segunda-feira, 13 de maio de 2019

Ronda de los metales

RONDA DE LOS METALES
Dedicada a Martha A. Salotti

Del centro de la tierra

,oyendo la señal,
los Lázaros metales
subimos a danzar.

Estábamos dormidos

y costó despertar
cuando el Señor y Dueño
llamó a su mineral.

¡Halá!, ¡Halá!¡

El Lázaro metal!

Veloz o lento bailan

los osos del metal:
el negro topa al rojo,
el blanco al azafrán.

¡Va -viene y va-

el Lázaro metal!

El cobre es arrebato,

la plata es maternal,
los hierros son Pelayos,
el oro Abderrahmán.

Baila con llamaradas

la gente mineral:
Van y vienen relámpagos
como en la tempestad.

La ronda asusta a ratos

del resplandor que da,
y silva la Anaconda
en Plata y en timbal.

¡Halá!, ¡Halá!¡

El Lázaro metal!

En las pausas del baile

quedamos a escuchar-
niños recién nacidos-
el tumbo de la mar.

Vengan los otros Lázaros

hacia su libertad;
salten las boca-minas
y lleguen a danzar.

¡Ya sube, ya,
el Lázaro metal!

Cuando relumbre toda

la cancha de metal,
la tierra vuelta llama¡
Qué linda va a volar!

Y va a subir los cielos,

en paloma pascual,
como era cuando era
en flor la Eternidad.

¡Ha la la lá!¡

El Lázaro metal!

Gabriela Mistral

Da pulsão cinemática


Lacrimae Rerum reúne um conjunto de ensaios sobre cinema moderno. Numa abordagem às filmografias de Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch, Žižek decripta as imagens e o cinema de cada um destes autores para nos propor um estudo aprofundado dos seus motivos e movimentos. E colocando-nos face aos nossos próprios medos/desejos, estabelece a ponte final da análise entre o espectador-receptor e a projecção das suas pulsões em imagens tão familiares quanto fabricadas.

¿Quién no tiene su vestido azul?


Altura y pelos

¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que sólo he nacido solamente!


César Vallejo

cuando todos se vayan



Cuando todos se vayan a otros planetas
yo quedaré en la ciudad abandonada
bebiendo un último vaso de cerveza,
y luego volveré al pueblo donde siempre regreso
como el borracho a la taberna
y el niño a cabalgar
en el balancín roto.
Y en el pueblo no tendré nada que hacer,
sino echarme luciérnagas a los bolsillos
o caminar a orillas de rieles oxidados
o sentarme en el roído mostrador de un almacén
para hablar con antiguos compañeros de escuela.

Como una araña que recorre
los mismos hilos de su red
caminaré sin prisa por las calles
invadidas de malezas
mirando los palomares
que se vienen abajo,
hasta llegar a mi casa
donde me encerraré a escuchar
discos de un cantante de 1930
sin cuidarme jamás de mirar
los caminos infinitos
trazados por los cohetes en el espacio.


Jorge Teillier

Giovanni Segantini



il pleure dans mon coeur



Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits ! 
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

verde


Notoriamente tóxico e quimicamente instável, o verde demorou a conquistar o mundo. Ausente das pinturas no Neolítico e remetido a um papel discreto na Antiguidade, o verde foi durante os séculos seguintes associado a tudo o que é volúvel, desde a juventude e o amor até à sorte e ao destino. Só na época romântica se tornou definitivamente a cor da natureza, o que lhe permitiu conquistar um lugar privilegiado na paleta de cores do Ocidente.

As edições Orfeu Negro prosseguem a publicação da obra do historiador francês Michel Pastoureau, um dos maiores especialistas na simbólica das cores e em heráldica. Depois de PRETO e AZUL, é a vez da cor verde nos contar a sua (e a nossa) multifacetada história, num tom simultaneamente erudito e pleno de curiosidades.

