deitar-me enfim, no novo quarto, sonhando os diálogos estranhos que os livros tecem nestas convivências inesperadas, quando a casa dorme o seu sono mais profundo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DA SERIEDADE DO OFÍCIO


“A receita, por exemplo, para que um individuo possa vir a ser bom novelista, é fácil de dar, mas a sua aplicação pressupõe qualidades, de que se costuma não fazer caso, quando se diz: ‘Eu não tenho talento bastante’. Faça-se cem ou mais projectos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, contudo de uma clareza tal que, neles, cada palavra seja indispensável; redija-se anedotas, diariamente, até se aprender a achar a sua forma mais expressiva, mais eficaz; seja-se incansável a recolher e descrever tipos e caracteres humanos; sobretudo, conte-se tão frequentemente quanto for possível e oiça-se contar, com olhos e ouvidos atentos ao efeito produzido junto das outras pessoas presentes; viaje-se como um pintor paisagista e como um desenhador de modas; extraia-se de cada uma das ciências tudo aquilo que faz efeitos artísticos, se for bem apresentado; por fim, medite-se sobre o motivo das acções humanas, não se desdenhe nenhum indício instrutivo a esse respeito e seja-se, de dia e de noite um tal colecionador de tais coisas. Neste múltiplo exercício, deixe-se passar uns dez anos: mas aquilo, que for então criado na oficina, também poderá sair à luz da rua.”

Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

UMA MULHER A PARIR A SUA ALMA



2012 foi um ano estéril em paixões. À parte alguns arrufos inconsequentes, não amei nenhum homem nem nenhum livro. Foi por isso um ano estranhamente bom, ocupado na aprendizagem de uma solidão interior, calma e insuspeita. Até aqui, houve sempre alguém, como diz a Mick em The Heart is a Lonely Hunter, e houve sempre um livro, a tal ponto que a escrita da minha história da leitura se confunde com os meus amores e desamores.

Como o desejo se desloca da minha carne e encontra um livro, é algo misterioso. Como uma operação alquímica. Nalguns casos, o desejo é encaminhado por um terceiro, noutros casos, mora já em minha casa. Mas continuo a preferir os encontros fortuitos na biblioteca, quando as minhas mãos e olhos escutam o apelo de um livro manuseado, que não figura na lista dos livros que gostaria de ler, e o encontram doído de colos ausentes. Com estes livros feridos por outras mãos, sinto sempre uma maior liberdade de tacto, como se fosse mais fácil imprimir-me neles antes de os devolver à sua posição enigmática.

Desta vez, o acaso aconteceu com os diários de Etty Hillesum na Biblioteca de Portimão, a biblioteca da minha adolescência nietzscheana. Uma surpresa deliciosa, considerando que a questão judaica nunca me interessou muito, porque demasiado absolutizada nos pólos vítima-carrasco. Chamou-me uma vez: ignorei, outras leituras se impunham. Chamou-me mais uma vez, fui até ele e li a contracapa, tornei a pousá-lo, outras leituras se impunham. Chamou uma terceira vez, caminhei até ele com passos resolutos e abri-o sem qualquer pudor:

“Terça-feira de manhã [17 de Março de 1942], às nove e meia
Ontem à noite, quando ia ter com ele de bicicleta, havia um grande e aprazível desejo de primavera em mim. E enquanto eu pedalava em cima do asfalto da rua Lairesse, desejando-o e com sonhos na cabeça, senti-me de repente acariciada por um ar tépido de primavera. E subitamente pensei: «Assim também está bem. Porque é que uma pessoa não pode experimentar uma grande e terna euforia pela primavera e, também, por todas as pessoas?» (…) Sim, por que razão é que uma pessoa não poderia sentir amor por uma primavera? E as carícias do ar primaveril eram tão delicadas e tão envolventes, que mãos masculinas, mesmo que fossem as dele, em comparação com elas me haveriam de parecer rudes.

