sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CORAZÓN DE ALGODÓN



«No te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del linguaje mismo del cariño y la confianza – y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero outra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso outro también es vos, lo sé, pero no es todo y demás no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mesmo. El poder poético es tuyo, lo sabes, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tempos en que esse poder era el antagonista frente a la vida, y está el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siqueira esse privilegio imperial, queridíssima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuleve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonês: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.» (Julio Cortázar).


Qué haré con el miedo?
Que faremos com o medo, querida Alejandra?

Penso em ti, penso em nós, quando me reclino no sofá, estrangulada pelas horas indomadas. Afasto a gata e encosto a mão ao meu sexo, sinto-o pulsar. E sei que ainda pertenço à vida.

Porque é que não partimos com os pássaros, ainda que em voos rasantes? Porque insistimos nas palavras que comandam a noite e mancham a esperança alva? Também no meu peito se fossilizou a desespero mas a literatura não pode servir apenas para perder a inocência, pode também ensinar-nos a suspender a descrença como Coleridge nos ensinou. Pretendamos que assim seja.

Assim, como Gilgamesh: esquece a morte e segue-me.

Ou assim: mi corazón abre la ventana, vida aqui estoy.
Olvidemos a morte e as suas estranhas mãos e pensemos nesse verão longínquo, em que confundimos o céu com o nosso amor fervente, súplice de marés e faróis.

Noche que te vas, buenas noches.

Não negues a mania de viver que te arrasta, Alejandra, ainda que escolhas apelidá-la de lúgubre. Lá fora está sol, não te vistas de cinzas. A última inocência não é o apeadeiro final, podemos ainda ingressar na «escola da ingenuidade» e usar a imaginação poética para nos salvarmos.

sábado, 29 de novembro de 2014

Céu estrelado em noite escura

Oferecem-me bilhete para o Mexefest e declino para ficar em casa enrolada na Poesía Completa de Alejandra Pizarnik. É resignação ou maturidade?

CIELO

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas

lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos

domingo, 23 de novembro de 2014

e a noite roda


Passei os últimas noites de chuva entretida com a leitura de e a noite roda de alexandra lucas coelho. Foi uma leitura light, sem deslumbramentos maiores, que compensou sobretudo pelo tom delicado, a evocação de lugares distantes e por esse grande amor à literatura como forma de viagem. A história de amor narrada apoia-se em várias referências bibliográficas e os encontros carnais dos amantes compõem as partes mais bem conseguidas do livro.

"Mesmo no inverno, a pele do teu corpo é morena. Continuas a cheirar a sabonete, macio e a cheirar a sabonete, com um sexo grande e macio e a cheirar a sabonete, mesmo quando tenho a cara entre as tuas pernas, e a cabeça do teu sexo pulsa para a frente. O teu esperma é leve, só ligeiramente acre. A tua cara aparece e desaparece. Nem sempre nos vemos, talvez nem sempre tenhamos nome. Às vezes és só um quadril com sexo, pelos de um louro escuro por cima. Ou uma boca no meu sexo, caracóis grisalhos entre os meus dedos. Uma boca, uma língua, dentes na minha boca, na minha língua, dentes contra dentes. Uma mão no meu pescoço, dobrando-me para trás, para a frente. Uma mão que me agarra pelo cabelo com a um bicho. Duas mãos que me puxam para um corpo por trás do meu. E não sei quem sou nem quem és. Depois volto-me na cama, abro os olhos, a tua cara está lá no alto, entre os meus tornozelos, afogueada. Encostas o tronco às minhas pernas, o teu sexo entra de um golpe, eu rodo e rodo com ele dentro, mas os nossos olhos estão fixos, cada vez mais desesperados, como se tudo o que o corpo faz para chegar perto nunca chegasse."

"Noite num mosteiro, antes de descer à costa. Tacteio com todas as minhas extremidades e a matéria conflui desde o seu núcleo. Não tens a pele dura dos circuncidados. A cabeça do teu sexo nasce só para isto, cega e sensível a cada vez. Sento-me nela, afundo, desapareço. Sou o cimo onde tu bates, e bates, até à dissolução. Pequena morte, sim, porque a morte há de ser o fora da história, ausência de bagagem e de cronologia. Noite branca."

Além disso, dois versos no seu interior, decidem a minha próxima viagem: Alejandra Pizarnik.

Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Hilda, meu amor



OBSCÉNICA - TEXTOS ERÓTICOS & GROTESCOS
LANÇAMENTO A 27 NOVEMBRO | PENSÃO AMOR | 19H

O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres. Uma delas, trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí é texto dela) e depois Lucrécio.

domingo, 16 de novembro de 2014

Crónicas do Fel de Amor


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:

         “No meio do caminho em nossa vida,
              eu me encontrei por uma selva escura
     porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
     esta selva selvagem, aspra e forte,
     que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
     mas, por tratar do bem que eu nela achei,
     direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
     tão grande era o meu sono no momento
     em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As dioptrias de Elisa


