domingo, 5 de março de 2017

A grande viagem ao coração da melancolia



Todos ignoramos de que vivemos, como poderíamos, então, deixar fugir alguma coisa e sentir remorsos por isso? Era já tarde depois do cair da noite quando, chegada a Istambul, transpus, exausta, o arco antigo da porta da cidade; o pavimento ressoava, as pequenas lâmpadas de azeite iluminavam a ruela do bazar e cheguei, por fim, diante das águas cintilantes do Bósforo, cujo fluxo incessante corria no silêncio da noite (…). A viagem não exige que tomemos decisões e não põe a nossa consciência diante de uma alternativa que nos torna culpados e arrependidos, humildes ou obstinados – até duvidarmos por completo da justiça e pensarmos que esta vida não é para nós senão um dédalo, uma prova fatal. Partir é a libertação – ó única libertação que nos restou! – e para tanto não é necessário mais do que uma coragem sem falha, renovada dia após dia…

(…)

Na manhã seguinte, um jovem oficial que dirigia os trabalhos de desobstrução acompanhou-nos aos terraços de Maku, sobrepujados precisamente pela falésia mais alta, onde fora gravada uma inscrição comemorando a vitória de Nadir Shah, que outrora arrebatara a aldeia aos bandidos (…). O que recordo perfeitamente é o véu ligeiramente turvo do orvalho e desse dia em que, esgotada pelo calor de uma ascensão penosa, estava a tremer de frio no jardim do emir, quando uma jovem camponesa aproximou dos meus lábios um jarro de água. Porque somos assim: deliciamo-nos à vista das pérolas, do azul do mar, de uma hora de paz apesar da fúria dos incêndios, ignoramos os campos de ruínas, para aprendermos todos a mesma oração: Senhor, ajuda-nos a suportar esta vida…

(…)

«A nossa vida parece-se com uma viagem…», e mais do que uma aventura e uma excursão em regiões inabituais, a viagem parece-me ser um símbolo da nossa existência: instalados numa cidade, cidadãos de um país, pertencendo a uma classe ou a um meio social, membros de uma família, ligados aos deveres de uma profissão, aos hábitos de uma «vida quotidiana» tecida de todos estes elementos, sentimo-nos, muitas vezes, demasiado seguros de nós; consideramos que a nossa casa foi construída para a eternidade, somos tentados a crer numa estabilidade que, para uns, torna problemático o envelhecer e, para outros, dá a qualquer mudança exterior as aparências de uma catástrofe. Esquecemos que se trata de um processo em curso, que a terra está em movimento perpétuo e que estamos implicados no fluxo e no refluxo dos oceanos, nos tremores de terra e em tudo o que se passa muito longe do imediato que nos rodeia, visível e tangível: mendigos ou reis, actores todos da mesma grande comédia. Esquecemo-lo, para por assim dizer preservarmos a paz da nossa alma, construída ela própria sobre areias movediças. Esquecemo-lo, para não cedermos ao medo.»

(…)

Não haverá, algures, um caminho que se abre, uma garganta que conduza a outros países? Será sempre assim, o mesmo céu, de manhã e à noite, o mesmo ciclo, a mesma prece, e nunca uma resposta?

(…)


Foi por isso que quis um dia desprender-me – de que destino ao certo, não o sabia – e julgava somente compreender que uma infelicidade me ferira, como pode acontecer a qualquer de nós, e tinha necessidade de me manter afastada, em silêncio. Como é que os outros vivem, perguntava-me eu, como suportam este país e o dia de amanhã, como o suportam? Mas quando desce uma vez mais a magia do crepúsculo, quando o dia sem sombra decresce, e as corças se mostram nas encostas do inverno já nimbadas de bruma, quando volto a ter uma hora tão cheia de inocência, sinto-me então inclinada a baixar os olhos e a arrepender-me e a não ceder nunca mais à tentação – e disponho-me plenamente a reconhecer que estamos enraizados dentro de limites estreitos e que não podemos fazer mais do que um pedaço mínimo de caminho.

sábado, 4 de março de 2017

Der Himmel über Berlin





CANÇÃO DA INFÂNCIA


Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.

Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.

Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.


