domingo, 7 de maio de 2017

Love after love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other's welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life. 

Derek Walcott

The Day After


Edvard Munch (1894)

Rasputine goes into performance art



When I read a book, everything around me stopped existing. All the unhapiness of my family – my parents’ bitter fights, my grandmother’s sadness at having had everyhting taken away from her – disapperead. I merged with the characters.
Extreme narratives fascinated me. I loved Reading about Rasputine, whom no bullet could kill – Communism mixed with mysticism was very much part of my DNA. And I’ll never Forget a strange story by Camus, “The Renegade”. It told of a Christian missionary who went to convert a desert tribe and instead was converted by them. When he broke one of their rules, they cut his tongue out.
(....)
The only good present my mother ever got me was a book called Letters: Summer 1926, about the three-way correspondence between Rilke, the Russian poet Marina Tsvetayeva, and Boris Pasternak, the author of Doctor Zhivago. The three had never met, but they adored each other’s work, and for four years they all wrote sonnets and sent them to another. And through this correspondence, each of them fell passionately in love with the other two.
Can you imagine a lonely fifteen-year-old girl coming upon a story like this? (And the fact that Tsvetayeva and I shared a first name seemed cosmically significant.)
(…)

When I was fourteen, I invited a friend, a boy from school, to my apartment to play Russian roulette. No one was at home. We did it in the library, sitting opposite each other at the table. I took my father’s revolver from his nightstand, took all the bullets out bu tone, spun the chamber, and gave the gun to my friend. He pressed the muzzle against his temple and pulled the trigger. We just heard the click. He passed the pistol to me. I put it to my temple and pulled the trigger. Again, we just heard a click. Then I pointed the gun at the Bookshelf and pulled the trigger. A huge explosion, and the bullet flew across the room and straight into the spine of Dostoevsky’s The Idiot. A minute later, I broke into a cold sweat and couldn’t stop trembling.
(…)

It was my first trip to the West as an artist. I felt like a very small fish in a very big pond.
But there was also a part of me that didn’t care about any of that. My mother and father had many faults; but they were both very brave and strong people, and they passed along much of that strenght and courage to me. Some big part of me is thrilled by the unkown, by the ideas of taking risks. When it comes to doing risky things, I don’t care, I just go for it.
(…) That i show I felt about Rhytm 10, the piece I planned to perform at Edinburgh. Rhytm 10 was absolutely crazy. It was based on a drinking game played by Russians and Yugoslav peasants: you spread your fingers out on a wooden bar or table and stab down a Sharp knife, fast, in the space between your fingers. Every time you miss and cut yourself, you have to take another drink. The drunker you get, the more likely you are to stab yourself. Like Russian roulette, it is a game of bravery and foolishness and despair and darkness – the perfect Slavic game.
(…) Much later on, I read a statement of Bruce Nauman’s: “Art is a matter of life and death.” It sound melodramatic, but it’s also true. This was exactly how it was for me, even at the beginning. Art was life and death. There was nothing else. It was so serious, and so necessary.
(…)
When I’d gone through the ten knives once more, I rewound the second tape recorder, played the double soundtrack of both performances, then stood up and left. Listening to the wild applause from the audience, I knew I’d succeeded in creating an unprecedented unity of time presente and time past with random errors.
I had experienced absolute freedom – I had felt that my body was without boundaries, limitless; that pain didn’t matter, that nothing mattered at all – and it intoxicated me. I was drunk from the overwheling energy that I’d received. That was the moment I knew that I had found my médium. No painting, no object that I could make, could ever give me that kind of feeling, and it was a feeling I knew I would have to seek out, again and gain and again.

Uma autobiografia é sempre uma tentativa audaz. WALK THROUGH WALLS: A MEMOIR é uma leitura interessante mas não deveras estimulante, como seria de esperar de uma artista que sempre se expôs a tantos riscos na sua vida. Os capítulos iniciais, que se debruçam sobre a infância, os anos de formação e as primeiras performances de Marina Abramovic, foram os que me mais me estimularam. Depois disto, creio que continuei a ler, animada por uma esperançosa teimosia que não encontrou a sua satisfação. A escrita é bastante crua e pouco literária, mas acho que tal aporta mais genuinidade ao livro (ouvindo a TED TALK da artista percebe-se que o ghost writer conseguiu replicar bem o seu estilo). O que mais molestou foi a presença disseminada de um misticismo, que muito me interessa e nada me incomodaria, caso não surgisse apresentado de maneira tão superficial e pouco sustentada, e a intuição de um narcisismo colossal. Bem sei que se trata de uma autobriografia e, como tal, o narcisismo deveria justificado pela forma, mas pressente-se mais como uma característica essencial da personalidade. Em determinada passagem, a autora enuncia a ideia de a sua personalidade ser constituída por 3 Marinas: " The warrior one. The spiritual one. The bullshit one." A Marina Guerreira atravessa todo o livro, embora a Marina Tretas esteja sempre omnipresente.Da Marina Espiritual, infelizmente, apenas alguns indícios insuficientes.