Seis horas e Filipe ia ter com Elisa a casa dela. Filipe apareceu de rompante na rua e foi logo ter com ela a casa. Elisa não estava à janela, estava dentro de casa e Filipe bateu à porta da casa dela. Elisa abriu. Filipe entrou. Elisa à porta apaixonou-se logo por Filipe, o rapaz belo, e deram um grande beijo na boca. Filipe era a primeira vez que tinha assim uma mulher nos seus braços. Deixaram-se os dois e Elisa disse - «Como é que você sabia que eu era uma mulher assim, que o nosso caso viria dar nisto?» Filipe calou-se e não disse nada. Ainda disse - «Eu supunha por si Elisa que você me havia de aceitar quando me viu na rua domingo quando ia para o jardim com o seu marido e os seus filhos.» E depois ainda lhe perguntou - «Porque é que você gosta de mim?» Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu -«Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.» - «Estou também apaixonado por si Elisa», disse Filipe. Elisa queria ter já a relação do coito, dos três coitos que haviam de ter até domingo às seis horas da manhã. Combinaram-se para a cama.
Elisa punha-se agora em combinação preta, sem calças por baixo. Queria a relação em combinação, a primeira relação, havia de ser pôr nua quando quisesse e fosse altura. Os olhos de Filipe perdiam-se de vista, dilatavam-se enormemente. Nunca tinha tido uma ocasião assim pois era a primeira vez que ia para a cama com uma mulher. Elisa puxava agora a baínha da combinação  preta para cima e mostrava-lhe a púbis. Filipe estava nu. Elisa já estava na cama. Chamou-o. Filipe deitou-se primeiro ao lado dela nu e depois subiu-lhe para cima. Em cima dela tirou-lhe a combinação. Estavam nus os dois.
Filipe introduziu-lhe o pénis. Elisa antes nua já tinha dado uma atenção ao pénis de Filipe muito grande. Nunca tinha visto um pénis tão grande a querer entrar em si na sua púbis. Elisa dizia-lhe agora - «Nunca vi um homem como você, o seu rabo pequeno e doce o seu sexo, estou perdida por si Filipe.» Filipe disse - «Você estua toda por mim, temos de ter a relação já.» Filipe introduziu-lhe outra vez o pénis feito, todo feito. Elisa queixou-se debaixo dele. Depois disse - «Ai, filho, querido, é tão bom.» Filipe já se masturbava já deitava a esperma toda fora dentro da vagina dela e cá fora. Tinha chegado ao momento. Filipe levantava-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa estava ainda nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tudo conspira

"Pois como tudo o que é pleno, o que torna toda a matéria ligada, e como no pleno todo o movimento faz algum efeito sobre os corpos distantes na medida da distância, de tal sorte que cada corpo é afectado não só pelos que o tocam, e se ressente de certa maneira de tudo o que lhes acontece, mas também por intermédio deles se ressente os que tocam os primeiros pelos quais é directamente tocado: segue-se que esta comunicação alcança seja a distância que seja. E, por conseguinte, todo o corpo se ressente de tudo o que se faz no universo, de tal modo que aquele, que vê tudo, poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte e até o que se fez ou se fará, observando no presente o que é remoto, tanto segundo os lugares; sympnoia panta, dizia Hipócrates. Mas uma alma não pode ler em si própria senão o que nela é distintamente representado, e não poderia desenvolver de uma vez só as suas dobras, porque estas vão até ao infinito."

Leibniz, Monadologia

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

não consigo sossegar e a menina Else não ajuda


"Acho que não me posso apaixonar. O que, por acaso. até é curioso. Porque eu sou sensível. Mas também animosa e desagradável, graças a Deus."

"Um pouco de carinho quando se está bonita, um pouco de atenção quando se tem febre, e mandam-nos para a escola, e em casa aprende-se piano e francês, e no Verão vamos para o campo e quando se faz anos recebe-se presentes e à mesa falam sobre tudo e mais alguma coisa. Mas o que se passa dentro de mim e o que dentro de mim se revolve e tem medo, já se preocuparam com isso?"

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

domingo, 7 de setembro de 2014

Mulherzinhas

Constatei recentemente que me comporto com os livros como uma mulherzinha. Um de cada vez, nada de promiscuidades.
A relação exclusiva intrigou-me. Nunca fiz da fidelidade estandarte e confesso, sem qualquer orgulho ou pudor, que atraiçoei várias ideias e amantes apenas pelo doloroso prazer de trair (quem precisar de instruções neste prazer, procure-os n’ A Insustentável Leveza do Ser e preste redobrada atenção à personagem Sabina).
Porquê então um só livro de cada vez à cabeceira? Por que razão quando um livro me aborrece jamais o troco temporariamente por outro? A este propósito recordo a leitura difícil d’A Educação Sentimental do Flaubert, uma leitura carregada de tédio, como convinha ao tema, que suportei estoicamente. No final, a teimosia foi recompensada e o livro tornou-se um dos meus favoritos. A monogamia é assim: às vezes compensa, outras não.
Iniciei Anna Karénina, ocupada por estes pensamentos. Embora desejasse consumar a leitura para poder ter um veredicto estético, a beatice do Tolstoi aborrecia-me profundamente. Além disso, noite após noite via gorada a minha expectativa de encontro com a Karénina, incapaz de lhe sentir a carne, propositadamente mantida à distância pelo pince-nez do narrador. Estavam portanto reunidas as condições ideais para que a putaria começasse.
E começaram assim que as reflexões agrárias de Lévin me arrefeceram. Ansiosa, corri novamente para os braços de Salinger, contente por encontrar em Franny e Zooey ar puro e um velho problema conhecido: como viver bem com uma inteligência cortante? Desta feita, ao contrário do que sucedeu com Hamlet e com toda uma galeria de personagens desfeitos pelo pensamento, voltei com uma resposta, que não o corriqueiro binómio anestesia/entretenimento.
Depois do breve affair com a família mais interessante do mundo, a família Glass, regressei às famílias singularmente infelizes de Tolstoi. A comparação entre os casais Anna-Vronski e Kiti-Lévin tornou-se evidente e conseguiu agarrar-me, sobretudo na parte em que os homens de ambas as parelhas se sentem sufocados com as suas ligações e as mulheres se exasperam pelo esfriamento. Embora adivinhasse que a intenção do omnipresente narrador era glorificar um amor mais espiritual e cristão face a um amor carnal, as suas brilhantes observações e a notável profundidade das personagens mantiveram o meu desejo morno até ao final da leitura.
Nabokov não podia estar mais certo quando escreveu que “muitos têm sentimentos opostos em relação a Tolstoi. Adoram o artista nele e aborrecem-se com o pregador; mas, de facto, é bastante difícil separar o Tolstoi pregador do Tolstoi artista – é a mesma voz profunda e vagarosa, o mesmo ombro robusto a levantar uma multidão de sonhos ou um monte de ideias. O que queríamos era tirar-lhe o púlpito de debaixo dos pés e depois trancá-lo numa gruta, numa ilha deserta, com litros de tinta e resmas de papel – longe das coisas éticas e pedagógicas que lhe distraem o olhar do modo como o negro caracol cai sobre o pescoço níveo de Anna.”
É o meu caso. Por essa ambivalência, é-me muito difícil concordar com o mesmo Nabokov, quando este afirma que “Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa” e exclui Dostoievski da lista. Já disse e repito que para mim Dostoievski é o maior escritor do mundo (reservo-me o direito de rever este julgamento assim que encontrar uma escrita superior). Tendo lido Ressureição, Anna Karénina, O Jogador, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov não entendo sequer as razões da comparação. Provavelmente, trata-se de um debate russo que se internacionalizou, semelhante ao absurdo duelo português Saramago vs. Lobo Antunes, que não tem ponta por onde se lhe pegue pois trata de dois autores tão distintos como a água do azeite.
Também a comparação habitual com a Madame Bovary me parece completamente despropositada, a não ser que se encaixe ambas como novelas sobre o adultério, o que seria estupidamente redutor. Embora muitos afirmem que a morte de Emma é um desfecho moral, eu nunca a senti assim. Para mim a sua morte é uma consequência das leituras românticas, não um castigo que o autor lhe inflige. Só assim se explica a tinta negra que Emma vomita na sua última agonia.

