domingo, 26 de março de 2017

O túnel



Desde que me li n’A NAÚSEA de Sartre, não resisto aos apelos existencialistas. Assim, mais cedo ou mais tarde, era esperado que viesse a encontrar O TÚNEL, de Ernesto Sabato, etiquetado de romance existencialista. Aqui a solidão e o desespero metafísico desembocam num crime passional, fazendo desta história uma das mais esclarecidas dissecações do ciúme, esse sentimento tão contraditório e envenenado.

Maria começou a vir ao atelier. A cena dos fósforos, com pequenas variações, reproduzira-se duas ou três vezes e eu vivia obcecado pela ideia de que o seu amor era, no melhor dos casos, amor de mãe ou de irmã. De modo que a união física era para mim coo que a garantia do verdadeiro amor.
(…) Longe de me tranquilizar, o amor físico perturbou-me ainda mais, trouxe novas e torturantes dúvidas, dolorosas cenas de incompreensão, cruéis experiências com Maria. As horas que passámos no atelier são horas que nunca esquecerei. Os meus sentimentos, durante todo este período, oscilaram entre o amor mais puro e o ódio mais desenfreado, ante as contradições e as inexplicáveis atitudes de Maria; de súbito assaltava-me a dúvida de que era tudo fingido. Por momentos parecia uma adolescente púdica e de repente parecia-me que era uma mulher qualquer, e então um grande cortejo de dúvidas desfilava pela minha mente: de onde? como? quem? quando?
Em tais ocasiões, não podia evitar a ideia de que Maria representava a mais subtil e atroz das comédias e de que eu era, nas suas mãos, como um garoto ingénuo a quem se engana com contos fáceis para que coma e durma. Às vezes era acometido por um pudor frenético, corria a vestir-me e saía logo para a rua, para tomar ar fresco e ruminar as minhas dúvidas e apreensões. Noutros dias, pelo contrário, a minha reacção era positiva e brutal: deitava-me sobre ela, agarrava-lhe os braços como com tenazes, torcia-as e cravava o meu olhar nos seus olhos, tentando forçá-la a garantias de amor, de verdadeiro amor.
(…)


Já antes de dizer esta frase estava um pouco arrependido; debaixo daquele que lha queria dizer e experimentar uma perversa satisfação, um ser mais puro e mais terno dispunha-se a tomar a iniciativa enquanto a crueldade da frase fizesse o seu efeito e, de certo modo, silenciosamente; eu já tinha tomado o partido de Maria antes de pronunciar essas palavras estúpidas e inúteis (que podia alcançar, com efeito, com elas?). (…) Quantas vezes esta maldita divisão da minha consciência foi culpada de actos atrozes! Enquanto uma parte me leva a tomar uma atitude bonita, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia e a falsa generosidade; enquanto uma me leva a insultar um ser humano, a outra condói-se dele e acusa-me a mim mesmo do que denuncio nos outros; enquanto uma me faz ver a beleza no mundo, a outra assinala-me a sua fealdade e o ridículo de todo o sentimento de felicidade.

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