Em que Maio colhê-las?

Não quero mais ver flores, céu, sol — a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que — sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti — treme de frio no musgo, solitária e terna, reflete-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma. Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti! Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos. Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las? — Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda — ou uma coroa... Nunca te vi de outro modo.
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar.

René

Correspondência Amorosa, Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Férias


Rubén Darío


Yo persigo una forma que no encuentra mi estilo, 
botón de pensamiento que busca ser la rosa; 
se anuncia con un beso que en mis labios se posa 
el abrazo imposible de la Venus de Milo. 

Adornan verdes palmas el blanco peristilo; 
los astros me han predicho la visión de la Diosa; 
y en mi alma reposa la luz como reposa 
el ave de la luna sobre un lago tranquilo. 

Y no hallo sino la palabra que huye, 
la iniciación melódica que de la flauta fluye 
y la barca del sueño que en el espacio boga; 

y bajo la ventana de mi Bella-Durmiente, 
el sollozo continuo del chorro de la fuente 
y el cuello del gran cisne blanco que me interroga.

César Vallejo


Altura y pelos

¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que tan sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que tan sólo he nacido solamente!

Sant Jordi em Barcelona


domingo, 26 de março de 2017

Bibliofilia e listas



No outro dia estava a ler a lista dos 100 livros favoritos do David Bowie e, em jeito de brincadeira, comecei a esboçar uma lista dos meus livros preferidos. Partilho aqui o resultado. Alguns não entram na minha definição de livros do caralho mas encontraram-me no momento certo, mudaram alguma coisa cá dentro, prestaram uma companhia generosa e preciosa ou acrescentaram joie de vivre.

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
O Jogador, Fiodor Dostoievski
As Flores do Mal, Charles Baudelaire
Obra completa, Friedrich Nietzsche
Outono transfigurado, Georg Trakl
Iluminações, Arthur Rimbaud
Canto de mim mesmo, Walt Whitman
Poesia, Álvaro de Campos
Palavras e sangue, Giovanni Papini
Os Maias, Eça de Queiroz
Aparição, Vergílio Ferreira
História da Sexualidade, Michel Foucault
História da loucura, Michel Foucault
A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud
A apresentação do eu na vida de todos os dias, Erving Goffmann
A Câmara Clara, Roland Barthes
Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes
Memorial do Convento, José Saramago
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
Cem anos de solidão, Gabriel García Marquéz
A náusea, Jean Paul Sartre
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
Orlando, Virginia Woolf
Crime e Castigo, Fiodor Dostoievski
Madame Bovary, Gustave Flaubert
Lillias Fraser, Hélia Correia
Niels Lyhne, Jens Peter Jacobsen
As anotações de Malte Lauris Brigge, Rainer Maria Rilke
Os passos em volta, Herberto Hélder
Psicanálise do Fogo, Gaston Bachelard
Em carne viva, David Grossman
As Horas, Michael Cunningham
L’image-mouvement, Gilles Deleuze
O Amante, Marguerite Duras
Corpo presente, Anne Enright
As partículas elementares, Michel Houllebecq
História das drogas, Antonio Escohotado
Drogas, embriaguez e outros temas, Ernst Jünger
O único e a sua propriedade, Max Stirner
Contos, Tchékhov
Uma visão do mar, Dylan Thomas
Fear and loathing in Las Vegas, Hunter Thompson
A moeda viva, Pierre Klossowki
Laços de Família, Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector
Tonio Kroger, Thomas Mann
Contos, Katherine Mansfield
A mulher certa, Sandór Marai
Coração, caçador solitário, Carson McCullers
Gente feliz com lágrimas, João de Melo
O cinema ou o homem imaginário, Edgar Morin
Lolita, Vladimir Nabokov
A morte sem nome, Santiago Nazarian
Anna Karenina, Lev Tolstoi
Os cães e os lobos, Irene Némirovsky
Contos, Dorothy Parker
Balada da praia dos cães, José Cardoso Pires
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, Katherine Anne Porter
Suspiria de Profundis, Thomas de Quincey
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
Crack Wars, Avital Ronnell
O amor e o Ocidente, Dennis de Rougemont
Franny e Zooey, J.D. Sallinger
A ronda, Arthur Schnitzler
Lojas de canela, Bruno Schulz
Morte na Pérsia, Annemarie Schwarzenbach
O Estranhamento do Mundo, Peter Sloterdijk
O Doutor Glas, Hjalmar Söderberg
Early diaries, Susan Sontag
O apogeu de Miss Jean Brodie, Muriel Spark
Na tua face, Vergílio Ferreira
O físico prodigioso, Jorge de Sena
Trinta anos, Ingeborg Bachmann
O bosque da noite, Djuna Barnes
Uma noite entre os cavalos, Djuna Barnes
A parte maldita, Georges Bataille
O erotismo, Georges Bataille
História do olho, Georges Bataille
Campo de Sangue, Dulce Maria Cardoso
O meu corpo e eu, René Crevel
Mulheres, Charles Bukowski
The psychic life of power, Judith Butler
As aventuras de Augie March, Saul Bellow
Eros and Magic in the Renaissance, Ioan P. Couliano
A educação sentimental, Gustave Flaubert
Pan, Knut Hamsun
Photomaton & vox, Herberto Hélder
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakhov
O Estrangeiro, Albert Camus
Obscénica, Hilda Hilst
Crónicas do mal de amor, Elena Ferrante
Oblomov, Ivan Gontcharov
Rayuela, Julio Cortázar
Histórias de amor, Robert Walser
A realidade é real?, Paul Watzlawick
Golpe de misericórdia, Marguerite Yourcenar
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf4
Confusão de Sentimentos, Stefan Zweig
Travessuras da Menina Má, Maria Vargas Llosa
Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich

