sexta-feira, 19 de outubro de 2018

If I could make the world as pure and strange as what I see I'd put you in the mirror I put in front of me



RILKE A LOU ANDREAS-SALOMÉ em Munique

8 de Junho de 1897

(...)

Minha límpida fonte! Como te estou agradecido! Não quero mais ver flores, céu, sol  – a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que – sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti – treme de frio no musgo, solitária e terna, reflecte-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma. Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti!
            Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos.

//

Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-lhas? – Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda – ou uma coroa… Nunca te vi de outro modo.
            Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente.


LOU ANDREAS-SALOMÉ A RILKE em Berlim

26 de Fevereiro de 1901

Último apelo.
(…) Mas então, outra coisa aconteceu, qualquer coisa que é como que uma trágica culpabilidade minha para contigo: o facto de, a despeito da nossa diferença de idades, me ter sido necessário crescer desde Wolfratshausen, crescer para encontrar finalmente o que com tanta alegria te anunciei quando nos despedimos, por mais estranho que isso possa parecer: a minha juventude. Pois somente hoje consegui ser jovem, somente agora posso ser o que as outras são aos dezoito anos: inteiramente eu própria. Foi esta a razão por que a tua pessoa, tão querida e tão próxima em Wolfratshausen, a pouco e pouco foi desaparecendo da minha vista, como um determinado pormenor numa vasta paisagem, uma imensa paisagem do Volga, por exemplo, e onde a pequena cabana já não te pertencia. Sem o saber, obedeci ao grande destino da minha vida, que, sorrindo e para além de toda a compreensão e de toda a expectativa, me oferecia um presente. Aceitei-o com uma grande humildade; e lúcida como um vidente, lanço-te este apelo: caminha da mesma maneira ao encontro do teu Deus obscuro!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

diz que era o poema predilecto de Dostoievski


O Profeta

Com o espírito morto de sede,
Rojo-me num deserto escuro,
E voa um anjo de seis asas
Na encruzilhada dos meus rumos.
Com dedos leves como o sonho
O serafim toca-me os olhos:
Uns olhos profetas se abriram
Como os da águia assustada.
Eis que me assoma os ouvidos
E os enche de alvoroço:
Escuto o tremer do céu,o alto
Voo dos anjos,os deslizar
Subáqueo do monstro marinho
E a rosa a crescer no vale.
Sobre minha boca se inclina
E arranca a língua ardilosa,
Carpideira,iníqua e vã,
E com a dextra ensanguentada
Põe o dardo da sábia cobra
Na minha boca silenciada.
Com a espada me corta o peito,
O meu coração latejante
Despega,e no vão negro do seio
O anjo mete a brasa viva .
Estou,como morto,no deserto
E a voz de Deus por mim clama:
Ergue-te,ouve e vê,profeta,
Da minha vontade te tomes,
Mares e terras percorre,queime
Teu verbo o coração dos homens.


Aleksandr Pushkin
(tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

Traditore: o critério de Novalis, citado por Cesariny


«Uma tradução pode ser literal, livre ou mítica. As traduções míticas são o estilo supremo da tradução. Representam a obra de arte individual no seu carácter puro e total. Dão-nos, não a obra de arte ela-própria, mas a sua transcrição ideal... As traduções literais exigem muito saber, mas valem-se de um talento puramente discursivo.
    As traduções livres, se se pretendem válidas, exigem o mais elevado espírito poético.
    ... O verdadeiro tradutor neste género deve ser ele mesmo um artista e dar uma ideia do conjunto por tal ou tal processo à sua escolha. É necessário que seja o poeta do seu poeta..»