Peter Handke

O nosso habitual sentimento de imperfeição



COMO PODE A VIDA TER LUGAR, OU PERSISTIR, NUM ESTADO DE CRISE PERMANENTE?

O arquitecto Aldo Rossi não tem dúvidas. O bloco de pedra mata um transeunte. Para ele, o princípio da conservação da energia acaba em tragédia. A História e a teoria têm de lidar com a incerteza acerca das circunstâncias, de crises passadas e presentes. Essa situação pode levar à dúvida, mas também pode originar acção. Rossi enfrentou conflitos semelhantes, muitas vezes irreconciliáveis, devido a escolhas pessoais. Apesar da melancolia, havia também o entusiasmo para avançar. Cada projecto «deve ser de algum modo conclusivo, mesmo que seja apenas para poder ser repetido com leves variações ou deslocações, ou assimilado por novos projectos, novos lugares e novas técnicas: outras formas de vislumbrarmos sempre um pouco de vida». Daí que seja possível chegar a uma conclusão. No final, a melancolia é uma questõ de carácter. A arquitectura também.


Uma belíssima reflexão sobre a influência da melancolia na arquitectura e pensamento crítico de Aldo Rossi.

O mundo de ontem



Tudo começa quando o Grande Xá da Pérsia é tomado por uma grande inquietação, perde o interesse nas suas mulheres e decide viajar até ao Ocidente, esperançado no alento que as artes eróticas do Ocidente lhe poderão proporcionar. Viena no final do século XIX – que outro local pode personificar melhor o final de uma visão do mundo, de uma Europa e de uma época? A milésima segunda noite é a noite do logro e da decepção com os devaneios das mil e uma noites.

– Porque lamentas por nós, Pantominos? – perguntou o Xá.
– Por muitas razões – respondeu o eunuco – mas principalmente porque os homens estão sujeitos ao princípio da mudança. Trata-se de um princípio falacioso, porque, na verdade, não há mudança nenhuma.
– Estás a querer dizer que devo viajar para algum sítio só para sentir essa mudança?
– Sim, Senhor – disse Pantominos – para se convencer de que afinal não há mudança nenhuma.
– E isso só por si iria curar-me?
– Não o iria convencer – disse o eunuco – mas iria proporcionar-lhe as experiências necessárias para chegar a essa mesma convicção.
– Como chegas a essas conclusões, Pantominos?
– Porque fui castrado, Senhor! – retorquiu o eunuco e curvou-se de novo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O mes amis, il n'y a pas d'ami!


Não consigo atinar com o Thomas Bernhard. Há uns tempos, um leitor estimado, recomendou-me com o entusiasmo O SOBRINHO DE WITTGENSTEIN. No fim de semana passado, essa recomendação regressou-me à memória e lá trouxe um exemplar emprestado da biblioteca.

Lê-se bem e rápido. No entanto, o estilo repetitivo de Bernhard não me cativa. Embora perceba musicalidade da coisa na língua original, acaba por me recordar também os nossos velhos do Restelo. O permanente tom ressentido do autor também não me convida, embora perceba e comungue da sua indignação e raiva.

E é isso, mais um livro com o qual não empatizei e cujos louvores não entendo. Falha minha, muito provavelmente, pois um leitor arrisca-se sempre a falhar o encontro com um determinado livro se as circunstâncias não forem favoráveis. Admiro a coragem com que Bernhard detracta tudo e todos, expondo também as suas vilezas, como a de ter abandonado o seu melhor e mais verdadeiro amigo na fase final da sua vida. Contudo, não consigo deixar de sentir que a sua exposição não vai tão fundo quanto poderia ir e mais do que um livro sobre o seu amigo, temos um livro sobre próprio Bernhard.


