quinta-feira, 27 de julho de 2017

Carta a Greco



Eis o livro que inspirou Hilda Hilst a mudar-se para a Casa do Sol e a iniciar o seu trânsito com o divino.

Começa de forma auspiciosa:

THREE KINDS OF SOULS, THREE PRAYERS:
1)  I AM A BOW IN YOUR HANDS, LORD. DRAW ME, LEST I ROT.
2) DO NOT OVERDRAW ME, LORD, I SHALL BREAK. 
3) OVERDRAW ME, LORD, AND WHO CARES IF I BREAK!

When a man thinks of the past, he becomes kinder.



Frequentei a Zona desde os primeiros dias… Lembro-me de termos parado numa aldeia e o que mais me impressionou foi o silêncio. Nenhum passado, nada… Percorremos a rua… Silêncio. Bem, as casas ficaram vazias, não havia lá gente, foram-se todos embora, mas o silêncio era total, sem um único pássaro. Pela primeira vez vi uma terra sem pássaros… Sem mosquitos… Nada voava…

Desde que apanhei um documentário na RTP2 sobre a vida animal em Chernobyl, que o lugar me fascina. VOZES DE CHERNOBYL, de Svetlana Alexievich veio exponenciar ainda mais esse fascínio. Tento decompô-lo em partes: por um lado, uma catástrofe inédita e uma cidade abandonanda, evacuada, que a natureza vai reconquistando, numa fosforescência incrível que não deixa adivinhar a radioactividade. Em Chernobyl tudo parece ter permanecido como estava naquele dia fatídico de 26 de Abril de 1986. Aos habitantes, foi dito que regressariam após três dias. Depois, há a semelhança profética entre a Zona e o Stalker de Tarkovsky, realizado sete anos antes! E por último, as histórias daquele povo, o povo soviético, o mais literários dos povos, como já vinha intuído e estas histórias reais confirmaram, histórias cheias de dever e amor, como nos livros de Dostoievski e Tchékhov. Que outro povo se poderia por a enterrar a própria terra?! Foi uma leitura duríssima mas fiquei absolutamente rendida ao talento de Alexievich: o melhor prémio Nobel que li nos últimos anos e, sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano.

Completei a leitura com um documentário que saquei quase aleatoriamente – As babuchkas de Chernobyl – sobre umas quantas velhotas que regressaram à Zona para terminar os seus dias, todas desempenadas, a beber vodka e a rir sem dentes.

O Livro dos Encantos


Desengane-se quem achar que os muitos livros que leio me tornam mais inteligente ou mais culta. Nada disso, passados algum tempo não consigo discorrer sobre os temas ou enredos lidos. Tal como nas histórias da minha vida, restam-me apenas sensações. Se no passado, esta erosão me afligia um pouco, hoje faço fé de que algures, na minha pele, se alojam todas as histórias e factos vividos e lidos.

Aquilo que busco nos livros é, num perpétuo movimento retroactivo, algo que alimente a minha sede de viver e saber. As minhas leituras empurram-me para a vida; a vida escorraça as minhas aspirações, regresso aos livros e estes devolvem-me novamente à vida, como um cavalo belo e novo, pronto para qualquer luta ou descanso.

Busco encantos, como uma amazona teimosa. E onde estes se anicham, nunca sei, é uma caça interminável. É preciso ler muitas páginas, às vezes livros inteiros, para encontrar numa frase um farrapo de alma. Esse farrapo não é apanágio apenas dos livros, também pode acontecer através de outras artes, ou na vida, por exemplo, através de uma frase anónima e sorrateira.

Acontece por exemplo quando estou ensonada no sofá, numa manhã moribunda de sábado, a ver um programa sobre a vida selvagem no deserto Sahara e, de súbito, descubro a rosa de Jericó. Esta rosa cresce e reproduz-se até que o ambiente se lhe torna hostil. Então, as suas flores e folhas secam, as raízes desprendem-se da terra, os galhos secos enrodilham-se e a rosa transforma-se numa «bola», permitindo que os vento a levem. Assim pode viajar durante anos, cem anos se preciso for, quilómetros e quilómetros, vivendo ressequida e sem uma única gota de água. Até encontrar água. E voltar a verdejar e florescer. Foda-se, que poema brutal!

Por tudo isto e sobretudo por que a minha memória é curta, criei no início deste ano um pillow book, onde anoto os arrebatamentos que me encontram, sempre que me lembro de fazer. Chama-se Livro dos Encantos e tem a ridícula pretensão de anotar uma ínfima parte da beleza do mundo. Até tem duas epígrafes: uma de Rilke e outra dos diários de Etty Hillesum, também leitora de Rilke. Etty morreu em Auschwitz. Pouco tempo antes, escreveu:

And still life makes sense to me, my God, I cannot help it.
(...)
I have died a thousand deaths in a thousand camps. I know it all and I do no longer get upset over new information. Somehow I already know it all. And still I find this life beautiful and full of meaning, every minute of it.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ninfa Moderna - Ensaio sobre o Panejamento Caído



“Não houve fadas boas – senhoras sábias e benevolentes, com muito poder na sua varinha de condão – a inclinarem-se sobre o berço da nossa modernidade intelectual, na viragem do século XIX para o XX. Os grandes sismos da história estavam próximos. Mas houve ninfas: belas aparições drapejantes, vindas não se sabe de onde, andando ao vento, sempre comoventes, nem sempre muito sábias, quase sempre eróticas, por vezes inquietantes.

