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Ele, treme. Olha-a primeiro como se esperasse que ela fale, mas ela não fala. Então ele também não faz qualquer gesto, não se despe, diz que a ama como um louco, di-lo muito baixo. Depois cala-se. Ela não lhe responde. Poderia responder-lhe que não o ama. Não diz nada. De repente sabe, ali, nesse instante, sabe que ele não a conhece, que nunca a conhecerá, que não tem maneira de conhecer tanta perversidade. E ao fazer tantos e tantos desvios para a agarrar, não poderá nunca. Cabe-lhe a ela saber. Sabe. A partir da ignorância dele, ela sabe de repente; já na barcaça ele lhe agradava. Ele agrada-lhe, a coisa só dependia dela (…).
Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paria com a mulher. Telefonara-lhe. Sou. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.»
O desejo comanda todas as operações, enclausura o ser desejado numa redoma, condenado a desejar, amado convertido em amante. Devemos temer sempre aquele que nos deseja. A raíz etimológica da palavra "desejo" remete para a ideia de rapto, desviar alguém através de astúcias e armadilhas.
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