quinta-feira, 31 de maio de 2018

O que é do mar se os rios se recusam?





Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.

(…) Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana – força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz – mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve livros?

(…) mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?
Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

under your spell




“Digo isto aqui e agora para poupar o leitor a uma desilusão. Não sou um homem moral (embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como uma vez disse o meu querido Akutagawa Ryunosuke, eu não tenho princípios; só tenho nervos. Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver  com o olhar do que com as convicções, incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa (…). Porque esta é a cidade do olhar; as nossas outras faculdades limitam-se a tocar um débil segundo violino. (…)

No Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, num céu cinzento-pérola. Abrimos as janelas num gesto largo, e o quarto fica instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em parte de oxigénio húmido, em parte de cafés e preces. Por muitos e por mais variados comprimidos que tenhamos para tomar esta manhã, sentimos que ainda não está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança, ou pelo menos um futuro. (Disse Francis Bacon que a esperança é um bom pequeno-almoço mas uma fraca ceia.)
(…)
Para os casos mais benignos de qualquer dos males, uma estadia aqui constitui a melhor das terapias, e o turismo em Veneza é isso mesmo. Dorme-se bem nesta cidade, porque os nossos pés se esfalfam a esmagar a agitação da psique ou, o que vem a dar no mesmo, uma consciência pesada.

(…)
E prometi a mim próprio que se alguma vez viesse a deixar o meu império, se alguma vez esta enguia fugisse do Báltico, a primeira coisa que faria seria vir a Veneza, alugar um quarto no rés do chão de um palazzo, para que as ondas levantadas pela passagem dos barcos me salpicassem a janela, escrever duas ou três elegias apagando cigarros nas lajes húmidas do chão, tossir e beber e, quando o dinheiro escasseasse, em vez de apanhar um comboio, comprar uma pequena Browning e estoirar ali mesmo os miolos, incapaz de morrer em Veneza de causas naturais.

(…)
Eu diria, porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tao absurda como a ânsia de a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior obra-prima que a nossa espécie criou.

(…)
Julgo, porém, que se poderá falar de fidelidade quando alguém volta ao lugar do seu amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido. Como qualquer virtude, de facto, a fidelidade só tem valor se for instintiva ou idiossincrática, e não racional (…). O amor é um sentimento desinteressado, uma rua de sentido único.


Da zoofilia



Tenho a consciência que tenho alguns preconceitos estúpidos. O maior deles será ter sempre recusado ler banda desenhada. Tal recusa não se justifica pelo demérito da BD - tenho a certeza que existirão obras excelentes - mas por uma incapacidade minha em ler simultaneamente textos e imagens. Creio que prefiro apenas texto, para manter uma certa liberdade anárquica das minhas imagens mentais.

Outro preconceito será considerar o Luís Sepúlveda um autor para adolescentes. Mas, ao ouvir duas pessoas falar n' O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR num curto espaço de tempo, trouxe um exemplar da biblioteca: eich, durou uma tarde e a cabeça manteve-se entre as orelhas.

A Porta



– Então, por vingança, juntei-me ao barbeiro. Não lhe contaram? Também me teria juntado ao diabo, se me persuadisse de que algum homem poderia amar-me, mas devo ter alguma doença, porque esse não só me deixou, como me roubou, e eu nem era feia. É-me indiferente. Eu não morri.
            Calou-se por uns instantes, cheirando uma folha de menta que esmigalhava entre os dedos.
            – A gente não morre facilmente, aprenda isso, e mais tarde, aquilo a que se resistiu torna-nos tão inteligentes que desejamos ainda assim, voltar a ser estúpidos, completamente estúpidos.

«e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro»



Um livro muito interessante, sobretudo para descobrir outros textos, como por exemplo O Sonho do Aposento Vermelho de Cao Xuequin, A Tragicomédia de Calixto e Melibea, O Livro da Flor de Ibn Dawud, O Colar da Pomba de Ibn Hazm, a heroína Cynthia de Propércio e por aí adiante.

«Nem que seja na cabeça, as coisas vão se descontrolar.»

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A alma humana é porca como um ânus

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!