Em suma, as leituras são sempre idiossincráticas e cada um escolhe as que melhor lhe convêm. A mim o Tolstoi não me aquece verdadeiramente. Que atire a primeira pedra quem gosta de ir para a cama com moralistas.

domingo, 24 de agosto de 2014

Isaac Babel


Já me tinham recomendado os contos de Isaac Babel mais do que uma vez mas as vicissitudes da existência foram impedido a leitura até à semana passada.
A penetração no mundo de Babel foi lenta: o tom dos Contos de Odessa selecionados era caótico e a leitura não descolava. Por altura, dos contos do Exército da Cavalaria (também conhecidos por Cavalaria Vermelha), já o meu desejo bolinava mais estável, mas foi nos vários Contos Dispersos que a união se concretizou. Mais uma vez, talvez pela forte influência do narrador na primeira pessoa onde adivinho um pouco a personalidade pubescente do escritor. "História do meu primeiro pombal", "O despertar", "Os primeiros honorários" e Guy de Maupassant" agarraram-me com punho forte e decidido.

"Viver em Tiflis na primavera, ter vinte anos e não ser amado é uma coisa terrível. 
(...)
Só me restava ir à procura do amor. E, naturalmente, encontrei-o. Por sorte ou por azar, a mulher que escolhi era uma prostituta (...).
Ó deuses da minha juventude! Cinco dos meus vinte anos tinham sido gastos a inventar histórias, milhares de histórias que me atafulhavam o cérebro. Jaziam no meu coração como sapos numa pedra. Movida pela força da solidão, uma dessas histórias tinha caído na terra. Pelos vistos, o destino tinha decidido que uma prostituta de Tiflis iria ser a minha primeira leitora (...).
Tudo isto aconteceu há muitos anos. Desde essa altura tenho recebido frequentemente dinheiro de editores, de homens ilustres e de judeus que negoceiam em livros. Por vitórias que foram derrotas, por derrotas que se converteram em vitórias, pela vida e pela morte, pagaram-me preços irrisórios, muito inferiores àqueles que tinha recebido na minha juventude da minha primeira «leitora». Mas não sinto raiva por isso. Não a sinto porque sei que não hei de morrer sem voltar a arrancar outra moeda de ouro, e essa será a última, das mãos do amor."

Katherine Anne Porter, aka Miranda


Tenho uma nova heroína na minha lista de admirações: Katherine Anne Porter.
Desde o ano passado, altura em que a Antígona anunciou a publicação de "Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro", que aguardava com impaciência a chegada deste título às minhas mãos. A razão desta impaciência era apenas intuitivamente emocional, convocada pelo título poético, pois nada sabia desta autora.
Em Julho, fui de férias com o Cavalo Pálido e regressei a Lisboa rendida aos sortilégios da escrita de Porter. A qualidade dos três contos era igualmente excelente mas confesso que o que mais me cativou foi a personagem Miranda, eixo central de dois dos contos e afirmado alter ego da autora.
Em Agosto, tornei a partir de férias para o sobrelotado Algarve na companhia da Katherine Anne Porter, desta vez com a antologia "A Torre Inclinada e outros contos", da Relógio d'Água (já agora uma pequena anotação: "Judas em flor e outros contos" teria sido uma escolha de título mais feliz, na minha opinião). E mais uma vez, apesar da inegável qualidade dos vários contos, continuei a preferir os envoltos na respiração de Miranda. Não restam dúvidas que se trata de um alter ego de Katherine, pois doutro modo a sua autenticidade não se tatuaria na pele com uma tal violência poética.
Não me recordo quem disse (ou escreveu) que é possível amar mais personagens que certas pessoas. No caso, os livros de Katherine Anne Porter são do melhor que li este ano e Miranda tornou-se, com todos os seus desassombros, uma das pessoas que mais gosto.