Por gracia de morir todas las noches



Por su pinta poeta de gorrión con gomina,
por su voz que es un gato sobre ocultos platillos,
los enigmas del vino le acarician los ojos
y un dolor le perfuma la solapa y los astros.
Grita el águila taura que se posa en sus dedos
convocando a los hijos en la cresta del sueño:
¡a llorar como el viento, con las lágrimas altas!,
¡a cantar como el pueblo, por milonga y por llanto!
Del brazo de un arcángel y un malandra
se van con sus anteojos de dos charcos,
a ver por quién se afligen las glicinas,
Pichuco de los puentes en silencio.
Por gracia de morir todas las noches
jamás le viene justa muerte alguna,
jamás le quedan flojas las estrellas,
Pichuco de la misa en los mercados.
¿De qué Shakespeare lunfardo se ha escapado este hombre
que un fósforo ha visto la tormenta crecida,
que camina derecho por atriles torcidos,
que organiza glorietas para perros sin luna?
No habrá nunca un porteño tan baqueano del alba,
con sus árboles tristes que se caen de parado.
¿Quién repite esta raza, esta raza de uno,
pero, quién la repite con trabajos y todo?
Por una aristocracia arrabalera,
tan sólo ha sido flaco con él mismo.
También el tiempo es gordo, y no parece,
Pichuco de las manos como patios.
Y ahora que las aguas van más calmas
y adentro de su fueye cantan pibes,
recuerde y sueñe y viva, gordo lindo,
amado por nosotros. Por nosotros.

O-que-sabe


1. Palavras / de Qohélet filho de Davi //
 rei  / em Jerusalém

2. Névoa de nadas / disse O-que-sabe //
 névoa de nadas / tudo névoa-nada

3. Que proveito / para o homem ///
 De todo o seu afã //
 fadiga de afazeres / sob o sol

4. Geração-que-vai / e geração-que-vem //
 e a terra / durando para sempre

5. E o sol desponta / e o sol se põe ///
 E ao mesmo ponto //
 aspira / de onde ele reponta

6. Vai / rumo ao sul //
 e volve / rumo ao norte ///
Volve revolve / o vento vai //
e às voltas revolto / o vento volta

7. Todos os rios / correm para o mar //
e o mar / não replena ///
Ao lugar / onde os rios / acorrem //
para lá / de novo / correm

8. Tudo tédio palavras //
como dizê-lo / em palavras ///
O olho não se sacia / de ver //
e o ouvido não se satura / de ouvir

9. Aquilo que já foi / é aquilo que será //
e aquilo que foi feito // aquilo / se fará ///
E não há nada novo / sob  sol

10. Vê-se algo / se diz eis / o novo ///
Já foi / era outrora //
fora antes de nós / noutras eras

11. Nenhum memento / dos primeiros vivos ///
E também dos vindouros / daqueles por vir /
deles não ficará / memória //
junto aos pós-vindos / que depois virão

12. Eu Qohelet O-que-sabe / eu fui rei /
se Israel / em Jerusalém

13. E do meu coração eu me dei /
a indagar e inquirir / com saber //
sobre o todo / de tudo o que é feito / sob o céu ///
Torpe tarefa/ que deu Elohim /
aos filhos do homem / para atarefá-los

14. Eu vi / todos os feitos //
que se fazem / sob o sol ///
E eis tudo / névoa-nada / e fome-de-vento

15. O que é torto / não se pode endireitar ///
E  o que é falho / não se pode enumerar

16. Palavras para o meu coração / eu as disse //
eis-me / aumentei e avultei / o saber //
muito além / de quantos me foram antes /
sobre Jerusalém ///
E por dentro de mim / vi no auge / o saber e a ciência

17. E do meu coração eu me dei / a saber o saber //
e a saber da loucura / e da sandice ///
Soube // também isto / é vento-que-some

18. Pois / em muito saber / muito sofrer ///
E onde a ciência cresce / acresce a pena

Transcriação do Eclesiastes, do hebraico, pelo poeta  Haroldo de Campos.

confissões de um travesti



“Tenho quarenta e três anos, sou casado e pai de família. (…) Nem sempre vivi fascinado pela roupa feminina. Durante muitos anos, até ao meu casamento, eram só as cuecas delas que me atraíam. Embora ainda não tivesse chegado, talvez, a altura de vestir toda a toillette de uma mulher, esse desejo crescia já em mim e esperava a ocasião para se manifestar.”