Eu podia contar agora histórias do Paul, pois não há só centenas, mas milhares, em que ele é a figura central e que são famosas na chamada alta sociedade vienense, que era a sua e que, como se sabe, vive de tais histórias jocosas e de nada mais, mas não é essa a minha intenção. Ele era uma pessoa que vivia em grande agitação, permanentemente nervoso, sempre incapaz de autodomínio. Era um cismador, alguém que a propósito de tudo fazia filosofia e um acusador incessante. Como era um observador incrivelmente adestrado e nessa sua observação, que ele aperfeiçoou com o tempo, tornando-a uma arte, era de uma completa irreverência, tinha continuamente razões para acusar. Não havia nada que não desse motivo a qualquer acusação. As pessoas que chegavam à sua presença não ficavam em paz mais que uns brevíssimos momentos, porque logo despertavam uma suspeita e eram culpadas de um crime ou pelo menos de qualquer simples delito, sendo depois flageladas com aquelas palavras que são também as minhas quando me revolto ou defendo, quando me decido a lutar contra a insolência do mundo, para não ficar por baixo e não ser por ele destruído. No Verão tínhamos o nosso lugar cativo na esplanada do Sacher e na maior parte do tempo vivíamos apenas das nossas acusações. Ficávamos horas e horas sentados na esplanada do Sacher e acusávamos. Com uma chávena de café na nossa frente, acusávamos o mundo da forma mais radical.

E, por falar em mistérios,



Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Ângelo de Lima (1872-1921)

«24 pássaros contra todas as ausências»


Descobri o Daniel Faria na semana passada, graças a um espectáculo de Pablo Fidalgo no Teatro D. Maria II na semana passada. Ao ver algumas das obras plásticas do poeta, gentilmente emprestadas pelo Mosteiro de Singeverga (como por exemplo os 24 pássaros contra todas as ausências), pressenti que assomava ali um daqueles mistérios cujo convite tanto procuro. No dia seguinte, fui à biblioteca para conhecer mais da sua poesia. Para quem anda tão desatento como eu, aqui fica um artigo interessante: https://www.publico.pt/noticias/jornal/daniel-faria-o-rapaz-raro-159820

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados

Do lugar

Cada um afoga-se à sua maneira



Com o aproximar do final do ano, os suplementos culturais dedicam-se a eleger os livros do ano. Tornou-se um hábito aguardar estas listas com expectativa e posteriormente anotar os títulos que me tinham escapado ou aos quais a solidão necessária tinha faltado. Porém, nos últimos três anos, tais listas não me têm trazido a satisfação tão almejada. E pergunto-me se estará a produção editorial mais empobrecida, ou o empobrecimento será da crítica, ou pior ainda, de mim mesma, cada vez mais sóbria, menos propensa a arrebatamentos.

Embora não tenha concentrado as minhas leituras em publicações de 2016, ouso a leviana afirmação: O CASO DO CAMARADA TULAEV foi dos melhores livros do ano. E a E-Primatur é um dos projectos editoriais mais recentes que acompanho com muitas ganas, sobretudo pela elegância com que têm demonstrado que não é preciso fuçar juntamente com sete cães para encontrar um osso. Resta ainda, para nossa graça e contentamento, muita literatura, negligenciada pelo cânone e pelos merceeiros de serviço. Sim, literatura dessa, grande ou alta, como preferirdes apelidá-la.

Diz o vulgo que as ninfomaníacas são tomadas pela compulsão sexual justamente porque não conseguem atingir o orgasmo. Pois assim sucede comigo no que diz respeito às leituras: leio, leio e raras vezes me satisfaço. Torno a ler, leio mais, sofregamente. E nada. Que pessoa esquisita me tornei! Ter-se-á a minha mente couraçado, secado definitivamente o solo fértil das primeiras leituras, em que tudo penetra com a força de dez marteladas, em que é possível sentir a vastidão do universo na própria pele? Mas, ah, as surpresas ainda sobrevêm e eis que um livro – sobre purgas estalinistas, vá-se lá acreditar – me agarra, os pés descolam do chão e lá vou eu, inteira em mãos e retina, rumo a essa distante e tão amada literatura! É assim, os cometas nascem à noite, justamente como reza o primeiro capítulo do livro, e há um fogo que se acende e não queremos mais apartarmo-nos da beleza. Jamais!

