segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

UMA MULHER A PARIR A SUA ALMA



2012 foi um ano estéril em paixões. À parte alguns arrufos inconsequentes, não amei nenhum homem nem nenhum livro. Foi por isso um ano estranhamente bom, ocupado na aprendizagem de uma solidão interior, calma e insuspeita. Até aqui, houve sempre alguém, como diz a Mick em The Heart is a Lonely Hunter, e houve sempre um livro, a tal ponto que a escrita da minha história da leitura se confunde com os meus amores e desamores.

Como o desejo se desloca da minha carne e encontra um livro, é algo misterioso. Como uma operação alquímica. Nalguns casos, o desejo é encaminhado por um terceiro, noutros casos, mora já em minha casa. Mas continuo a preferir os encontros fortuitos na biblioteca, quando as minhas mãos e olhos escutam o apelo de um livro manuseado, que não figura na lista dos livros que gostaria de ler, e o encontram doído de colos ausentes. Com estes livros feridos por outras mãos, sinto sempre uma maior liberdade de tacto, como se fosse mais fácil imprimir-me neles antes de os devolver à sua posição enigmática.

Desta vez, o acaso aconteceu com os diários de Etty Hillesum na Biblioteca de Portimão, a biblioteca da minha adolescência nietzscheana. Uma surpresa deliciosa, considerando que a questão judaica nunca me interessou muito, porque demasiado absolutizada nos pólos vítima-carrasco. Chamou-me uma vez: ignorei, outras leituras se impunham. Chamou-me mais uma vez, fui até ele e li a contracapa, tornei a pousá-lo, outras leituras se impunham. Chamou uma terceira vez, caminhei até ele com passos resolutos e abri-o sem qualquer pudor:

“Terça-feira de manhã [17 de Março de 1942], às nove e meia
Ontem à noite, quando ia ter com ele de bicicleta, havia um grande e aprazível desejo de primavera em mim. E enquanto eu pedalava em cima do asfalto da rua Lairesse, desejando-o e com sonhos na cabeça, senti-me de repente acariciada por um ar tépido de primavera. E subitamente pensei: «Assim também está bem. Porque é que uma pessoa não pode experimentar uma grande e terna euforia pela primavera e, também, por todas as pessoas?» (…) Sim, por que razão é que uma pessoa não poderia sentir amor por uma primavera? E as carícias do ar primaveril eram tão delicadas e tão envolventes, que mãos masculinas, mesmo que fossem as dele, em comparação com elas me haveriam de parecer rudes.

E foi assim que cheguei a casa dele. O pequeno quarto de dormir apanhava um pouco de luz vinda do quarto de trabalho e, quando entrei reparei que a cama dele estava aberta e que, dobrado por cima dela, havia um pesado ramo de orquídeas aromatizando o quarto. E na mesinha ao lado da almofada havia narcisos, muito amarelos, tão extremamente amarelos e frescos. A cama aberta e as orquídeas e os narcisos – uma pessoa nem precisa de se deitar acompanhada naquela cama. Enquanto ali estive, por um instante, naquele quarto meio iluminado, foi como se tivesse tido uma noite inteira de amor. E ele estava sentado à pequena escrivaninha e de novo me saltou à vista como o rosto dele se assemelhava a uma paisagem antiga, cinzenta e gasta.

Pois, estás a ver, uma pessoa necessita de ter paciência. O teu desejo deve ser como um navio lento e majestoso, navegando no oceano infinito e não à procura de um local onde largar a âncora. E de súbito, inesperadamente, dás de caras com um local onde ancorar por um momento. Ontem à noite, encontrou o seu ancoradouro por um breve instante. Foi só há quinze dias que eu fui tão bravia e indomável e o puxei para mim, de tal forma que ele caiu por cima de mim e eu me senti mais tarde tão infeliz que pensei que dificilmente conseguiria continuar a viver? E passou-se só uma semana desde que eu me enfiei nos seus braços e, de um modo ou outro, permaneci infeliz porque havia ainda qualquer coisa de forçado nisso?

E todavia, estes estádios terão sido necessários para chegar a este deslizar ao encontro um do outro, a esta familiaridade, a este ser querido ao outro e ser bom para ele. E uma noite destas fica para sempre, em tamanho enorme, na memória. E se calhar, uma pessoa nem precisa de muitas destas noites para ter a sensação de levar uma vida amorosa plena e rica.”

E pronto: de novo, essa ligação estranha. Saí da biblioteca com o livro junto ao peito, com aquela sensação reconfortante de ter encontrado um objecto perdido na infância – a conceptualização do fetiche por Freud não anda longe da verdade, ainda que a sua verdade se resuma a uma metáfora. Coloquei o livro no lugar do morto e assim fizemos a viagem até casa. Mais tarde, nessa mesma noite, tive de ir ver os homens, compromisso penoso que prolongava mais um pouco o ritual de sedução. Levei-o comigo. É sempre assim quando um livro me conquista: sinto a todo o instante, uma enorme vontade de o ter ao meu alcance, estender a mão e sentir o seu corpo sólido e macio, antecipando com delícia o nosso momento de entrega e rendição. Por isso, quando estou apaixonada por um livro saio à noite com ele, mesmo sabendo que não o posso ler porque os protocolos de leitura não o permitem, imensamente agradada pela companhia do seu peso, que a mão sub-repticiamente acaricia sempre que pode. Algumas vezes, chego até a colocá-lo com todo o cuidado na almofada contígua à minha e podem crer que adormeço contente e satisfeita como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Sim, porque razão é que uma pessoa não pode sentir amor por um livro?