CONFISSÕES DE UM TRAVESTI apareceu pela primeira vez em 1956 na colecção «Les grandes études françaises de psychiatrie», como primeiro volume da série. As memórias deste homem anónimo contam-nos do seu fascínio por lingerie feminina e da prática do travestismo no início do século xx. As ilustrações de João Maio Pinto complementam a detalhada narrativa com um imaginário irreverente e destemido.

rakhil



Desde que conheci um pouco da sua biografia, que integra a minha mais estimada constelação. Isabelle Eberhardt, ou Mahmud Sadi, foi um astro extravagante e excepcional, fadado a arder rapidamente porque demasiado consumido numa voracidade da vida. O seu destino trágico contém muitos símbolos da minha gramática afectiva, começando pelas origens russas, os trajes masculinos de marinheiro, até às viagens exóticas e ao seu fanatismo místico. “Ir para o seio do grande oceano de mistério que é o Saara e fixar-me aí. – Um direito que bem poucos intelectuais fazem o esforço de reivindicar, é o direito à vida errante, à vagabundagem. […] Estarmos sós, sermos parcos no que necessitamos, sermos ignorados, estranhos na nossa casa e em todo o lado; e, solitários e grandes, andarmos à conquista do mundo.” Oh, Isabelle, como não entender as tuas palavras? Lembras-me Rimbaud, as tuas feições andróginas, essa pretensão ao anonimato, a tua promiscuidade (ah, palavra deliciosa!)

Enquanto escritora, não é tão boa. Leio a sua obra para a imaginar melhor. O prefácio de Aníbal Fernandes a Rakhil traz testemunhos desses que a conheceram e tornam-na mais próxima. «Bebia de mais. Era a única coisa que contrastava com a sua profunda aceitação da fé muçulmana. Sim, tinha a religiosidade intensa dos místicos e dos mártires. Vivia como um homem, como um rapaz, porque bem mais parecia rapaz do que rapariga. Mas era, com o seu ar de hermafrodita, apaixonada e sensual embora diferente de uma mulher. Ainda por cima com o peito completamente plano. Tinha pequenas vaidades, embora bem mais fosem as de um árabe elegante. Trazia as belas mãos sempre enfeitadas com henna, a roupa sempre imaculada, e quando tinha dinheiro punha desses perfumes intensos que os árabes adoram. […] Houve uma época em que passava dias inteiros nos suks, e ao ver um homem que lhe acendia o desejo, engatava-o. Fazia-lhe um sinal e saíam dali juntos. Nunca eram hipócrita nem escondia as suas aventuras. Que razão teria para fazê-lo? Não passavam de uma das facetas da sua personagem. Creio que tinha profundos êxtases religiosos; a estes ocultava-os, porém. Era muito rigorosa na observação dos rituais: cinco orações diárias na mesquita, na rua ou no deserto. Estivesse onde estivesse, rezava.”

Rakhil  é uma das poucas novelas que Eberhardt conclui; o caderno final viria a perder-se na mesma cheia do rio Aïn Sefra que matou a sua autora. Estamos assim perante uma novela incompleta, cujo desfecho foi reconstituído pelo amigo e editor de Isabelle, a título indicativo. Como diz AF: “Nunca é levado a boa recompensa imaginarmos os braços e o gesto da Vénus de Milo, ou a cabeça que olharia altivamente os mares sobre aqueles ombros da Vitória de Samotrácia.» Vale, no entanto, a pena perdermos os olhos nesta história de sexo e ciúme, pois aí se olfacteia uma sensualidade outra.

terça-feira, 26 de março de 2019

e ei-las de nova, as ninfas




"A Ninfa é a matéria mental fremente, oscilante, brilhante de que são feitos os simulacros, os eídōla. E é a matéria da literatura. De cada vez que se divisa a Ninfa, vibra a matéria divina que se plasma nas epifanias e se introduz na mente, potência que antecede e sustém a palavra. A partir do momento em que essa potência se manifesta, a forma segue-a e adapta-se, articula-se segundo esse fluxo.
            
