segunda-feira, 2 de julho de 2012

A MULHER




 

“Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
CARLOS EDMUNDO DE ORY
(…)
Quero uma mulher assim, de silêncios
venenosos, que me morda o tendão
do ombro e da língua, e abuse
de declarações de guerra e paz,
vá para o inferno e regresse
no meio de um mar de boatos
exibindo gloriosos arranhões,
e me arraste em jogos de malícia,
me esconda o coração e me deixe
doido dias inteiros atrás de pistas
e coordenadas.

Não quero uma mulher explicada,
prefiro o assombro. Antes aturar
mistérios, teimas, transes e jejuns,
mesmo às vezes a troça e o desprezo,
e que quando se sinta enfastiada
fuja sem aviso e se feche parindo
a escuridão.

Que me adore e se farte, me empurre
do alto das escadas, e se ria perdidamente
ou chore e me asfixie devagarinho
com os primeiros cabelos que lhe
nasçam brancos. Quero que até esse dia
em que se chegará tristemente
para pedir-me a mão logo depois
que o seu rosto se retire para sempre
de todos os espelhos.

No fim, nem me importa
que nunca venha a cruzar-se comigo,
que isto eventualmente ainda seja eu
a roubar acessórios em lojas
de senhora. Pelo menos não será
uma coisa que se explique nem alguém
que tenha a descortesia de dizer por aí
que chegámos a um entendimento.

Diogo Vaz Pinto

1 comentário:

Anónimo disse...

Leio regularmente este belíssimo espaço. Permito-me sugerir que leias este conto http://www.novostalentosfnac.com/literatura/2012/post/view?id=7
e... se merecedor que votes.

manuel monteiro