Não vou escrever sobre o livro da Etty. Não consigo, dissecar um amor apenas é possível no desamor. Posso apenas dizer que se trata do registo diarístico de uma mulher a parir a sua alma, com todas as tremendas dores da individuação, para conquistar a alegria anterior a um coração desassossegado e acelerado e uma vida plena, digna de ser vivida. Uma dádiva que me trouxe a consciência de que já não sou nem desejo ser uma amante-leitora compulsiva, atacada pelo síndrome do bovarysmo, faminta por  conhecer o máximo de experiências e sensações. Platão tinha razão quando dizia que a escrita era um pharmakon, sei-o agora. A literatura pode ser um vício, uma compulsão que envenena e corrompe a vida. Mas eu não quero acabar como a Emma, desiludida com a vida, vomitando a tinta negra de todos os livros lidos. Lá onde está o veneno, também estará a cura. Tendo a sorte de poder afirmar ousadamente que já vivi muito e já fiz de muitas personagens, posso agora começar a trabalhar na minha síntese feliz e isso implica fazer do erotismo e da literatura um trabalho mais sério e árduo, um trabalho de exegese. Uma decisão válida para os livros e para os homens: não me interessam mais os arrufos da paixão, mas o Amor. Não querendo isto dizer que me converti ao platonismo. Porque corpo e alma são um só, como a Etty e eu aprendemos. Tendo escavado bem fundo em mim, com todas as facas que encontrei à mão, vou agora tratar de me esculpir e fazer da vida uma obra de arte. A Obra começa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já da outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para repensar o amor


Excelente contraponto ao Banquete platónico: aqui bebe-se à séria e busca-se um amor para além da moral e da estética.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


É a segunda vez que me acontece. Ter um contacto inicial desagradável com um autor, recusar lê-lo e depois descobrir anos mais tarde, com um espanto incrível, inúmeras afinidades. Aconteceu com o Bukowski há muito muito tempo. Li qualquer coisa dele num dia errado, rotulei-o levianamente de misógino e segui quase uma década sem o ler, até que um verão dei comigo na praia, sob um sol louco, enternecida pelo seu humor e desespero, e tive de admitir que o homem amava a vida e as pessoas como poucos. Hoje, aconteceu com o Derrida: a tarde inteira, enleada nos Spectres de Marx, lamentando não ter uma eternidade para abraçar cada página. Li algumas coisas dele na faculdade, achei-o hermético, um mestre de malabarismos com conceitos e gramáticas, raiando muitas vezes a incomunicabilidade. Não podia estar mais enganada. O homem conhece exemplarmente a história da filosofia ocidental, não só de trás para a frente como de frente para trás, de modo oblíquo, centrípeto e centrífugo. E diverte-se a brincar com essa história, tratando-o como uma estória, analisando os seus caminhos, desvios e patologias.  E não é um homem interessado apenas nos conceitos: o que lhe interessa é sobretudo a vida, a vida de todos os dias, a vida até dos que não leram nunca uma única linha de filosofia. E em usar todas as artimanhas, possíveis e imaginárias, para vergar os conceitos, para que a vida possa respirar novamente, ainda que por breves momentos.

Mais uma vez, me é provado que a literatura é un affaire d'amour e que para certos livros ou autores, é preciso esperar e confiar no tempo e na sua capacidade de amadurecer a compaixão, uma paixão com, partilhada. Tem razão o Alberto Manguel quando diz que cada leitor cria a sua própria história da literatura. É que a vida e a literatura caminham juntas, mesmo quando desavindas.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

verão vermelho-sangue resfolegando sobre os fenos

“Do verão, diria uma planície lenta, quase amarela: o trigo
a enrolar-se nos pés, o oiro do sol, os cabelos
mais loiros. Um vento quente e ondulante sibilando
nas frestas de um celeiro. O fumo sonolento do calor
tornando informe o fio do horizonte. Do verão

diria também um tempo espesso onde todos
os acasos são sofríveis: duas papoilas, vermelho-sangue,
agitam a paisagem. Tu chegas e a minha pele chama-te
sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor
dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica

apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície
lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram.”

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A todos os romanticidas: a vida e a crise que se lixem, o amor é o amor.

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.


Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.


Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?


O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.


Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.


A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
 
Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As delícias do Inverno



Estamos não na Primavera, nem no Verão, nem no Outono, mas no pico do Inverno. Este é um ponto muito importante na ciência da felicidade. E surpreende-me ver pessoas que não se importam com isso e que até se felicitam por o Inverno estar a acabar ou, se ele está a decorrer, por ser muito rigoroso. Eu, pelo contrário, todos os anos rezo a pedir ao céu o máximo de neve, granizo, gelo e tempestades que ele possa dar-nos. Todos, é claro, sabem dos divinos prazeres que nos esperam no Inverno ao canto da lareira; as velas que se acendem às quatro horas, o calor da alcatifa, o chá, a formosa pessoa que o faz, os reposteiros corridos, as pregas das cortinas a roçar o chão, enquanto o vento e a chuva rugem lá fora
      