Ninfas: divindades menores sem poder institucional, mas irradiantes de um verdadeiro poder de fascinação, que agita a alma e, com ela, todo o possível saber sobre a alma. Perigosas, como o são também a memória – quando reconhecida até nos seus continentes negros –, o desejo e o próprio tempo. Entre muitas outras aparições, elas foram Arria Marcella segundo Théophile Gautier, Aurélia segundo Nerval, Herodíade segundo Mallarmé, a Eva Futura segundo Villiers de l’Isle-Adam, Lulu segundo Wedekind e de seguida por Alban Berg, A Mulher sem Sombra segundo Hoffmannsthal e depois por Richard Strauss e, um pouco mais tarde, Nadja segundo André Breton…

É sabido: para que nascesse algo como uma moderna «ciência da alma», terá sido preciso que Freud visse, em 1885, surgir histéricos em crise no anfiteatro de Charcot, na Salpêtrière. Corpos perturbados, virados do avesso, gestos agitando os panejamentos dos vestidos e das camisolas, olhar perturbado do jovem médico… De todas estas perturbações – e da descoberta de que estas infelizes ninfas modernas, Anna, Emma ou Dora, na realidade, «sofriam de reminiscências» - terá nascido, contra toda a psicologia de escola, a psicanálise (…).

Ora, para que também nascesse algo como uma moderna «ciência das imagens» terá sido necessário que um poder de adaptação, em todos os pontos semelhante, viesse perturbar esse outro saber de escola chamado história da arte. Em 1893, Aby Warburg viu surgir a Ninfa – como acabaria por lhe chamar – no palco das obras-primas da Renascença florentina (…)

A questão não está, pois, em saber onde – ou mesmo quando – chegará a Ninfa ao destino, mas até onde ela é capaz de se anichar, de se esconder, de se transformar. Já às Ninfas da tradição acontecem muitas coisas e a iconografia clássica mostra-no-lo em todas as situações possíveis: sentadas ou de pé, em pose ou a correr, elanguescidas à beira de uma fonte ou adormecidas numa gruta, numa bacia ou numa concha, fiando a lã ou cantando melodias inaudíveis, dançantes ou perseguidas, agredidas ou fazendo amor, violadas ou raptoras de rapazes jovens, aguadeiras ou parteiras de deusas, kourotrophos [amas] ou amamentando Dioniso, protectoras das fontes ou fatais aos humanos…


Neste amplo e casuístico mostruário, desenha-se um muito longo e lentíssimo movimento – como um filme, rodado durante dezenas de séculos, que tivesse que ser violentamente acelerado para lhe reconhecermos a lógica – que não deixa de ser perturbador: é a irremediável queda da Ninfa, o seu movimento para o chão, o seu esmagamento ao ralenti. A questão torna-se, então, saber até onde a Ninfa é capaz de cair. Já as Ninfas clássicas se deixavam ir para o chão, se inclinavam, de bom grado se deitavam."




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Folclore russo


A obsessão russa não me abandona. Ultimamente, demoro-me pelo folclore daquele que considero o povo mais literário do mundo. Depois de ler alguns contos, recomendaram-me MYTHES RUSSES, de Elizabeth Warner. Trata-se de um livro pequenino, muito acessível, embora o título seja algo enganoso – Folclore Russo seria mais adequado – e a abordagem seja bastante superficial relativamente alguns tópicos. Serve, no entanto, o propósito introdutório que buscava para entender o modo como o cristianismo, em vez de erradicar, assimilou  os elementos pagãos da Rússia arcaica. Assim, ao invés de se extinguir, a potente concepção animista da natureza, a crença na magia e o culto dos mortos sobreviveu através da ortodoxia popular.

Algumas passagens são deliciosas, como por exemplo esta:

“De tous les espirits attachés à des lieux particuliers, la rusalka est un des plus complexes. Dans une certaine mesure, la perception de cette figure s’est trouvée édulcorée par les récits romantiques du XIXe siècle parlant de séduisantes nymphes aquatiques et surtout par le littérature classique et ses sirènes. L’origine véritable de son nom reste imprécise, bien que les spécialistes contemporains penchent pour une dérivation de l’ancienne fête slave dédiée aux morts, appelée rusalii.

Dès le XIXe siècle, les chercheurs avaient établi que les rusalki étaient des créatures spectrales, des espirits des morts plutôt que des divinités de l’eau. Cependant, la nature de ces âmes mort fut à l’origine d’un débat qui dura longtemps. Beaucoup d’ethnographes, aux XIXe et au début du XXe siècle, soutenaient qu’à l’époque pré-chrétienne toute personne qui mourait pouvait devenir une rusalka. Finalement, D. K. Zelenin établit que, comme le montrent clairement les sources tirées de la culture populaire, il n’es possible de considérer les rusalki que comme des morts impurs et plus particulièrement comme les spectres de femmes noyées.

(…)

Les descriptions des rusalki, que l’on trouve  dans toutes les régions de Russie, les présentent comme d’attirantes jeunes femmes, beautés evanescentes au visage pâle et délicat, à la peau translucide, effet à la fois de leur nature spectrale et de leur longue résidence ao fond des eaux ou des lacs, bien loin de la lumière du soleil.

(…)


En effet, étant privées d’amour, eles pouvaient se transformer en vengeresses assassines, en séduisant les jeunes hommes de leurs charmes dénudés, en les hypnotisant de leurs chants semblables à ceux des sirènes ou en criant négligemment des noms d’hommes tandis qu’elles sautillaient de branche en branche. Les hommes qui répondaient à ces appels étaient attirés dans l’eau et noyés. Toutefois, les rusalki ne tuaient pas toujours leurs victimes masculines, réservant leur malveillance aux jeunes femmes. Parfois, elles saisissaient tout simplement un jeune homme sous les aisselles et le chatouillaient sans pitié. Cette attitude faisant tellement partie du portrait traditionnel de la rusalka que, dans certaines régions de la Russie, on appelait celle-ci la«chatouilleuse».