      A última grandiosa e flamejante celebração da Ninfa encontra-se em Lolita, história de um nymphólēptos, o professor Humbert Humbert, «caçador encantado» que entra no reino das Ninfas atrás de um par de meias brancas e de uns óculos em forma de coração. Nabokov, que era mestre em disseminar pelos seus livros segredos tão evidentes, e dispostos de tal modo perante os olhos de todos, que ninguém os via, expôs os motivos da sua dilacerada, sumptuosa, homenagem às Ninfas logo nas primeiras dez páginas do romance, onde, com o rigor do lexicógrafo, explicava que «acontece por vezes que algumas jovens, de idades compreendidas entre as fronteiras dos nove e dos catorzes anos, revelem a certos viajantes encantados – que têm duas vezes, ou muitas vezes, a sua idade –, a sua verdadeira natureza, que não é humana, mas de ninfa (ou seja demoníaca); e pretendo designar estas criaturas eleitas pelo nome de «ninfetas». Ainda que a palavra «ninfeta» estivesse destinada a um sucesso extraordinário, sobretudo no círculo ecuménico da pornografia, não foram muitos os leitores que se aperceberam de que, nessas linhas, Nabokov oferecia a chave do seu enigma. Lolita é uma Ninfa que vagueia pelos móteis de Middle West, «um demónio imortal disfarçado de criança», num mundo em que os nymphólēptoi podem apenas escolher se querem ser considerados criminosos, como o professor Humbert Humbert. Das «águas mentais» das Ninfas até aos deuses a passagem é fácil. Até porque nas suas incursões pela terra, os deuses eram muitas vezes mais atraídos pelas Ninfas do que pelos humanos. A Ninfa é o medium onde os deuses e os homens aventureiros se encontram. Quanto aos deuses, como se podem reconhecer? Neste caso, os escritores foram sempre, felizmente, muito abertos. Agiram sempre como se subscrevessem uma iluminada observação de Ezra Pound: «Não tendo nunca sido possível encontrar uma metáfora mais adaptada para certas cores emotivas, afirmo que os deuses existem.» Um escritor é alguém que vê essas «cores emotivas».
            
      Quanto à verdade esotérica de Lolita, Nabokov concentrou-a numa minúscula frase escondida como um estilhaço de diamante no enredo do romance: «A ninfolepsia é uma ciência exacta.» Só não disse que essa «ciência exacta» era a ciência que tinha desde sempre exercido, mais até do que a entomologia: a literatura."

domingo, 17 de fevereiro de 2019

metamorfoses




Estou em crer que nós, leitores, temos uma relação privilegiada com a solidão. A nossa cultura, assustada com as aventuras e desventuras da caça, optou há muito pelo caminho da segurança e da anestesia, em detrimento da liberdade e do prazer; esta ortopedia do humano, ou antropotécnica, parece culminar numa tendência unívoca de planificação e uniformização de toda a diversidade, fazendo-nos temer que toda a beleza do universo regresse por fim à sua origem, à explosão do Uno. Neste processo, a solidão tem perdido o seu carácter de capital criativo e é cada vez menos cultivada: basta entrar numa qualquer carruagem de metro e olhar os vários zombies frente a um ecrã, para nos apercebermos que de que já somos cyborgs e que até as nossas relações connosco próprio foram já mediatizadas. Em suma, e tendo a noção de que adopto um tom algo apocalíptico: parecem andar todos apavorados com a solidão e nunca o caminho para o Ser foi tão árido, pedregoso e de difícil acesso.