      E parecem bater às portas e janelas,
      Como se terra e céu um só quisessem ser;
      Mas não podem entrar, não encontram por onde,
      Nada poderá invadir o nosso doce abrigo.
                              (Castle of Indolence)
                                                     
                                                           Thomas De Quincey, Confissões de um Opiómano Inglês

Sentíamo-nos perfeitamente bem ali no quente, tanto mais que lá fora, e no próprio quarto, sem aquecimento, reinava um frio cortante. A este respeito acrescento que para se gozar plenamente o calor é indispensável ter uma parte do corpo exposta ao frio; porque neste mundo a única medida de valores é a que resulta do contraste. Em si, nada existe. Se uma pessoa se vangloria de um conforto pleno e perene, isso é o mesmo que afirmar que não se encontra mais em condições de avaliar o que é o conforto. Mas se, à semelhança de Queequeng e de mim próprio, uma pessoa se encontra na cama com a ponta do nariz e o alto da cabeça ligeiramente friorentos, então, na verdade, essa pessoa pode afirmar com toda a consciência que sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por este motivo um quarto de cama nunca devia dispor de aquecimento, que é um dos luxuosos desconfortos dos ricos. Porque a suprema delícia é não ter, entre o nosso corpo e o frio exterior, outra coisa além de cobertores. Então podemos dizer que somos como uma fonte de calor incrustada no cerne de um cristal do Ártico.

                                                                                    Herman Melville, Moby Dick

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Humor & Ternura



Há já algum tempo que sem explicação conhecida me sentia atraída pelo livro A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz, mas a sua leitura ia sendo adiada pela urgência de clássicos. O recente prémio da União Europeia para a Literatura materializou esta vontade, sem que eu entendesse bem porquê, dado que não acredito nem em prémios nem na referida união.

Foi o primeiro livro do autor que li. Proporcionou-me um fim-de-semana muito agradável. Os estranhos nomes e o cenário de uma Dresden bombardeada recordaram-me de imediato um outro universo de escrita: Gonçalo M. Tavares. E embora a minha intuição inicial se viesse a revelar adequada, entre ambos os autores temos apenas essa coincidência de tema, a saber, o eterno e irrespondível tema do Mal. Com a grande diferença essencial, que a escrita de Afonso Cruz não se deixa contaminar pelo objecto de investigação, permanecendo fiel a uma afectividade compassiva, que um olhar mais leviano poderá tomar por ingenuidade.

“Sr. Vogel, se não estiver contente com o rumo das coisas – disse Isaac -, só tem de fazer uma coisa muito simples: juntar os dois pés, concentrar-se e dar um pequeno pulo na vertical. Quando os seus pés tocarem o chão outra vez, a realidade do chão, quando deixarem esse momento celeste que é o salto, quando tocarem o chão, dizia eu, provocará um pequeno tremor que abalará a direcção do universo. Se ia em determinado sentido, sentido que, por certo, não lhe agrada, basta pular para ver mudar o rumo. Mas porque o tremor é muito pequeno, os efeitos não se notam de imediato, no entanto, se pudesse olhar para o futuro, veria como foi diferente daqueles futuros em que não pulou. A vida é feita destes saltinhos.”

A Boneca de Kokoschka não desalinha órgãos ou ideias nem oferece epifanias. É mais uma aproximação a uma ficção borgesiana, em que mais uma vez se replica o eterno debate entre a vida e a ficção. O mais das vezes é a ficção a insistir em suplementar a vida, com um editor a encomendar biografias imaginárias e até obras desses biografados inventados, um homem com reticências cranianas, uma livraria chamada Humilhados & Ofendidos, cartas de amor que colocam no mesmo plano o eterno e a secção de enlatados do supermercado, um livro dentro do livro, um coleccionador de borboletas excêntrico que tenta pesar o Mal e uma prostituta que faz descontos a homens de esquerda. Em ocasiões mais raras, é a vida que se liberta da sua modorra e explode numa riqueza que ultrapassa qualquer possibilidade de imaginação.

“ – (…) Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas. Quer mais brandy?”

Repete a receita mais arcaica para derrotar o Mal: a sua nomeação pela narração. Repete que sem os outros não somos nada e que apenas a sobreposição de vários ângulos ao mesmo tempo, mesmo os mais inimagináveis, dissipa as grades com que a alma escolheu engaiolar-se, até porque o grande inimigo está dentro de nós, neste corpo que alimentamos e vestimos.

Centra toda a sua mensagem numa apologia banal do amor. “Lutamos então contra a maior força do cosmos, contra aquilo que o caracteriza, contra aquilo que ele faz: expandir-se. O universo expande-se, mesmo nos momentos de ócio. Isso quer dizer que separa tudo, faz com que todas as coisas se afastem, se dissolvam. O amor vai juntando as peças que pode – como um velho reformado a jogar dominó – e o universo está aqui para baralhar tudo outra vez.” Banal porque a a história da nossa cultura é rica nestas chamadas de atenção sobre o poder aglutinador de Eros, que remontam aos seus inícios com Empédocles e Platão, entre outros.

