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Romãs & Tonturas




Há já algum tempo que desenvolvo uma predilecção por encontrar misturas perfeitas. Por exemplo: combinar fruta com disposições. Se ao niilismo nada assenta melhor que morangos, a tonturas e estados febris convêm romãs.
E sempre que descasco uma romã, não consigo deixar de acreditar, vá-se lá saber porquê, que a haver uma fruta do pecado no paraíso, seria a romã e não a corriqueira maçã, e que um erro de tradução determinou uma tradição simbólica infinitamente mais pobre.
É capaz de ser uma mistura fatal. Pelo sim pelo não, troquei Adoecer de Hélia Correia pela A Obra ao Negro da Yourcenar. E a coisa começa bem.

" - Tenho dezasseis anos - escusou-se Henrique Maximiliano. - Dentro de quinze, já se poderá ver se por acaso serei igual a Alexandre. Dentro de trinta, saber-se-á se valho ou não o defunto César. Pois irei eu passar uma vida inteira a medir pano numa loja da Rua das Lãs? Trata-se de ser ou não ser um homem.

- Tenho vinte anos – calculou Zenão. – Se tudo correr pelo melhor, tenho à minha frente cinquenta anos de estudo, antes que este meu crânio se transforme em caveira. Ide procurar heróis e devaneios em Plutarco, irmão Henrique. A questão, para mim, é ser mais do que um homem.”



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UMA RECORDAÇÃO







Não há homem que consiga deixar uma marca
nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.

Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.

Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.

Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.



Cesare Pavese, Trabalhar Cansa



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as raparigas da província são mais doces




“O carro afrouxava a marcha e eu sabia que antes que o capot se cobrisse de flocos Mr. Gentleman ia dizer que me amava.
Mais do que certo; ele virou para um caminho lateral e parou o carro. Tomou o meu rosto na concha das suas mãos geladas e muito solenemente e muito tristemente disse o que eu esperava que dissesse. E esse momento foi inteira e totalmente perfeito para mim; e tudo quanto até ali eu sofrera foi confortado pela suavidade da sua voz terna e ciciante; sussurrando, sussurrando, como os flocos de neve. Uma espinheira à nossa frente estava revestida de branco como se fosse açucar, e a neve piorou e caía com tal força que mal conseguíamos ver. Ele beijou-me. Foi um beijo de verdade. Afectou todo o meu corpo. Os dedos dos pés, apesar de entorpecidos e apertados dentro dos sapatos novos, reagiram àquele beijo, e durante alguns minutos o meu espírito abandonou-me. Depois senti uma pinga na ponta do nariz e fiquei aborrecida.
«Narizes roxos», disse eu, procurando o lenço.
«O que são narizes roxos?», perguntou ele.
«É o nome dos narizes no Inverno», disse eu. Não tinha lenço, por isso ele emprestou-me o seu.”


Edna O’Brien, Raparigas da Província



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Arranca-me o coração




“Viu então, ao virar-se, as três gaiolas. Erguiam-se ao fundo da sala, vazia de mobília. Eram precisamente da altura de um homem não muito alto. As grossas grades quadradas dissimulavam em parte o interior, mas havia qualquer coisa a mexer lá dentro. Tinham todas a sua caminha fofa, a sua cadeirinha e uma mesa baixa. Eram iluminadas por uma lâmpada eléctrica colocada do lado de fora. Aproximou-se, sempre à procura do martelo, e reparou numa cabeleira loira. Olhou com mais atenção, mas pouco à vontade, porque sentia que a senhora o estava a observar. Entretanto, já havia descoberto o martelo. Semicerrou os olhos, enquanto se baixava para o apanhar. E quando o seu olhar se cruzou com o deles, ficou a saber que havia outros meninos ali metidos nas gaiolas. Um deles pediu qualquer coisa e então a senhora abriu a porta e foi até ao pé dele, dizendo umas palavras que André não compreendia, mas que eram de tal modo meigas.
(…)
Desceu os degraus de pedra. Ia-lhe pela cabeça um turbilhão de ideias. E ao chegar ao grande portão doirado, virou-se para trás pela última vez. Devia ser maravilhoso estarem assim todos juntinhos, com uma pessoa para os acarinhar, assim dentro daquela gaiolinha tão quente, tão cheia de amor.”



Boris Vian, O Arranca-Corações



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Days of Wine and Roses



MONA: no i don't want to know where it is - i like the idea i don't know where it is


DONAL: it all has to do with information


MONA: what has to do with information

DONAL: in my work i deal with a lot of facts and figures - the more information you get the more you need - information tells you about things - the more you know about things the more you are in control - the more you are in control the more you need to be in control



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SÍNDROME DE STENDHAL EM MADRID: HERMITAGE, FEMMES FATALES & EXPRESSIONISTAS












































Síndrome de Stendhal (também conhecido por Síndrome de Florença) é uma doença psicossomática bastante rara, motivada por uma sobredosagem de beleza. Caracterizada por aceleração do ritmo cardíaco, vertigens, falta de ar e até alucinações, decorrentes do excesso de exposição do indivíduo a obras de arte, sobretudo em espaços fechados.