ukiyo-e, imagens do mundo flutuante, e shunga, imagens da primavera


Hokusai, O Sonho da Mulher do Pescador

O espectador obediente



TÉCNICAS DO OBSERVADOR oferece uma perspectiva única sobre a construção histórica da visão e as origens da cultura visual moderna. Partindo da análise de vários dispositivos ópticos do século XIX, Jonathan Crary demonstra como a formatação da visão é indissociável de uma operação de normativização do sujeito observador em termos de produção laboral e consumo visual.

Uma reflexão inovadora e interdisciplinar que se tornou uma obra indispensável para entender o modo como a modernidade visual se impõe até à contemporaneidade, finalmente em tradução portuguesa.

O túnel



Desde que me li n’A NAÚSEA de Sartre, não resisto aos apelos existencialistas. Assim, mais cedo ou mais tarde, era esperado que viesse a encontrar O TÚNEL, de Ernesto Sabato, etiquetado de romance existencialista. Aqui a solidão e o desespero metafísico desembocam num crime passional, fazendo desta história uma das mais esclarecidas dissecações do ciúme, esse sentimento tão contraditório e envenenado.

Maria começou a vir ao atelier. A cena dos fósforos, com pequenas variações, reproduzira-se duas ou três vezes e eu vivia obcecado pela ideia de que o seu amor era, no melhor dos casos, amor de mãe ou de irmã. De modo que a união física era para mim coo que a garantia do verdadeiro amor.
(…) Longe de me tranquilizar, o amor físico perturbou-me ainda mais, trouxe novas e torturantes dúvidas, dolorosas cenas de incompreensão, cruéis experiências com Maria. As horas que passámos no atelier são horas que nunca esquecerei. Os meus sentimentos, durante todo este período, oscilaram entre o amor mais puro e o ódio mais desenfreado, ante as contradições e as inexplicáveis atitudes de Maria; de súbito assaltava-me a dúvida de que era tudo fingido. Por momentos parecia uma adolescente púdica e de repente parecia-me que era uma mulher qualquer, e então um grande cortejo de dúvidas desfilava pela minha mente: de onde? como? quem? quando?
Em tais ocasiões, não podia evitar a ideia de que Maria representava a mais subtil e atroz das comédias e de que eu era, nas suas mãos, como um garoto ingénuo a quem se engana com contos fáceis para que coma e durma. Às vezes era acometido por um pudor frenético, corria a vestir-me e saía logo para a rua, para tomar ar fresco e ruminar as minhas dúvidas e apreensões. Noutros dias, pelo contrário, a minha reacção era positiva e brutal: deitava-me sobre ela, agarrava-lhe os braços como com tenazes, torcia-as e cravava o meu olhar nos seus olhos, tentando forçá-la a garantias de amor, de verdadeiro amor.
(…)


Já antes de dizer esta frase estava um pouco arrependido; debaixo daquele que lha queria dizer e experimentar uma perversa satisfação, um ser mais puro e mais terno dispunha-se a tomar a iniciativa enquanto a crueldade da frase fizesse o seu efeito e, de certo modo, silenciosamente; eu já tinha tomado o partido de Maria antes de pronunciar essas palavras estúpidas e inúteis (que podia alcançar, com efeito, com elas?). (…) Quantas vezes esta maldita divisão da minha consciência foi culpada de actos atrozes! Enquanto uma parte me leva a tomar uma atitude bonita, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia e a falsa generosidade; enquanto uma me leva a insultar um ser humano, a outra condói-se dele e acusa-me a mim mesmo do que denuncio nos outros; enquanto uma me faz ver a beleza no mundo, a outra assinala-me a sua fealdade e o ridículo de todo o sentimento de felicidade.