E foi assim que cheguei a casa dele. O pequeno quarto de dormir apanhava um pouco de luz vinda do quarto de trabalho e, quando entrei reparei que a cama dele estava aberta e que, dobrado por cima dela, havia um pesado ramo de orquídeas aromatizando o quarto. E na mesinha ao lado da almofada havia narcisos, muito amarelos, tão extremamente amarelos e frescos. A cama aberta e as orquídeas e os narcisos – uma pessoa nem precisa de se deitar acompanhada naquela cama. Enquanto ali estive, por um instante, naquele quarto meio iluminado, foi como se tivesse tido uma noite inteira de amor. E ele estava sentado à pequena escrivaninha e de novo me saltou à vista como o rosto dele se assemelhava a uma paisagem antiga, cinzenta e gasta.

Pois, estás a ver, uma pessoa necessita de ter paciência. O teu desejo deve ser como um navio lento e majestoso, navegando no oceano infinito e não à procura de um local onde largar a âncora. E de súbito, inesperadamente, dás de caras com um local onde ancorar por um momento. Ontem à noite, encontrou o seu ancoradouro por um breve instante. Foi só há quinze dias que eu fui tão bravia e indomável e o puxei para mim, de tal forma que ele caiu por cima de mim e eu me senti mais tarde tão infeliz que pensei que dificilmente conseguiria continuar a viver? E passou-se só uma semana desde que eu me enfiei nos seus braços e, de um modo ou outro, permaneci infeliz porque havia ainda qualquer coisa de forçado nisso?

E todavia, estes estádios terão sido necessários para chegar a este deslizar ao encontro um do outro, a esta familiaridade, a este ser querido ao outro e ser bom para ele. E uma noite destas fica para sempre, em tamanho enorme, na memória. E se calhar, uma pessoa nem precisa de muitas destas noites para ter a sensação de levar uma vida amorosa plena e rica.”

E pronto: de novo, essa ligação estranha. Saí da biblioteca com o livro junto ao peito, com aquela sensação reconfortante de ter encontrado um objecto perdido na infância – a conceptualização do fetiche por Freud não anda longe da verdade, ainda que a sua verdade se resuma a uma metáfora. Coloquei o livro no lugar do morto e assim fizemos a viagem até casa. Mais tarde, nessa mesma noite, tive de ir ver os homens, compromisso penoso que prolongava mais um pouco o ritual de sedução. Levei-o comigo. É sempre assim quando um livro me conquista: sinto a todo o instante, uma enorme vontade de o ter ao meu alcance, estender a mão e sentir o seu corpo sólido e macio, antecipando com delícia o nosso momento de entrega e rendição. Por isso, quando estou apaixonada por um livro saio à noite com ele, mesmo sabendo que não o posso ler porque os protocolos de leitura não o permitem, imensamente agradada pela companhia do seu peso, que a mão sub-repticiamente acaricia sempre que pode. Algumas vezes, chego até a colocá-lo com todo o cuidado na almofada contígua à minha e podem crer que adormeço contente e satisfeita como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Sim, porque razão é que uma pessoa não pode sentir amor por um livro?