o meu coração é árabe




“Quantos Árabes ilustres ligados a esta terra têm merecido a atenção da nossa gente de cultura? Apenas responderá um silêncio que magoa. No entanto, esses mouros convertidos em lenda iluminaram a Idade Média, guiados pelos noventa e nove Nomes de Alá. E, como os ventos que sopravam dos desertos de onde vinham, trouxeram aromas e fulgores de todas as civilizações que avassalaram. E foram filósofos, matemáticos, poetas, santos e heróis. Por isso, os reis cristãos peninsulares, vencedores tantas vezes pela espada, se rendiam ao seu saber e, não raro, entregavam o coração à mulher muçulmana.
(…)
Compreende-se que, no cenário das areias, «a única arte que os nómadas podem desenvolver é de facto a língua – que se torna assim o que Heidegger disse: a morada do ser. A frase do filósofo alemão é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se bayt (literalmente casa) e palavra diz-se mufrad (de fard, ou seja, indivíduo).»

IBN ‘ABDÛN (Évora, século XI)

regaram-no as chuvas da abastança
e saudosas frases me vêm à lembrança.

cumes cobertos de moitas floridas
de bordados mantos, sendas não esquecidas.

como esquecer-me das horas passadas
no tropel louco de ingénuas cavalgadas?

ai como era doce esse meu folguedo
passarinho à toa esvoaçando ledo.

dias tão felizes, bordados em flor,
vento em minhas vestes murmurando amor.


AL-MU’TAMID (Beja, 1040 – Aghmat, 1095)

evocação de Silves

saúda, por mim, Abû Bakr,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande quanto a minha.
saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem nunca o esqueceu,
morada de leões e de gazelas
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas opulentas
e tão estreitas cinturas.
moças níveas e morenas
atravessavam-me a alma
como brancas espadas
como lanças escuras.
ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
preso nos jogos do amor
com a da pulseira curva,
igual aos meandros da água,
enquanto o tempo passava…
ela me servia vinho:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.
tangia-me o alaúde
e eis que eu estremecia
como se estivesse ouvindo
tendões de colos cortados.
mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.

--//--

solta a alegria! que fique desatada!
esquece a ânsia que rói o coração.
tanta doença foi assim curada!
a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois o alaúde e o fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão
da sabedoria só colherás a turbação
cravada no mais fundo do teu ser:
é que, de entre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

As Forças Estranhas



Descobri mais um mistério, novamente graças à Sistema Solar e ao magnífico Aníbal Fernandes: Leopoldo Lugones. A selecção de contos é muito boa e os textos de apresentação de Aníbal Fernandes não ficam atrás, quer pelo nível literário, quer pela profusão de bibliografia consultada que pressupõem para oferecer ao leitor toda a informação condensada. Quanto ao Lugones, apreciei muito o seu estilo: os vários contos recuperam civilizações perdidas, sugerindo não apenas uma enorme erudição histórica do autor, como também um estudo apurado de várias mitologias e tradições místicas – dos trabalhos de Hércules à civilização egípcia, passando por alguns episódios da Bíblia e pela Ordem dos Assassinos – temas que me vêem interessando cada vez mais nos últimos tempos.
AF começa por nos contar o suicídio do autor, cita a sua nota de despedida (Peço que me enterrem na terra sem caixão, sem nome que me recorde; proíbo que o meu nome seja atribuído a um qualquer lugar público; não culpo ninguém de nada; sou o único responsável por todos os meus actos.), vai até ao detalhe de nos informar que esse último quarto de hotel ainda existe e se mantém fora de serviço, tal como Lugones o deixou no dia da sua morte. Seguem-se vários textos de apresentação que ajudam a esclarecer os contos de cada secção, com especial destaque para o fenomenal resumo bíblico que AF faz do Génesis, do Dilúvio e da destruição de Sodoma e Gomorra.
E foi precisamente nestes 3 contos bíblicos que começou o meu fascínio por Leopoldo Lugones. «A Chuva de Fogo» conta-nos as últimas horas de Gomorra por um habitante desta cidade; «A Estátua de Sal» prossegue com a história da mulher de Lot e «A Origem do Dilúvio» remata com uma espécie de fantasia científica e um dos desenlaces mais surpreendentes que li – uma pequena sereia morta na bacia do lavatório, genial! O conto «Yzur» ofereceu-me uma comoção inaudita por um macaco, Yzur de seu nome, que rapidamente se estendeu a toda a humanidade. «Nuralkámar» impressionou-me sobretudo pelos vastos conhecimentos que o autor denota da poesia árabe.
E eis que chego rendida aos 3 últimos contos, extraídos da antologia Cuentos Fatales. Novamente encontramos numa antecâmara as palavras mestras de AF (Os contos «O Vaso de Alabastro», «Os Olhos da Rainha» e «O Punhal» são relatos onde o próprio Lugones se revela depositário de revelações que levam à morte quem não as respeita ou (no último caso) as aprofunda, tornando-se um verdadeiro «iniciado».) e a fabulosa imagem desse punhal que dá nome ao último conto e que terá pertencido a um druso seguidor e herdeiro das tradições da Ordem dos Assassinos, acabando na posse de Lugones. Quiçá da forma que o conto narra… Cheguei rendida, saio de gatas. Ide ler! 

