quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Um homem não nasce homem, torna-se homem


O que significa hoje ser-se viril? E o que significava há cem ou mil anos? Estará a virilidade em crise nas sociedades contemporâneas? HISTÓRIA DA VIRILIDADE, organizada em 3 volumes, traça a genealogia da identidade masculina e a sua transformação ao longo dos séculos nas sociedades ocidentais. O primeiro volume descreve a formação do ideal viril na Grécia e na Roma Antiga e acompanha as posteriores variações durante a época medieval e a Renascença.  

Coração de papel


Há mais de 7 anos que não me apaixono por um homem. Felizmente, a paixão ainda me vai acontecendo, de tempos a tempos, nos livros. Heródoto é o meu último eleito. E que regalo ir para a cama sozinha ler sobre as travessuras que os Citas pregaram aos Persas ou sobre a forma como os Citas conquistaram as Amazonas (tenho notoriamente uma predilecção pelos Citas, creio que desde que li A Luz da Noite de Pietro Citati). Tenho um coração de papel, é o que é.

sábado, 10 de novembro de 2018

Contos Argentinos


Ainda sob o efeito da potente descoberta dos contos de Leopoldo Lugones, fui buscar este livrinho à biblioteca. É uma boa antologia mas o Lugones (representado pelo fabuloso conto Yzur) torna a destacar-se, juntamente comJúlio Cortázar (Casa Ocupada) e Silvina Ocampo, de quem ainda não tinha lido nada e que integra esta antologia com a pequena narrativa Os Objectos - tão sucinto, mudo e perturbante como a inquietante estranheza das coisas.

    A ideia de ir perdendo coisas, essas coisas que fatalmente acabamos por perder, não lhe causava pena como ao resto da sua família ou às suas amigas, que eram todas tão vaidosas. (...) Suspeito que a sua conformidade não era um sinal de indiferença e que pressentia com um certo mal-estar que os objectos um dia a despojariam de algo muito precioso da sua juventude. Agradavam-lhe talvez mais a ela que àquelas pessoas que choravam ao perdê-los. Às vezes, via-os. Chegavam a visitá-la como se fossem pessoas, em cortejo, especialmente de noite, quando se preparava para adormecer, quando viajava de comboio ou de automóvel, ou quando simplesmente fazia o trajecto diário para o trabalho. Muitas vezes importunavam-na como insectos: queria enxotá-los, pensar noutras coisas.
    Onde foi que encontrou esses brinquedos que pertenciam à sua infância?
    (...) Não havia ninguém em casa. Abriu a janela de par em par e aspirou o ar da tarde. Então viu os objectos alinhados contra a parede do seu quarto, como tinha sonhado que os veria. Ajoelhou-se para os acariciar. Ignorou o dia e a noite. Viu que os objectos tinham caras, essas horríveis caras que se formam quando os olhamos durante muito tempo.
    Através de uma soma de felizes acasos, Camila Ersky tinha entrado, por fim, no inferno.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. 


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

If I could make the world as pure and strange as what I see I'd put you in the mirror I put in front of me



RILKE A LOU ANDREAS-SALOMÉ em Munique

8 de Junho de 1897

(...)

Minha límpida fonte! Como te estou agradecido! Não quero mais ver flores, céu, sol  – a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que – sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti – treme de frio no musgo, solitária e terna, reflecte-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma. Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti!
            Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos.

//

Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-lhas? – Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda – ou uma coroa… Nunca te vi de outro modo.
            Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente.


LOU ANDREAS-SALOMÉ A RILKE em Berlim

26 de Fevereiro de 1901

Último apelo.
(…) Mas então, outra coisa aconteceu, qualquer coisa que é como que uma trágica culpabilidade minha para contigo: o facto de, a despeito da nossa diferença de idades, me ter sido necessário crescer desde Wolfratshausen, crescer para encontrar finalmente o que com tanta alegria te anunciei quando nos despedimos, por mais estranho que isso possa parecer: a minha juventude. Pois somente hoje consegui ser jovem, somente agora posso ser o que as outras são aos dezoito anos: inteiramente eu própria. Foi esta a razão por que a tua pessoa, tão querida e tão próxima em Wolfratshausen, a pouco e pouco foi desaparecendo da minha vista, como um determinado pormenor numa vasta paisagem, uma imensa paisagem do Volga, por exemplo, e onde a pequena cabana já não te pertencia. Sem o saber, obedeci ao grande destino da minha vida, que, sorrindo e para além de toda a compreensão e de toda a expectativa, me oferecia um presente. Aceitei-o com uma grande humildade; e lúcida como um vidente, lanço-te este apelo: caminha da mesma maneira ao encontro do teu Deus obscuro!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