Álvaro de Campos

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O coração



No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -, 
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

Stephen Crane

La locura que viene de las ninfas




«De pronto, se abre nuestros ojos el amplio abanico de la posesión griega. Los griegos llamaban a quien está poseído kátochos, palabra descriptiva que corresponde al uso moderno de “poseído”. Pero, exactamente como para el léxico óptico, donde reconocemos una multiplicidad de términos y una fineza de diferenciaciones que se han perdido en nuestras lenguas, así para la posesión nos encontramos frente a una ramificación de la terminología que se funda en un conocimiento del fenómeno mucho más articulado y lúcido que el nuestro. Si queremos entender algo del secreto de las ninfas, tendremos que analizar toda clase de testimonios para que se vuelva claro al menos en qué se distinguía el rapto por parte de las ninfas de las otras formas de la posesión.
[…]
La mente era un lugar abierto, sujeto a invasiones, incursiones, súbitas o provocadas. Incursio, recordemos, es término técnico de la posesión. Cada una de esas invasiones era señal de una metamorfosis. Y cada metamorfosis era una adquisición de conocimiento. Por supuesto no de un conocimiento que queda disponible como un algoritmo. Sino un conocimiento que es un páthos, como Aristóteles definió a la experiencia mistérica.
[…]
De hecho, cuando los seres divinos desaparecieron – al menos ante los ojos de quien ya no sabía advertir su presencia – junto con ellos se desvaneció el cortejo de los seres intermedios: ángeles, demonios, ninfas. Para muchos fue un alivio. La vida se mostraba menos peligrosa y más previsible. Y la palabra nymphólēptos cayó en desuso. En cuanto a las ninfas, volvieron a habitar en algún nicho solitario en la historia del arte. Planteo entonces una hipótesis: quizá el escándalo que Lolita suscitó en algunos cuando apareció – y al parecer continúa suscitando – se debía sobre todo al hecho de que Nabokov obligaba a la mente, con los medios traicioneros y matemáticos del arte, a despertarse a la evidencia, a la existencia de esos seres – las ninfas – que pueden también presentarse bajo la forma de una chiquilla estadounidense con calcetines blancos. Más que el sexo, el escándalo era la literatura misma.»

Be my knife



DAME

Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra

No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice

Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!


Carlos Edmundo de Ory 

Josefina ou O Povo dos Ratos



«A nossa cantora chama-se Josefina. Quem não a ouviu não sabe o que é o poder da canção. A todos, sem excepção, arrebata o seu canto, o que será de louvar mais ainda se tivermos em conta que no geral a nossa espécie não gosta de música. […]
               Já pensei muitas vezes sobre o que de facto significa esta música. Nós não somos nada musicais; como é possível então que compreendamos o canto da Josefina ou, visto que a Josefina acha que não a compreendemos. A resposta mais fácil seria que a beleza deste canto é tão grande que até o mais embotado dos sentidos é incapaz de lhe resistir, mas esta resposta não satisfaz. Se assim fosse, então o seu canto teria de, instintivamente e sempre, dar a impressão de ser qualquer coisa fora do normal, a impressão de que há qualquer coisa a sair daquela garganta que nunca antes ouvimos e que não temos sequer capacidade para ouvir, qualquer coisa cuja audição só a Josefina e mais ninguém nos pode dar a ouvir. Mas é precisamente isso que na minha opinião não acontece, não o sinto e também não observei nada de parecido nos outros. Entre nós, no nosso círculo de confiança, confessamos uns aos outros abertamente que o canto da Josefina enquanto canto não representa nada fora do normal.
               Será aliás sequer um canto? […] Não será se calhar apenas um assobio? E é claro que todos reconhecemos um assobio, é a grande habilidade artística do nosso povo, ou talvez até já nem seja uma habilidade antes uma forma de expressão característica da nossa vida. Todos nós assobiamos, mas, naturalmente, ninguém pretende fazer passar isto por arte, assobiamos sem prestar atenção, sim, sem repararmos e existem até muitos de nós que nem sequer sabem que o assobio é uma das nossas particularidades. Se fosse então verdade que a Josefina não canta mas apenas assobia e se calhar até, como pelo menos julgo, que não ultrapassa as fronteiras do comum assobio – talvez a sua força não seja sequer suficiente para chegar ao nível deste assobio comum, ao contrário de um cavador que é capaz de assobiar sem esforço durante um dia inteiro de trabalho – se tudo isto fosse verdade, então refutava-se o pretenso título de artista da Josefina, mas ficaria ainda por decifrar o enigma da enorme impressão que provoca.
                Mas acontece que ela não produz apenas um assobio. Se nos colocarmos a uma grande distância dela e nos pusermos à escuta, ou ainda melhor, se nos sujeitarmos à seguinte experiência que seria, estando a Josefina a cantar em conjunto com outras vozes, tentar identificar a sua voz, então ouviríamos invariavelmente um mero assobio, que poderá no máximo destacar-se pela sua delicadeza e fragilidade. Mas se estivermos à sua frente, então já não se trata de um simples assobio; para se compreender melhor a sua arte é preciso não só ouvi-la mas também vê-la. Mesmo que fosse apenas o nosso assobio de todos os dias, existe antes de mais a pecularidade de se tratar de alguém que se colocou com solenidade de pé para fazer precisamente aquilo que normalmente faz. Abrir uma noz, toda a gente o sabe fazer, não é nenhuma arte, por isso ninguém arriscaria convidar público e diante dele, para o entreter, pôr-se a abrir nozes. Se mesmo assim essa pessoa o fizer e conseguir atingir o seu objectivo, então não poderá falar-se apenas de abrir nozes. Ou fala-se de abrir nozes mas verifica-se que esta foi uma arte que nos passou despercebida porque a dominávamos completamente e que este novo abridor de nozes nos mostrou pela primeira vez a verdadeira essência do acto, chegando mesmo a ser mais útil para o efeito pretendido que ele fosse menos eficiente a abrir nozes do que a maioria de nós.»