Não vou escrever sobre o livro da Etty. Não consigo, dissecar um amor apenas é possível no desamor. Posso apenas dizer que se trata do registo diarístico de uma mulher a parir a sua alma, com todas as tremendas dores da individuação, para conquistar a alegria anterior a um coração desassossegado e acelerado e uma vida plena, digna de ser vivida. Uma dádiva que me trouxe a consciência de que já não sou nem desejo ser uma amante-leitora compulsiva, atacada pelo síndrome do bovarysmo, faminta por  conhecer o máximo de experiências e sensações. Platão tinha razão quando dizia que a escrita era um pharmakon, sei-o agora. A literatura pode ser um vício, uma compulsão que envenena e corrompe a vida. Mas eu não quero acabar como a Emma, desiludida com a vida, vomitando a tinta negra de todos os livros lidos. Lá onde está o veneno, também estará a cura. Tendo a sorte de poder afirmar ousadamente que já vivi muito e já fiz de muitas personagens, posso agora começar a trabalhar na minha síntese feliz e isso implica fazer do erotismo e da literatura um trabalho mais sério e árduo, um trabalho de exegese. Uma decisão válida para os livros e para os homens: não me interessam mais os arrufos da paixão, mas o Amor. Não querendo isto dizer que me converti ao platonismo. Porque corpo e alma são um só, como a Etty e eu aprendemos. Tendo escavado bem fundo em mim, com todas as facas que encontrei à mão, vou agora tratar de me esculpir e fazer da vida uma obra de arte. A Obra começa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já da outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para repensar o amor


Excelente contraponto ao Banquete platónico: aqui bebe-se à séria e busca-se um amor para além da moral e da estética.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


É a segunda vez que me acontece. Ter um contacto inicial desagradável com um autor, recusar lê-lo e depois descobrir anos mais tarde, com um espanto incrível, inúmeras afinidades. Aconteceu com o Bukowski há muito muito tempo. Li qualquer coisa dele num dia errado, rotulei-o levianamente de misógino e segui quase uma década sem o ler, até que um verão dei comigo na praia, sob um sol louco, enternecida pelo seu humor e desespero, e tive de admitir que o homem amava a vida e as pessoas como poucos. Hoje, aconteceu com o Derrida: a tarde inteira, enleada nos Spectres de Marx, lamentando não ter uma eternidade para abraçar cada página. Li algumas coisas dele na faculdade, achei-o hermético, um mestre de malabarismos com conceitos e gramáticas, raiando muitas vezes a incomunicabilidade. Não podia estar mais enganada. O homem conhece exemplarmente a história da filosofia ocidental, não só de trás para a frente como de frente para trás, de modo oblíquo, centrípeto e centrífugo. E diverte-se a brincar com essa história, tratando-o como uma estória, analisando os seus caminhos, desvios e patologias.  E não é um homem interessado apenas nos conceitos: o que lhe interessa é sobretudo a vida, a vida de todos os dias, a vida até dos que não leram nunca uma única linha de filosofia. E em usar todas as artimanhas, possíveis e imaginárias, para vergar os conceitos, para que a vida possa respirar novamente, ainda que por breves momentos.

Mais uma vez, me é provado que a literatura é un affaire d'amour e que para certos livros ou autores, é preciso esperar e confiar no tempo e na sua capacidade de amadurecer a compaixão, uma paixão com, partilhada. Tem razão o Alberto Manguel quando diz que cada leitor cria a sua própria história da literatura. É que a vida e a literatura caminham juntas, mesmo quando desavindas.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

verão vermelho-sangue resfolegando sobre os fenos

“Do verão, diria uma planície lenta, quase amarela: o trigo
a enrolar-se nos pés, o oiro do sol, os cabelos
mais loiros. Um vento quente e ondulante sibilando
nas frestas de um celeiro. O fumo sonolento do calor
tornando informe o fio do horizonte. Do verão

diria também um tempo espesso onde todos
os acasos são sofríveis: duas papoilas, vermelho-sangue,
agitam a paisagem. Tu chegas e a minha pele chama-te
sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor
dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica

apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície
lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram.”

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A todos os romanticidas: a vida e a crise que se lixem, o amor é o amor.

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.


Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.


Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?


O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.


Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.