Paterson c'est moi


Gostei tanto tanto do último filme do Jim Jarmusch. Tão terno e delicado.

… so sober and furious
and stubbornly ready to burst into flame…

«Se o seu quotidiano lhe parece pobre, não o acuse; acuse-se a si, diga a si mesmo que não é poeta bastante para convocar as riquezas dele; pois, para o criador, não existe pobreza alguma, nem lugar pobre e indiferente. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes não lhe deixassem chegar aos sentidos nenhum dos ruídos do mundo – não continuaria a ter ainda a sua infância, essa preciosa riqueza régia, essa câmara de tesouro das recordações? Dirija para aí a sua atenção. Tente trazer ao de cima as afundadas sensações desse distante passado; a sua personalidade firmar-se-á, a sua solidão ampliar-se-á e tornar-se-á uma habitação crepuscular onde o barulho dos outros passará ao largo».
Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta


Or would you rather be a fish?

Sinais de Cena 2017 | Revista de Estudos de Teatro e Artes Performativas



O número de 2017 da SINAIS DE CENA já está nas livrarias e é dedicado ao tema «Genética Teatral», uma disciplina dos Estudos de Teatro, ainda com pouca expressão na academia portuguesa. Os vários artigos teóricos, as críticas a espectáculos e as recensões a livros de e sobre teatro continuam a mapear a incrível diversidade das artes performativas na cena contemporânea. Destaque para uma longa entrevista ao encenador e cineasta Jorge Silva Melo, Portefólio dedicado aos 40 anos de actividade do Teatro Aberto, uma homenagem de Maria Helena Serôdio ao trabalho do dramaturgo e historiador Luiz Francisco Rebello e uma análise do processo criativo do Teatro O Bando por Juarez Guimarães Dias.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A cantiga do bandido elevada à mais alta filosofia



Já se sabe que os domingos, mesmo os de inverno, são dias mais propensos ao tédio abrasador. O tédio é, à semelhança da melancolia, um sentimento ambíguo, repleto de potencialidades. Faz-se anunciar por um sabor acre na boca, que se adensa com um moer contínuo da carne e torna impossível o descanso; a mente revolta-se contra a planura dos dias, quer despedaçar-se contra mistérios indómitos. Quando o tédio te encontra, não resistas, alça o corpo e a alma e vai ao encontro dessa verticalidade impossível!

Assim me aconteceu um domingo destes. O tédio já estava bem instalado na soleira da minha mente, recusando qualquer entorpecimento. Escolhi um livro ao acaso e calhou-me o primeiro volume de OU – OU, de Søren Kierkegaard. Vagueei pelas páginas até encontrar DIÁRIO DE UM SEDUTOR.

Não me vou por com merdas: confesso que me aguçou a mente mas não decifrei nem metade do texto. Este é um daqueles enigmas que exige preparação, determinação e longas consultas a edições comentadas e estudos sobre a sua recepção no contexto da história da filosofia. Sabendo de antemão que não dispunha de tanto tempo, decidi-me pela leitura mais livre – adentrar-me pelo texto a dentro, ardente, tomando-o como um amante aleatório, sem qualquer distinção especial.

Foi uma aventura deliciosa. Johannes faz da sedução uma estratégia militar e convoca toda uma tradição de amantes como artilharia – Alcibíades, Giordano Bruno e Valmont. Por um lado, cativava-me o seu espírito agudo, irónico e os seus aforismos - «que uma má consciência sirva ao menos para tornar a vida interessante». Por outro, exasperava-me a sua misoginia declarada - «... não é fácil esquecer o meu olhar de soslaio. Quando eu então ficar surpreendido por a encontrar numa ambiência que não esperava, chegará nessa altura a sua vez. Se ela não me conhecer, se o seu olhar disso logo não me convencer, então, arranjarei oportunidade para olhar para ela de lado, juro que ela há-de lembrar-se da situação. Nenhuma impaciência, nenhuma avidez, tudo se desfrutará em demorados tragos; está assinalada, decerto que será alcançada»; «pesca-se sempre melhor em águas turvas; se uma rapariga tem agitação mental, pode arriscar-se muito com sucesso, o que, de outro modo, resultaria mal.»

Assim, fui progredindo na leitura de modo algo esquizofrénico, ora deleitando-me com a argúcia de Johannes, apreciando a sua estratégia infalível, ora desprezando-o como protagonista de uma misoginia disseminada pela cultura, geralmente em estado latente. Até à estocada final, absolutamente arrasadora.

Porque não pode uma noite como esta durar mais tempo? Não poderia Alectrião esquecer-se, não poderia o sol ser suficientemente compassivo nesse sentido? Mas agora já passou e desejo nunca mais a ver. Quando uma rapariga entregou tudo, enfraquece, perdeu tudo, pois, no homem, a inocência é um momento negativo, na mulher, é o mérito do seu ser. Agora toda a resistência é impossível e, enquanto ela existe, é belo amar; quando cessa, resta fraqueza e hábito. Não desejo que me lembrem a minha relação com ela; perdeu a fragrância e já lá vão os tempos em que uma rapariga, com a dor de perder o amante, era transformada em heliotrópio. Não quero despedir-me dela, nada me repugna mais do que choro de mulher e súplicas de mulher, que tudo mofificam, não tendo, porém, propriamente nada para significar. Amei-a; mas, a partir de agora, já não constitui a ocupação para a minha alma. Se eu fosse um deus, faria com ela o que Neptuno fez com a ninfa: transformava-a em homem.


Sublinhando e anotando profusamente várias passagens do diário de Johannes, perguntava-me continuamente: na textologia ocidental, foram sempre os homens os autores da arte da sedução – e a révanche do feminino, onde a encontrar?

