sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

As Ilhas Malucas


Estar desempregada é fodido pelas mais óbvias razões. Mas também pode ser uma experiência psicadélica capaz de bater qualquer ficção do Pynchon. Para além dos gajos que se fingem dispostos a ajudar quando mal conseguem disfarçar os seus próprios interesses sexuais, acontecem coisas verdadeiramente hilariantes.
Ontem, por exemplo, tive uma reunião surpreendente. Tinha ido correr junto ao Tejo e preparava-me para tomar um duche longo e quente quando me ligaram para falar de uma proposta de trabalho. Desci as escadas do meu prédio, suada e em roupa desportiva, e entrei num carro híbrido (foi a minha primeira experiência num híbrido).

A proposta era a seguinte: existem umas ilhas, cujo nome não se pode mencionar, que estão a ser disputadas por dois países. Alguns documentos foram reunidos em Espanha para provar a pertença histórica e natural (pertença natural?) dessas ilhas a um dos países envolvidos no conflito diplomático e entregues à ONU. Contudo, as provas não são conclusivas e existe a informação de que Portugal poderá (note-se o carácter hipotético da coisa) possuir documentos que comprovam essa pertença. Por isso, um embaixador pagou a um investigador de história para andar a vasculhar em tudo quanto era sítio e arredores para encontrar esses documentos. Três mil euros por baixo da mesa: um primeiro adiantamento. No entanto, parece que o rapaz provocou de algum modo algum descontentamento no embaixador, pelo que existe a possibilidade (ainda não efectiva) de o mesmo embaixador vir a necessitar de contratar outra pessoa para encontrar essas provas. A tarefa é-me proposta, dada a minha experiência em investigação e a (suposta) facilidade que terei, enquanto investigadora de doutoramento, em aceder a documentos mais recatados. Mas, caso aceite, não poderei nunca dizer o que investigo e só num próximo encontro me será dito os nomes das ditas ilhas.

E uma pessoa sobe as escadas do prédio, enfia-se finalmente no duche merecido e delira com máfias diplomáticas e vinte asiáticos a invadirem a Torre do Tombo para destruírem um mapa do século XV. Olha foda-se, Culatra!

1 comentário:

Hugo Ramos disse...

É isso mesmo! Finalmente um texto que dava um livro! :)
Adorei a ideia da máfia e dos 20 asiáticos a invadirem a torre do tombo... O mapa que se foda. Aceita o guito e dá-lhe as provas, afinal, quantas oportunidades terás de trabalhar para a máfia e continuar viva depois disso? ;)