Tornei a ler O ESTRANGEIRO pela
terceira vez. A primeira vez que o li teria uns 16 anos, voltei a lê-lo nos
meus vinte e, eis que agora, na década dos trinta, me surpreendo a mim mesma
empatizando com Mersault a um nível inédito. Vejo-o como um homem ingénuo mas
perspicaz ao ponto de entender que «todo o mundo tem as suas razões», um homem
de uma sensibilidade extrema que se anestesia e procura afastar-se do mundo,
permanecendo numa espécie de sensualidade bestial (“Dormi quase todo o tempo”, “Lavei
também as mãos”, “Pensei que passara
mais um domingo, que a mãe fora a enterrar, que ia regressar ao meu trabalho, e
que, no fim de contas, continuava tudo na mesma”, «lavei as mãos”).
Nesta leitura, Mersault
pareceu-me um homem que tenta sobreviver e ser funcional, sufocando sonhos e
ligações. (“E, pelo estranho barulho que
me chegava através da parede, compreendi que estava a chorar. Não sei porquê,
pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava de me levantar cedo. Não tinha
fome e deitei-me sem jantar”; “O céu
estava verde e eu sentia-me contente.
Mas, apesar disso, fui directamente para casa, pois queria cozer umas batatas”;
“Pensando bem não era infeliz. Quando era
estudante, alimentara ambições desse género. Mas quando abandonei os estudos,
compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância”).
Uma existência ancorada no básico, na rotina, sem grandes euforias nem
arrebatamentos – talvez para evitar o abismo e as suas depressões. A sensibilidade
extrema da personagem denuncia-se muito raramente, em breves passagens poéticas
como esta: “No coração desta casa cheia
de sonos, o queixume subiu lentamente, como uma flor nascida do silêncio.”
Mas não é na poesia que o
conflito de Mersault se resolve. Optando pelo conformismo e pela via racional, todo
o substrato emocional da personagem não encontra outra opção para além da inscrição
na carne como sintoma. E daí advém tanta necessidade de lavar as mãos
repetidamente – como quem procura afastar-se de qualquer contaminação mais
passional –, de dormir tanto, de apreciar o sol no corpo, tal como um bovino
ruminando apenas sensações, a salvo de pensamentos mais pantanosos. Não admira,
portanto, que toda a descrição do assassínio do árabe se faça também ao nível
do corpo e das suas sensações Eis o homem que queria fugir da noite e das suas
profundidades encandeado pelo sol do meio dia. “Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como
então, doía-me a testa, sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam ao
mesmo tempo debaixo da pele.”
A segunda parte da narrativa
mostra o outro lado da moeda, o lado verdadeiramente absurdo. A mesma sociedade
que obriga ao cultivo da insensibilidade, condena violentamente os «criminosos»
que cria. “Gostaria de lhe poder explicar
cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependera verdadeiramente de
nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã.”
Graças à sua ingenuidade, Mersault quebra a regra do jogo, aferrando-se à verdade
e não vergando à simulação dos ditos bons sentimentos. “Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta a
tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu
me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do
mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de
estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o
sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o
era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os
espectadores me recebessem com gritos de ódio.”
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