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Aos meus amantes



Isto não é poesia.
São fragmentos de pele,
Suor, lágrimas,
Vómito, pelos púbicos.
Saliva e merda
Muita merda.
São beijos também,
Flirts com a minha verdade
Que é múltipla,
Resistente e selvagem.
São corpos histéricos
Em busca de uma luz que liga
De um corte que toque a ferida.
São gritos desvairados
Umas vezes doces
Outras tristes.
Sem beleza poética.
E afinal das contas, tudo isto para quê?
Para muito pouco. Ou nada.
Um registo da luta diária
Que vou travando contra mim.
São então
Palavras
De mim
Para mim
Contra mim.
E tudo tão pouco.
Sempre aquém.
Hoje acordei e tinha a verdade
Espalhada por todo o corpo:
Uma aspereza na mão
Uma liquidez na face
Doce.
Não a esperava tão doce,
Tão calmante.
Para dizer a verdade,
Não esperava a verdade.
Embora toda a minha estória
Seja a tensão dessa procura.
Com muito sono
Por intermédio
Pois as horas maçam-me
E é sempre preciso derrotar-me um pouco.
Nunca amei. Não amo.
Às vezes tenho acessos de sede
E saio pelas ruas
Nua e sedenta.
Volto tarde com uma presa nos dentes.
Luto com ela na minha insaciedade.
Até que a sede vença de novo
E seja preciso voltar a navegar.
O meu nome é Eva
Nasci da terra vermelha
Dos homens e dos deuses
Criada como indigna e impura
Hoje corro as cidades
Comandada pela raiva e pela humilhação.
Há também uma vontade de vingança
(Não fosse a vingança feminina,
Ninguém a executa melhor do que uma
Fêmea enganada.
E a mim enganaram-me
E não me sabia mulher
Até ter sido enganada.)
Quando tenho medo,
Muito medo,
Fico quieta,
Quente e dócil
Fundo-me com a natureza dos cobertores
Numa vontade de aniquilação
De camuflagem.
Há algo de animal no meu corpo
De fera ferida,
Algo que vocifera,
Ruge,
Rosna,
Ronrona
E se dobra
Perante um predador mais desesperado.
Um desejo de crueldade
De violação.
Fui excluída da festa dos senhores
Relegada aos trabalhos domésticos
(Não sou uma mulher
Quando galgo as estradas,
Mas quando as coisas correm mal,
Torno-me mulher,
Injuriada como todas,
E culpo a condição.)
Um grito nas traseiras da casa
Que um dia será o grito da revolução
A minha forma de assassinar os senhores
É mastigar as suas carnes com o ventre,
Deitada por debaixo deles,
Alargada nos meus buracos de raiva.
E ressentimento.
Obrigada ao silêncio
Ou ao gemido de prazer.
Vergada pela reprovação,
Acusada da insegurança dos homens.
E dos deuses,
Já agora.
Também os deuses não sabem o que fazer com uma mulher.
O enigma da criação é o eterno feminino.
E para quando o meu banquete?
Para quando???
Eu quero sair
Beber o vinho da camaradagem
Descansar o corpo em redes sonolentas
Respirar
Olhar sem ver
Não estar em guerra
Mas não estar sozinha.
Quero tréguas:
Paz com os homens
E os deuses.
Corpo de cera,
Cabelo de boneca,
Porte de rainha,
A natureza não me deu nada disso.
Coube-me apenas um par de olhos,
Belos, fatais
E profundos, fundos.
Mas na mulher,
Já dizia Nietzsche,
São outros buracos que se querem profundos.
Abaixo do ventre.
Nunca os olhos.
Nem a boca.
E por isso,
(e por tudo o resto
- ou por nada)
Me revolto.
(E pode bem ser
Que me revolte apenas para melhor saborear a submissão).
Mas isso é cá comigo.



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the boys i mean are not refined


the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance


e.e. cummings



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Canibalismo emocional


Os corpos andam loucos e suados,
Ansiando por prazeres de lonjura
Cruzam-se pelas ruas, esquinas, becos,
Tocam-se na guerra e no amor
Onde vale tudo e a vida vale tão pouco
Guerreiam-se, enfrentam-se, digladiam-se
Em nome de umas tréguas que esqueceram.
Não conseguem dormir, os corpos,
Andam pela cidade deserta, insones,
Vazios pela sede,
Por uma fome imemorial.
De manhã, os corpos vão cansados para a cama
Morrer um pouco.
Têm urgência em desnascer.
Depois de tanto se darem ao manifesto.



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NADA


Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, um amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão"



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Tu e Eu


Eras tu.
Eras tu quando passávamos as tardes no meu quarto abafado no Bairro Alto,
Nus e completos.
Eras tu quando ríamos juntos
E ninguém nos podia derrotar na nossa alegria.
Eras tu naquele dia em que fomos ao cinema
E fomos belos e fortes.
Perfeitos.
Um para o outro.
Companheiros.
Amantes.