Summer reading


Li A ILHA DE ARTURO há algum tempo e o que me ficou foi uma sensação de verão doce, uma atmosfera sensual e insular. Como todos os bildungsroman, centra-se nos anos de formação Arturo na ilha mediterrânica de Prócida. Bom selvagem, Arturo cresce num mundo onírico, fascinado por um pai ausente em misteriosas viagens, paraíso do qual será expelido pelo despertar inquietante da sexualidade. Afunilando bastante, é este o enredo. Mas o que impressiona é o estilo de Elsa Morante, simultaneamente complexo e ingénuo. À semelhança de outros bildungsroman, conta-nos da perda da inocência; porém, fá-lo da forma mais inocente e cândida, recordando-nos um deus benevolente que se lançasse na narração da expulsão do Éden.

 As vozes da povoação, pouco afastada, que chegavam até mim amortecidas e brandas através     do ar calmo, pareciam-me vozes de uma raça infantil, diferente da minha; ao ouvi-las, experimentava o sentimento que experimentaria um fúnebre cavaleiro errante que, enquanto anda sozinho por bosques e vales ao cair da noite, vai ouvindo os diálogos dos pássaros reunidos sobre as árvores para dormirem todos juntos. Recordava com saudade os outros dias em que, a estas horas vadiava pelo porto, saciado do amor feito com Assuntina durante toda a tarde, e já meio ensonado; senti remorsos da pequena escrava que, hoje, me esperara inutilmente. «Neste mesmo instante – pensei –, lá em baixo, no seu casebre, ela está a preparar o jantar para os pais que voltam dos campos. Na “casa dos guaglioni”, a minha madrasta canta, sentada ao pé da alcofa, para adormecer Carmine. Carmine não tem, contudo, sono e ainda quer brincar… Toda a gente se ocupa de coisas simples e naturais. Só eu persigo mistérios terríveis e extraordinários que talvez nem sequer existam e que, além disso, não tenho interesse em conhecer.»

domingo, 2 de julho de 2017

Performance na Esfera Pública


Pode a performance arte hoje participar, construir e recriar o espaço público? Como podem os mundos criados pela performance reconfigurar as possibilidades políticas, éticas e estéticas do encontro com o outro, de acção no mundo e da relação entre esfera privada e pública? Estas são as questões de fundo que norteiam os 11 ensaios e as 9 páginas de artistas reunidos neste volume, publicado por ocasião do centenário da conferência futurista de Almada Negreiros, marco inaugural de uma possível história da performance portuguesa.

Autores:
Bojana Cvejic & Ana Vujanovic | Carla Cruz | Sandra Guerreiro Dias | David Helbich | Isabel Nogueira | Claire Bishop | Eleonora Fabião | Sevi Bayraktar | Maria Andueza Olmedo | Christof Migone | Rui Mourão | Liliana Coutinho & Catherine Wood | Peggy Phelan | Ana Pais | Ana Bigotte Vieira | Leif Elggren/KREV | Ana Borralho & João Galante | Sílvia Pinto Coelho | João Macdonald | Christine Greiner | Andrea Maciel | Paulo Raposo | Guillermo Gómez-Peña

Para desenjoar dos irmãos Grimm


O folcore eslavo é ambíguo e muitas vezes violento. Percebemos que estamos a mergulhar noutra cultura quando é o homem que é despertado pelo beijo da rapariga que correu mundo para o encontrar. Aqui, as mulheres também partem para a guerra e existe até uma Princesa Sapo. Oh, a minha alma é cada vez mais russa...<3 .="" p="">

Freak show



Na literatura como na vida, a história reza dos vencedores. Para além do mérito, existe todo um conjunto de factores que determinam o ingresso ao cânone ou a queda no esquecimento. Hermann Ungar é um dos autores soterrados pela história, desenterrado em 2015 pela E-primatur através da tradução portuguesa de OS MUTILADOS.

É um livro perturbador em vários sentidos. Como personagem principal temos Franz Polzer, um empregado bancário neurótico e socialmente inepto cuja grande ambição é a criação de uma vida controlada e sem surpresas. Impossível não pensar em Bartleby. «Sossegava-o o facto de estar lá. Como se evidenciasse que tudo estava no seu lugar, tudo na maior das ordens, mesmo na incontrolável escuridão, nada se havia alterado nem ele houvera feito algo que pudesse alterar a ordem estabelecida e, deste modo, abrir a porta ao insólito (…). Todos os seus sentidos tinham que estar permanentemente alerta, pois o perigo existia. Não se podia deparar com alterações. Todas as semanas, contabilizava o que lhe pertencia, livros, jornais, papéis velhos, roupa interior, vestuário. Queria ter a certeza que nada se havia alterado no seu acervo.»

O perigo existe, de facto, e a vida de Polzer vê-se apartada da tão estimada rotina, completamente arremessada ao caos, num turbilhão tremendo de eventos grotescos. Do início ao fim, a narrativa não nos dá descanso e, ainda que a leitura tenha terminado e o livro regressado ao seu lugar na estante, o sentimento de repulsa persiste. No meio de tantas aberrações, Polzer acaba por ser a personagem mais simpática no meio desta descida aos infernos. Uma descida aos infernos sem qualquer paliativo e que, como Stefan Zweig disse, ficaríamos contentes por poder esquecer.


«À noite, Polzer ficava junto de Karl. Karl estava sentado na sua cadeira, parecida com as das crianças que ainda não sabem andar. Esta cadeira fora feita especialmente para ele. Na parte da frente tinha uma tábua atravessada para que Karl não caísse no caso de perder o equilíbrio. Para além disso, o tronco de Karl era preso por uma correia ao encosto. O coto do braço esquerdo estava ligado. Dele emanava um forte cheiro. O braço direito tombava inerte do tronco.»

domingo, 7 de maio de 2017

Love after love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other's welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life. 