Um aviso reiteradamente afirmado e jamais concretizado que justifica a insistência. Por isso, repetir nunca é demais. E Afonso Cruz fá-lo com imensa criatividade, humor e erudição e do que andamos precisados, meus caros, é disto mesmo, desta amálgama de humor e ternura para renovar optimismos e esperanças. Eu, por mim aceito o repto e concluo que não vale a pena tentar enganar-me: não consigo não ser alegre. Temos mais um livro para integrar a tão reduzida lista de uppers, embora seja um upper light, porque não tem aquela grande Beleza que dói de tão bela. Mas merece o prémio e mereceu as minhas duas noites.

“Adele Varga saiu do escritório de Filip Marlov com uma espécie de raiva. Não sabia contra quem a deveria dirigir, mas sentia-se magoada pela maneira como o universo trata os nossos afectos. Entrou no bar mais próximo e pediu um Manhattan. Nessa altura, enquanto bebia, apareceu um homem ao seu lado. Conversaram sobre música porque ele era músico e, no final da noite, apaixonaram-se para sempre. E ficaram assim, nesse estado tão pouco natural, para o resto da sua eternidade: a lutar contra o universo. Ao fundo, ouvia-se uma música de Django Reinhardt: Tears.”

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a poesia acaba quando um poeta morre



A Poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?»    E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? — 

Manuel António Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

“Adquirir a sua alma na paciência”


Lisboa, 19 de Outubro de 2012

Estimado Poeta,

Não tenho outro modo de lhe agradecer as cartas que escreveu há mais de um século. Embora endereçadas a outro jovem aspirante a poeta, as suas palavras trouxeram-me uma alegria preciosa. Os seus conselhos, sempre tão ternos e sábios, afiançam-me que conheceu enormes fadigas e pesadas tristezas e que a certo ponto, decidiu não desesperar e confiar nesse negrume que o abraçava. Tem razão quando afirma que se deve fazer da solidão “uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde os ruídos dos outros passa à distância”. Tudo o que é genuíno e grande começa nessa solidão desmedida.

A tristeza é o momento em que qualquer coisa de novo e desconhecido penetra em nós, como uma tempestade primaveril que entra pelos escaninhos da alma, sorrateira, aí se instalando com toda a lentidão e silêncio enquanto prepara o seu parto, no centro do ser. “Tudo se resume a levar ao fim a gravidez e depois dar à luz. Deixar medrar cada impressão, cada semente de uma emoção, dentro de nós, no escuro, no inefável, no inconsciente, inacessível ao próprio entendimento, e com profunda humildade e paciência aguardar a hora do parto de uma nova claridade: apenas assim se vive artisticamente, no entendimento como na criação (…) O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo esta lição, aprendo-a pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!

A solidão será difícil de suportar, mas o esforço será recompensado. Nas horas mais escuras, haverá a tentação de a trocar uma qualquer convenção ou conveniência, mais vulgar e fácil, menos dispendiosa e arriscada. Mas é preciso confiar e amar a pergunta que nos nasceu, velar pacientemente pelo seu crescimento pois, como tão sabiamente nos repete, a vida tem sempre razão.

Portanto, não nos agitemos demasiado: renascer leva o seu tempo. A turbulência acabará, eventualmente, por amainar, restando a sua face infinita, devolvendo-nos o olhar que um dia lançámos para fora. Depois de atravessarmos a nossa solidão, seremos talvez capazes de alcançar um amor mais humano, “o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam”.

Quem poderá dizer o que daqui sairá? Ninguém, este é um caminho que tacteamos, sozinhos e desamparados. “O futuro é um eixo fixo (…) mas nós deslocamo-nos no espaço infinito”. Cada um por si. Conforta-me, no entanto, saber que andou pelas imediações e que achou tranquilidade e ternura para falar disso. A minha grande solidão levou-me até si; leitora ávida, raramente sonho com referências literárias, mas há cerca de um ano, numa dessas noites eternas que mastigam o corpo e a alma, uma voz visitou-me enquanto dormia, recomendando-me que tornasse a ler as Elegias a Duíno. No dia seguinte, obedeci de imediato ao ditado onírico e a minha alma foi convalescendo, consolada pelas suas palavras.

Eternamente sua,

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma espiã na casa do amor



«Vestida de vermelho e prata, ela evocava os sons e imagens dos carros de bombeiros, quando rasgavam as ruas de Nova York, inquietando o coração com o violento gongo da catástrofe; toda vestida de vermelho e prata, o impetuoso vermelho e prata cortando caminho através da carne. Na primeira vez que ele olhou para ela, sentiu: Tudo se vai incendiar!
Do vermelho e prata e do longo grito de alarme ao poeta que sobrevive em todo o ser humano, enquanto a criança nele sobrevive; a esse poeta, ela atirou uma inesperada escada no meio da cidade e ordenou: “Suba!”
(…)
Ela era compelida por uma febre confessional que a forçava a levantar um canto do véu, e então amedrontava-se quando alguém ouvia muito atentamente. Repetidas vezes, pegava numa esponja gigantesca e apagava tudo o que havia dito pela negação absoluta, como se essa confusão fosse em si um manto de protecção.»

Um livro mediano. Nada de especial: nem facadas no peito nem picos no pipi.

domingo, 14 de outubro de 2012

uma pergunta relevante


Em casa a batidos e Orson Welles, tentando não fumar muito. Que será de mim sem Tanatos?

domingo, 7 de outubro de 2012

Afirma Pereira


"Nesse momento, Pereira lembrou-se de uma frase que o seu tio, que era um literato falhado, lhe repetia sempre, e pronunciou-a. Disse: a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade."