Kostia ponderava a compra de um par de sapatos havia semanas quando uma súbita fantasia, que até a ele o surpreendeu, deitou por terra todos os cálculos que fizera. Se passasse sem cigarros, cinema e, dia sim, dia não, sem a refeição do meio-dia, economizaria em seis semanas os cento e quarenta rublos necessários para a aquisição de um bom par de botins que a simpática vendedora de uma loja de artigos em segunda mão lhe prometera reservar «por baixo do pano». Entretanto, ia caminhando alegremente sobre solas de cartão renovadas todas as noites. Felizmente, o tempo continuava bom. Quando já tinha setenta rublos, Kostia deu-se o prazer de ir ver os seus futuros sapatos, escondidos na obscuridade de uma estante (…).
– Esteja tranquilo – disse-lhe a pequena vendedora –, os seus botins ainda cá estão, não se preocupe…
(…) Depois do momento em que aqueles olhos profundos – da cor verde-azulada de alguns bibelôs chineses expostos na vitrina do balcão – o fixaram, o olhar de Kostia passeou-se pelas jóias, pelos corta-papéis, pelos relógios, pelas caixas de rapé, pelas outras antigualhas, até se deter por acaso num pequeno retrato de mulher com uma moldura de ébano, tão pequeno que lhe poderia caber na palma de uma mão…
– Quanto custa isto? – perguntou Kostia num tom surpreendido.
– Setenta rublos; é caro, sabe? – responderam os lábios encantados.
Largando um brocado vermelho e dourado que se encontrava sobre o balcão, mãos igualmente encantadas foram buscar a miniatura. Kostia agarrou nela, perturbado por segurar entre os seus dedos grossos e sujos aquela imagem, aquela imagem viva, aquela imagem mais extraordinária que viva, aquela minúscula janela negra que enquadrava uma cabeça loira coroada por um diadema, um belo rosto oval cujos olhos eram plenos de uma atenção, de uma doçura, de uma força, de um mistério sem fundo…
– Eu levo-o – disse ele surdamente e para sua própria surpresa.

Assim começa a história, e que começo! Enquanto ascendo não consigo qualificar o que me rapta e no meu enlevo balbucio apenas: tão russo! tão próximo da minha alma! Tanta pobreza e injustiça suportada, tanta sobriedade acumulada, que só o desvario pode conciliar por momentos uma consciência fustigada para além do humanamente suportável. Seis semanas a poupar para um par de sapatos, como não sonhar com uma vida mais livre e espontânea, mais bela? A vida não nasceu para ser poupada, ela tende, à mínima guinada, para o dispêndio, para a combustão. Por isso as ervas daninhas insistem sobre os passeios calcetados, o pó se deposita sobre as nossas estantes, os vermes devoram os nossos ossos e o tempo elide as letras impressas. A natureza, o caos, tudo o que vive e secretamente se transmuta, está constantemente à espreita, à espera da sua oportunidade para respirar e insuflar o universo da eterna novidade.

O resto é enredo, engenhosamente articulado. Toda a intriga é despoletada pelo assassinato do camarada Tulaev. O leitor sabe desde o início quem o matou, razão pela qual ainda se indigna mais com os inquéritos absurdos em torno desse crime. No entanto, de todo esse absurdo é possível extrair várias aproximações racionais ao entendimento da máquina estalinista e os modos que esta achou para devir numa espécie de carnificina automática, capaz de ceifar tudo e todos, qual Saturno devorando os próprios filhos. Ninguém está salvo – os que ontem acusaram e executaram, encontram-se no dia seguinte matematicamente desviados para o lado das vítimas.

– Não sei mais nada, tenho ordens precisas. É tudo, cidadão.
Rublev foi-se embora, estranhamente leve, levado por ideias semelhantes a um voo de aves agitadas. É isto, a armadilha – a fera apanhada na armadilha, és tu a fera apanhada, velho revolucionário, és tu… E estamos todos aqui na armadilha… Não nos teremos enganado completamente algures? Patifes, patifes! Um corredor vazio, mal iluminado, a grande escadaria de mármore, a porta giratória dupla, a rua, o frio seco, o automóvel negro do mensageiro. Perto deste último, que fumava enquanto estava à espera, um outro homem, de voz baixa e pastosa:
– Camarada Rublev, é-lhe solicitado que nos acompanhe para uma breve conversa…
(…)
As pequenas ruas de dois tons, com o branco da neve e o azul da noite, iam desfilando nos vidros. «Mais devagar», ordenou Rublev, e o motorista obedeceu. Rublev abriu a janela para poder ver melhor uma nesga de rua, não importava qual, o passeio cintilava, coberto de neve virgem. Uma velha casa senhorial do século passado, com um frontão suportado por colunas, parecia dormir há cem anos, atrás da sua vedação gradeada. Os troncos prateados das bétulas luziam tenuemente no jardim. Era tudo – para sempre, num perfeito silêncio, numa pureza de sonho. Cidade debaixo do mar, adeus. O motorista acelerou. – Somos nós que estamos debaixo do mar. Não faz diferença, fomos fortes.