Derek Walcott

The Day After


Edvard Munch (1894)

Rasputine goes into performance art



When I read a book, everything around me stopped existing. All the unhapiness of my family – my parents’ bitter fights, my grandmother’s sadness at having had everyhting taken away from her – disapperead. I merged with the characters.
Extreme narratives fascinated me. I loved Reading about Rasputine, whom no bullet could kill – Communism mixed with mysticism was very much part of my DNA. And I’ll never Forget a strange story by Camus, “The Renegade”. It told of a Christian missionary who went to convert a desert tribe and instead was converted by them. When he broke one of their rules, they cut his tongue out.
(....)
The only good present my mother ever got me was a book called Letters: Summer 1926, about the three-way correspondence between Rilke, the Russian poet Marina Tsvetayeva, and Boris Pasternak, the author of Doctor Zhivago. The three had never met, but they adored each other’s work, and for four years they all wrote sonnets and sent them to another. And through this correspondence, each of them fell passionately in love with the other two.
Can you imagine a lonely fifteen-year-old girl coming upon a story like this? (And the fact that Tsvetayeva and I shared a first name seemed cosmically significant.)
(…)

When I was fourteen, I invited a friend, a boy from school, to my apartment to play Russian roulette. No one was at home. We did it in the library, sitting opposite each other at the table. I took my father’s revolver from his nightstand, took all the bullets out bu tone, spun the chamber, and gave the gun to my friend. He pressed the muzzle against his temple and pulled the trigger. We just heard the click. He passed the pistol to me. I put it to my temple and pulled the trigger. Again, we just heard a click. Then I pointed the gun at the Bookshelf and pulled the trigger. A huge explosion, and the bullet flew across the room and straight into the spine of Dostoevsky’s The Idiot. A minute later, I broke into a cold sweat and couldn’t stop trembling.
(…)

It was my first trip to the West as an artist. I felt like a very small fish in a very big pond.
But there was also a part of me that didn’t care about any of that. My mother and father had many faults; but they were both very brave and strong people, and they passed along much of that strenght and courage to me. Some big part of me is thrilled by the unkown, by the ideas of taking risks. When it comes to doing risky things, I don’t care, I just go for it.
(…) That i show I felt about Rhytm 10, the piece I planned to perform at Edinburgh. Rhytm 10 was absolutely crazy. It was based on a drinking game played by Russians and Yugoslav peasants: you spread your fingers out on a wooden bar or table and stab down a Sharp knife, fast, in the space between your fingers. Every time you miss and cut yourself, you have to take another drink. The drunker you get, the more likely you are to stab yourself. Like Russian roulette, it is a game of bravery and foolishness and despair and darkness – the perfect Slavic game.
(…) Much later on, I read a statement of Bruce Nauman’s: “Art is a matter of life and death.” It sound melodramatic, but it’s also true. This was exactly how it was for me, even at the beginning. Art was life and death. There was nothing else. It was so serious, and so necessary.
(…)
When I’d gone through the ten knives once more, I rewound the second tape recorder, played the double soundtrack of both performances, then stood up and left. Listening to the wild applause from the audience, I knew I’d succeeded in creating an unprecedented unity of time presente and time past with random errors.
I had experienced absolute freedom – I had felt that my body was without boundaries, limitless; that pain didn’t matter, that nothing mattered at all – and it intoxicated me. I was drunk from the overwheling energy that I’d received. That was the moment I knew that I had found my médium. No painting, no object that I could make, could ever give me that kind of feeling, and it was a feeling I knew I would have to seek out, again and gain and again.

Uma autobiografia é sempre uma tentativa audaz. WALK THROUGH WALLS: A MEMOIR é uma leitura interessante mas não deveras estimulante, como seria de esperar de uma artista que sempre se expôs a tantos riscos na sua vida. Os capítulos iniciais, que se debruçam sobre a infância, os anos de formação e as primeiras performances de Marina Abramovic, foram os que me mais me estimularam. Depois disto, creio que continuei a ler, animada por uma esperançosa teimosia que não encontrou a sua satisfação. A escrita é bastante crua e pouco literária, mas acho que tal aporta mais genuinidade ao livro (ouvindo a TED TALK da artista percebe-se que o ghost writer conseguiu replicar bem o seu estilo). O que mais molestou foi a presença disseminada de um misticismo, que muito me interessa e nada me incomodaria, caso não surgisse apresentado de maneira tão superficial e pouco sustentada, e a intuição de um narcisismo colossal. Bem sei que se trata de uma autobriografia e, como tal, o narcisismo deveria justificado pela forma, mas pressente-se mais como uma característica essencial da personalidade. Em determinada passagem, a autora enuncia a ideia de a sua personalidade ser constituída por 3 Marinas: " The warrior one. The spiritual one. The bullshit one." A Marina Guerreira atravessa todo o livro, embora a Marina Tretas esteja sempre omnipresente.Da Marina Espiritual, infelizmente, apenas alguns indícios insuficientes.


Em que Maio colhê-las?

Não quero mais ver flores, céu, sol — a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que — sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti — treme de frio no musgo, solitária e terna, reflete-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma. Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti! Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos. Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las? — Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda — ou uma coroa... Nunca te vi de outro modo.
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar.

René

Correspondência Amorosa, Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Férias


Rubén Darío


Yo persigo una forma que no encuentra mi estilo, 
botón de pensamiento que busca ser la rosa; 
se anuncia con un beso que en mis labios se posa 
el abrazo imposible de la Venus de Milo. 

Adornan verdes palmas el blanco peristilo; 
los astros me han predicho la visión de la Diosa; 
y en mi alma reposa la luz como reposa 
el ave de la luna sobre un lago tranquilo. 

