sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CARTA DE AMOR AO CAIS DE SODRÉ



O mar estava bravo e os barcos não andavam. Aportados no cais, pareciam botas desoladas sem pés que as levassem. Os marinheiros debandavam como aves eufóricas de negras asas, em busca de carne que os alimentasse nos dias de encalho.
Durante anos encontraram-se de quando em quando nos bares que asfaltavam o cais. Ela sempre vestida de homem e com um sorriso cru de taberna. Ele mais discreto na sua crueldade, mas com o mesmo vazio alojado nas entranhas. Olhavam-se brevemente nas noites em que se cruzavam. Tinham olhos escuros marejados de desgostos. Conheciam-se de nome pelas lendas de mares travessos que haviam cruzado. Nunca tinham partilhado navio ou travessia, mas sabiam que tinham galopado as mesmas tempestades marinhas, ainda que em águas opostas. Tinham cavalgado as mesmas ondas de inquietação, sido arrastados por marés de esperança inférteis e dedicado os seus melhores anos ao apelo dos mares desconhecidos.
Os outros marinheiros não ousavam referir um nome de um ao outro. Sabiam que havia rivalidade pelas lendas que os precediam e não queriam apoquentar nenhum dos dois. Uns diziam que se tratava de orgulho, outros de medo. E era um pouco dos dois. Raramente dois seres idênticos em força e dor se encontram no mesmo cais. Parados e obrigados à sofreguidão dos dias em terra. Eles eram inimigos e conheciam a força da dor do outro sem os acessórios da palavra. Adivinhavam-se pelo cheiro. Sentiam-se ameaçados.
Partilhavam a mesma maldição: a noite. A noite, essa feiticeira que despe os rostos da identidade e lhes estampa desespero e solidão, eram o porto de ambos. E aí se encontraram durante anos. Suspeitavam um do outro porque conheciam a noite como amantes. E temiam apenas uma coisa: as aflições diurnas. Por isso, mantinham-se nocturnos com obstinação e não deixavam cair a máscara que lhes amarelecia o sorriso e turvava o pensamento.
Um dia as coisas mudaram. Ventos travessos obrigaram os barcos a atracarem por mais tempo que o desejado. O tempo é o maior inimigo dos marinheiros, derrota-os na sua impaciência e arrasta-os para o turbilhão do vício. Ele e ela aportaram no cais vindo de mares contrários – ela do Mar Vermelho, ele do Mar Morto. Traziam os corpos fustigados por tormentas de meses e chegaram quase despidos de desejo. Ambos tinham perdido mais de metade das suas tripulações em caprichos aquáticos e o sangue fervia-lhes nas veias com ardor etílico.
Ela, como mulher, foi a primeira a julgar da necessidade de tréguas: uma aliança era precisa para que o seu barco pudesse navegar novamente. Ou talvez fosse um erro de julgamento, coisa comum nas mulheres, que se deixam arrastar facilmente pelas águas da fantasia. De qualquer dos modos, ela não gastou muito tempo antes de se dirigir a ele, propondo aliança rápida. Trazia nos ossos cansaço e as vértebras corroídas pela desilusão e já não conseguia pensar direito. Precisava de um companheiro com quem partilhar responsabilidades e decisões sobre ventos, marés, mapas e astrolábios. Falou-lhe com as palavras que os homens usam em terra, os sons mais traiçoeiros para as gentes do mar.
Ele ouviu mas manteve-se silencioso e ofensivo, não desvendando nenhuma solução para os barcos atracados. Recusou a aliança. Arrogante e forte. Ela, ofendida, subiu arfante as ruelas até à pensão onde pernoitava. Lançou então aos quatro ventos, que ambos conheciam tão profundamente, um grito de guerra. Que também podia ter sido um grito de amor, não fosse a probabilidade do desencontro tão grande.
Era uma pensão de prostitutas, único local onde uma mulher marinheira se podia albergar e descansar, embora ela conservasse a sua adaga debaixo da almofada. A pensão, que tanto amara no passado, pelo desespero que gritava nas suas paredes, pareceu-lhe acabada. As prostitutas pareciam collants depositadas nos sofás da memória, entediadas na espera dos clientes que não mais regressavam. É o fim de uma época: pensou. Tudo acaba e ainda bem que assim é, para que algo de novo possa começar: tranquilizou-se.