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As cordas da alma



Os clichés são de mau-gosto na literatura. No entanto, descubro que a vida está, mais do que eu gostaria, cheia deles. Esta música, por exemplo, faz vibrar todas as cordas da minha alma. Figura de estilo gasta, bem sei, mas não encontro outra mais honesta.



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A graça disto, deixa uma gaja maravilhada.

A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.

Lêdo Ivo


Vinte e seis anos aqui ou agora, entre
outras contas que faço e me embalam,
morrendo de idade e um pouco de
tudo, no quarto em que durmo e onde
ouço de novo esse leão abissínio a coxear
na minha sombra. O pequeno sol da
lâmpada, as persianas balbuciando
umas vagas noções de claridade.
Tiro a camisa em voz alta, deixo
os óculos, largo um barulho qualquer
aliviando o silêncio, nestes eternos
trezentos e sessenta graus que reajusto
entre fósforo e fósforo. Chego uns
provérbios de cinza no caderninho,
e, de cabeça baixa, quieto, sofro com
todo o cuidado enquanto passam
pelas minhas mãos muitas dessas
criaturas antigas como os sonhos,
em busca da sua história. Fumo
de olhos fechados, somo suspiros
mentalmente ou fico colando restos
de melodias. A chuva cai e eu quase
só penso nisso. Ouço o mundo e,
quando ela pára, saio

atrás dele, dos pássaros que lhe dão
corda: reticências fabulosas, e juntam
a sua medida ao canto cordial das
distâncias. Formas indecisas que
me levam, estonteado, baralhando
os nomes do mundo
num mantra. Atravesso jardins de
manicómios, escuto a canção intacta
das suas fontes, olho a mutilada doçura
das estátuas, essa mão que deixa cair
a última flor, como um estilhaço, e uma
luz adocicada que parte crianças em
pássaros iguais. Também não sei ao certo
do que falo, mas sigo-me de perto
entre ruas e valados, parques de
estacionamento onde me apanho girando
sem órbita certa, misturado aos outros,
rebelado, inconsequente, confuso e lírico.

Vadios, ensonados, trazem as suas doces
personagens pela mão e distribuem-se,
virando o lixo, farejando a verdadeira alma
dos nossos tempos.
Consumidores de épocas, bocejam uivos
magníficos, falam sozinhos enquanto
bebem restos de chuva num velho serviço
de chá. As pétalas de rosa afogadas,
a música quebrada com que o vento
junta tudo. Que estranha lição
de infância. Gestos antigos, rituais:
composições de pedras e paus, cruzes
de sombra – esta intimidade mágica
que, a pouco e pouco, nos devolve
ao mundo.

Assim e aqui, o pulso dos dias solta-se
e canta, compassando este ballet
miserável, a lenta coreografia que
alarga o espaço da fábula. Os séculos
são breves, a modernidade um delírio
inconsequente. A vida é sempre imediata.

Por uns momentos perdemo-nos
entre a assistência, deixando que passe
esse entusiasmo estrangeiro, a pressa
e o atrevimento que nos emprestam.
Eis a noite, ágil, impondo os seus
ritmos indecifráveis e esse bando
adolescente a correr na ânsia
de esgotar a cidade. Rostos disformes,
sombrios mas belos, corpos angulosos,
geniais. Anjos que vivem caídos
pelos fundos de cafés, bares – sim,
sim –, num fascínio incurável, presos
pelo tal fio. Há muito tempo
que é assim, isto, estas mãos entretidas
sobre pianos mudos e as expressões
de abismo, leitura suficiente
para quem aprende a prestar atenção.

Um gosto guardado para sempre na
boca, as antigas contra-senhas e o sabor
das carícias esboçadas. A sensação de ser
olhado, e olhar de volta uma mulher
doce como o fim do mundo.
Como te puseste velha, Roxanne.
Meio chanfrada, dos lábios fogem-lhe
sílabas de rezas inarticuladas. E os deuses
somos nós, se nos restar ainda algum
nos bolsos.

Aí, entregue, alto, já muito bêbedo,
a um coração que segue doido e bate
ao calhas. Faço-me todas as velhas
promessas: um copo mais e saio. Mais um
e volto para casa. Um copo que ainda
não vi tudo, e a vida, eu sei, não presta.
Se é do hábito eu já não sei, só que
há qualquer coisa que agarra, e com
que força! A graça disto, deixa um gajo
maravilhado.


Diogo Vaz Pinto

Acerca de mim

A minha fotografia
FLAUBERT Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível. Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se? Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador. Oh, meu bom senhor, que pena. Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004

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