Y no hallo sino la palabra que huye, 
la iniciación melódica que de la flauta fluye 
y la barca del sueño que en el espacio boga; 

y bajo la ventana de mi Bella-Durmiente, 
el sollozo continuo del chorro de la fuente 
y el cuello del gran cisne blanco que me interroga.

César Vallejo


Altura y pelos

¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que tan sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que tan sólo he nacido solamente!

Sant Jordi em Barcelona


domingo, 26 de março de 2017

Bibliofilia e listas



No outro dia estava a ler a lista dos 100 livros favoritos do David Bowie e, em jeito de brincadeira, comecei a esboçar uma lista dos meus livros preferidos. Partilho aqui o resultado. Alguns não entram na minha definição de livros do caralho mas encontraram-me no momento certo, mudaram alguma coisa cá dentro, prestaram uma companhia generosa e preciosa ou acrescentaram joie de vivre.

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
O Jogador, Fiodor Dostoievski
As Flores do Mal, Charles Baudelaire
Obra completa, Friedrich Nietzsche
Outono transfigurado, Georg Trakl
Iluminações, Arthur Rimbaud
Canto de mim mesmo, Walt Whitman
Poesia, Álvaro de Campos
Palavras e sangue, Giovanni Papini
Os Maias, Eça de Queiroz
Aparição, Vergílio Ferreira
História da Sexualidade, Michel Foucault
História da loucura, Michel Foucault
A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud
A apresentação do eu na vida de todos os dias, Erving Goffmann
A Câmara Clara, Roland Barthes
Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes
Memorial do Convento, José Saramago
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
Cem anos de solidão, Gabriel García Marquéz
A náusea, Jean Paul Sartre
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
Orlando, Virginia Woolf
Crime e Castigo, Fiodor Dostoievski
Madame Bovary, Gustave Flaubert
Lillias Fraser, Hélia Correia
Niels Lyhne, Jens Peter Jacobsen
As anotações de Malte Lauris Brigge, Rainer Maria Rilke
Os passos em volta, Herberto Hélder
Psicanálise do Fogo, Gaston Bachelard
Em carne viva, David Grossman
As Horas, Michael Cunningham
L’image-mouvement, Gilles Deleuze
O Amante, Marguerite Duras
Corpo presente, Anne Enright
As partículas elementares, Michel Houllebecq
História das drogas, Antonio Escohotado
Drogas, embriaguez e outros temas, Ernst Jünger
O único e a sua propriedade, Max Stirner
Contos, Tchékhov
Uma visão do mar, Dylan Thomas
Fear and loathing in Las Vegas, Hunter Thompson
A moeda viva, Pierre Klossowki
Laços de Família, Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector
Tonio Kroger, Thomas Mann
Contos, Katherine Mansfield
A mulher certa, Sandór Marai
Coração, caçador solitário, Carson McCullers
Gente feliz com lágrimas, João de Melo
O cinema ou o homem imaginário, Edgar Morin
Lolita, Vladimir Nabokov
A morte sem nome, Santiago Nazarian
Anna Karenina, Lev Tolstoi
Os cães e os lobos, Irene Némirovsky
Contos, Dorothy Parker
Balada da praia dos cães, José Cardoso Pires
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, Katherine Anne Porter
Suspiria de Profundis, Thomas de Quincey
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
Crack Wars, Avital Ronnell
O amor e o Ocidente, Dennis de Rougemont
Franny e Zooey, J.D. Sallinger
A ronda, Arthur Schnitzler
Lojas de canela, Bruno Schulz
Morte na Pérsia, Annemarie Schwarzenbach
O Estranhamento do Mundo, Peter Sloterdijk
O Doutor Glas, Hjalmar Söderberg
Early diaries, Susan Sontag
O apogeu de Miss Jean Brodie, Muriel Spark
Na tua face, Vergílio Ferreira
O físico prodigioso, Jorge de Sena
Trinta anos, Ingeborg Bachmann
O bosque da noite, Djuna Barnes
Uma noite entre os cavalos, Djuna Barnes
A parte maldita, Georges Bataille
O erotismo, Georges Bataille
História do olho, Georges Bataille
Campo de Sangue, Dulce Maria Cardoso
O meu corpo e eu, René Crevel
Mulheres, Charles Bukowski
The psychic life of power, Judith Butler
As aventuras de Augie March, Saul Bellow
Eros and Magic in the Renaissance, Ioan P. Couliano
A educação sentimental, Gustave Flaubert
Pan, Knut Hamsun
Photomaton & vox, Herberto Hélder
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakhov
O Estrangeiro, Albert Camus
Obscénica, Hilda Hilst
Crónicas do mal de amor, Elena Ferrante
Oblomov, Ivan Gontcharov
Rayuela, Julio Cortázar
Histórias de amor, Robert Walser
A realidade é real?, Paul Watzlawick
Golpe de misericórdia, Marguerite Yourcenar
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf4
Confusão de Sentimentos, Stefan Zweig
Travessuras da Menina Má, Maria Vargas Llosa
Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich

ukiyo-e, imagens do mundo flutuante, e shunga, imagens da primavera


Hokusai, O Sonho da Mulher do Pescador

O espectador obediente



TÉCNICAS DO OBSERVADOR oferece uma perspectiva única sobre a construção histórica da visão e as origens da cultura visual moderna. Partindo da análise de vários dispositivos ópticos do século XIX, Jonathan Crary demonstra como a formatação da visão é indissociável de uma operação de normativização do sujeito observador em termos de produção laboral e consumo visual.

Uma reflexão inovadora e interdisciplinar que se tornou uma obra indispensável para entender o modo como a modernidade visual se impõe até à contemporaneidade, finalmente em tradução portuguesa.