"E quando o doutor Cardoso passou a porta e desapareceu na rua sentiu-se só, verdadeiramente só, e pensou que quando estamos verdadeiramente sós é o momento de nos medirmos com o nosso eu hegemónico que procura impor-se à corte das almas. Mas apesar deste pensamento não se sentiu apaziguado, pelo contrário, sentiu uma grande saudade, não saberia dizer de quê, mas era uma grande saudade de uma vida passada e de uma vida futura, afirma Pereira."

sábado, 6 de outubro de 2012

"Prive o homem comum da sua mentira vital e ter­‑lhe­‑á roubado a felicidade."



“Elias Rukla lembrava-se que tivera uma grande decepção quando lera A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. Não com o livro, que era muito bom, até mesmo uma obra-prima, mas com o título. O título estava errado. O livro não trata da insustentável leveza do ser, mas de algo distinto. Porque a insustentável leveza do ser não constitui uma condição existencial da vida humana, mas uma condição social para um determinado estrato do mundo ocidental durante a última metade do século XX. A insustentável leveza do ser é algo que afecta as pessoas pensantes e sedentas de conhecimento da Escola Secundária de Fagerborg na capital norueguesa nas últimas duas décadas deste nosso século. E que lhes usurpa a capacidade de dizer alguma coisa a outras pessoas. De falar. A conversa tinha estancado. As pessoas do mesmo estrato social de Elias Rukla já não conversavam. Só de um modo fugaz e superficial. Quase só se limitavam a encolher os ombros entre elas. Talvez ante os demais, numa espécie de cumplicidade irónica (…) Ah, quanto ansiava que alguém conseguisse sair desse mutismo e dissesse algo, ainda que fosse apenas para referir que a vida tinha mais coisas para oferecer. Na realidade, o que procurava era que alguém fizesse uma alusão nesse sentido, mesmo que fosse em forma de código, por exemplo, se alguém durante um desses rápidos intercâmbios de comentários tivesse levantado de repente o dedo indicador em direcção ao céu, assinalando desse modo que na nossa parte do mundo existe uma longa tradição religiosa baseada no cristianismo, e que por isso se costuma apontar lá para cima, com o indicador esticado para o céu, onde, segundo a tradição, se encontram Deus e os seus anjos, e também os bem-aventurados, Elias Rukla tê-lo-ia abraçado, independentemente do quão irónico esse indicador pudesse parecer, tanto para o que teve esse impulso como para os demais (…). Ah, estava verdadeiramente esfomeado, e sentia que o seu cérebro se encontrava sobreaquecido, como se estivesse a incubar uma meningite espiritual que podia brotar a qualquer momento, pelo que não se podia considerar inteiramente responsável pelos seus actos, era como se esperasse um ataque, como se encontrasse um vómito tremendo e libertador à sua frente, no futuro imediato, mas que não chegava nunca. Procurava nos seus colegas algo que pudesse expressar essa outra coisa, algo que tornasse possível uma aproximação. Examinava de lanterna na mão cada palavra que pronunciavam, disposto a interpretar tudo no melhor dos sentidos e a socorrer imediatamente a pessoa em questão mal se pronunciassem as possíveis palavras crípticas, a fim de mostrar a sua gratidão, e também para falar com ela, muito provavelmente com um sussurro rouco na primeira investida, presumia.”

É exactamente por isto que fico em casa num sábado à noite, acompanhada por gelado de menta e chocolate e um livro. A comunicação parece ter-se tornado uma utopia e não tenho nem pudor nem dignidade para participar neste mutismo palrador. E ainda bem.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Amor em tempos de austeridade



Os tempos estão para paixões nómadas. Todas as noites um livro diferente na cama. Sem arroubos nem consequências de maior. Mas quer-se sempre algo de maior, algo que permita viver menos mal e mais poeticamente, nem que seja tão só um livro belo e terrível a partilhar o desalinho do sono.

Cansada de mastigar novidades estéreis, fui reler a minha história de amor predilecta: O Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar.

A narrativa compacta apresenta-se sob a forma de uma confissão, com todos os quid pro quos implicados. Um mercenário ferido, que diz jamais se ter implicado numa causa pessoal, faz face ao seu passado num esforço de honestidade pontuado por lapsos, esquecimentos e mentiras.

Conta afinal da única guerra pessoal que travou – o seu primeiro encontro com o amor, protegido pela guerra civil de 1914 na imaginária localidade de Kratovicé. Ele é o vivo que restou e não esqueceu, apesar da sua couraça de indiferença.

É nesse cenário bélico que duas eróticas ocidentais poderosas se defrontam em campo aberto, numa atmosfera asfixiada – a erótica estóica do homem austero que deseja mas não ousa ceder por medo e orgulho e a erótica socialista da mulher que se entrega ao amor como a uma doença nervosa. Ela, Sofia, avança, oferece-se ao amor sem ponderação nem pudor, com “a encantadora graça dum fruto que se propõe igualmente à boca e à faca”. A sua promessa de sacrifício não é no entanto uma garantia de submissão; ela deseja o homem não como fim do seu desejo, mas como meio para se dar de corpo e alma. Eric pressente isso mesmo, e assustado  por tamanha generosidade, resiste, aperta-se em si e insiste na inércia e no desprezo; “tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inalterável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento; pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.” Eis a dança mais antiga dos pares amorosos: dar e recusar-se alternadamente até à apoteose.