As pequenas mortes



A minha introdução à obra de D.H. Lawrence aconteceu pela antologia AMOR NO FENO E OUTROS CONTOS. Embora não me tenha arrebatado por aí além, gostei particularmente dos contos AMOR NO FENO, FOI PRECISO UM CAVALO DE BALOIÇO e O HOMEM QUE MORREU.

FOI PRECISO UM CAVALO DE BALOIÇO será o mais triste de todos, pelo final trágico devido à compulsão do consumismo que devora toda a interioridade e possibilidade de satisfação. Nos outros dois contos há uma redenção final pelo amor («Ela baixou-se para ele e agarrou-se-lhe ao pescoço, apertando-a ao seio num frenesim de dor. A amarga desilusão da vida, a vergonha e a degradação contínua dos últimos quatro anos tinham-na empurrado para a solidão e endurecido até grande parte do seu ser ficar empedernida e estéril. Agora, abrandava de novo e despontava nela a promessa de uma Primavera linda. Estivera a caminho de vir a tornar-se numa velha feia.») sobretudo n’ O HOMEM QUE MORREU, fantasia de uma outra vida de Jesus Cristo, erguida em corpo após a ressurreição:

Depois, lenta, lentamente, na escuridão perfeita do homem em si, ele sentiu que algo começava a despontar. A madrugada, um sol novo. Um sol novo subindo em si, na perfeita escuridão interior do seu ser. Esperou, contendo a respiração, trémulo, numa esperança temerosa… «Agora já não sou eu. Sou algo de novo…»
E, enquanto se erguia sentiu, com um bafo frio de desapontamento, a cinta da mulher viva abrandar e descair dele, o calor e a incandescência a descair dele, deixando-o nu. Ela enroscou-se, exausta, aos pés da deusa, escondendo o rosto.
Curvou-se e pousou a mão, docemente, no ombro claro e morno dela; e o choque do desejo lancinou-o, choque após choque e pensou se não seria esta uma outra morte: mas cheia de magnificência.
Agora, toda a sua consciência estava posta na mulher, enroscada, escondida. Baixou-se ao lado dela e acariciou-a terna, cegamente, murmurando coisas inarticuladas. E a sua morte e a sua paixão pelo sacrifício eram, agora, nadas para ele – conhecia apenas a plenitude enroscada daquela mulher, a branda pedra branca da vida… «Sobre esta pedra construí a minha vida.» A pedra de pregas profundas, a pedra penetrável da mulher viva! A mulher, escondendo o rosto. Ele, curvado sobre ela, poderoso e novo como a madrugada.
Chegou-se todo a ela e sentiu a labareda da virilidade e a força erguerem-se-lhe nos rins, magnificientes.
«Ergui-me!»
Magnificente, flamejando indomitável na profundeza dos seus rins, despertava o seu sol próprio, que dardejava o seu fogo pelos membros dele, de tal modo que o rosto cintilava inconscientemente.
Desatou a fita da túnica de linho e deixou-a tombra e viu o brilho branco dos peitos branco-e-ouro dela. E tocou-os e sentiu a vida fundir-se em si. «Pai!», disse ele. «Porque escondeste isto de mim?» E tocou-a com a pungência do espanto e a maravilhosa transcendência penetrante do desejo. «Oh!», disse ele, «isto está para além da oração.» Era o calor profundo, entremeado, o calor vivo e penetrável, a mulher, o coração da rosa! A minha mansão é a intrincada rosa quente, o meu júbilo é esta flor!
Ela levantou os olhos para ele, de repente, com o rosto como uma luz desperta, ávido, terno, os olhos como muitas flores húmidas. E ele apertou-a ao peito com uma paixão de ternura e desejo devorador e o último pensamento: «É chegada a minha hora e sou tomado de surpresa…»
E então conheceu-a e os dois foram um só.»