Gosto da palavra solidão. Lembra-me um nome de planeta de outra galáxia. Gosto também da sua tradução em espanhol – soledad – e da sua invocação com um trago a saudade. E gosto do sentimento, sobretudo das vezes em que o consigo habitar em plena concordância; a solidão é o barómetro que uso para saber onde e como estou, o centro e o coração da minha existência. Quando circulo por ela, como uma fera enjaulada, de movimentos impertinentes e atrofiados, sei que não estou bem; nesses momentos, consigo ouvir a distância que vai de mim a mim e garanto-vos que é das sensações mais angustiantes que me acontecem. É como se toda eu estivesse derramada num solo estranho, alienígena, sentido amplificadamente esse estado líquido, incapaz de me reunir ou reerguer. Então, até o acto da leitura se me torna difícil, nenhum livro me consegue agarrar e tudo se liquefaz nas minhas mãos e na minha cabeça.

Por isso, não posso deixar de celebrar com redobrada alegria, cada vez que me acontece concordar com a minha solidão. Aconteceu recentemente e a leitura deste tempo de encontro e comunhão foi a de um livro que eu há muito desejava, sem saber que já tinha sido escrito e que, para maior surpresa ainda, foi recentemente traduzido e publicado por cá: O homem-veado e a mulher-aranha, de Françoise Frontisi-Ducroux, um livro precioso.

Combinando múltiplas disciplinas, Frontisi-Ducroux, uma helenista francesa conhecida sobretudo pelas suas investigações no âmbito da antropologia grega, oferece-nos uma reflexão brilhante sobre a importância das noções de metamorfose e hibridez nos mitos gregos e a sua respectiva representação visual na antiguidade.

“O que é que acontece quando inopinadamente os homens se cruzam com os deuses, à margem dos santuários erguidos para a comunicação regular, longe dos templos e das estátuas, dos altares onde fumega o sangue dos sacrifícios, longe da harmonia das preces e das procissões? […]

Os mitos gregos são ricos em tais acidentes e nas suas consequências trágicas. Pais que cozinham a sua prole para celebrar e pôr à prova um hóspede desconhecido. Mães em delírio, que abandonam a casa, que despedaçam os filhos com as suas próprias mãos. Raparigas em pânico, desgrenhadas, errando pelos campos fora. Uma ingénua deslumbrada, atingida pelo esplendor do seu amante divino. Nunca é bom que um mortal se atravesse no caminho de um deus. Frequentemente, o desfecho de tais encontros é a metamorfose. No choque com o divino, o ser humano pode soçobrar, ser bruscamente desviado da sua espécie, para se perder no animal, no vegetal, ou imobilizar-se na pedra.[…]

Para os Gregos, tais aventuras pertencem ao tempo dos mitos. Um tempo em parte findo, mas não inteiramente extinto. […] Evidentemente que os deuses se mostram com menos frequência do que nos tempos heróicos da Guerra de Tróia, ainda que em certos momentos críticos se verifique a sua intercedência, sobretudo quando a civilização se vê ameaçada pela barbárie. E, no dia-a-dia, quem se atreveria a jurar que o viadante estrangeiro, por breves instantes avistado no caminho, não era Hermes? Que Pan não despontará de um arbusto, ou que a muito querida criança que em vão se procurou por todo o lado não tenha sido raptada pelas ninfas? Quanto às metamorfoses... para as recusar em absoluto, não seria necessário crer firmemente na barreira das espécies."

A exploração do tema das metamorfoses gregas não é exaustiva; Frontisi-Ducroux selecciona apenas as histórias que foram objecto de tratamento figurativo, confrontando este tratamento com as diversas fontes escritas. A viagem começa com o combate entre Peleu e Tétis, essa deusa humilhada, mãe de Aquiles, oferecida a um homem por receio dos deuses da profecia de que o filho gerado por ela seria mais poderoso de que o pai, mito que serve de modelo ao casamento. Colateralmente, sabemos também das metamorfoses cíclicas das divindades marinhas e de Métis, a deusa da astúcia, engolida pelo esposo, o grande Zeus (os mitos cumprem a função de dar corpo aos fantasmas colectivos e estes dois em particular falam-nos da ameaça feminina e de como os homens se devem salvaguardar de gerar filhos mais poderosos e sobretudo de mulheres astutas).