«Miranda observava o irmão com um ar de admiração enquanto este se livrava da pele como se estivesse a tirar uma luva. A carne esfolada emergia, de um escarlate-escuro, lustroso, firme; entre o polegar e o indicador, Miranda sentiu os longos músculos finos com as tiras lisas e prateadas que os uniam às articulações. O irmão ergueu a barriga estranhamente inchada. "Olha", disse-lhe, numa voz baixa e maravilhada. "Ia ter bebés."
Com muito cuidado, ele rasgou a pele fina das costelas centrais até aos flancos, ao que um saco escarlate apareceu. Voltou a rasgar e abriu o saco, e aí estava uma ninhada de coelhos minúsculos, cada um envolvido num fino véu escarlate (...).
Miranda disse: "Oh, eu quero ver", num sussurro. Olhava e olhava - empolgada mas não assustada, pois estava habituada a ver animais mortos em caçadas -, cheia de pena, fascínio de uma espécie de encantamento chocado perante as criaturas maravilhosas e pequenas por si sós, que eram tão bonitas. Tocou numa delas com o maior dos cuidados: "Ah, há sangue a correr por cima deles", disse, e começou a tremer, sem saber porquê. Contudo, queria mais do que qualquer outra coisa ver e compreender. Tendo visto, sentiu de imediato que era como se sempre tivesse compreendido. A própria memória da sua ignorância anterior despareceu, ela sempre compreendera aquilo mesmo (...).
Miranda nunca o revelou, nem alguma vez teve vontade de contar a quem quer que fosse. Pensou em toda a questão preocupante com uma infelicidade confusa durante alguns dias. Depois o episódio foi-se afundando na sua mente, coberto por milhares de impressões acumuladas ao longo de quase vinte anos. Certo dia, ela estava a avançar com cuidado para não pisar poças e resíduos esmagados na rua de um mercado numa cidade desconhecida de um país desconhecido quando, sem aviso, nítido e claro com todas as cores, como se visse através de uma moldura uma cena em que não tivesse mexido nem feito alterações desde o momento em que acontecera, o episódio desse dia longínquo saltou de onde fora sepultado para se colocar em lugar de destaque na sua mente (...). Um vendedor índio tinha erguido à sua frente uma bandeja de doces açucarados tingidos, em formas de inúmeras criaturas pequenas: passarinhos, pintainhos, láparos, cordeiros, bacorinhos. Eram de cores alegres e cheiravam a baunilha, talvez...»

sábado, 23 de agosto de 2014

O AMOR É UMA FACA


SCRIPT
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE FILIPE FLORA REIS
LER DEVAGAR (LX FACTORY)
16 AGOSTO - 3 SETEMBRO

A série de fotografias de Filipe Flora Reis intitulada Script# convida-nos para uma sessão de BDSM. Chegamos munidos da habitual curiosidade voyeurista, como se o sexo dos outros pudesse conter um segredo desconhecido que o torna diferente e mais interessante que o nosso. E recordamos as palavras de Michel Foucault na sua magnífica História da Sexualidade: “Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la, em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo, em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer”. É precisamente neste tópico que o olhar fotográfico do autor nos surpreende. 
Um olhar frio, clínico, aparentemente sem misericórdia. Filipe Flora Reis não nos dá Imagens estereotipadas de poses agressivas, corpos supliciados e látex, semelhantes às que qualquer leigo terá na sua mente quando pensa em rituais de bondage e dominação sexual. Ele coloca-nos na ombreira de um local que tanto pode ser cenário de um crime como de outra coisa. Um local que nos parece vedado, onde nem a visão alcança a clareza. Os plásticos estão cuidadosamente dispostos. Uma vela alumia a mesa onde os instrumentos se alinham com matemática rectidão, apenas para sublinhar a escuridão do redor. Raras vezes vemos os corpos envolvidos. Apenas um relance fugidio de carnes tensas de expectativa, contidas por cordas. 
Aqui o nosso prazer de ver nunca se esclarece: estamos na ombreira daquilo com que é mais difícil estabelecer um acordo: o nosso próprio desejo. O essencial permanece invisível, intocável, fora de campo, numa relação emocional tensa com a frieza dos chicotes. Em Noite e Nevoeiro, Alain Resnais filmou o holocausto, anos depois do mesmo, conseguindo mostrar toda a desumanidade do acontecimento através dos carris da linha de comboio de Auschwitz, por exemplo. Filipe Reis faz o mesmo com esta cena BDSM, expondo o humano e a sua ânsia por um toque íntimo, sem mostrar os seus corpos. Saímos desta exposição com a nossa curiosidade satisfeita. O sexo dos outros é afinal igual ao nosso, todos almejando uma intimidade genuína por meios travessos e perversos, se quisermos recorrer aos adjectivos clínicos. 
É que se quisermos aproximar-nos do nosso desejo, teremos de admitir que o que esperamos do outro é que ele nos penetre bem fundo, com a perícia cortante de uma faca, para além de todas as máscaras e artimanhas com que nos fomos velando. E que essa faca revele que o nosso segredo é o desejo de uma comunhão das carnes, muito próxima do canibalismo. Esta é, portanto, uma exposição para veteranos sentimentais. Saímos de lá mais sós. Mais próximos do nosso desejo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Homens que escrevem são tesudos