diz que era o poema predilecto de Dostoievski


O Profeta

Com o espírito morto de sede,
Rojo-me num deserto escuro,
E voa um anjo de seis asas
Na encruzilhada dos meus rumos.
Com dedos leves como o sonho
O serafim toca-me os olhos:
Uns olhos profetas se abriram
Como os da águia assustada.
Eis que me assoma os ouvidos
E os enche de alvoroço:
Escuto o tremer do céu,o alto
Voo dos anjos,os deslizar
Subáqueo do monstro marinho
E a rosa a crescer no vale.
Sobre minha boca se inclina
E arranca a língua ardilosa,
Carpideira,iníqua e vã,
E com a dextra ensanguentada
Põe o dardo da sábia cobra
Na minha boca silenciada.
Com a espada me corta o peito,
O meu coração latejante
Despega,e no vão negro do seio
O anjo mete a brasa viva .
Estou,como morto,no deserto
E a voz de Deus por mim clama:
Ergue-te,ouve e vê,profeta,
Da minha vontade te tomes,
Mares e terras percorre,queime
Teu verbo o coração dos homens.


Aleksandr Pushkin
(tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

Traditore: o critério de Novalis, citado por Cesariny


«Uma tradução pode ser literal, livre ou mítica. As traduções míticas são o estilo supremo da tradução. Representam a obra de arte individual no seu carácter puro e total. Dão-nos, não a obra de arte ela-própria, mas a sua transcrição ideal... As traduções literais exigem muito saber, mas valem-se de um talento puramente discursivo.
    As traduções livres, se se pretendem válidas, exigem o mais elevado espírito poético.
    ... O verdadeiro tradutor neste género deve ser ele mesmo um artista e dar uma ideia do conjunto por tal ou tal processo à sua escolha. É necessário que seja o poeta do seu poeta..»


o meu coração é árabe




“Quantos Árabes ilustres ligados a esta terra têm merecido a atenção da nossa gente de cultura? Apenas responderá um silêncio que magoa. No entanto, esses mouros convertidos em lenda iluminaram a Idade Média, guiados pelos noventa e nove Nomes de Alá. E, como os ventos que sopravam dos desertos de onde vinham, trouxeram aromas e fulgores de todas as civilizações que avassalaram. E foram filósofos, matemáticos, poetas, santos e heróis. Por isso, os reis cristãos peninsulares, vencedores tantas vezes pela espada, se rendiam ao seu saber e, não raro, entregavam o coração à mulher muçulmana.
(…)
Compreende-se que, no cenário das areias, «a única arte que os nómadas podem desenvolver é de facto a língua – que se torna assim o que Heidegger disse: a morada do ser. A frase do filósofo alemão é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se bayt (literalmente casa) e palavra diz-se mufrad (de fard, ou seja, indivíduo).»

IBN ‘ABDÛN (Évora, século XI)

regaram-no as chuvas da abastança
e saudosas frases me vêm à lembrança.

cumes cobertos de moitas floridas
de bordados mantos, sendas não esquecidas.

como esquecer-me das horas passadas
no tropel louco de ingénuas cavalgadas?

ai como era doce esse meu folguedo
passarinho à toa esvoaçando ledo.

dias tão felizes, bordados em flor,
vento em minhas vestes murmurando amor.


AL-MU’TAMID (Beja, 1040 – Aghmat, 1095)

evocação de Silves

saúda, por mim, Abû Bakr,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande quanto a minha.
saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem nunca o esqueceu,
morada de leões e de gazelas
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas opulentas
e tão estreitas cinturas.
moças níveas e morenas
atravessavam-me a alma
como brancas espadas
como lanças escuras.
ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
preso nos jogos do amor
com a da pulseira curva,
igual aos meandros da água,
enquanto o tempo passava…
ela me servia vinho:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.
tangia-me o alaúde
e eis que eu estremecia
como se estivesse ouvindo
tendões de colos cortados.
mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.

--//--

solta a alegria! que fique desatada!
esquece a ânsia que rói o coração.
tanta doença foi assim curada!
a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois o alaúde e o fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão
da sabedoria só colherás a turbação
cravada no mais fundo do teu ser:
é que, de entre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.