A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
 
Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As delícias do Inverno



“Estamos não na Primavera, nem no Verão, nem no Outono, mas no pico do Inverno. Este é um ponto muito importante na ciência da felicidade. E surpreende-me ver pessoas que não se importam com isso e que até se felicitam por o Inverno estar a acabar ou, se ele está a decorrer, por ser muito rigoroso. Eu, pelo contrário, todos os anos rezo a pedir ao céu o máximo de neve, granizo, gelo e tempestades que ele possa dar-nos. Todos, é claro, sabem dos divinos prazeres que nos esperam no Inverno ao canto da lareira; as velas que se acendem às quatro horas, o calor da alcatifa, o chá, a formosa pessoa que o faz, os reposteiros corridos, as pregas das cortinas a roçar o chão, enquanto o vento e a chuva rugem lá fora
      
      E parecem bater às portas e janelas,
      Como se terra e céu um só quisessem ser;
      Mas não podem entrar, não encontram por onde,
      Nada poderá invadir o nosso doce abrigo.
                              (Castle of Indolence)”
                                                     
                                                           Thomas De Quincey, Confissões de um Opiómano Inglês

“Sentíamo-nos perfeitamente bem ali no quente, tanto mais que lá fora, e no próprio quarto, sem aquecimento, reinava um frio cortante. A este respeito acrescento que para se gozar plenamente o calor é indispensável ter uma parte do corpo exposta ao frio; porque neste mundo a única medida de valores é a que resulta do contraste. Em si, nada existe. Se uma pessoa se vangloria de um conforto pleno e perene, isso é o mesmo que afirmar que não se encontra mais em condições de avaliar o que é o conforto. Mas se, à semelhança de Queequeng e de mim próprio, uma pessoa se encontra na cama com a ponta do nariz e o alto da cabeça ligeiramente friorentos, então, na verdade, essa pessoa pode afirmar com toda a consciência que sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por este motivo um quarto de cama nunca devia dispor de aquecimento, que é um dos luxuosos desconfortos dos ricos. Porque a suprema delícia é não ter, entre o nosso corpo e o frio exterior, outra coisa além de cobertores. Então podemos dizer que somos como uma fonte de calor incrustada no cerne de um cristal do Ártico.”

                                                                                    Herman Melville, Moby Dick

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Humor & Ternura



Há já algum tempo que sem explicação conhecida me sentia atraída pelo livro A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz, mas a sua leitura ia sendo adiada pela urgência de clássicos. O recente prémio da União Europeia para a Literatura materializou esta vontade, sem que eu entendesse bem porquê, dado que não acredito nem em prémios nem na referida união.

Foi o primeiro livro do autor que li. Proporcionou-me um fim-de-semana muito agradável. Os estranhos nomes e o cenário de uma Dresden bombardeada recordaram-me de imediato um outro universo de escrita: Gonçalo M. Tavares. E embora a minha intuição inicial se viesse a revelar adequada, entre ambos os autores temos apenas essa coincidência de tema, a saber, o eterno e irrespondível tema do Mal. Com a grande diferença essencial, que a escrita de Afonso Cruz não se deixa contaminar pelo objecto de investigação, permanecendo fiel a uma afectividade compassiva, que um olhar mais leviano poderá tomar por ingenuidade.

“Sr. Vogel, se não estiver contente com o rumo das coisas – disse Isaac -, só tem de fazer uma coisa muito simples: juntar os dois pés, concentrar-se e dar um pequeno pulo na vertical. Quando os seus pés tocarem o chão outra vez, a realidade do chão, quando deixarem esse momento celeste que é o salto, quando tocarem o chão, dizia eu, provocará um pequeno tremor que abalará a direcção do universo. Se ia em determinado sentido, sentido que, por certo, não lhe agrada, basta pular para ver mudar o rumo. Mas porque o tremor é muito pequeno, os efeitos não se notam de imediato, no entanto, se pudesse olhar para o futuro, veria como foi diferente daqueles futuros em que não pulou. A vida é feita destes saltinhos.”