Unidos por uma dor que não faz concessões à piedade, ele testa o voluntarismo sacrificial da oferenda feminina, ela mantém a sua promessa com desespero; assim se estabelece entre ambos uma intimidade tácita de carrasco e vítima, com dias do caçador e dias da caça. Nas palavras da autora: “Para além da anedota da rapariga que se oferece e do rapaz que se recusa, o tema central de O Golpe de Misericórdia é, antes de tudo, esta comunidade de espécie, esta solidariedade de destino entre três seres submetidos às mesmas privações e aos mesmos perigos. Eric e Sofia, sobretudo, parecem-se um com o outro por esta intransigência e pelo seu gosto apaixonado de irem até ao extremo de si próprios.

Sofia jamais considera retirar a sua promessa de amor, escolhe activamente arder e acaba morta. Eric escolhe renunciar e sai queimado. “O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado. Pensei, primeiro, que, ao pedir-me que me incumbisse deste serviço, ela julgara dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi, depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.” “On est toujours pris au piège avec ces femmes. ”

No prefácio à edição portuguesa, Augustina Bessa-Luís classifica este livro como uma “espécie de educação sentimental para veteranos”. Eu dava o dedo mindinho para o ter escrito – a simplicidade aparente de cada diálogo, a tragédia de um cenário depurado, a nobreza das personagens e a dose exacta de ambiguidade em cada palavra. Como não o posso fazer, pego no dedo mindinho e vou à biblioteca requisitar o livro que lamentavelmente está esgotado por cá. Sim, sou dessas que dormem com amores emprestados.

domingo, 30 de setembro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Rainer Maria Rilke

terça-feira, 18 de setembro de 2012

um hino à noite

“O que é que, de repente, pleno de pressentimentos, brota debaixo do coração e sorve a doce aragem da melancolia? Também em nós te comprazes, obscura Noite. O que é que tu guardas debaixo do teu manto, que me toca a alma com uma força invisível? Um bálsamo precioso goteja da tua mão, de um molho de papoilas. Elevas as pesadas asas do nosso ânimo. Sentimo-nos obscuramente, inexprimivelmente comovidos (…). Tão pobre e tão pueril me parece agora a luz – que júbilo e que benção, ao despedir-se o dia – Assim, só porque a Noite aparta de ti seus servidores, semeaste na lonjura do espaço as esferas luminosas, para que testemunhassem da tua omnipresença – do teu regresso – no tempo do teu afastamento. Mais celestes do que aquelas estrelas cintilantes nos parecem os olhos infinitos que a Noite em nós abre (…). Glória à rainha do mundo, à grande mensageira de mundos sagrados, a do amor extasiado – é ela que te envia até mim – doce amada – amável sol da noite – eis que estou desperto – porque sou teu e sou meu – revelaste-me a Noite como Vida – tornaste-me humano – devora de ardor espiritual o meu corpo para que, etéreo, eu possa misturar-me contigo mais intimamente, e seja então a nossa noite de bodas.”


Novalis, Hinos à Noite

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Epifanias domésticas

A mão firmada sobre a laranja. A faca dividindo a laranja em duas metades. O espremedor devolvendo o som do real acolhedor. A consciência de ter novamente o meu corpo em casa, sólido, firme. Parada e segura em mim, a mão tremendo sobre a meia laranja, nada mais que isso. A luz da manhã a pico estirada alegre por azulejos e móveis enche-me os olhos de água. As lágrimas rolam pelo rosto aturdido pelo calor e vão fundir-se no sumo laranja. Recordo brevemente a minha quase-morte, as noites terríveis e silenciosas, outrora tão queridas. Uma descida longa, de início desejada com a arrogância de quem sonha o mundo de coração cerrado, mais tarde temida com cada poro. A difícil aprendizagem das camadas de sombra que compõem cada abismo que é um ser. Choro de gratidão. Como uma Eurídice, refazendo com passos ainda inseguros o caminho de volta para junto dos vivos. Sem Orfeu nem lira, acompanhada apenas por uma voz na rádio cantando os subúrbios de um passado perfeito em que se acreditou poder vencer sem jamais perder. Despejo o sumo no copo e enxugo as lágrimas com as costas da mão. Sento-me à mesa e sorrio do mistério de estar viva e das formas insuspeitadas da comoção. Suspeito que estou quase safa.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Madame Bovary é quase quase uma mulher de trinta anos muito orgulhosa…