De qualquer dos modos, é uma leitura recomendada. O sensualismo de D.H. Lawrence agradam muito, bem como alguns comentários mais inteligentes, como este por exemplo: «O  homem ergueu-se obedientemente. Todo ele era descontracção, parasitismo, insolência. Geoffrey tinha-lhe nojo, apetecia exterminá-lo. Era exactamente o pior inimigo do hipersensível: insolência sem sensibilidade, à cata da sensibilidade dos outros.»

domingo, 5 de março de 2017

A grande viagem ao coração da melancolia



Todos ignoramos de que vivemos, como poderíamos, então, deixar fugir alguma coisa e sentir remorsos por isso? Era já tarde depois do cair da noite quando, chegada a Istambul, transpus, exausta, o arco antigo da porta da cidade; o pavimento ressoava, as pequenas lâmpadas de azeite iluminavam a ruela do bazar e cheguei, por fim, diante das águas cintilantes do Bósforo, cujo fluxo incessante corria no silêncio da noite (…). A viagem não exige que tomemos decisões e não põe a nossa consciência diante de uma alternativa que nos torna culpados e arrependidos, humildes ou obstinados – até duvidarmos por completo da justiça e pensarmos que esta vida não é para nós senão um dédalo, uma prova fatal. Partir é a libertação – ó única libertação que nos restou! – e para tanto não é necessário mais do que uma coragem sem falha, renovada dia após dia…

(…)

Na manhã seguinte, um jovem oficial que dirigia os trabalhos de desobstrução acompanhou-nos aos terraços de Maku, sobrepujados precisamente pela falésia mais alta, onde fora gravada uma inscrição comemorando a vitória de Nadir Shah, que outrora arrebatara a aldeia aos bandidos (…). O que recordo perfeitamente é o véu ligeiramente turvo do orvalho e desse dia em que, esgotada pelo calor de uma ascensão penosa, estava a tremer de frio no jardim do emir, quando uma jovem camponesa aproximou dos meus lábios um jarro de água. Porque somos assim: deliciamo-nos à vista das pérolas, do azul do mar, de uma hora de paz apesar da fúria dos incêndios, ignoramos os campos de ruínas, para aprendermos todos a mesma oração: Senhor, ajuda-nos a suportar esta vida…

(…)

«A nossa vida parece-se com uma viagem…», e mais do que uma aventura e uma excursão em regiões inabituais, a viagem parece-me ser um símbolo da nossa existência: instalados numa cidade, cidadãos de um país, pertencendo a uma classe ou a um meio social, membros de uma família, ligados aos deveres de uma profissão, aos hábitos de uma «vida quotidiana» tecida de todos estes elementos, sentimo-nos, muitas vezes, demasiado seguros de nós; consideramos que a nossa casa foi construída para a eternidade, somos tentados a crer numa estabilidade que, para uns, torna problemático o envelhecer e, para outros, dá a qualquer mudança exterior as aparências de uma catástrofe. Esquecemos que se trata de um processo em curso, que a terra está em movimento perpétuo e que estamos implicados no fluxo e no refluxo dos oceanos, nos tremores de terra e em tudo o que se passa muito longe do imediato que nos rodeia, visível e tangível: mendigos ou reis, actores todos da mesma grande comédia. Esquecemo-lo, para por assim dizer preservarmos a paz da nossa alma, construída ela própria sobre areias movediças. Esquecemo-lo, para não cedermos ao medo.»

(…)

Não haverá, algures, um caminho que se abre, uma garganta que conduza a outros países? Será sempre assim, o mesmo céu, de manhã e à noite, o mesmo ciclo, a mesma prece, e nunca uma resposta?

(…)


Foi por isso que quis um dia desprender-me – de que destino ao certo, não o sabia – e julgava somente compreender que uma infelicidade me ferira, como pode acontecer a qualquer de nós, e tinha necessidade de me manter afastada, em silêncio. Como é que os outros vivem, perguntava-me eu, como suportam este país e o dia de amanhã, como o suportam? Mas quando desce uma vez mais a magia do crepúsculo, quando o dia sem sombra decresce, e as corças se mostram nas encostas do inverno já nimbadas de bruma, quando volto a ter uma hora tão cheia de inocência, sinto-me então inclinada a baixar os olhos e a arrepender-me e a não ceder nunca mais à tentação – e disponho-me plenamente a reconhecer que estamos enraizados dentro de limites estreitos e que não podemos fazer mais do que um pedaço mínimo de caminho.

sábado, 4 de março de 2017

Der Himmel über Berlin





CANÇÃO DA INFÂNCIA


Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.

Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.

Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.


Peter Handke

O nosso habitual sentimento de imperfeição



COMO PODE A VIDA TER LUGAR, OU PERSISTIR, NUM ESTADO DE CRISE PERMANENTE?