Mas também não eras tu.
Não eras tu quando ficavas os dias inteiros em casa,
Amarrotado e sujo,
Espalhando derrota pelas paredes.
Não eras tu quando espumavas raiva
Contra todos os condutores do mundo,
Tentando expiar uma ofensa antiga
Talvez imemorial.
Não eras tu então
E, dentro de mim,
Algo te estranhava e odiava.

Eras tu quando acordavas e me tocavas o rosto.
Não eras tu quando não rias comigo.
Eras tu quando movias mundos só para me ver.
Não eras tu quando me gritavas o quanto me odiavas
E quão má eu tinha sido para ti.
Eras tu quando me olhavas numa ternura canina.
Não eras tu quando me deixavas adormecer sozinha e fria.
Eras tu quando me fazias sentir mulher na certeza de um abraço.
Não eras tu sempre que bebias demasiado.
Eras tu quando me ias buscar ao trabalho e levavas flores.
Não eras tu quando me traías.
Eras tu quando podia ser eu contigo.
E correr livre com o teu cheiro a seguir-me,
Não eras tu quando não podia ser eu.

Eras tu.
Meu pai, meu irmão, meu amigo,
Meu amante.
Não eras tu.
Meu adversário.
Não eras pão, madrugada e sono.
No meio disto tudo,
Deixei de saber quem eras.
E nesta intermitência nos perdemos.
E deixaste de ser tu.



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Baforadas Nocturnas


Ás vezes,
Quando a alegria é tanta que ameaça partir o peito
em estilhaços,
ou quando o pensamento se torna velozmente irracional
e ameaça desapegar-se
do corpo que o pensa e sofre,
tenho vertigens.
Medo de deixar o corpo para trás.
Como um resto.
A esbracejar furiosamente.
Sobrando.



Há ratos em New York



Há ratos em Nova Iorque.


As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.


A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.


Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.


Lavrando no escuro à espera da desistência humana. Roendo arranha-céus, senhores do subterrâneo e dos asfaltos sujos.


Não se deixam tocar, são arredios, escapam pelas sombras, mas tenho carinho por eles.


Chamo a todos Pet e não reúno paciência nem esforços para os liquidar.


Quando os olho, fico fascinada e sei que a cidade será um dia deles.


Sei que se alimentam indiferentes dos restos dos nossos consumos e que sabem que também nós, um dia, nos havemos de consumir.


Os ratos não têm pena dos humanos mas não nos desafiam. Não querem comungar da nossa desgraça. Não querem conviver connosco, sabem que somos astros breves e que nos havemos de extinguir.

Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.



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Outono Transfigurado


Estranhos são os caminhos outonais que fazem regressar os corpos à procissão dos dias.

Outubro, mês de véus e mistérios.


Há um corpo aquecido pela celebração estival que regressa em passos silenciosos pela floresta opaca. Um corpo anónimo, forasteiro, com um rosto de prata oferecido sem pudor ao vento frio que o acompanha. Nos bolsos, esconde as mãos ainda ardidas pela recordação do amor, esse astro grave.

As aves levantam voo das suas moradas lunares á sua passagem. Temem que traga presságios malignos. Não podemos censurar as aves – não conhecem o silêncio de um coração humano em paz.


O verde nocturno abre-se e eis a cidade de pedra e as luzes eléctricas que a alumiam fracamente. Os passos tornam-se hesitantes: recordam as dores fundas que fundaram o ser.

No centro da cidade há uma praça. Nela uma estátua de olhos fechados com o dedo indicador nos lábios, convida ao silêncio os viajantes tardios. O corpo passa sem a olhar, apressado por escapar á ordem do esquecimento. Aperta mais as mãos dentro dos bolsos, não quer deixar escapar a liquidez que o acompanha.


Vagueia pela noite eléctrica, pisando as folhas amarelecidas nos passeios públicos, enquanto recicla a vontade de amar. Antes do dia nascer, entra numa igreja, concentra-se no som dos seus tacões a ecoar pelas paredes seculares e recorda o mistério do sagrado.

Quando sai, o sol forte já transformou a cidade de pedra numa cidade viva. As ruas estão apinhadas de pessoas, cheias de vendedores de vegetais, frutas e peixe. Os carros e as motas buzinam de alegria. O corpo perde o anonimato e transforma-se num rosto feliz por ter vencido a noite inumana.


Para celebrar o seu regresso, decide comprar castanhas assadas na próxima esquina. Observa o rosto fuliginoso da vendedora idosa e as suas mãos gigantes. Depois vai avenida abaixo, saboreando as castanhas solenemente. Quando termina, as suas mãos regressam aos bolsos do sobretudo. Contentes, apaziguadas e ainda quentes.

Acerca de mim

A minha fotografia
Patrícia Guerreiro Nunes
FLAUBERT Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível. Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se? Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador. Oh, meu bom senhor, que pena. Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004
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