Victor Serge leva-nos numa viagem às profundezas dessa máquina, permitindo-nos inspecionar as várias roldanas e, o mais genial na minha opinião, mostrar-nos como todo esse terror foi perpetrado com a colaboração de homens bem intencionados, extremamente fiéis ao partido e, como tal, dispostos a aceitar toda a humilhação e pobreza para não desonrar o partido. O mecanismo totalitário deriva obviamente de Estaline mas, a certo ponto da narrativa, percebemos que este se tornou automático e nem o próprio chefe poderiam parar esta gigante máquina de ceifar vidas. Sucede sempre isso, quando um projecto para melhorar a humanidade se torna tão programático que perde de vista o valor dessa mesma humanidade. O CASO DO CAMARADA TULAEV é exímio na descrição dessa humanidade metafisicamente abismada, socorrida por uma escrita que se inclina constantemente para o sublime, alçada por uma tristeza absolutamente lírica e ridente.

A noite da iguana


«Todos nós nos enroscamos em alguma coisa ou em alguém. Quando é com alguém é uma sorte. Uma sorte rara.»
Tenessee Wiliams, A Noite da Iguana

Sensibilidade e Bom Senso





Os dois filmes são de Ira Sachs e é com grande sensibilidade e delicadeza que nos convidam a pensar a velhice e a adolescência, bem como o modo como a difícil equação entre o capital e os afectos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Feminismo punk


Escrevo da terra das feias, para as feias, as velhas, as machonas, as frígidas, as malfodidas, as infodíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado das gajas boas. E começo por aqui para que as coisas sejam claras: não peço desculpa de nada, não me venho lamentar. Não troco o meu lugar com ninguém, porque ser Virginie Despentes parece-me uma tarefa mais interessante de cumprir do que qualquer outra.


Acho óptimo que haja também mulheres que gostam de seduzir, que sabem seduzir, outras arranjar marido, mulheres que cheiram a sexo e outras a bolo do lanche das crianças que saem da escola. E óptimo que haja umas muito meigas, outras esfuziantes na sua feminilidade, que haja mulheres jovens, muito belas, outras vaidosas e flamantes. A sério que fico muito contente por todas aquelas a quem as coisas tal como são convêm. Acontece, porém, que não me integro nesse grupo (…). É na minha qualidade de proletária do feminismo que falo, que falei ontem e que recomeço hoje (…). Sou o tipo de mulher com quem não se casa, com quem não se tem um filho, falo da minha posição de mulher que é sempre demasiado em tudo o que é, demasiado agressiva, demasiado ruidosa, demasiado grosseira, demasiado brutal, demasiado hirsuta, sempre demasiado viril, dizem-me. Porém, são as minhas qualidades viris que fazem de mim qualquer coisa diferente de um caso social entre os outros. Tudo de que gosto da minha vida, tudo o que me salvou, devo-o à minha virilidade.

Great expectations



      As minhas expectativas relativamente à obra DEBAIXO DO VULCÃO eram altas. Não podia ser de outra forma com um livro em que a personagem principal é o álcool. No entanto, e com grande pesar, constato que não entra para a minha lista de livros do caralho. Ultimamente, o encontro com estes livros excepcionais vai rareando e não consigo evitar sentir-me responsável por essa comunhão falhada (não amar um livro, existirá alguma tristeza mais profunda?). Curiosamente, acontece o mesmo com os amantes – terei eu perdido a capacidade do encantamento, da empatia generosa, ou serão apenas as maleitas decorrentes das várias experiências acumuladas?

As circunstâncias eram favoráveis ao encontro. O prefácio escrito por Lowry para a primeira edição francesa prescrevia o livro como indicado à minha condição: apesar de toda a estabilidade conquistada nos últimos anos, não me sinto eu quase sempre em combate com os poderes das trevas e da luz, numa perpétua travessia das profundezas de Qliphoth, esse «mundo dos detritos e dos demónios»? A atmosfera árida do México e a introdução do Cônsul eram convidativas. Como não me conectar com o seu desespero espiritual, alheio a qualquer hipótese de renegociação?