amar


Amar foi durante muito tempo
gravar iniciais adolescentes,
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes.

Aprendi que amar, entre outras coisas,
é também navegar nas águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas,
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.

A. M. Pires Cabral

Femicídios




Fui buscar o RAPARIGAS MORTAS, da Selva Almada, à biblioteca. Ainda bem. É mais um daqueles livros que se lê bem, à espera de que acrescente alguma coisa, e tal não acontece. Será claramente um problema meu, que tende a repetir-se com o género «romance não ficção»: as histórias reais são intrigantes e essa veracidade vai alavancando a leitura mas, para além disso, não reconheço ao autor ou autora um excepcional talento literário.

Em caso de tempestade este jardim será encerrado





E o cais cinzento e as casas vermelhas E não é ainda a solidão E os olhos vêem um quadrado negro com um círculo de música lilás no seu centro E o jardim das delícias apenas existe fora dos jardins E a solidão é não poder dizê-la E o cais cinzento e as casas vermelhas.
Alejandra Pizarnik


YOUR FUNERAL, MY TRIAL

O morto fica mais só
quando quem fala lhe rouba
a última memória desse barco
desmesurado da infância,
construído sem vista para o mar.

O morto fica mais só ainda,
quando quem ouve se esquece da música
para escolher o seu próprio funeral,
alinhando convidados e preferindo coroas
de plástico a condizer com as lágrimas.

O morto fica mais só ainda, se possível,
quando me distraio com o mel da luz
nos vitrais ou sigo o gato amarelado
para quem a morte é apenas uma questão de
sobrevivência, talvez um jogo, se algum rato
finge entregar-se com prazer às suas garras.

Hoje, pela primeira vez, não me chegam
os dedos para contar os meus dias de veladora.
Mesmo sabendo que nenhum ritual nos consola,
tento apaziguar a terra que se abre a meus pés,
plantando cravos condenados que nunca voltarão a florir.
E invejo secretamente o morto, porque já não precisa de
conhecer a flor preferida de ninguém:
pode simplesmente deixar-se estar,
na certeza de que o chão não lhe voltará a falhar.

Os mais sós, afinal, são sempre os sobreviventes.

*

TROUBADOUR

O jardim (em) que mais amei
não tinha tratados de botânica
nem estátuas de domingo.
Cabia todo no trautear suave,
quase gemido, do banco ao lado
e tinha a tristeza prosaica de
meia dúzia de pombas desinspiradas
pelas mesmas migalhas.
Os miúdos eram os de sempre,
o futuro à exacta distância
da bola que passavam logo a outro,
assustados com a responsabilidade
dessa posse demasiado leve.
Só a fonte parecia calar-se
para nos ouvir e os pássaros
tinham um jeito caprichoso de roçar
cada cabelo teu para te mostrarem
as asas de renda em contraluz.