Continuamos pelo conhecido episódio da feiticeira Circe, domada pelo astuto Ulisses, pelo mito de Actéon, o caçador que se torna presa, culpado por surpreender Artémis no banho, o transexual Tirésias e a sua intervenção na disputa entre Zeus e Hera sobre quem tem mais prazer sexual (Tirésias, tendo sido homem e mulher, esclarece que o prazer da mulher é nove vezes superior ao do homem, o que vale um valente castigo por parte de Hera). Os amores de Zeus com Calisto, Io, Europa, Leda, Ganímedes (a mais célebre aventura das aventuras homossexuais do deus), Antíope, Dánae e Alcmena conhecem obviamente um capítulo, que mais uma vez não se pretende exaustivo, pois o grande deus era um grande sedutor como bem sabemos.

Um capítulo à parte trata da petrificação, recorrendo os mitos de Medusa, Níobe e o último aborda a metamorfose numa perspectiva mais feminina, através da fabulosa história de Procne, Filomela e Tereu, um mito de sororidade e cumplicidade feminina de que nunca tinha ouvido falar e que, de um modo marginal, me recordou Antígona. O feminino denota sempre um significante ameaçador: a mulher está demasiado próxima da natureza e, como tal, sempre pronta a resvalar para um estado selvagem, como exemplificam as Bacantes. É imperativo que seja domesticada antes de se casar, que abandone para sempre este estado selvagem para se dedicar à produção de filhos, que pertencem ao seu marido e senhor e que devem portanto assemelhar-se a este. No entanto, nada garante que a mulher não traia a sua família, preterindo-a à sua família de origem. Esta narrativa é parente de outra, o mito de Aédon, Quélidon e Politecno, cuja hybris do casal a autora desmonta de forma surpreendente.

E somos chegadas ao último mito, o de Aracne, essa magistral tecelã que não se verga à submissão e modéstia feminina e desafia a deusa Palas e que, embora se veja metamorfoseada em aranha, nos relembra de que, por vezes, o talento humano é capaz de alcançar os píncaros da perfeição e do arrebatamento divino.

Sem dúvida, um dos melhores livros publicados recentemente por cá. Terminada a leitura, regresso à minha solidão. Não vale a pena ter tanto pavor desta deusa – sem a sua influência, jamais gozaríamos de tão longos banhos de imersão e deliciosas leituras.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

dia da criação da noite

Estavam os homens as águas os animais e as terras
Cansados de luz e de não haver noite
Levantei as mãos
Fiz rodar a terra para que se retirasse o sol
Enrolei os dedos nas últimas fulgurações
Teci com os cintilantes fios
A misteriosa linguagem dos astros

Depois
Fui pela escura abóbada
Estendi a fantástica tapeçaria
Para que lá em baixo ninguém perdesse o seu caminho
E nela pudesse adivinhar o doloroso humano destino

A noite ficou assim tão habitada quanto a terra
Os homens podem hoje sonhar com aquilo que mal entendem
E quando o medo atribuiu nomes àquele luzeiro
Dei por terminada a obra
Cortei os fios como se cortasse um pedaço de mim
Fui para outro hemisfério adormecer o dia
Construir a pirâmide o quadrado o círculo a linha recta
As cores do mundo
E dar vida a outras incandescentes criaturas


Al Berto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MEXICO: Guadalajara, mezcal, narcos, gusanos, Roma, mexicas, Xochimilco, Frida Kahlo, amor pendejo, museo del juguete antiguo, tacos, Teotihuacán, obsidiana, Popocatepétl y adelante!


