O arquitecto Aldo Rossi não tem dúvidas. O bloco de pedra mata um transeunte. Para ele, o princípio da conservação da energia acaba em tragédia. A História e a teoria têm de lidar com a incerteza acerca das circunstâncias, de crises passadas e presentes. Essa situação pode levar à dúvida, mas também pode originar acção. Rossi enfrentou conflitos semelhantes, muitas vezes irreconciliáveis, devido a escolhas pessoais. Apesar da melancolia, havia também o entusiasmo para avançar. Cada projecto «deve ser de algum modo conclusivo, mesmo que seja apenas para poder ser repetido com leves variações ou deslocações, ou assimilado por novos projectos, novos lugares e novas técnicas: outras formas de vislumbrarmos sempre um pouco de vida». Daí que seja possível chegar a uma conclusão. No final, a melancolia é uma questõ de carácter. A arquitectura também.


Uma belíssima reflexão sobre a influência da melancolia na arquitectura e pensamento crítico de Aldo Rossi.

O mundo de ontem



Tudo começa quando o Grande Xá da Pérsia é tomado por uma grande inquietação, perde o interesse nas suas mulheres e decide viajar até ao Ocidente, esperançado no alento que as artes eróticas do Ocidente lhe poderão proporcionar. Viena no final do século XIX – que outro local pode personificar melhor o final de uma visão do mundo, de uma Europa e de uma época? A milésima segunda noite é a noite do logro e da decepção com os devaneios das mil e uma noites.

– Porque lamentas por nós, Pantominos? – perguntou o Xá.
– Por muitas razões – respondeu o eunuco – mas principalmente porque os homens estão sujeitos ao princípio da mudança. Trata-se de um princípio falacioso, porque, na verdade, não há mudança nenhuma.
– Estás a querer dizer que devo viajar para algum sítio só para sentir essa mudança?
– Sim, Senhor – disse Pantominos – para se convencer de que afinal não há mudança nenhuma.
– E isso só por si iria curar-me?
– Não o iria convencer – disse o eunuco – mas iria proporcionar-lhe as experiências necessárias para chegar a essa mesma convicção.
– Como chegas a essas conclusões, Pantominos?
– Porque fui castrado, Senhor! – retorquiu o eunuco e curvou-se de novo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O mes amis, il n'y a pas d'ami!


Não consigo atinar com o Thomas Bernhard. Há uns tempos, um leitor estimado, recomendou-me com o entusiasmo O SOBRINHO DE WITTGENSTEIN. No fim de semana passado, essa recomendação regressou-me à memória e lá trouxe um exemplar emprestado da biblioteca.

Lê-se bem e rápido. No entanto, o estilo repetitivo de Bernhard não me cativa. Embora perceba musicalidade da coisa na língua original, acaba por me recordar também os nossos velhos do Restelo. O permanente tom ressentido do autor também não me convida, embora perceba e comungue da sua indignação e raiva.

E é isso, mais um livro com o qual não empatizei e cujos louvores não entendo. Falha minha, muito provavelmente, pois um leitor arrisca-se sempre a falhar o encontro com um determinado livro se as circunstâncias não forem favoráveis. Admiro a coragem com que Bernhard detracta tudo e todos, expondo também as suas vilezas, como a de ter abandonado o seu melhor e mais verdadeiro amigo na fase final da sua vida. Contudo, não consigo deixar de sentir que a sua exposição não vai tão fundo quanto poderia ir e mais do que um livro sobre o seu amigo, temos um livro sobre próprio Bernhard.


Eu podia contar agora histórias do Paul, pois não há só centenas, mas milhares, em que ele é a figura central e que são famosas na chamada alta sociedade vienense, que era a sua e que, como se sabe, vive de tais histórias jocosas e de nada mais, mas não é essa a minha intenção. Ele era uma pessoa que vivia em grande agitação, permanentemente nervoso, sempre incapaz de autodomínio. Era um cismador, alguém que a propósito de tudo fazia filosofia e um acusador incessante. Como era um observador incrivelmente adestrado e nessa sua observação, que ele aperfeiçoou com o tempo, tornando-a uma arte, era de uma completa irreverência, tinha continuamente razões para acusar. Não havia nada que não desse motivo a qualquer acusação. As pessoas que chegavam à sua presença não ficavam em paz mais que uns brevíssimos momentos, porque logo despertavam uma suspeita e eram culpadas de um crime ou pelo menos de qualquer simples delito, sendo depois flageladas com aquelas palavras que são também as minhas quando me revolto ou defendo, quando me decido a lutar contra a insolência do mundo, para não ficar por baixo e não ser por ele destruído. No Verão tínhamos o nosso lugar cativo na esplanada do Sacher e na maior parte do tempo vivíamos apenas das nossas acusações. Ficávamos horas e horas sentados na esplanada do Sacher e acusávamos. Com uma chávena de café na nossa frente, acusávamos o mundo da forma mais radical.