O único dia em que lá regressei sem ti
foi como saber outra vez que ia morrer.
Os céus não se rasgaram, ninguém se calou
para me deixar passar, nem secara
a fonte subitamente ao centro.
Ainda insisti num banco com vista
para o nosso, sem folhas a cair ou pássaros
que me emprestassem o consolo
impossível da sua sombra. Mas o sol
era agora uma arma descarregada,
contra a qual já não precisava
da muralha do teu corpo e tive
a certeza absurda de que tudo
iria continuar sem nós, e eu sem ti.
Era apenas questão de evitar o jardim
do mesmo modo que pago para fugir
à morte, escolhendo trajectos que me façam doer
todos os músculos, excepto o do coração.

*

REQUIEM POR UM PÁSSARO E UM AUTOCARRO PERDIDO

Para a Renata Correia Botelho


Mais um dia
em forma de pássaro morto.
Uma amálgama ainda quente
da manhã que nasce, espécie de beleza
desmanchada a que nem o nosso olhar
consegue servir de pietà. O vento
teima em agitar uma ou outra pena,
mas não há golpe de asa que o arranque
agora ao asfalto negro.

Partilhamos, no fundo, a impotência:
o destino que o esmagou
é o mesmo que esperamos para
embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.
A essa indiferença cansada prefiro
a do outro pássaro que, lá muito em cima,
hoje ainda mais, refaz a traços negros
a vida. É por esses instantes
de voo que aceito continuar a perder.

*

COME RAIN OR COME SHINE

No fundo, é isto: espera-se.
Escrevemos incuravelmente
a história dessa espera, mas
nunca se chega ao fim da rua
mais escura do passado,
nem se despe por completo o luto,
sempre outros os mortos, sempre igual a si
a morte. A espera,

essa continua. Podemos
chamar-lhe agora expectativa,
tentarmos soletrar esperança.
Só que já não queremos tanto crescer
e, sinceramente, preferimos
adiar os destinos ambicionados,
compreendendo por fim Moosbrugger, para quem
a felicidade era a distância
mais comprida entre a prisão e o tribunal.

Esforçamo-nos por vencer a dor pela
exaustão, transformá-la num bicho
que se alimente de palavras e recuse as nossas festas.
Mesmo assim, espera-se. Com
as mãos cansadas e de olhos
teimosamente postos no amor,
abrimos a janela e deixamos
a luz entrar, compassiva,
abafando a chuva que cai sem dar tempo
aos pássaros de se abrigarem. Anotamos
a palavra sinal. Ou redenção. Não interessa,
o poema não deixa de ser o mesmo

sábado, 29 de setembro de 2018

ain't I a woman?



bell hooks, feminista e activista norte-americana, discute em Não serei eu mulher? questões como a feminilidade negra, através da análise do impacto do sexismo sobre as mulheres negras durante a escravatura, o envolvimento das mulheres negras nos movimentos feministas e o racismo entre feministas. Escrito durante a licenciatura da autora e publicado apenas em 1981, Não serei eu mulher? é desde então louvado como reflexão pioneira e clássico obrigatório da teoria feminista.

sábado, 1 de setembro de 2018

Pequeno conto da misoginia



O ADEUS DE ONDINA


Sim, já compreendi a lógica: Tem de haver sempre alguém que se chame Hans, todos vocês se chamam Hans, uns após os outros, e no entanto – só há um. É sempre só um com este nome que não consigo esquecer, mesmo que vos esqueça a todos, vos esqueça tão totalmente como vos amei.
(..)