sábado, 21 de abril de 2018

Veneza, ainda





“Então, ao passar pelas ilhas da laguna que se vão perdendo na distância, é-se tomado por uma sensação curiosa – uma sensação de alívio, e também de tristeza, mas profundamente impregnada de perplexidade. Veneza, à semelhança de muitas amantes belas ou muitos vinhos densos e fortes, nunca se abre totalmente connosco. Tem um passado enigmático, um presente contraditório e um futuro toldado por incertezas. Deixamo-la saciados mas confusos, como um jovem que, afastando-se feliz de um abraço, se apercebe subitamente de que o pensamento da rapariga estava noutro lado e reflecte por momentos no que raio terá visto nela.
[…]
No entanto, o fascínio de Veneza não depende da arte nem da arquitectura. A cidade tem algo de curiosamente sensual, quando não é mesmo sexual. «Veneza envolve-nos», disse um francês do século xix,  «com um encanto tão terno como o de uma mulher. Outras cidades têm admiradores. Só Veneza tem amantes.» […]
Penso que isto se deve em parte à estrutura orgânica. Veneza é um todo maravilhosamente compacto e funcional: é perfeita, pequena, completa, firmada mesmo no centro de uma laguna em forma de foice como um velho monstro dourado dentro de um charco. […]
Em parte é também uma questão de luz. Os pintores venezianos primavam pelo domínio do chiaroscuro, e Veneza sempre foi uma cidade translúcida, um lugar de ocasos arrebatadores e manhãs iridiscentes, por muito monocromáticos que possam parecer os seus longos invernos. […]
Por outro lado, é uma questão de textura. Veneza é um lugar de materiais voluptuosos, e nos edifícios proliferam embutidos de mármore e pórfiro, mármore cippolino, verde antico, jaspe, mármore grego, granito e alabastros polidos. […] Até mesmo as águas de Veneza de vez em quando parecem seda furta-cores. […]
A atracção de Veneza é, ainda, uma questão de movimento. Veneza perdeu aquele encanto sedoso e onírico, mas continua a ter uma movimentação sedativa e sedutora. Ainda é uma cidade matizada, trémula e cintilante, onde a luz do sol brilha com suavidade por baixo das pontes e as sombras avançam lentamente ao longo dos passeios. O movimento de beleza nada tem de rude ou de brutal. A gôndola é um veículo de locomoção belíssima, os barquinhos dos canais deslocam-se com um staccato delicado […].
E, em última análise, a glória daquele lugar está no facto grandioso de Veneza em si mesma: o esplendor e a estranheza da sua história, a ampla e melancólica laguna que a rodeia, o intricado esplendor marinho que faz dela, ainda hoje, uma cidade única. Quando deixarmos finalmente aquelas águas e arrumarmos o nosso chapéu de palha, o antigo deslumbramento de Veneza perdurará na nossa cabeça; e o cheiro a lama, incenso, peixe, antiguidade, imundície e veludo ficar-se-á pelas narinas; e o suave marulhar dos canais secundários continuará a ecoar nos nossos ouvidos; e aonde quer que se vá na nossa vida, sentir-se-á sempre atrás de nós uma presença rosada, acastelada e cintilante, as cúpulas, os cordames dos barcos e as torres inclinadas da Sereníssima.
É isto o romantismo! É isto o vinho luxurioso e escuro de Veneza! Não admira que o marido de George Eliot tenha caído no Grande Canal.”

quinta-feira, 12 de abril de 2018

poça de água




Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens reflectidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.