"The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places."
Ernest Hemingway

sábado, 16 de agosto de 2014

Enamoramentos


«Sim, todos somos arremedos de pessoas que quase nunca chegámos a conhecer, de gente que não se aproximou ou passou ao largo na vida daqueles que amamos agora, ou que então se deteve mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto ou só a poeirada dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aquele que amamos causando-lhe uma ferida mortal que quase sempre acaba por fechar. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos juntos de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou que nos coube em sorte num jogo de cartas ou apanhámos nos desperdícios; inverosimilmente conseguimos convencer-nos dos nossos infelizes namoros, e são muitos os que julgam ver a mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o Verão já agoniza… Então apagava a luz da mesinha de cabeceira e passados uns segundos as árvores que o vento agitava tornavam-se-me um pouco visíveis e podia adormecer observando, ou porventura adivinhando, o baloiçar das suas folhas. «Que sentido tem isto», pensava eu. «O único sentido que isto tem é que qualquer vislumbre nos vale nestas tolas e invencíveis circunstâncias, qualquer ponta por onde pegar. Mais um dia a seu lado, mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber qualquer notícia, esperamos até alta noite para as considerarmos definitivamente desertas ou perdidas, não vá acontecer que à última hora toque o telefone e ele nos sussurre uma tolice que nos faça sentir injustificada euforia e que a vida é benigna e piedosa. Interpretamos cada inflexão da sua voz e cada insignificante palavra, que porém dotamos de estúpido e prometedor significado, e repetimo-la para nós. Apreciamos qualquer contacto, ainda que tenha sido apenas o estritamente necessário para receber uma desculpa tosca ou uma desfaçatez ou para ouvir uma mentira pouco ou nada elaborada. «Ao menos pensou em mim a dado momento», dizemos para connosco agradecidos, ou «Lembra-se de mim quando está aborrecido, ou se sofreu uma contrariedade com a pessoa que lhe interessa, que é a Luísa, talvez eu esteja em segundo lugar e isso já é alguma coisa» (…). Não nos dá cuidado rebaixar-nos diante de nós mesmos, no fim de contas ninguém nos vai julgar nem há testemunhas. Quando a teia da aranha nos apanha fantasiamos sem limites, e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o facto de estar ainda no nosso horizonte e não ter desaparecido de todo, com o de ainda não se ver ao longe a poeirada dos seus pés fugindo.»

(…)


A rectificação dos sentimentos é lenta, desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo – e adquire-se também o de o desejar – e não se sabe renunciar a isso da noite para o dia, ou durante meses e anos, tão longa pode ser a sua aderência.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Um livro precioso


Quase sem aviso, ela mergulhou nas trevas, de mão dada com ele, num sono que não era sono, antes uma luz límpida e crepuscular num pequeno bosque verde, um bosque perigoso e irado cheio de vozes inumanas e ocultas que cantavam, esganiçadas, como o sibilar de flechas, e viu Adam trespassado por uma revoada destas flechas cantantes que o atingiam no coração e passaram, estridentes, a rasgarem o seu caminho através das folhas. Adam tombou para trás diante dos olhos dela, mas logo se tornou a erguer, ileso e vivo; uma outra revoada de flechas disparada pelo arco invisível tornou a atingi-lo, e ele caiu,e, contudo, ei-lo logo diante dela, ileso, numa perpétua morte e ressurreição. Ela lançou-se para a frente dele, cheia de fúria e de egoísmo interpôs-se entre ele e a trajectória da flecha, gritando: Não, não – dir-se-ia uma criança enganada numa brincadeira –, agora é a minha vez, porque é que tens de ser sempre tu a morrer? e as flechas trespassaram-lhe o coração de lado a lado e trespassaram também o corpo dele, e ele caiu morto, e ela sobreviveu, e o bosque assobiava e cantava e bramia, cada ramo, cada folha, cada haste de erva tinha a sua própria voz acusadora. Ela desatou a correr então, e Adam agarrou-a no meio do quarto, em plena corrida, e disse-lhe: – Querida, devo ter adormecido também. O que é que aconteceu para dares gritos tão horríveis?


Depois de ele a ajudar a instalar-se de novo na cama, ela sentou-se com os joelhos flectidos sob o queixo, de cabeça apoiada nos braços cruzados, e começou a procurar cuidadosamente as palavras, porque era importante explicar as coisas com muita clareza. – Foi um sonho muito esquisito, não sei porque é que acabou por me assustar assim. Havia qualquer coisa relacionada com um voto de amor antiquado. Eram dois corações gravados na casca de uma árvore, trespassados pela mesma flecha… sabes como é, Adam…

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Da bibliomania


" - 1800??? São muitos! O que fazes com tantos?
  - Ora, levo-os para a cama e leio-os."

domingo, 27 de julho de 2014

Anna Karénina


Anna Arkádievna lia e compreendia, mas era-lhe desagrável ler, isto é, seguir o reflexo da vida de outras pessoas. Queria demasiado viver ela própria. Se lia sobre a heroína do romance que cuidava de um doente, queria caminhar em passos silenciosos pelo quarto do doente; se lia que um membro do Parlamento fazia um discurso, queria ela mesma proferir esse discurso; se lia que Lady Mary cavalgava atrás da matilha e provocava a sua cunhada e surpreendia toda a gente com a sua coragem, queria ela própria fazer o mesmo. Mas não havia nada a fazer, e por isso, manuseando a faca lisa com as suas pequenas mãos, ela forçava-se a ler.
(...)
Reviu todas as suas recordações de Moscovo. Todas elas eram boas, agradáveis. Recordou o baile, recordou Vronsky e o seu rosto apaixonado e submisso, recordou todas as suas relações com ele: não havia nada de vergonhoso. Mas ao mesmo tempo, precisamente nesse ponto das suas recordações, o sentimento de vergonha intensificou-se, como se aqui, ao recordar Vronski, alguma voz interior lhe dissesse: «Quente, muito quente, a escaldar.»
(...)
E o filho, tal como o marido, produziu em Anna um sentimento parecido com a decepção. Imaginava-o melhor do que ele era na verdade. Tinha de descer à realidade para apreciá-lo tal como era.
(...) «Nada disto é novo; mas porque é que eu não reparei antes? - disse Anna para si mesma."