No quarto abafado, despiu as roupas salgadas que trazia e vestiu-se de mulher. Roupas antigas que há muito não envergava: um corpete de veludo vermelho escuro e uma saia coçada rodada como um carrossel. Umas botinas negras de verniz que lhe apertavam os pés. Pintou os lábios de vermelho vivo e empoeirou as faces de rouge. Antes de fechar a porta, viu o seu reflexo breve no espelho e soube-se ridícula. Mas era preciso declarar guerra àquele marinheiro insolente que ousara ofendê-la numa recusa obstinada de farol em noite de nevoeiro. Pensou: com modos de mulher será mais fácil atraí-lo para a minha armadilha.
Galopou com os pés sufocados nas botinas estreitas por tabernas e casas nocturnas até o encontrar num prostíbulo a um canto acanhado. Acompanhado por várias mulheres, todas com modos de menina, modos que ela escolhera desaprender, ele olhou-a com o desprezo do adversário de um duelo, que zomba das armas escolhidas pelo ofendido.
Ela tornou a trepar as ruelas que levavam até à pensão, arrastando com fúria o seu corpo de réptil. Fincava os passos nas calçadas negras com toda a força que dispunha mas sentia-se fraca. Derrotada na sua esperança. Compreendia agora que fora ofendida, gravemente ofendida, não por aquele marinheiro bravo com o olhar frio da faca, mas pelos anos. Derrotada pela mulher que não soubera ser todos esses anos.
No quarto, livrou-se apressadamente das roupas antiquadas. Chorou. Era uma mulher ridícula. Fugira disso durante anos como o diabo foge da cruz. Mas não conseguira escapar e chorava agora um choro de raiva, de menina mimada estragada pelo desgosto, de mulher humilhada pela esperança. Pela fome de amor que nunca se saciara.
Embarcara por despeito. Por não querer ser mulher. Ainda adolescente. Tinha um corpo muito frágil e um coração de vidro. Pensou: a vida no mar fará de mim um ser rijo e não torno a sofrer. Divertira-se muito nos primeiros anos. Conhecera muitas cidades longínquas, velejara pelos mares com sortes de principiante. Vivera várias histórias de amores loucos e passageiros em cada porto, bebendo e fumando as noites com toda a avidez do seu corpo jovem.
Regressara sempre ao navio com a certeza da viagem. A última viagem, porém, tinha sido muito morosa e quase perdera a vida nela. No convés, os ventos violentos quase tinham quebrado a sua espinha. Metade dos seus morreram nessa noite de tormenta, os seus corpos sacudidos pelas bordas do navio. Quando alcançou o porto, pensou que não merecia a vida que lhe tinha sobrevivido. Passou cabisbaixa pelos bares e trepou as vielas até à pensão reles. No quarto sem janela, tomou banho. Era preciso expulsar o sal daquele corpo.
Esfregou a pele com um esfregão de aço, numa febre de inocência. Queria acreditar mas já não sabia como. Queria abandonar adagas e cutelos mas a frieza do metal tinha-se alojado nos seus gestos. Queria continuar guerreira mas também queria descansar e submeter-se. Queria ser mulher mas tinha perdido o caminho de volta para a doçura feminina e materna. Estava perdida.
Olhou a sua imagem nua no espelho e usou o olhar frio que tantas vezes usara para manejar cabos apertados ou avaliar presas masculinas. Estava diferente. Olhou-se demoradamente com o olhar inquisidor do detective que procura a pista que denuncia o invasor ou criminoso. Que mudara em si? O seu corpo avolumara-se com as viagens, adquirira uma rudeza que lhe agradava porque afastara a fragilidade da infância. Mas não era isso. Seriam as rugas, traços de intensidade que sulcavam o rosto como ondas? Não, também não.
Extenuada pela busca, adormeceu em frente ao espelho, nua no seu desamparo. Caiu embalada pela vertigem de um sono sem sonhos. Quando acordou, olhou-se novamente e soube o que era. Eram os seus olhos. Estavam baços, embaciados com o fundo dos mares. Tinham perdido o brilho da juventude. Estou velha: pensou. Mais velha do que a idade que trago escrita nas mãos. O tempo, o tempo enganou-me. Não trouxe a paz que eu ansiava. E continuo a ter um coração de vidro.
Depois desse dia, nunca mais ninguém viu essa mulher marinheira que velejara oceanos amargos e saqueara bares e homens com o seu sorriso lendário de pirata. Diz a lenda que se tornou fiscal dos caminhos-de-ferro, trocando as noites pelos dias e o mar pela terra. E que usou até ao fim dos seus dias um fato cinzento e impessoal que combinava na perfeição com os seus olhos.

4 comentários:

Verônica disse...

Muitooo linda!

Sr Joao disse...

Parabéns por tão requintado gosto e tão requintada escrita. Não me lembro de um blogue assim... Amigo da tua amiga b.

Madame Bovary disse...

muito obrigada pelos elogios, sr. joão. já agora quem é a minha amiga b.?

Sr Joao disse...

bárb...