“Digo
isto aqui e agora para poupar o leitor a uma desilusão. Não sou um homem moral
(embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou
nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das
circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como uma vez
disse o meu querido Akutagawa Ryunosuke, eu não tenho princípios; só tenho
nervos. Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver com o olhar do que com as convicções,
incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa (…). Porque esta é
a cidade do olhar; as nossas outras faculdades limitam-se a tocar um débil
segundo violino. (…)
No
Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus
inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um
gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, num céu
cinzento-pérola. Abrimos as janelas num gesto largo, e o quarto fica
instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em
parte de oxigénio húmido, em parte de cafés e preces. Por muitos e por mais
variados comprimidos que tenhamos para tomar esta manhã, sentimos que ainda não
está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais
que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento
que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança,
ou pelo menos um futuro. (Disse Francis Bacon que a esperança é um bom pequeno-almoço
mas uma fraca ceia.)
(…)
Para os
casos mais benignos de qualquer dos males, uma estadia aqui constitui a melhor
das terapias, e o turismo em Veneza é isso mesmo. Dorme-se bem nesta cidade,
porque os nossos pés se esfalfam a esmagar a agitação da psique ou, o que vem a
dar no mesmo, uma consciência pesada.
(…)
E prometi
a mim próprio que se alguma vez viesse a deixar o meu império, se alguma vez
esta enguia fugisse do Báltico, a primeira coisa que faria seria vir a Veneza,
alugar um quarto no rés do chão de um palazzo,
para que as ondas levantadas pela passagem dos barcos me salpicassem a janela,
escrever duas ou três elegias apagando cigarros nas lajes húmidas do chão,
tossir e beber e, quando o dinheiro escasseasse, em vez de apanhar um comboio,
comprar uma pequena Browning e
estoirar ali mesmo os miolos, incapaz de morrer em Veneza de causas naturais.
(…)
Eu diria,
porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tao absurda como a ânsia de
a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo
não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não
se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior
obra-prima que a nossa espécie criou.
(…)
Julgo,
porém, que se poderá falar de fidelidade quando alguém volta ao lugar do seu
amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido. Como qualquer
virtude, de facto, a fidelidade só tem valor se for instintiva ou
idiossincrática, e não racional (…). O amor é um sentimento desinteressado, uma
rua de sentido único.
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