"Estava frente a frente perante a vida, perante a possibilidade de que a sua mulher amasse outro além dele, e era isso que lhe parecia confuso e incompreensível, porque esta era a própria vida. Aleksei Aleksándrovitch sempre vivera e trabalhara na esfera das suas obrigações oficiais, que tratavam dos reflexos da vida. E sempre que se defrontava com a própria vida, desviava-se dela. Agora experimentava um sentimento semelhante ao de um homem que, caminhando tranquilamente por uma ponte sobre um abismo, visse de repente que essa ponte se abatia e que lá em baixo havia um sorvedouro. Esse sorvedouro era a própria vida, e a ponte era a vida artificial que Aleksei Aleksándrovitch tinha vivido. Pela primeira vez ocorreram-lhe perguntas sobre a possibilidade de a sua mulher se apaixonar por alguém, e isso deixou horrorizado.
(...)
Pela primeira vez imaginou vivamente a vida pessoal dela, os seus pensamentos, os seus desejos, e a ideia de que ela podia e devia ter a sua vida particular pareceu-lhe tão assustadora que se apressou a afastá-la. Esse era o sorvedouro para onde ele tinha horror de olhar. Colocar-se em pensamento e em sentimento no lugar de outro ser era um acto mental estranho a Aleksei Aleksándrovitch. Achava esse acto mental uma fantasia nociva e perigosa."

«É preciso ter cuidado quando os ditos homens sábios se aproximam a coxear.»


Nos últimos anos, houve um filme que me tocou particularmente: Oslo, 31 de Agosto, uma adaptação cinematográfica do livro Feu Follet de Pierre Drieu la Rochelle, já adaptado à sétima arte por Louis Malle. O protagonista, um toxicodependente em reabilitação, tem permissão para ausentar da clínica por 24 horas e aproveita esse tempo para visitar velhos amigos e ir a uma entrevista de emprego. Por todo o lado encontra apenas desesperança e vemos que ele não tem a mínima hipótese de se safar do vazio existencial que o domina. A cena da entrevista de emprego é particularmente esclarecedora. A certo ponto, Anders exaspera-se com o entrevistador e, ao mesmo tempo que mostra a sua inteligência aguda, demonstra-nos como esta é impossível sem uma anestesia qualquer.

 Franny é mais uma personagem a braços com o mesmo dilema que martiriza Anders e, antes dele, Hamlet: que fazer quando o pensamento corrói toda a capacidade de acção, quando a conhecimento impede qualquer possibilidade de comprometimento? A inteligência superior de Franny resume-se a uma faca crítica que tudo mina e ela não sabe o que fazer. Em tudo e todos, percepciona narcisismo, hipocrisia e mediocridade e envergonha-se da sua perspicácia sentindo-a como uma deslealdade e culpando-se por isso.

Quando lhes serviram as bebidas, dez ou quinze minutos antes, Lane tinha provado a dele e depois recostara-se na cadeira olhando de fugida à volta com uma sensação quase palpável de bem-estar por se encontrar (tinha a certeza que ninguém poderia por isso em causa) no lugar adequado com uma rapariga de aspecto impecavelmente adequado – uma rapariga que não só era extraordinariamente bonita, como, mais ainda, não era demasiado categoricamente camisola de caxemira e saia de flanela. Franny notara essa pequena exposição momentânea e atribuíra-lhe o valor que tinha, nem mais nem menos. Mas por força de um qualquer acordo antigo e permanente com a sua psique, resolveu sentir-se culpada por tê-la visto, apreendido, e condenou-se a ouvir a conversa subsequente de Lane com uma cara de particular interesse.

Comecei a ler Franny e Zooey em Fevereiro de 2012. Eu própria atravessava então uma grande noite e a tão prezada modalidade da leitura identificatória revelou-se intolerável. O colapso nervoso de Franny fazia demasiada pele e, em certas alturas, precisa-se de janelas, não de espelhos. Também Franny não tolera o espelho que o irmão lhe oferece, quando se entrincheira no sofá da casa da família Glass, rezando sem parar: “Jesus Cristo Nosso Senhor, tende piedade de nós”.

Fundamentalmente porque estou farto de acordar furioso todas as manhãs e adormecer furioso todas as noites. O que, em si mesmo não me preocupa demasiado. Pelo menos quando faço um juízo de valor sobre alguém faço-o directamente a partir do cólon, e sei que hei-de pagar brutalmente por qualquer avaliação que emita, mais tarde ou mais cedo, deste ou daquele modo. Não é que isso me preocupe muito. Mas há uma coisa, Deus meu, há uma coisa que faço ao moral das pessoas, uma coisa que não aguento ver durante muito mais tempo. Posso explicar-te exactamente o que é. Faço com que toda a gente tenha a impressão de que não deseja na verdade realizar um bom trabalho, mas conformar-se com a realização de um trabalho que seja considerado bom por todos aqueles que se conhece (...). Estou farto de ser o vilão de toda a gente (...). Sinto-me como aqueles filhos da mãe sinistros contra os quais advertia o amado Chuang-tzu de Seymour: «É preciso ter cuidado quando os ditos homens sábios se aproximam a coxear.»

A pergunta essencial acaba por ser formulada por Bessie Glass, mãe de ambos: Não sei de que vos serve saber tanto e ser tão espertos se isso não vos traz felicidade. Uma questão que atravessa a nossa cultura, onde felicidade é sinónimo de alienação e os mais lúcidos são os que saem mais moídos do confronto com a vida e o mundo, não lhes restando muitas hipóteses para além do alistamento na horda dos boémios, dos toxicodependentes, dos fracassados e deprimidos.