Porque os homens, todos os homens – era o que Juan parecia estar a dizer-lhe – devem, até no México, lutar incessantemente, num sentido ascensional.  Que era a vida senão uma luta e uma viagem transitória num país estranho? A Revolução ruge do mesmo modo na terra caliente de cada uma das almas humanas? Não existe outra paz, além daquela que paga portagem completa para o inferno…

O primeiro terço do livro recorda-me uma selva frondosa e nocturna, apesar do meio-dia insuportável. À medida que me adentrava pelo ânimo do Cônsul e reconhecia a sua extrema lucidez (e as armadilhas dessa mesma lucidez), ia também contactando com essa pulsão de morte indomável, o delirium tremens e essas ganas de meter veloz pelo precipício abaixo.

Mas depois a paisagem muda e dou comigo a descobrir Hugh e Yvonne. Com esses, não me conecto. Aliás, aborreço-me muito. Talvez fosse essa a intenção do autor, impossível dizer… Até que regresso ao Cônsul e à análise genial da sua dualidade. Gostei particularmente das passagens em que o Cônsul se encerra numa casa de banho e do final, apoteoticamente trágico. A ambivalência está tão bem explanada que nos incomoda: por um lado, pressentimos que o Cônsul ainda poderá reerguer-se, escapar às sombras avassaladoras, conhecemos o seu esforço e acreditamos no seu merecimento; por outro, sabemos que, ainda que a salvação esteja a um palmo de distância, às vezes, não se consegue mover um dedo que seja.

– Gosto disto – rematou, dirigindo-se aos outros, pela janela e já do lado de fora. Cervantes continuava atrás do bar, de olhos assustados e sempre com o galo nos braços. – Gosto do inferno. Não posso esperar mais; quero ir para lá. E vou mesmo a correr; já lá estou quase.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

domingo, 30 de outubro de 2016

Mulher em brasa



Despenhou-se no deserto, despida de palavras e loucura.

Às mulheres em brasa, nada mais lhe resta.


criatura en plegaria
rabia contra la niebla

escrito                                                                                                                          contra
en                                                                                                                                 la
el                                                                                                                                  opacidad
crepúsculo


no quiero ir
nada más 
que hasta el fondo


oh vida
oh lenguaje
oh isidoro

Alejandra Pizarnik, 1972


Julio fui tan abajo. Pero no hay fondo
Julio, creo que no tolero más las perras palabras
La locura, la muerte. Nadja no escribe. Don Quijote tampoco.
Julio, odio a Artaud (mentira) porque no quisiera entender tan sospechosamente bien sus posibilidades de la imposibilidad.
PS
Me excedí, supongo. Y he perdido, viejo amigo de tu vieja Alejandra que tiene miedo de todo salvo (ahora, oh Julio) de la locura y de la muerte. (Hace dos meses que estoy en el hospital. Excesos y luego intento de suicidio —que fracasó, hélas)
PS En el hospital aprendo a convivir con los últimos desechos. Mi mejor amiga es una sirvienta de 18 años que mató a su hijo
Carta de Alejandra Pizarnik a Julio Cortázar