Desta vez vou ser muito precisa, seus monstros, vou envergonhar-vos e tornar-vos desprezíveis, pois que não mais voltarei, não mais seguirei os vossos acenos, não aceitarei mais nenhum convite para tomar um copo, para fazer uma viagem, para uma ida ao teatro. Não voltarei nunca mais, não mais vos direi Sim, nem Tu, nem Sim. Acabar-se-ão todas essas palavras, e talvez vos conte porquê. Pois vocês já sabem todas as perguntas, e todas elas começam com: «Porquê?».
(…)

Seus monstros, como se a vossa maneira de falar não bastasse, ainda precisam de recorrer às expressões que as mulheres usam, para que não vos falte nada, para que o mundo continue redondo (…) Vocês enganam – e são enganados. Não tentem isso comigo. Comigo não!
(…)

Conheci um homem chamado Hans que era diferente de todos os outros. Conheci ainda outro homem que era diferente de todos os outros. Depois mais um que era diferente de todos os outros e se chamava Hans e que eu amei (…) Vai-te, morte, e sustem-te, tempo. Não usar encantamentos, lágrimas, entrelaçar de mãos, juras, rogos. Nada disso. Eis o mandamento: confiar que os olhos bastarão aos olhos, que bastará um pouco de verde, que a coisa mais simples do mundo será bastante. Obedecer a esta lei e não ao sentimento. Obedecer à solidão. Nessa solidão na qual ninguém me segue.
Será que és capaz de entender? Nunca partilharei a tua solidão porque tenho a minha. Tenho-a há muito, e tê-la-ei por muito tempo ainda.
(…)

Tanto melhor para vocês! É sinal de que são muito amados e que muito vos é perdoado. Mas não se esqueçam de que foram vocês que me chamaram ao mundo, que sonharam comigo, a outra, o outro vindo do vosso espírito e não da vossa aparência, a desconhecida que surge de pés molhados, carpindo, nos vossos casamentos, sob cujo beijo vocês tanto temem como desejam a morte, mas não chegam a morrer: no caos, em arremessos de paixão, numa razão superior.
(…)

Elogiemos a delicadeza dos vossos corpos pesadões. Algo de delicado e terno surge quando vocês se prestam a uma vontade, quando fazem alguma meiguice. Muito mais terna do que toda a ternura das vossas mulheres é a vossa ternura, quando dão a vossa palavra, ou se prestam a escutar alguém e o compreendem. Por muito pesados que sejam os vossos corpos, vocês tornam-se leves; uma tristeza vossa, um sorriso vosso podem causar um tal efeito, que mesmo uma suspeita infundada dos vossos amigos acaba por cair por terra, pelo menos durante alguns momentos.
(…)

Nunca houve tanto encanto nos objectos como quando tu deles falavas, nem nunca houve palavras superiores àquelas. Graças a ti a língua também se pode revoltar, enlouquecer, tornar-se poderosa. Fazias tudo com as palavras e as frases, entendias-te com elas ou modificava-las, davas novos nomes às coisas, e os objectos, que não entendem palavras directas nem indirectas, quase passavam a mover-se sozinhos.
Ah, ninguém sabia jogar tão bem como vocês, seus monstros! Foram vocês que inventaram todos os jogos, jogos de números e jogos de palavras, jogos de sonhos e jogos de amor.

Nunca ninguém falou assim de si próprio. Quase tocando a verdade. De um modo mortífero. Curvado sobre a água, num abandono quase total. A escuridão já se espalhou pelo mundo e não posso pôr o meu colar de conchas. Não vai surgir clareira alguma. Tu, que és outro entre os outros. Estou submersa sob as águas. Sob as águas.
E lá em cima anda alguém que odeia a água e odeia o verde e não compreende, não compreenderá nunca. Como eu nunca compreendi.

Quase emudecido,
quase ainda
ouvindo
o chamamento.

Vem. Uma vez só.
Vem.

----------------------------------------------------------------

Fala uma ninfa como podia falar uma mulher.

Sergei Polunin

David Martiashvili, Tbilisi, Georgia.






Autoretrato



De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracial, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suíço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

Rui Knopfli

O eremita viajante




Numa sexta-feira à noite, percorro a pilha de livros por ler e decido que no dia seguinte ignorarei o calor e as praias lotadas, para ficar no sofá a viajar pelo Japão, com a obra completa de Matsuo Bashô.