Desiderio di cose leggere


Juncal leve louro
como um campo de espigas
junto ao lago celeste

e as casas de uma ilha distante
cor de vela
prontas a partir  

Desejo de coisas ligeiras
no coração que pesa
como uma pedra
dentro de um barco  
 

Mas chegará uma noite
a estas margens
a alma liberta:
sen vergar os juncos
sem agitar a água ou o ar
partirá  – com as casas
da ilha distante
para uma alta falésia
de estrelas  

Guerra e Cinema


A utilização sistemática das técnicas cinematográficas nos conflitos decorridos ao longo do século XX comprova como o cinema, desde o seu surgimento, abasteceu conceitual e tecnologicamente a guerra e os nacionalismos bélicos. Originalmente escrito em 1983, Guerra e Cinema recorre a filmes e imagens de combate para compor um inventário histórico dos vários intercâmbios técnicos e ideológicos entre a indústria do armamento, a fotografia e o cinema.
Uma reflexão crítica e indispensável sobre a capacidade persuasiva das imagens de guerra que demonstra, de forma erudita e original, como o domínio da representação mediática se tornou mais decisivo do que os acontecimentos no campo de batallha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Walking around



WALKING AROUND

Sucede que me canso de ser hombre.
Sucede que entro en las sastrerías y en los cines
marchito, impenetrable, como un cisne de fieltro
navegando en un agua de origen y ceniza.

El olor de las peluquerías me hace llorar a gritos.
Sólo quiero un descanso de piedras o de lana,
sólo quiero no ver establecimientos ni jardines,
ni mercaderías, ni anteojos, ni ascensores.

Sucede que me canso de mis pies y mis uñas
y mi pelo y mi sombra.
Sucede que me canso de ser hombre.

Sin embargo sería delicioso
asustar a un notario con un lirio cortado
o dar muerte a una monja con un golpe de oreja.
Sería bello
ir por las calles con un cuchillo verde
y dando gritos hasta morir de frío.

No quiero seguir siendo raíz en las tinieblas,
vacilante, extendido, tiritando de sueño,
hacia abajo, en las tripas mojadas de la tierra,
absorbiendo y pensando, comiendo cada día.

No quiero para mí tantas desgracias.
No quiero continuar de raíz y de tumba,
de subterráneo solo, de bodega con muertos,
aterido, muriéndome de pena.

Por eso el día lunes arde como el petróleo
cuando me ve llegar con mi cara de cárcel,
y aúlla en su transcurso como una rueda herida,
y da pasos de sangre caliente hacia la noche.

Y me empuja a ciertos rincones, a ciertas casas húmedas,
a hospitales donde los huesos salen por la ventana,
a ciertas zapaterías con olor a vinagre,
a calles espantosas como grietas.

Hay pájaros de color de azufre y horribles intestinos
colgando de las puertas de las casas que odio,
hay dentaduras olvidadas en una cafetera,
hay espejos
que debieran haber llorado de vergüenza y espanto,
hay paraguas en todas partes, y venenos, y ombligos.

Yo paseo con calma, con ojos, con zapatos,
con furia, con olvido,
paso, cruzo oficinas y tiendas de ortopedia,
y patios donde hay ropas colgadas de un alambre:
calzoncillos, toallas y camisas que lloran
lentas lágrimas sucias.

PABLO NERUDA
Residencia en la Tierra
(1925-32)



Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias, nos cinemas,
flácido, impenetrável, como um cisne de feltro
que navega numa água de origem e de cinza.

O odor das barbearias faz-me chorar aos gritos.
Quero só um descanso de pedras ou de lã,
quero não ver estabelecimentos nem jardins,
nem mercadorias, lunetas, ascensores.

Acontece que me canso de meus pés e minhas unhas,
de meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, a tiritar de sono,
descendo, nas cercas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, a comer dia após dia.

Não quero para mim tantas desgraças.
Não quero fazer mais de raiz e de túmulo,
de subterrâneo só, de adega com defuntos,
inteiriçados, a morrer de angústia.

Por isso a segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de prisão,
e uiva no seu decurso qual uma roda ferida,
e dá passos de sangue ardente rumo à noite.

E empurra-me para certos recantos, para certas casas húmidas,
para hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias com odor a vinagre,
para ruas medonhas como fendas.

Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
pendurados nas portas das casas que odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e pavor,
há guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, 
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.


(Trad. José Bento)