Através de Franny e Zooey, Salinger consegue encontrar uma brecha neste beco aparentemente sem saída. O problema não é a inteligência, pelo contrário, sem inteligência ninguém pode atingir uma vida conscientemente feliz. A inteligência só se torna um entrave à infelicidade quando se converte numa lucidez cortante, por via de uma inocência indisposta a abdicar das suas expectativas numa pureza absoluta. Tal inocência divorcia-se do mundo, porque este não lhe corresponde, converte tudo em detrito e faz da sua ferida trincheira.

O que quero dizer é que não só desprezas o que representam, como as desprezas a elas. É demasiado pessoal, Franny (…) Se vais declarar guerra ao Sistema, dispara como uma rapariga simpática e inteligente, porque o inimigo existe e não porque detestas o penteado ou a gravata de alguém.

Entregue a si, a inteligência torna-se num erro lógico, potência de destruição sem qualquer reverso de criação. Só a empatia pode salvá-la de si mesma: Como um coxo para outro, Zooey, sejamos delicados e bondosos uns para os outros.

sábado, 5 de julho de 2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

para j.d., com amor e sordidez



Sexta-feira e sábado são dias de uma felicidade mansa e terna, pelo simples facto de ter um novo suplemento cultural para ler. A breve visita ao quiosque alegra a rotina matinal e de jornal colado ao peito, sigo mais acompanhada para o trabalho ou casa.
Como todas as pequenas euforias, julgava-me única no seu gozo. Até que um dia viajei para Madrid, juntamente com um livro de Juan José Millás, e conheci a mãe de uma amiga que ficou encantada por hospedar uma portuguesa que lia o referido escritor. Falou um pouco da obra e vida dele e disse-me que ele publicava uma crónica regular num jornal espanhol (à quarta-feira se a memória não me engana) e que nesse dia acordava sempre muito feliz. “Porque me lembro que é dia da crónica do Millás”, completou com um sorriso largo de criança travessa.
Percebi então que a minha alegria semanal faz parte de um fenómeno mais amplo e partilhado por muitos seres humanos, a saber, a esperança de que a literatura venha de algum modo colmatar a pobreza da realidade. Mas a verdade é que, à excepção das crónicas do Pedro Mexia, encontro nestes suplementos cada vez menos artigos deliciosos de ler. Apesar deste facto algo incómodo, na semana seguinte a expectativa encontra-se novamente renovada e contente. Não há nada a fazer, sou uma tipa optimista e persistente.
E às vezes, acontecem milagres. A última iluminação veio de uma recensão crítica ao livro recentemente publicado de J.D. Salinger, Nove Histórias. Da autoria de Gonçalo Mira, o parágrafo final, que citarei adiante, atafulhado em punchlines, diagnosticava aquilo que eu busco na próxima leitura, com uma precisão tal que mais parecia uma doença compendiada pelo DSM. Nove Histórias é um daqueles livros dos quais não se sai como se entrou. Pode sair-se mais feliz ou mais triste, dependendo da forma como se vive a leitura, mas nunca indiferente. É um daqueles livros de contos que envergonham muitos bons romances. É um daqueles livros que obrigam um leitor que gosta de sublinhar passagens e de guardar citações a ter um lápis sempre à mão. É um daqueles livros a que se regressa depois de termos lido vários livros “apenas” muito bons, em busca do conforto do deslumbramento.
Para que conste, raramente compro livros influenciada por estas críticas. E tinha um medo que me pelava do Salinger. Comecei a ler o À espera no centeio mas achei melhor não ir mais adiante (já disse que acredito em serial killer texts) e também interrompi prematuramente a leitura de Franny and Zooey, porque na altura andava com os nervos em franja e o mimetismo com Franny parecia um prenúncio terrível. No entanto, a míngua literária dos últimos tempos obrigava-me a arriscar.
Li as nove histórias. E encontrei nelas o génio e o deslumbramento que a crítica antecipara. Sempre em doses comedidas, jamais exuberante. Salinger não é um atirador furtivo, as palavras que usa para descrever uma situação ou personagem são eleitas com parcimónia, como quem caminha por um campo minado. Nunca falha o alvo. É capaz de dar a uma personagem carne e osso com uma única frase. Como por exemplo: “Com poucas ou nenhumas aptidões para ficar só numa sala, Mary Jane levantou-se e foi à janela”.
Nestas histórias, ninguém está a salvo. Dos nove contos, só um não envolve uma criança ou adolescente. A realidade fustiga os pés de todos, crescidos ou não, com os seus cruéis alçapões. Os diálogos balbuciantes dos adultos contrastam com a fluência verbal sofisticada dos génios pubescentes que Salinger retrata com um invulgar desembaraço. Uma delas pede a um soldado americano para escrever um conto exclusivamente para si. Diz-lhe que é uma leitora voraz e que prefere contos sobre sordidez.
Os adultos conversam menos. Não voltaram da guerra com as faculdades intactas e a sordidez deixou de ser uma curiosidade excêntrica para se tornar mortalha diária. “Lembras-te do nosso ano de caloiras, quando eu pus aquele vestido castanho e amarelo que tinha comprado em Boise e a Miriam Ball me disse que já ninguém usava aquele tipo de vestidos em Nova Iorque, e eu chorei a noite inteira? – Eloise abanava os braços de Mary Jane. – Eu era boa rapariga – rogou ela -, não era?”
E pronto, é isto que se pede a um livro. Que acerte com toda a calma e força nas zonas que os outros deixaram intactas. Punchlines não tenho. A não ser que dá vontade de matar para se escrever assim.

domingo, 22 de junho de 2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um desvario


"Mas não é esse o caso e afinal o que se passa é que um longo processo de desvario sentimental me tornou incapaz de um amor verdadeiro e pleno."