E, por falar em mistérios,



Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Ângelo de Lima (1872-1921)

«24 pássaros contra todas as ausências»


Descobri o Daniel Faria na semana passada, graças a um espectáculo de Pablo Fidalgo no Teatro D. Maria II na semana passada. Ao ver algumas das obras plásticas do poeta, gentilmente emprestadas pelo Mosteiro de Singeverga (como por exemplo os 24 pássaros contra todas as ausências), pressenti que assomava ali um daqueles mistérios cujo convite tanto procuro. No dia seguinte, fui à biblioteca para conhecer mais da sua poesia. Para quem anda tão desatento como eu, aqui fica um artigo interessante: https://www.publico.pt/noticias/jornal/daniel-faria-o-rapaz-raro-159820

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados

Do lugar

Cada um afoga-se à sua maneira



Com o aproximar do final do ano, os suplementos culturais dedicam-se a eleger os livros do ano. Tornou-se um hábito aguardar estas listas com expectativa e posteriormente anotar os títulos que me tinham escapado ou aos quais a solidão necessária tinha faltado. Porém, nos últimos três anos, tais listas não me têm trazido a satisfação tão almejada. E pergunto-me se estará a produção editorial mais empobrecida, ou o empobrecimento será da crítica, ou pior ainda, de mim mesma, cada vez mais sóbria, menos propensa a arrebatamentos.

Embora não tenha concentrado as minhas leituras em publicações de 2016, ouso a leviana afirmação: O CASO DO CAMARADA TULAEV foi dos melhores livros do ano. E a E-Primatur é um dos projectos editoriais mais recentes que acompanho com muitas ganas, sobretudo pela elegância com que têm demonstrado que não é preciso fuçar juntamente com sete cães para encontrar um osso. Resta ainda, para nossa graça e contentamento, muita literatura, negligenciada pelo cânone e pelos merceeiros de serviço. Sim, literatura dessa, grande ou alta, como preferirdes apelidá-la.

Diz o vulgo que as ninfomaníacas são tomadas pela compulsão sexual justamente porque não conseguem atingir o orgasmo. Pois assim sucede comigo no que diz respeito às leituras: leio, leio e raras vezes me satisfaço. Torno a ler, leio mais, sofregamente. E nada. Que pessoa esquisita me tornei! Ter-se-á a minha mente couraçado, secado definitivamente o solo fértil das primeiras leituras, em que tudo penetra com a força de dez marteladas, em que é possível sentir a vastidão do universo na própria pele? Mas, ah, as surpresas ainda sobrevêm e eis que um livro – sobre purgas estalinistas, vá-se lá acreditar – me agarra, os pés descolam do chão e lá vou eu, inteira em mãos e retina, rumo a essa distante e tão amada literatura! É assim, os cometas nascem à noite, justamente como reza o primeiro capítulo do livro, e há um fogo que se acende e não queremos mais apartarmo-nos da beleza. Jamais!

Kostia ponderava a compra de um par de sapatos havia semanas quando uma súbita fantasia, que até a ele o surpreendeu, deitou por terra todos os cálculos que fizera. Se passasse sem cigarros, cinema e, dia sim, dia não, sem a refeição do meio-dia, economizaria em seis semanas os cento e quarenta rublos necessários para a aquisição de um bom par de botins que a simpática vendedora de uma loja de artigos em segunda mão lhe prometera reservar «por baixo do pano». Entretanto, ia caminhando alegremente sobre solas de cartão renovadas todas as noites. Felizmente, o tempo continuava bom. Quando já tinha setenta rublos, Kostia deu-se o prazer de ir ver os seus futuros sapatos, escondidos na obscuridade de uma estante (…).
– Esteja tranquilo – disse-lhe a pequena vendedora –, os seus botins ainda cá estão, não se preocupe…
(…) Depois do momento em que aqueles olhos profundos – da cor verde-azulada de alguns bibelôs chineses expostos na vitrina do balcão – o fixaram, o olhar de Kostia passeou-se pelas jóias, pelos corta-papéis, pelos relógios, pelas caixas de rapé, pelas outras antigualhas, até se deter por acaso num pequeno retrato de mulher com uma moldura de ébano, tão pequeno que lhe poderia caber na palma de uma mão…
– Quanto custa isto? – perguntou Kostia num tom surpreendido.
– Setenta rublos; é caro, sabe? – responderam os lábios encantados.
Largando um brocado vermelho e dourado que se encontrava sobre o balcão, mãos igualmente encantadas foram buscar a miniatura. Kostia agarrou nela, perturbado por segurar entre os seus dedos grossos e sujos aquela imagem, aquela imagem viva, aquela imagem mais extraordinária que viva, aquela minúscula janela negra que enquadrava uma cabeça loira coroada por um diadema, um belo rosto oval cujos olhos eram plenos de uma atenção, de uma doçura, de uma força, de um mistério sem fundo…
– Eu levo-o – disse ele surdamente e para sua própria surpresa.