get the blues



      (...) O romantismo presta culto à cor azul. Em especial, o romantismo alemão. Nesse campo, o texto mais emblemático, senão fundador, é o romance inacabado Heinrich von Ofterdingen, de Novalis, publicado a título póstumo em 1802 por Ludwig Tieck, amigo mais chegado do escritor. Este romance conta a lenda de um trovador medieval que partiu em busca de uma florzinha azul entrevista em sonhos, flor que encarna a poesia pura e a vida ideal. O sucesso dessa flor azul foi considerável, bastante superior ao do romance. Juntamente com o casaco azul de Werther, tornou-se a figura simbólica do romantismo alemão.
Talvez até do romantismo em geral, de tal forma essa flor e a sua cor foram imitadas fora da Alemanha por poetas que escreviam noutras línguas europeias. Por todo o lado o azul viu serem-lhe atribuídas todas as virtudes poéticas. Passou a ser, ou voltou a ser, a cor do amor, da melancolia e do sonho - era-o já, de certa maneira, na poesia medieval, na qual existia um jogo de palavras entre ancólia (flor azul) e melancolia. O azul dos poetas juntava-se assim ao azul das expressões idiomáticas e dos provérbios, que já há muito qualificavam como contos azuis as quimeras ou os contos de fadas, e como pássaro azul o ser ideal, raro e inacessível.
      Este azul romântico e melancólico, o da poesia pura e dos sonhos infinitos, atravessou décadas mas, com o tempo, foi-se desviando, enegrecendo ou transformando um pouco. Na Alemanha, ainda está presente na expressão blau sein, que significa estar embriagado, recorrendo o alemão à cor azul para qualificar o espírito toldado e os sentidos anestesiados de uma pessoa que bebeu demais - enquanto o francês e o italiano, para dizer a mesma coisa, recorrem ao cinzento e ao negro. Também em Inglaterra e nos Estados Unidos, a expressão the blue hour (a hora azul) designa o período da saída do emprego, ao fim da tarde, quando os homens (e por vezes as mulheres), em vez de irem directamente para casa, vão passar uma hora num bar para beber e esquecer as preocupações. Esta relação entre o álcool e a cor azul já estava presente nas tradições medievais: muitos receituários destinados aos tintureiros explicam que, ao tingir-se com pastel-dos-tintureiros (que normalmente precisa apenas de um mordente fraco), utilizar como mordente a urina de um homem em avançado estado de embriaguez ajuda a fazer penetrar bem a matéria corante no tecido.
      Por fim, e em especial, tem de se fazer a associação do azul dos românticos com o blues, forma musical de origem afro-americana, provavelmente nascida nos meios populares nos anos de 1870 e caracterizada por um ritmo lento a quatro tempos, que traduz estados de alma melancólicos. Esta palavra anglo-americana, blues, que muitas línguas adoptaram sem alterações, provém da contracção da expressão blue devils («demónios azuis»), que remete para a melancolia, a nostalgia e o desânimo, tudo aquilo que o francês qualifica com outra cor: idées noires, «ideias negras». Corresponde à expressão inglesa to be blue ou in the blue, que tem como equivalentes, em alemão, alles schwarz sehen, em italiano, vedere tutto nero e, em francês, broyer du noir.



domingo, 16 de outubro de 2016

De barriga vazia



Nunca tinha lido nada do George Saunders nem sequer retido o seu nome (a «contemporaneidade» interessa cada vez menos por estas bandas), até topar com a antologia DEZ DE DEZEMBRO, publicada por alturas da Feira do Livro de Lisboa.

Entrei pelo livro, às escuras, e o embate com o primeiro conto induziu-me a pensar que estava perante um escritor muito bom (numa primeira impressão, o estilo lembrou-me o Salinger). Esfreguei as mãos de contentamento mas, à medida que avançava na leitura, a minha excitação inicial descia a pico, quase até soçobrar nas caves do tédio. Os contos seguintes, sem excepção, resumiam-se a explorar ficcionalmente determinadas facetas das nossas sociedades de controlo (por exemplo, a violência, a formatação química dos afectos, a profissionalização da vida, etc.). Chegar ao fim da leitura, exigiu-me várias doses de estoicismo e incredulidade, mas precisava entender como o conto inicial me conseguira ludibriar.

A conclusão a que cheguei é que Saunders é excelente, roçando mesmo a genialidade, na construção da singularidade das personagens, no recorte da acção, nos diálogos, de tal modo que é muito convidativo entrar nos universos instantâneos que nos propõe, como se nos colocasse à frente uma iguaria rara e irrepreensível. Porém, aguçado pela impecável e envolvente apresentação, o nosso apetite começa a degustar a história e eis que encontra a decepção dos sabores corriqueiros, mancos de extravagância. Quer isto dizer, que o enredo não satisfaz, comportando-se como uma ovelha mansa e ordeira, fiel aos caminhos costumeiros do pensamento, afastada das vertigens essenciais.

Ainda assim, dizem-me que PASTORÁLIA é a sua grande obra. Dar-lhe-emos com certeza nova oportunidade.