Na poesia como em tudo o resto, tendo a preferir os estilos mais viscerais, pouco dados às contenções da forma ou imposições de rimas, que convocam de imediato a carne e a colocam em cheque. Mais do que admirar a elegância estilística de um verso ou a frase burilada, quero sentir o poema   na garganta, no peito, por vezes no estômago, raras vezes no pipi (ocorre-me agora, com alguma graça, que nunca senti um poema nos pés).

Quer isto significar que, em princípio, não atinaria com a estética dos haikus. Mas como também eu sou uma metamorfose ambulante, dou por mim a curtir os pequeninos poemas de 3 estrofes, carregados de uma forte potência visual que fica a ressoar na cabeça do leitor, como pequenas aguarelas onde, com algumas pinceladas desleixadas, se consegue sugerir toda uma atmosfera, aparentemente simples, porque se atém aos factos mais materiais da existência – as estações do ano, o quotidiano das árvores e dos animais –, que é onde o mistério do mundo se revela mais intensamente e de forma universal.

Nos mais de 1000 haikus de Bashô, o enredo principal cabe à natureza, contada por um sujeito poético que se oblitera nesse tempo da observação, um tempo que é sempre lento e implica uma vida mais humilde e despojada quer das solicitações do ego, quer das solicitações da comunidade. Nesse tempo, o grande acontecimento poético cabe ao cuco que canta, à cerejeira que floresce ou à fase que a lua apresenta no céu.

116
enquanto a cerejeira
estiver em flor
o mal-estar não existe

118
flores por todo o lado 
animam-se o sacerdote
e a prostituta

136
salta a rã
para dentro do velho tanque 
plof!

302
ah as brisas do outono! 
dorme ao ar livre
e compreenderás o meu poema

316
não há frio que resista
quando se dorme acompanhado 
e que bom que é!

340
quando floresce a ameixeira
nada sei
como o coração dos poetas

520
sobre a montanha da Pluma Negra
a lua crescente 
paz dentro de mim

542
o homem pára
para olhar o trevo à chuva 
e molha-se

664
o coração viajante não se enraíza
antes quer ser
braseira ambulante

699
o cuco da montanha
junta solidão
à minha tristeza

753
pudesse eu viver
como a cerejeira da montanha 
por sobre o mundo

868
fragrância da flor da ameixeira
onde está a pessoa
que nunca conhecerei?

886
o gato com o cio
trepa para o cão
– a coisa é séria!

888
Nara tem sete edifícios
mas oito pétalas
tem cada flor de cerejeira

939
os nossos corações estão em paz
na pequena sala de chá 
o outono ronda lá fora

943
em minha casa
junto à janela 
quadrada é a lua

951
quem olhará a lua de Yoshino
esta noite
a vinte quilómetros daqui

963
junto com o outono que parte
o vento dos pinheiros
dá uma volta pelos beirais

974
a doença atacou o viajante
sonhos vagueiam
por campos secos
[este haiku foi escrito por Bashô três dias antes de morrer e é considerado o seu último poema. A imagem que me imediatamente me evoca é o Campo de Trigo com Corvos do Van Gogh, se não me engano também o último quadro que ele pintou, semanas antes de morrer.]

Voltei de férias há pouco e nunca Lisboa me pareceu tão artificial e despojada de alma. Maçam-me o betão, o ruído contínuo, ressaco árvores e vento. Talvez por isso  a leitura de Bashô me tenha agradado tanto. Quisera encontrar outro tempo, outra vida – um pouco mais de azul… Um pouco como nas estrofes iniciais do poema do Verlaine que me ocorrem transformar num haiku (aldrabado pois claro, pois estou-me a borrifar para a contagem de sílabas):

chove no meu coração
como chove na cidade
 – que langor tão escuro!