A Boneca de Kokoschka não desalinha órgãos ou ideias nem oferece epifanias. É mais uma aproximação a uma ficção borgesiana, em que mais uma vez se replica o eterno debate entre a vida e a ficção. O mais das vezes é a ficção a insistir em suplementar a vida, com um editor a encomendar biografias imaginárias e até obras desses biografados inventados, um homem com reticências cranianas, uma livraria chamada Humilhados & Ofendidos, cartas de amor que colocam no mesmo plano o eterno e a secção de enlatados do supermercado, um livro dentro do livro, um coleccionador de borboletas excêntrico que tenta pesar o Mal e uma prostituta que faz descontos a homens de esquerda. Em ocasiões mais raras, é a vida que se liberta da sua modorra e explode numa riqueza que ultrapassa qualquer possibilidade de imaginação.

“ – (…) Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas. Quer mais brandy?”

Repete a receita mais arcaica para derrotar o Mal: a sua nomeação pela narração. Repete que sem os outros não somos nada e que apenas a sobreposição de vários ângulos ao mesmo tempo, mesmo os mais inimagináveis, dissipa as grades com que a alma escolheu engaiolar-se, até porque o grande inimigo está dentro de nós, neste corpo que alimentamos e vestimos.

Centra toda a sua mensagem numa apologia banal do amor. “Lutamos então contra a maior força do cosmos, contra aquilo que o caracteriza, contra aquilo que ele faz: expandir-se. O universo expande-se, mesmo nos momentos de ócio. Isso quer dizer que separa tudo, faz com que todas as coisas se afastem, se dissolvam. O amor vai juntando as peças que pode – como um velho reformado a jogar dominó – e o universo está aqui para baralhar tudo outra vez.” Banal porque a a história da nossa cultura é rica nestas chamadas de atenção sobre o poder aglutinador de Eros, que remontam aos seus inícios com Empédocles e Platão, entre outros.

Um aviso reiteradamente afirmado e jamais concretizado que justifica a insistência. Por isso, repetir nunca é demais. E Afonso Cruz fá-lo com imensa criatividade, humor e erudição e do que andamos precisados, meus caros, é disto mesmo, desta amálgama de humor e ternura para renovar optimismos e esperanças. Eu, por mim aceito o repto e concluo que não vale a pena tentar enganar-me: não consigo não ser alegre. Temos mais um livro para integrar a tão reduzida lista de uppers, embora seja um upper light, porque não tem aquela grande Beleza que dói de tão bela. Mas merece o prémio e mereceu as minhas duas noites.

“Adele Varga saiu do escritório de Filip Marlov com uma espécie de raiva. Não sabia contra quem a deveria dirigir, mas sentia-se magoada pela maneira como o universo trata os nossos afectos. Entrou no bar mais próximo e pediu um Manhattan. Nessa altura, enquanto bebia, apareceu um homem ao seu lado. Conversaram sobre música porque ele era músico e, no final da noite, apaixonaram-se para sempre. E ficaram assim, nesse estado tão pouco natural, para o resto da sua eternidade: a lutar contra o universo. Ao fundo, ouvia-se uma música de Django Reinhardt: Tears.”

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a poesia acaba quando um poeta morre



A Poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?»    E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? — 

Manuel António Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

“Adquirir a sua alma na paciência”


Lisboa, 19 de Outubro de 2012

Estimado Poeta,

Não tenho outro modo de lhe agradecer as cartas que escreveu há mais de um século. Embora endereçadas a outro jovem aspirante a poeta, as suas palavras trouxeram-me uma alegria preciosa. Os seus conselhos, sempre tão ternos e sábios, afiançam-me que conheceu enormes fadigas e pesadas tristezas e que a certo ponto, decidiu não desesperar e confiar nesse negrume que o abraçava. Tem razão quando afirma que se deve fazer da solidão “uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde os ruídos dos outros passa à distância”. Tudo o que é genuíno e grande começa nessa solidão desmedida.