O túnel



Desde que me li n’A NAÚSEA de Sartre, não resisto aos apelos existencialistas. Assim, mais cedo ou mais tarde, era esperado que viesse a encontrar O TÚNEL, de Ernesto Sabato, etiquetado de romance existencialista. Aqui a solidão e o desespero metafísico desembocam num crime passional, fazendo desta história uma das mais esclarecidas dissecações do ciúme, esse sentimento tão contraditório e envenenado.

Maria começou a vir ao atelier. A cena dos fósforos, com pequenas variações, reproduzira-se duas ou três vezes e eu vivia obcecado pela ideia de que o seu amor era, no melhor dos casos, amor de mãe ou de irmã. De modo que a união física era para mim coo que a garantia do verdadeiro amor.
(…) Longe de me tranquilizar, o amor físico perturbou-me ainda mais, trouxe novas e torturantes dúvidas, dolorosas cenas de incompreensão, cruéis experiências com Maria. As horas que passámos no atelier são horas que nunca esquecerei. Os meus sentimentos, durante todo este período, oscilaram entre o amor mais puro e o ódio mais desenfreado, ante as contradições e as inexplicáveis atitudes de Maria; de súbito assaltava-me a dúvida de que era tudo fingido. Por momentos parecia uma adolescente púdica e de repente parecia-me que era uma mulher qualquer, e então um grande cortejo de dúvidas desfilava pela minha mente: de onde? como? quem? quando?
Em tais ocasiões, não podia evitar a ideia de que Maria representava a mais subtil e atroz das comédias e de que eu era, nas suas mãos, como um garoto ingénuo a quem se engana com contos fáceis para que coma e durma. Às vezes era acometido por um pudor frenético, corria a vestir-me e saía logo para a rua, para tomar ar fresco e ruminar as minhas dúvidas e apreensões. Noutros dias, pelo contrário, a minha reacção era positiva e brutal: deitava-me sobre ela, agarrava-lhe os braços como com tenazes, torcia-as e cravava o meu olhar nos seus olhos, tentando forçá-la a garantias de amor, de verdadeiro amor.
(…)


Já antes de dizer esta frase estava um pouco arrependido; debaixo daquele que lha queria dizer e experimentar uma perversa satisfação, um ser mais puro e mais terno dispunha-se a tomar a iniciativa enquanto a crueldade da frase fizesse o seu efeito e, de certo modo, silenciosamente; eu já tinha tomado o partido de Maria antes de pronunciar essas palavras estúpidas e inúteis (que podia alcançar, com efeito, com elas?). (…) Quantas vezes esta maldita divisão da minha consciência foi culpada de actos atrozes! Enquanto uma parte me leva a tomar uma atitude bonita, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia e a falsa generosidade; enquanto uma me leva a insultar um ser humano, a outra condói-se dele e acusa-me a mim mesmo do que denuncio nos outros; enquanto uma me faz ver a beleza no mundo, a outra assinala-me a sua fealdade e o ridículo de todo o sentimento de felicidade.

As pequenas mortes



A minha introdução à obra de D.H. Lawrence aconteceu pela antologia AMOR NO FENO E OUTROS CONTOS. Embora não me tenha arrebatado por aí além, gostei particularmente dos contos AMOR NO FENO, FOI PRECISO UM CAVALO DE BALOIÇO e O HOMEM QUE MORREU.

FOI PRECISO UM CAVALO DE BALOIÇO será o mais triste de todos, pelo final trágico devido à compulsão do consumismo que devora toda a interioridade e possibilidade de satisfação. Nos outros dois contos há uma redenção final pelo amor («Ela baixou-se para ele e agarrou-se-lhe ao pescoço, apertando-a ao seio num frenesim de dor. A amarga desilusão da vida, a vergonha e a degradação contínua dos últimos quatro anos tinham-na empurrado para a solidão e endurecido até grande parte do seu ser ficar empedernida e estéril. Agora, abrandava de novo e despontava nela a promessa de uma Primavera linda. Estivera a caminho de vir a tornar-se numa velha feia.») sobretudo n’ O HOMEM QUE MORREU, fantasia de uma outra vida de Jesus Cristo, erguida em corpo após a ressurreição:

Depois, lenta, lentamente, na escuridão perfeita do homem em si, ele sentiu que algo começava a despontar. A madrugada, um sol novo. Um sol novo subindo em si, na perfeita escuridão interior do seu ser. Esperou, contendo a respiração, trémulo, numa esperança temerosa… «Agora já não sou eu. Sou algo de novo…»
E, enquanto se erguia sentiu, com um bafo frio de desapontamento, a cinta da mulher viva abrandar e descair dele, o calor e a incandescência a descair dele, deixando-o nu. Ela enroscou-se, exausta, aos pés da deusa, escondendo o rosto.
Curvou-se e pousou a mão, docemente, no ombro claro e morno dela; e o choque do desejo lancinou-o, choque após choque e pensou se não seria esta uma outra morte: mas cheia de magnificência.
Agora, toda a sua consciência estava posta na mulher, enroscada, escondida. Baixou-se ao lado dela e acariciou-a terna, cegamente, murmurando coisas inarticuladas. E a sua morte e a sua paixão pelo sacrifício eram, agora, nadas para ele – conhecia apenas a plenitude enroscada daquela mulher, a branda pedra branca da vida… «Sobre esta pedra construí a minha vida.» A pedra de pregas profundas, a pedra penetrável da mulher viva! A mulher, escondendo o rosto. Ele, curvado sobre ela, poderoso e novo como a madrugada.
Chegou-se todo a ela e sentiu a labareda da virilidade e a força erguerem-se-lhe nos rins, magnificientes.
«Ergui-me!»
Magnificente, flamejando indomitável na profundeza dos seus rins, despertava o seu sol próprio, que dardejava o seu fogo pelos membros dele, de tal modo que o rosto cintilava inconscientemente.
Desatou a fita da túnica de linho e deixou-a tombra e viu o brilho branco dos peitos branco-e-ouro dela. E tocou-os e sentiu a vida fundir-se em si. «Pai!», disse ele. «Porque escondeste isto de mim?» E tocou-a com a pungência do espanto e a maravilhosa transcendência penetrante do desejo. «Oh!», disse ele, «isto está para além da oração.» Era o calor profundo, entremeado, o calor vivo e penetrável, a mulher, o coração da rosa! A minha mansão é a intrincada rosa quente, o meu júbilo é esta flor!
Ela levantou os olhos para ele, de repente, com o rosto como uma luz desperta, ávido, terno, os olhos como muitas flores húmidas. E ele apertou-a ao peito com uma paixão de ternura e desejo devorador e o último pensamento: «É chegada a minha hora e sou tomado de surpresa…»
E então conheceu-a e os dois foram um só.»