não teremos pois a leviandade de contestar



“Está na ordem do universo que um espírito único, por todo o lado espalhado, um sentido em tudo presente, de todas as partes vindo para se apossar das coisas, sinta estes efeitos e paixões que em todas as coisas nos é dado observar.
[…]
É por esta razão que os deuses nos falam através de imagens ou de sonhos, que nós, por falta de hábito, por ignorância e pela obtusa debilidade das nossas faculdades, chamamos de enigmas, quando são estas as [verdadeiras] palavras por excelência e os próprios confins das coisas que se podem figurar.
[…]
Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros os corpos de outros animais, plantas, pedras, minerais; em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência – nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.
[…]
Eis como por vezes somos mais atingidos e mais cruelmente feridos por coisas cujos golpes não sentimos do que por aquelas que no-los fazem sentir […]. Não teremos pois a leviandade de contestar à partida as teses de certos platónicos e de todos os pitagóricos, que concebem o indivíduo como uma colecção de seres dotados de vida própria: morrera um deles, mesmo sendo de todos o principal, que os outros lhe sobreviveriam ainda por muito tempo.”

Veneza




Passados 15 anos, regressei a Veneza. Desta vez, causou-me uma impressão muito profunda que se prolongou oniricamente, e até ousei um passeio de gôndola. Talvez que aos 20 anos eu fosse demasiado insensível aos encantos de Veneza. Ou talvez seja uma daquelas cidades que, como o amor, se aprecia melhor na maturidade. Não faço a menor ideia. Enquanto não encontro esclarecimento, vou deambulando pela imensa literatura de viagens dedicada à Sereníssima, ou seja, ainda que de maneira estética, prolongo aí a minha estadia.

A cidade muda totalmente de noite. Uma das mais animadas que conheço durante o dia, quando o Sol se põe tudo desaparece ou se fecha, e à medida que as horas avançam Veneza vai ficando cada vez mais deserta e mais possuída pelos sons individuais. O ruído dos passos cruza-se com o bater da água e a aparência de cenário de qualquer recanto acentua-se, pois nenhum cenário o parece tanto como quando não tem acção e está vazio. Mas o que na verdade faz mudar Veneza é a própria escuridão (…). A água é o elemento fundamental da cidade, o que de dia devolve e potencia a luz e a cor (vermelho-sanguíneo, amarelo, branco) das casas e dos palácios. De noite, pelo contrário, quase nada devolve. Absorve.

(…)

Do seu extremo ocidental ao seu extremo oriental (a maior distância possível), Veneza percorre-se em não mais que uma hora, a andar bem e sem se ofegar. Mas quase ninguém pode percorrê-la assim, não tanto porque seja difícil e até impossível encontrar uma linha mais ou menos recta sem vacilar cem vezes no trajecto, como por culpa do que – com pedantismo – poderíamos chamar a sua inacabável fragmentação ideal.
Veneza produz simultaneamente duas sensações na aparência contraditórias: por um lado, é a cidade mais homogénea – ou, se se prefere, harmoniosa – de todas as que conheci. Por homogénea ou por harmoniosa entendo principalmente o seguinte: que qualquer ponto da cidade, qualquer espaço luminoso e aberto ou recanto escondido e brumoso que, com água ou sem ela, entre a cada instante no campo visual do espectador é inequívoco, isto é, não pode pertencer a nenhuma outra cidade, não pode confundir-se com outra paisagem urbana, não suscita reminiscências (…).

Por outro lado (e aqui está o contraditório), poucas cidades parecem mais extensas e fragmentadas, com distâncias mais intrasponíveis ou lugares que provoquem uma maior sensação de isolamento.”

Do inconsciente óptico




“Diz-se que o melhor design é invisível, o neutro. Mas é ilusão, claro. Seria paradoxal uma disciplina tão dedicada à identidade não ter também a sua. Esta construção de identidade é o design que o design não vê: um processo contínuo, contraditório, obsessivo, instruído, mas inconsciente.”


Especialista por excelência no fabrico de identidades, o design é uma disciplina fundamental do nosso quotidiano. No entanto, a reflexão sobre a sua própria identidade não é abundante. Nos doze ensaios que compõem este livro, Mário Moura convoca a crítica do design para analisar os seus impensados e a cultura contemporânea, à semelhança da melhor tradição da crítica literária e da crítica de arte. Com várias incursões pela literatura, política, história, geografia e pelo cinema, o autor desmonta o património discursivo do design e demosnta como este é formado e reformado por conceitos de raça, classe, género, autoria e periferia, entre outros.