Assim começa a história, e que começo! Enquanto ascendo não consigo qualificar o que me rapta e no meu enlevo balbucio apenas: tão russo! tão próximo da minha alma! Tanta pobreza e injustiça suportada, tanta sobriedade acumulada, que só o desvario pode conciliar por momentos uma consciência fustigada para além do humanamente suportável. Seis semanas a poupar para um par de sapatos, como não sonhar com uma vida mais livre e espontânea, mais bela? A vida não nasceu para ser poupada, ela tende, à mínima guinada, para o dispêndio, para a combustão. Por isso as ervas daninhas insistem sobre os passeios calcetados, o pó se deposita sobre as nossas estantes, os vermes devoram os nossos ossos e o tempo elide as letras impressas. A natureza, o caos, tudo o que vive e secretamente se transmuta, está constantemente à espreita, à espera da sua oportunidade para respirar e insuflar o universo da eterna novidade.

O resto é enredo, engenhosamente articulado. Toda a intriga é despoletada pelo assassinato do camarada Tulaev. O leitor sabe desde o início quem o matou, razão pela qual ainda se indigna mais com os inquéritos absurdos em torno desse crime. No entanto, de todo esse absurdo é possível extrair várias aproximações racionais ao entendimento da máquina estalinista e os modos que esta achou para devir numa espécie de carnificina automática, capaz de ceifar tudo e todos, qual Saturno devorando os próprios filhos. Ninguém está salvo – os que ontem acusaram e executaram, encontram-se no dia seguinte matematicamente desviados para o lado das vítimas.

– Não sei mais nada, tenho ordens precisas. É tudo, cidadão.
Rublev foi-se embora, estranhamente leve, levado por ideias semelhantes a um voo de aves agitadas. É isto, a armadilha – a fera apanhada na armadilha, és tu a fera apanhada, velho revolucionário, és tu… E estamos todos aqui na armadilha… Não nos teremos enganado completamente algures? Patifes, patifes! Um corredor vazio, mal iluminado, a grande escadaria de mármore, a porta giratória dupla, a rua, o frio seco, o automóvel negro do mensageiro. Perto deste último, que fumava enquanto estava à espera, um outro homem, de voz baixa e pastosa:
– Camarada Rublev, é-lhe solicitado que nos acompanhe para uma breve conversa…
(…)
As pequenas ruas de dois tons, com o branco da neve e o azul da noite, iam desfilando nos vidros. «Mais devagar», ordenou Rublev, e o motorista obedeceu. Rublev abriu a janela para poder ver melhor uma nesga de rua, não importava qual, o passeio cintilava, coberto de neve virgem. Uma velha casa senhorial do século passado, com um frontão suportado por colunas, parecia dormir há cem anos, atrás da sua vedação gradeada. Os troncos prateados das bétulas luziam tenuemente no jardim. Era tudo – para sempre, num perfeito silêncio, numa pureza de sonho. Cidade debaixo do mar, adeus. O motorista acelerou. – Somos nós que estamos debaixo do mar. Não faz diferença, fomos fortes.


Victor Serge leva-nos numa viagem às profundezas dessa máquina, permitindo-nos inspecionar as várias roldanas e, o mais genial na minha opinião, mostrar-nos como todo esse terror foi perpetrado com a colaboração de homens bem intencionados, extremamente fiéis ao partido e, como tal, dispostos a aceitar toda a humilhação e pobreza para não desonrar o partido. O mecanismo totalitário deriva obviamente de Estaline mas, a certo ponto da narrativa, percebemos que este se tornou automático e nem o próprio chefe poderiam parar esta gigante máquina de ceifar vidas. Sucede sempre isso, quando um projecto para melhorar a humanidade se torna tão programático que perde de vista o valor dessa mesma humanidade. O CASO DO CAMARADA TULAEV é exímio na descrição dessa humanidade metafisicamente abismada, socorrida por uma escrita que se inclina constantemente para o sublime, alçada por uma tristeza absolutamente lírica e ridente.