De qualquer dos modos, é uma leitura recomendada. O sensualismo de D.H. Lawrence agradam muito, bem como alguns comentários mais inteligentes, como este por exemplo: «O  homem ergueu-se obedientemente. Todo ele era descontracção, parasitismo, insolência. Geoffrey tinha-lhe nojo, apetecia exterminá-lo. Era exactamente o pior inimigo do hipersensível: insolência sem sensibilidade, à cata da sensibilidade dos outros.»

domingo, 5 de março de 2017

A grande viagem ao coração da melancolia



Todos ignoramos de que vivemos, como poderíamos, então, deixar fugir alguma coisa e sentir remorsos por isso? Era já tarde depois do cair da noite quando, chegada a Istambul, transpus, exausta, o arco antigo da porta da cidade; o pavimento ressoava, as pequenas lâmpadas de azeite iluminavam a ruela do bazar e cheguei, por fim, diante das águas cintilantes do Bósforo, cujo fluxo incessante corria no silêncio da noite (…). A viagem não exige que tomemos decisões e não põe a nossa consciência diante de uma alternativa que nos torna culpados e arrependidos, humildes ou obstinados – até duvidarmos por completo da justiça e pensarmos que esta vida não é para nós senão um dédalo, uma prova fatal. Partir é a libertação – ó única libertação que nos restou! – e para tanto não é necessário mais do que uma coragem sem falha, renovada dia após dia…

(…)

Na manhã seguinte, um jovem oficial que dirigia os trabalhos de desobstrução acompanhou-nos aos terraços de Maku, sobrepujados precisamente pela falésia mais alta, onde fora gravada uma inscrição comemorando a vitória de Nadir Shah, que outrora arrebatara a aldeia aos bandidos (…). O que recordo perfeitamente é o véu ligeiramente turvo do orvalho e desse dia em que, esgotada pelo calor de uma ascensão penosa, estava a tremer de frio no jardim do emir, quando uma jovem camponesa aproximou dos meus lábios um jarro de água. Porque somos assim: deliciamo-nos à vista das pérolas, do azul do mar, de uma hora de paz apesar da fúria dos incêndios, ignoramos os campos de ruínas, para aprendermos todos a mesma oração: Senhor, ajuda-nos a suportar esta vida…

(…)

«A nossa vida parece-se com uma viagem…», e mais do que uma aventura e uma excursão em regiões inabituais, a viagem parece-me ser um símbolo da nossa existência: instalados numa cidade, cidadãos de um país, pertencendo a uma classe ou a um meio social, membros de uma família, ligados aos deveres de uma profissão, aos hábitos de uma «vida quotidiana» tecida de todos estes elementos, sentimo-nos, muitas vezes, demasiado seguros de nós; consideramos que a nossa casa foi construída para a eternidade, somos tentados a crer numa estabilidade que, para uns, torna problemático o envelhecer e, para outros, dá a qualquer mudança exterior as aparências de uma catástrofe. Esquecemos que se trata de um processo em curso, que a terra está em movimento perpétuo e que estamos implicados no fluxo e no refluxo dos oceanos, nos tremores de terra e em tudo o que se passa muito longe do imediato que nos rodeia, visível e tangível: mendigos ou reis, actores todos da mesma grande comédia. Esquecemo-lo, para por assim dizer preservarmos a paz da nossa alma, construída ela própria sobre areias movediças. Esquecemo-lo, para não cedermos ao medo.»

(…)

Não haverá, algures, um caminho que se abre, uma garganta que conduza a outros países? Será sempre assim, o mesmo céu, de manhã e à noite, o mesmo ciclo, a mesma prece, e nunca uma resposta?

(…)


Foi por isso que quis um dia desprender-me – de que destino ao certo, não o sabia – e julgava somente compreender que uma infelicidade me ferira, como pode acontecer a qualquer de nós, e tinha necessidade de me manter afastada, em silêncio. Como é que os outros vivem, perguntava-me eu, como suportam este país e o dia de amanhã, como o suportam? Mas quando desce uma vez mais a magia do crepúsculo, quando o dia sem sombra decresce, e as corças se mostram nas encostas do inverno já nimbadas de bruma, quando volto a ter uma hora tão cheia de inocência, sinto-me então inclinada a baixar os olhos e a arrepender-me e a não ceder nunca mais à tentação – e disponho-me plenamente a reconhecer que estamos enraizados dentro de limites estreitos e que não podemos fazer mais do que um pedaço mínimo de caminho.

sábado, 4 de março de 2017

Der Himmel über Berlin





CANÇÃO DA INFÂNCIA


Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.

Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.

Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.


Peter Handke