domingo, 31 de maio de 2009

Diário de uma Queda




Apaixonei-me, outra vez. Este ano, outra vez, primeiro pela Dorothy Parker, irmã de sarcasmos agridoces. Ontem pela Clarice Lispector. Um fim-de-semana de encontro, companhia na cama, a euforia de um sorriso que chora mas que consegue ainda rachar a solidão. Apaziguar a perturbação pelo testemunho da beleza que tortura e perde e obriga à queda.

(A uma queda a que me entrego à espera do embate, do momento final do crash. Mas a queda demora, cair é cair sem parar, talvez nunca bata no fundo, talvez já tenha batido - vivi a noite mais longa da minha vida, triste e alerta, envelheci muitos anos, não sabia que havia noites assim tão claras, loucas e tristes, consegui arrastar o meu corpo destroçado até casa e deitá-lo naufrágo na cama - talvez não haja fundo. Talvez bater no fundo seja dizer bati no fundo. Ou talvez bater no fundo seja ficar sem palavras, possuído por um silêncio imemorial. E se um dia não conseguimos continuar? E se um dia nos entregamos à delícia de não querer sobreviver, de não querer ultrapassar, esquecer, matar e morrer? Como parar de sentir, atropelar o sentimento de modo implacável sem lhe dar sequer a oportunidade de um último espasmo? E se um dia o sentimento nos possui, arrasta pelos cabelos e não quer desisitir de nós?)

O Verbo fez-se carne e veio aquecer o meu corpo. Prende-me à cama numa preguiça sensual de cabelos em desalinho e doces vincos na pele, vira-me do avesso e murmura «O meu nome é legião».

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