A tristeza é o momento em que qualquer coisa de novo e desconhecido penetra em nós, como uma tempestade primaveril que entra pelos escaninhos da alma, sorrateira, aí se instalando com toda a lentidão e silêncio enquanto prepara o seu parto, no centro do ser. “Tudo se resume a levar ao fim a gravidez e depois dar à luz. Deixar medrar cada impressão, cada semente de uma emoção, dentro de nós, no escuro, no inefável, no inconsciente, inacessível ao próprio entendimento, e com profunda humildade e paciência aguardar a hora do parto de uma nova claridade: apenas assim se vive artisticamente, no entendimento como na criação (…) O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo esta lição, aprendo-a pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!”

A solidão será difícil de suportar, mas o esforço será recompensado. Nas horas mais escuras, haverá a tentação de a trocar uma qualquer convenção ou conveniência, mais vulgar e fácil, menos dispendiosa e arriscada. Mas é preciso confiar e amar a pergunta que nos nasceu, velar pacientemente pelo seu crescimento pois, como tão sabiamente nos repete, a vida tem sempre razão.

Portanto, não nos agitemos demasiado: renascer leva o seu tempo. A turbulência acabará, eventualmente, por amainar, restando a sua face infinita, devolvendo-nos o olhar que um dia lançámos para fora. Depois de atravessarmos a nossa solidão, seremos talvez capazes de alcançar um amor mais humano, “o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam”.

Quem poderá dizer o que daqui sairá? Ninguém, este é um caminho que tacteamos, sozinhos e desamparados. “O futuro é um eixo fixo (…) mas nós deslocamo-nos no espaço infinito”. Cada um por si. Conforta-me, no entanto, saber que andou pelas imediações e que achou tranquilidade e ternura para falar disso. A minha grande solidão levou-me até si; leitora ávida, raramente sonho com referências literárias, mas há cerca de um ano, numa dessas noites eternas que mastigam o corpo e a alma, uma voz visitou-me enquanto dormia, recomendando-me que tornasse a ler as Elegias a Duíno. No dia seguinte, obedeci de imediato ao ditado onírico e a minha alma foi convalescendo, consolada pelas suas palavras.

Eternamente sua,

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma espiã na casa do amor



«Vestida de vermelho e prata, ela evocava os sons e imagens dos carros de bombeiros, quando rasgavam as ruas de Nova York, inquietando o coração com o violento gongo da catástrofe; toda vestida de vermelho e prata, o impetuoso vermelho e prata cortando caminho através da carne. Na primeira vez que ele olhou para ela, sentiu: Tudo se vai incendiar!
Do vermelho e prata e do longo grito de alarme ao poeta que sobrevive em todo o ser humano, enquanto a criança nele sobrevive; a esse poeta, ela atirou uma inesperada escada no meio da cidade e ordenou: “Suba!”
(…)
Ela era compelida por uma febre confessional que a forçava a levantar um canto do véu, e então amedrontava-se quando alguém ouvia muito atentamente. Repetidas vezes, pegava numa esponja gigantesca e apagava tudo o que havia dito pela negação absoluta, como se essa confusão fosse em si um manto de protecção.»

Um livro mediano. Nada de especial: nem facadas no peito nem picos no pipi.

domingo, 14 de outubro de 2012

uma pergunta relevante


Em casa a batidos e Orson Welles, tentando não fumar muito. Que será de mim sem Tanatos?

domingo, 7 de outubro de 2012

Afirma Pereira


"Nesse momento, Pereira lembrou-se de uma frase que o seu tio, que era um literato falhado, lhe repetia sempre, e pronunciou-a. Disse: a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade."

"E quando o doutor Cardoso passou a porta e desapareceu na rua sentiu-se só, verdadeiramente só, e pensou que quando estamos verdadeiramente sós é o momento de nos medirmos com o nosso eu hegemónico que procura impor-se à corte das almas. Mas apesar deste pensamento não se sentiu apaziguado, pelo contrário, sentiu uma grande saudade, não saberia dizer de quê, mas era uma grande saudade de uma vida passada e de uma vida futura, afirma Pereira."