"Não se apercebeu, nem um único momento se apercebeu, de que talvez o seu delírio não pudesse ter sido compartilhado. Fundir-se com um outro ser numa comunhão de sentimentos, também é amor, é óbvio, mas num certo grau de paixão o amor torna-se num egoísmo tão cego que já não tem sequer uma única fibra sensível ao mundo que o rodeia, mesmo que esse mundo seja o doutro ser, do ser amado, tão cego que uma dissonância perturbadora não é perceptível simplesmente porque não é captada ou não é sentida. A paixão amorosa é como a última, a a extrema solidão."

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Revolução



Troquei a turba do Carmo com os seus cravos nostálgicos pelo meu sofá vermelho, a companhia felina e um filme que enigmaticamente o meu computador começou a reproduzir, Rebel without a cause. Encontro-me sempre nestas noites de insónia branca, bolinando confortável pelo rumor manso da vida, rainha de uma solidão viva e pensante.

"E a liberdade? Que pergunta! Não vossa, a pergunta, mas minha. Que a minha liberdade sou eu, e custo-me a sustentar. Entretanto, chegam-me notícias de que é necessário sustentar a liberdade alheia. Mas que faz o alheio, que não faz pelo seu próprio sustento?" (Herberto Hélder).

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Corpo-a-corpo

Vai somatizar.
E somatiza:
A grande ruptura acontece nessa rua desgarrada em que o corpo caminha como quem marcha. Sem qualquer aviso prévio, a rugosidade de uma parede diz-lhe que está indefeso perante a morte e todos os trabalhos que a precedem. E assim, de súbito, o corpo perde afectos e deveres, rachado ao meio por um golpe de asa negra.
O seu primeiro impulso é procurar o nome da rua. Mas o medo infiltrou-se no sangue sem piedade. E a cabeça sempre foi frágil.
Há um crime imemorial que ainda não foi lavado e o teu corpo é chamado a depor. Todos têm de prestar contas. É por isso que todos os meses as mulheres sangram.
O corpo não possui mais um eixo ao abrigo da suspeita. Todos os seus movimentos toscos para recuperar o equilíbrio são vãos. A verticalidade tornou-se uma impossibilidade. A paisagem urbana surge desfigurada. Os edifícios são de papel cartonado e nunca te tinhas apercebido disso. Nos rostos que te cruzam não decifras mais qualquer vestígio da comunidade humana. A humanidade é uma ideia putrefacta que o teu olfacto ignorou nas décadas de aprendizagem. Venderam-te tantas ideias sem corpo e agora tudo vacila. Pareces um navio em alto-mar, fustigado pela tempestade.
Estás sozinho. Metes as mãos nos bolsos em busca de conforto – não esqueces jamais os hábitos que te impuseram aos membros. Mas tens os órgãos estilhaçados e a carne traumatizada pelo pensamento que te acidentou. Um vulto de plumas que assombra os bastidores da mente. Insinua-se e foge. Deixa um rasto de pássaros embalsamados.
O sabor a ferrugem na boca fendida. Roldanas de aço roendo os maxilares, numa pressão metálica que ameaça triturar o corpo a partir do queixo. Anos a confiar neste pedaço de carne e agora ele desconjunta-se e vai tudo abaixo.
Tudo abaixo. Os outros continuam de rosto empoleirado nos corpos. Não estão ameaçados pela disjunção. Talvez chorar, pedir ajuda… Oh, mas teriam que se usar as palavras e o horror alagou também a linguagem. Cerra antes os dentes e contraria a saliva. Não se quer enlouquecer e, no entanto, esta é a única certeza, o vazio que aparece de repente numa rua qualquer, abre a boca numa careta carnavalesca para te pregar um susto e zás! Foste engolido.
Estás sozinho, náufrago no real provisório. Estado de alerta máximo. Medo do real ser evacuado e não se ter para onde ir.
Porque não temos já para onde ir. Nem sequer se sabe o nome verdadeiro desta rua onde o real nos aconteceu. Sim, fugir. Mas para onde? Casa é a palavra mais vã que resta. Tanta arquitectura para não haver abrigo algum. O céu foi tomado de assalto pelos aviões e meteorologistas. O mundo é uma fantasia em extinção e as aves não migram mais. Morrem de mágoa, esfaceladas contra o asfalto.
Apanhas um táxi em desespero e agradeces numa oração silenciosa a oferta de transporte que a civilização oferece. Embora a casa também tenha sido contagiada. Navegas noite afora sobre o pensamento que te come a calma. Esses olhos não encontram mais descanso. O teu corpo não funciona. É um corpo-detrito, os nervos em franja, com uma consciência absurda das próprias mãos – vê nelas uma brancura que impõe a vigília.
Estado de alerta máximo.
Mesmo assim, não estás pronto para desistir da civilização. Por tão pouco, um mero ataque de nervos, dizes. Precisas só de recuperar a fé no real. Por isso vais ao médico.
Senhor doutor, queira ter a bondade de me dizer quantos comprimidos são necessários para matar o pensamento e recuperar o corpo?
Ao doutor dói-lhe a cabeça. Há dias em que não acredita na psicologia humana. Hoje é um deles. Está sem paciência e na sua frente tem um paciente. Depois de ouvir as palavras do corpo, não sabe o que dizer. Sente pela primeira vez a falta de um deus qualquer. Ao invés, opta por aconselhar alguma medicação. Ansiolíticos. Anti-depressivos. E hipnóticos em SOS, para o caso do real insistir nas suas visitas.
A mão escreve veloz uma receita, como quem acelera dali para fora. Para fora do contexto doutor-paciente onde ambos se atrasam num compasso sem esperança. Entrega a receita e num aperto de mão asséptico, diz 
As melhoras.
Como quem diz,
Até amanhã e esta guerra não fui eu que a criei.