“Com efeito, uma rapariga tem demasiadas ilusões, excessiva inexperiência, e o sexo é demasiado cúmplice do seu amor, para um jovem poder sentir-se lisonjeado; enquanto uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios a fazer. Se uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe. Esta escolha não é imensamente lisonjeira? Armada com uma experiência quase sempre paga, por alto preço, com infelicidades, ao dar-se, a mulher experimentada parece dar mais do que ela própria, enquanto a jovem, ignorante e crédula, como não sabe nada, nada pode comparar, nada apreciar; aceita o amor e estuda-o. Uma instrui-nos, aconselha-nos, numa idade em que gostamos de ser guiados, em que a obediência é um prazer; a outra quer aprender tudo e mostra-se ingénua naquilo em que a primeira é terna. Aquela só permite um único triunfo; esta obriga a combates perpétuos. A primeira só tem lágrimas e prazeres, a segunda só voluptuosidades e remorsos. Uma, demasiado submissa, oferece a triste segurança da tranquilidade; a outra perde muito por não pedir ao amor as suas mil metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra mata uma família inteira por aquele a quem ama. Uma jovem só tem um atractivo a julga ter dito tudo quando se despe; mas a mulher tem-nos em grande número e oculta-os sob mil véus; em suma, afaga todas as vaidades, enquanto a noviça só lisonjeia uma. São excitantes, aliás, as indecisões, os pavores, o medo, as perturbações e as tempestades da mulher de trinta anos, que não se encontram nunca no amor duma rapariga (…). Finalmente, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se rapariga, representar todos os papéis, ser púdica e embelezar-se até com uma infelicidade. Entre ambas encontra-se a incomensurável diferença do previsto para o imprevisto, da força para a fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz a tudo; a jovem, sob pena de não o ser, não deve satisfazer a nada.”

Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos

domingo, 2 de setembro de 2012

Lisboa, 2 de Setembro



Oslo, 31 de Agosto. Não falta ali nada. Um homem de 34 anos perdido, ex-toxicodependente tenta regressar à vida. Recomeçar do zero é impossível, os outros e ele próprio não perdoam. Os outros que também estão no mesmo barco à deriva, e que não admitem que alguém esteja mais partido que eles. Todos fodidos, náufragos pouco solidários: importa manter a farsa e seguir andando. O homem é apenas a baixa mais evidente, a braços com um problema comum que excede a heroína. A droga nunca é o problema. É a solução. Existem outras: o trabalho, a televisão, o casamento, os filhos, blá-blá.
E qual é o problema do homem, afinal? O problema é ter nascido numa época descomplicada, obrigado ao sucesso e à felicidade. É ser demasiado inteligente, ver e dizer o que não pode ser visto nem dito. É ter desprezado a idiotia da felicidade para aprimorar um talento que não pode cumprir porque quando nos pomos a cismar mais do que os outros caímos no buraco e então, é o ver-se-te-avias para tornar a subir e regressar ao mundo dos vivos.
Falta ali tudo. Naquele olhar descrente de quem sonhou uma vida diferente, uma vida mais próxima do extraordinário, da beleza, e soçobra todos os dias perante a realidade chã, crua e pobre. As pessoas e as coisas opacas, incapazes de devolver qualquer sentido. “São coisas que nunca se mostram nos filmes: o sentimento de não saber porque é que estamos perdidos, apesar de termos vidas confortáveis ou de virmos de famílias privilegiadas.” “Nos meus filmes, tenho falado sempre da «dupla vergonha» de fracassar, ao não se conseguir fazer aquilo para que se tem talento no contexto de uma vida privilegiada num dos países mais ricos do mundo, e de não ter razões de queixa. Fracassar na Noruega é uma dupla vergonha: com o mundo como está tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?”
Impossível evitar a identificação narcísica automática. A caminho da praia, uma amiga confessa, de sorriso leve,  que ao ler sobre o filme pensou “epá isto é a minha vida”. Com a mesma leveza, retribuo graciosamente “a tua e a de todos nós. Fomos todos ludibriados. Quero o meu dinheiro de volta!”. Ironizamos depois sobre a sorte da nossa catástrofe quotidiana não se passar na Noruega e lá vamos nós a banhos, desprendidas como quem acredita ainda. Fazemos como o protagonista do filme: sorrimos da nossa desgraça e da dos outros e fazemos de conta que não se passa nada de extraordinário.
E de facto, nada de extraordinário se passa. Só esta tragédia banal, diária, onde se faz o que se pode para se persistir. Sem esperanças de luz nem rasgos de indignação – apenas a frustração de termos falhado quando tínhamos tudo a nosso favor. Todos os dias sacrificamos a grande vida, seja lá o que isso for, ao altar da puta da vidinha.
Faltava um frame final no filme: os rostos daqueles que estavam na sala na última sessão deste sábado. Entre eles, um velhote circunspecto de bengala. Lá ia um sobrevivente declarado.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

HOMENS QUE ESCREVEM SÃO TESUDOS


“Au milieu de l'hiver, j'ai découvert en moi un invincible été.”

Albert Camus

"O pensar, assim de noite, não é muito bom para a saúde. A misteriosa solenidade que adquirem os pensamentos produz quase sempre - sobretudo em determinados tipos, que têm dentro de si uma certeza com a qual não podem descansar, a certeza de nada poder saber e, não sabendo, de em nada poderem acreditar - uma séria constipação. Constipação da alma, escusado será dizê-lo."
 
Luigi Pirandello

sábado, 25 de agosto de 2012

Escrever é maçada


“Os dias estéreis da determinação. Era essa a palavra certa, determinação: Arturo Bandini sentado em frente à máquina de escrever dois dias seguidos, ininterruptamente, determinado a vingar. Mas não resultou; sofreu o mais longo cerco da mais dura e implacável determinação de toda a sua vida, e não escreveu uma única linha, mas apenas uma palavra, repetida pela página inteira, de cima a baixo, uma palavra só: palmeira, palmeira, palmeira, uma batalha mortal entre a palmeira e eu, e a plameira ganhou: via-a lá fora, a balançar sob o ar azul, a ranger docemente sob o ar azul. Ao fim de dois dias de batalha, a palmeira levou a melhor e eu esgueirei-me pela janela e sentei-me debaixo dela. Passou algum tempo, um momento ou dois, e adormeci, com pequenas formigas castanhas a passaream-se alegremente por entre os pêlos das minhas pernas.”
John Fante, Pergunta ao Pó

F O M E


Fome de Knut Hamsun narra um período de fome que um homem passa em Kristiania (actual Oslo). Um homem sem emprego e relações, de estômago vazio e cabeça cheia de pensamentos alucinatórios, tenta desesperadamente escrever. É preciso que escreva para que possa comer algo, mas sem comer, escrever é algo quase impossível, uma experiência-limite.

A certo ponto, percebemos que este homem passa fome não porque não tenha opção, mas por escolha, ou melhor, por uma estranha compulsão interior que o obriga a respeitar os «sentimentos nobres», a vigiar constantemente o seu pensamento e a a imagem que oferece de si. A certo ponto, apaixona-se mas é incapaz de abandonar o «orgulho» e a «decência».

“Aquilo irritou-me, quase me chocou que ela me considerasse assim tão decente; enchi o peito de ar, deixei o coração inchar e peguei-lhe na mão. Mas ela retirou-a docemente e sentou-se um pouco mais afastada de mim. Com isso, a minha coragem desapareceu de novo, senti-me envergonhado e olhei na direcção da janela (…). Senti-me totalmente paralisado.

- Já vê! – disse ela, - já vê que tenho razão: a você é possível assustá-lo com um mero franzir de testa; é possível embaraçá-lo com uma simples e insignificante mudança de lugar… - Ela riu, trocista, com os olhos completamente fechados, como se também não suportasse ser observada.”

Paul Auster tem razão quando afirma que o herói de Fome sofre de uma doença de linguagem. O próprio o explicita quando se explica à rapariga: “na verdade, podia ter-se uma natureza sensível sem que, por isso, se fosse louco; havia os que viviam quase de nada e que morriam de uma simples palavra. E deixei-a perceber que eu tinha esse tipo de natureza.” Está doente de palavras como «honra», «honestidade», «altruísmo», «abnegação», etc.. É por esta razão que amachuca uma nota de dinheiro e a atira à cara de uma hospedeira. Uma nota que o poderia alimentar durante dias.

“Ah, ah! Pode chamar-se a isto «actuar, salvaguardando a honra»! Sem dizer nada, sem dirigir a palavra à gentalha, amachucar simplesmente uma nota de dinheiro das grandes, com toda a calma, e atirá-la às ventas do seu perseguidor. Podia dizer-se que isto é «comportar-se com dignidade» Assim se levam as bestas!...

Quando cheguei à esquina da Tomegatten com a Jernbanetorvet, os meus olhos começaram a ver a rua a cintilar, a cabeça vazia começou a zunir e resvalei contra a parede de um prédio. Não consegui avançar mais, pura e simplesmente, nem sequer consegui manter-me direito. Fiquei em pé, tal como tinha resvalado contra a parede, e senti que estava a perder os sentidos. A minha louca ira piorou ainda mais com este ataque de esgotamento, levantei o pé e bati no passeio. Também fiz outras tentativas para recuperar um pouco as forças, cerrei os dentes, franzi a testa, fiz girar os olhos desesperadamente e comecei a sentir o efeito. O meu pensamento tornou-se mais claro e compreendi que estava prestes a morrer. Pus as mãos à frente e apoiei-me contra a parede, e a rua continuava a dançar à minha volta. Comecei a soluçar de raiva e lutei contra a minha desgraça com o mais íntimo da minha alma, mantive corajosamente esta posição, para não cair de todo; recusava deixar-me sucumbir, queria morrer de pé.”

A fome auto-imposta será a sua maneira de verificar a validade dos sentimentos «bons». Faz lembrar Raskolnikov e Stirner. À maneira dos ascetas e mártires, ele escolhe a via da dor; o prazer e o deboche seriam um teste menos honroso. Tanto pior para ele. Abeira-se do colapso muitas vezes. Nenhum anjo lhe aparece para o salvar.

Resta-lhe reconhecer que, morto o referente transcendente, esses «sentimentos» são vazios, palavras ocas apenas, que traduzem absolutamente nada. Prazer e dor são completamente aleatórios. Na ponta do garfo dessa refeição nua, o Nada e nada mais. Não se pode mais louvar uma razão omnipresente e autofágica que martiriza a carne e faz do pensamento veneno. Estamos sozinhos aqui e agora, sem caminhos certos, e vamos ter de nos aguentar.

“Passou uma carroça rolando lentamente, e vi que levava batatas, mas na minha raiva e obstinação lembrei-me de dizer que não eram batatas, mas sim cabeças de couve, e jurei furiosamente a pés juntos que eram couves. Ouvi nitidamente o que dizia, mas persisti na mentira e continuei a jurar repetidamente, só para ter a desesperada satisfação de cometer perjúrio. Deixei-me embriagar por este pecado requintado, estiquei os dedos no ar e jurei, com lábios balbuciantes, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em como eram cabeças de couve.”